Acompanhando meu amigo Thomas, no seu blog Oikomania, apresento nesse post um breve resumo sobre o mestrado em economia no CEDEPLAR-UFMG. Após mais de um ano e meio de curso, já tenho uma boa noção de como descrever o programa de pós-graduação do centro.
Em primeiro lugar, muitas pessoas interessadas no programa de pós-graduação em economia do Cedeplar me perguntam se esse é um centro mais identificado com a ortodoxia, com a heterodoxia, ou é um centro eclético em paradigmas do pensamento econômico. Em resposta, posso afirmar que a ênfase do Cedeplar é em economia aplicada, não se enquadrando majoritariamente em nenhuma corrente de economia teórica, já que poucos pesquisadores daqui trabalham nessa área. Então, o que predomina aqui é a econometria aplicada, isto é, o uso de métodos empíricos para a análise de dados quantitativos. O grau de informatização do curso é impressionante (ao contrário da minha graduação na UFRGS), sobretudo nas disciplinas de econometria. Isso agrada a alguns estudantes, já que prepara bastante para o trabalho profissional de economista, e desagrada a outros, que consideram o curso muito técnico.
Explicando melhor, o curso de mestrado do Cedeplar pode ser dividido em três fases. Na primeira fase, incluindo o nivelamento e o primeiro semestre, fazemos ao todo sete cadeiras (20 créditos) de disciplinas obrigatórias. Essas disciplinas abrangem o hard core da economia teórica focada no mainstream, isto é, estatística, 3 matemáticas (análise real e otimização estática, otimização dinâmica e equações diferenciais), microeconomia (teoria do consumidor, da firma e equilíbrio geral), macroeconomia (focada na modelagem de curto prazo, e eclética nas diversas correntes ortodoxas, como as teorias neokeynesianas, monetaristas, novo-keynesianas e novo-clássicas) e econometria (cross-section e teoria assintótica). A bibliografia segue um padrão internacionalmente comum, e, aparentemente, usa-se aqui os mesmos manuais do curso de pós-graduação da USP: o Romer de macroeconomia, o Mas-Colell de microeconomia (exigindo estudo complementar pelo "Microeconomic Analysis" do Varian), o Greene de econometria (exigindo estudo complementar pelo manual do Wooldridge, para graduação), o Elon de análise real, o Simon & Blume para otimização estática e equações diferenciais, e o Chiang para otimização dinâmica.
O primeiro semestre é muito estressante para todos, e isso é visível pelo conteúdo dos posts que eu publicava naquela época. Tínhamos provas todas as semanas a partir da Semana Santa, e entre os estudos para cada prova, tínhamos resenhas, listas de exercícios e relatórios de econometria aplicada para entregar. As cadeiras mais complicadas, para mim, foram a Microeconometria I, pela complexidade da matéria e da linguagem do manual, e Econometria I, pela maior carga de relatórios, exercícios e trabalhos para entregar. Porém, na minha turma, houve reprovações apenas em uma disciplina, a Introdução à Economia Matemática (análise real e otimização estática). Nas demais, as notas foram calculadas de maneira normalizada e competitiva entre os estudantes, de modo que, em cada matéria, saíram em média 2 ou 3 A, 4 ou 5 C, e B para todo o resto. Segundo ouvi relatos, isso acontece na maioria dos cursos de pós-graduação - e não só em economia - do país.
Logo no final do primeiro semestre, fomos orientados pelos alunos mais antigos do curso a já procurar áreas de interesse para a dissertação, e manter contato com possíveis professores orientadores, para sobretudo conhecer quais disciplinas optativas deveríamos fazer. Assim, na segunda fase do mestrado (que inclui o segundo e o terceiro semestres), os alunos são encaminhados para áreas de concentração em economia aplicada, e fazem as disciplinas relacionadas a sua área. Dessas áreas, as três predominantes no Cedeplar são as seguintes:
* Economia Regional. Inclui econometria espacial (profa. Sueli Moro), equilíbrio geral computável aplicado (prof. Edson Domingues), Nova Geografia Econômica (prof. Mauro Borges Lemos), métodos de análise regional (prof. Rodrigo Simões), crescimento econômico e capital humano (profa. Lízia), abordagem neoshumpeteriana e aplicações à economia brasileira (prof. Clélio Campolina Diniz), planejamento urbano (prof. Roberto Monte-Mór), entre outros.
* Economia do Bem-Estar Social (minha área). Inclui economia da saúde (profa. Mônica Viegas), economia da educação e mercado de trabalho (profa. Ana Flávia) e economia da pobreza e microeconometria aplicada (profa. Ana Maria Hermeto). Essa área de pesquisa conta com uma excelente sinergia com o depertamento de pós-graduação em Demografia do Cedeplar, que inclui demografia econômica (prof. Bernardo Queirós), avaliação de políticas sociais (prof. Eduardo Rios-Neto), desigualdade e pobreza (profa. Simone) e econometria de modelos hieráriquicos (profa. Cibele). Um grande leque de opções para pesquisas e orientações, enfim.
* Macroeconomia Pós-Keynesiana. Inclui os aspectos mais financeiros da teoria pós-keynesiana (prof. Marco Crocco) e aplicações à macroeconomia internacional e ao desenvolvimento econômico (professores Fred, Gilberto Libânio e Marco Flávio).
Além dessas linhas, o Cedeplar conta com dois professores da área de Economia Industrial (prof. Duda e prof. Ricardo Ruiz), e alguns especializados em temas focados em história econômica, HPE e metodologia da economia (como os professores Hugo e João Antônio, entre outros). Há uma boa sinergia entre as linhas de pesquisa, como trabalhos estudando a pobreza nas regiões do Brasil, o impacto regional de políticas monetárias, o impacto dos ciclos macroeconômicos sobre a pobreza, a correlação entre vulnerabilidade externa e inovação tecnológica, arranjos produtivos regionais e locais, etc.
A especialização dos alunos em temas de pesquisa tem vantagens e desvantagens. Dentre as principais vantagens, posso citar que a maior parte dos alunos de mestrado do Cedeplar tem condições de elaborar trabalhos e artigos científicos muito avançados em suas áreas, próprios para apresentação em congressos (incluindo internacionais) e para publicação em periódicos. Isso vale não apenas para a dissertação, mas sim para quase todos os trabalhos que fazemos como método de avaliação nas disciplinas optativas. Por outro lado, a especialização pode frustrar alguns alunos que tem interesse em seguir pesquisa em áreas fora das citadas, e até mesmo para conseguir orientadores. Por exemplo, cito os alunos que desejariam trabalhar com macroeconomia ortodoxa, com mercados financeiros, ou com economia brasileira.
Destaco que somos pressionados diretamente pelos professores e pelos coordenadores de curso para realizar pesquisas, mesmo fora da dissertação, transformar trabalhos de disciplinas em artigos, e submetê-los em congressos e revistas científicas.
Em relação às oportunidades pós-mestrado, ainda estou pesquisando a respeito. O mercado de trabalho para economistas em Belo Horizonte é um pouco melhor do que em Porto Alegre, devido aos grupos de pesquisa, mais muito inferior ao do Rio de Janeiro e São Paulo. Somos muito dependentes de concursos públicos e de vagas no setor acadêmico. Alguns professores têm contatos para doutorado no exterior, como a University of London, a University of Cambridge e a New School for Social Ressearch para os pós-keynesianos, e a University of Illinois e a London School of Economics para o pessoal da economia regional. Para a economia social, ainda não conheço os contatos, mas os ex-integrantes já formados seguem carreira em pesquisa econômica aplicada (PNUD-ONU, Fundação João Pinheiro, BNDES), ou em doutorado em demografia.
Concluo o texto afirmando que, para aqueles que vão prestar exame ANPEC nos próximos anos, o Cedeplar-UFMG é uma ótima opção para todos aqueles já inclinados a seguir carreira acadêmica na economia, principalmente no que diz respeito à pesquisa econômica aplicada, e que têm afinidade com as áreas de concentração do centro.
Segunda-feira, Agosto 18, 2008
Sobre o Mestrado
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7 comentários:
Sensacional o post, bastante esclarecedor pois eu estava com uma série de duvidas...vou fazer a prova da ANPEC e o curso no CEDEPLAR vem me interessando bastante principalmente a partir dos seus posts sobre o assunto. Tenho 2 dúvidas mais, se vc tiver como responders seria muito muito bom...
Você tem noção de qual seria a média para ser aprovado para o mestrado ai e é difícil encontrar lugar pra morar?...abraços
Fernando
Olha, uns 5 por prova já tem sido o suficiente para passar com bolsa. No meu ano (2006), os aprovados no Cedeplar ficaram entre o #70 e o #190 da classificação geral com economia brasileira. Mas no ano passado, já passou do #200.
Arranjar lugar para morar em BH é fácil, e é mais barato que em outras cidades. O aconselhável é dividir apartamento em 2 ou 3 com os colegas do curso.
Abraço
valeu pelas respostas
grande abraço
Fernando
Olá Ricardo, tudo otimo? Parabens pela pos graduação!!!
Logo no periodo de nivelamento (janeiro e fevereiro) ja se recebe bolsa pelo capes?
grato pela atenção...
Daniel Chillavert
Daniel,
Não dá para saber quando a bolsa Capes inicia. Sempre costuma atrasar no início do ano. Que eu saiba, ela deveria começar em março (não cobre o nivelamento).
Abraço
Muito obrigado pela informação... Uma pena mesmo a bolsa nao cobrir o período de nivelamento... Nesse ano iniciarei o mestrado no Cedeplar e esperava a bolsa logo no nivelamento... mas tranquilo!
Mais uma vez obrigado!
Daniel
Olá Ricardo,
Obrigado pelo post esclarecedor. Fiz o exame da ANPEC recentemente e acredito que tirei nota suficiente para passar no CEDEPLAR e na UFRGS.
Resido em BH, fui aluno e bolsista de pesquisa da Profa Mônica Viegas (lembro inclusive de você lá) e estou num dilema em mudar ou não para POA e engajar no mestrado lá. Será que compensa?
Fiz a graduação com ênfase em métodos quantitativos, é a área que mais gosto e que quero seguir. Aparentemente a UFRGS oferece mais disciplinas quantitativas no mestrado (econometrias, estatísticas, etc). No CEDEPLAR vejo que as econometrias são mais voltadas para a demografia, a maior força do centro. Busco mais fortalecer o instrumental quantitativo para ir ao mercado de trabalho após o mestrado.
Às vezes penso em ficar no CEDEPLAR e cursar algumas disciplinas adicionais no ICEX, mas não sei se terei tempo, pois elas não devem contar como créditos para o mestrado.
Bom, é isso. Se puder dar sua opinião, ajudaria muito.
abs., Bernardo
(bmodenesi@gmail.com)
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