Já faz três semanas desde que defendi minha dissertação, e,
de maneira análoga ao meu amigo Thomas Kang em novembro do ano passado, dedico um post do meu blog para refletir sobre o que esses quase dois anos e meio de estudos agregaram ao meu conhecimento e ao meu comportamento acadêmico.
Assim como o Thomas, concordo com o sentimento geral de "
aquilo lá poderia ter sido melhor". Quando fazemos a prova da ANPEC, no final da nossa graduação em Economia, tendemos a idezlizar muito nossos futuros cursos de mestrado. É muito comum ouvir papos de economistas recém-formados do tipo "
vou fazer mo mestrado em um ano e meio em tal lugar, que é bem conceituado, e depois arrumar as malas para Harvard". Contudo, quando se chega na metade do primeiro semestre, temos que ajustar nossas expectativas. Todavia, dois anos e meio depois, considero que tive um curso muito bom.
1 - Os manuais que utilizamos nas disciplinas do
core de um curso de pós-graduação em economia, como o Mas-Colell (micro), o Elon (análise real), o Greene e o Wooldridge Panel Data (econometria), são bastante complexos de se compreender logo nas primeiras horas de estudo, já que utilizam uma linguagem técnica bastante avançada. Particularmente no manual do Greene, achei pouco didático, com muitas fórmulas e poucos exemplos, aplicações e explicações. Por isso, o manual do Wooldridge para graduação foi meu fiel companheiro nas quatro disciplinas de econometria que fiz. Além disso, no caso da Análise Real e da Microeconomia, achei (assim como a maioria dos meus colegas) que a matéria foi muito corrida, e o choque de dificuldade em relação aos estudos para a ANPEC foi muito grande. Eu, particularmente, preferiria que Análise Real fosse dada em um semestre inteiro (e não em um curso de verão de três semanas), e que a Microeconomia com o Mas-Colell fosse deixada para o segundo semestre. Também gostaria de ter tido um curso de nivelamento em Microeconomia utilizando o livro do Varian para pós-graduação.
2 - Constatei que as preferências dos alunos por matérias e aulas são muito variadas. Simplesmente não existe algum professor, ou mesmo disciplina, que seja unanimidade entre os alunos. Particularmente, eu gosto de aulas expositivas, de preferência com matéria escrita no quadro negro para copiar no caderno. Aulas com Power-Point me dão sono, e aulas ministradas em laboratórios de informática me deixam disperso. Mas sei que posso parecer um conservador retrógrado aos olhos de muita gente. Além disso, eu gosto mais de estudar teoria macroeconômica, economia do bem-estar social e economia brasileira do que econometria aplicada, sem questionar sua fundamental importância para a formação profissional de um economista. Mas, nesse caso, eu sou uma ovelha negra perto dos alunos oriundos das universidades federais mineiras (UFMG, UFV, UFJF), com muita base quantitativa.
3 - Como já tinha destacado em
posts anteriores, o Cedeplar-UFMG é muito concentrado em três linhas de pesquisa: economia regional, economia do bem-estar social e macroeconomia keynesiana. Para não se sentir isolado no curso, é muito recomendável que se escolha uma área e se concentre nela. Eu, particularmente, optei por ingressar na economia do bem-estar social por causa das perspectivas de pesquisa, mas fiz disciplinas de outras áreas, por curiosidade. Alguns alunos que preferiam pesquisar outros tópicos, como teoria econômica, economia matemática e finanças, ou mesmo com perfil para o mercado de trabalho, acabam reclamando do curso. Mas acho que isso é, em primeiro lugar, problema de quem reclama, já que os candidatos devem ter noção dos cursos em que se inscrevem na internet.
4 - Também concordo com o Thomas sobre o impacto da pós-graduação sobre nossa compreensão dos problemas trabalhados na graduação. Livros como o Varian, o Gujarati, o Wooldridge, o Sachs e o Blanchard agora me parecem muito fáceis de ler. Inclusive, quando meus alunos de Administração reclamam das abstrações macroeconômicas do Blanchard, chego a achar estranho, sinto vontade de perguntar "
como assim? o que vocês aprendem no segundo grau?"
5 - O mestrado me deixou muito mais "pé-no-chão" no que diz respeito as minhas potencialidades como pensador. Sei que a complexidade da teoria econômica avançada e dos métodos de análise quantitativa é muito elevada, e talvez eu simplesmente não tenho condições, ou mesmo tempo, ou mesmo empolgação, ou mesmo interesse, em aprender tudo o que eu gostaria de ter visto no mestrado. Agora, vejo que meu bom desempenho na graduação, assim como minha láurea acadêmica, são pouco mais do que lembranças nostálgicas.
6 - Por outro lado, o mestrado me tornou muito mais empolgado em ler os principais artigos das áreas em que pesquiso. E, para isso, a excelente biblioteca da atual sede da FACE-UFMG me ajudou muito. Foi muito praseiroso caçar os artigos originais do Amartya Sen, do James Tobin e do Arthur Okun por revistas internacionais de economia das décadas de 60 e 80. E a leitura desses papers não é mais complexa do que os manuais que estudo. Dá para ter ótimos
insights. Me lembro de que, na graduação, baseava minhas pesquisas em textos em português, resenhas e resumos bibliográficos, já que não me via em condições de ler os originais.
7 - Como fiquei mais realista com minhas possibilidades de conhecimento em economia, parei de dar pitacos sobre assuntos econômicos que eu não trabalho. E isso vale sobretudo aqui no blog. Eu simplesmente acho tosco um economista publicar um texto na Internet insultando alguma figura de renome público (seja político, seja jornalista, seja mesmo outro economista) porque "ele fez declarações que são contrárias ao que foi escrito no manual do Varian e do Sachs". Na pós-graduação em economia, aprendemos que existem modelos que descrevem praticamente qualquer fato econômico, e, só porque uma dada situação não está em um texto básico, não dá para afirmar que ela "não existe". Eu, quando leio alguns posts de 2005, chego a ficar com vergonha. Mas não vou alterar nada.
8 - Também passei a ver com mais desconfiança a "intelectualidade econômica" espalhada pela Internet. Eu pretendo continuar publicando aqui resenhas e discussões sobre as áreas da economia em que pesquiso, como controvérsias em teoria macroeconômica, bem-estar social, pobreza, educação, problemas da economia brasileira, metodologia da economia e microeconometria aplicada. Nessas áreas, tenho mais confiança em dar opiniões em meio público, como a Internet. Talvez entre em mais algumas discussões com outros blogueiros sobre esses temas, como fiz com aquele mestrando da UFRJ no início de 2008. Mas não tenho mais paciência de ficar lendo desaforos de gente que não gostou da minha resenha sobre "O Mágico de Oz", ou que me acha burro por ter achado o manual do Elon complicado. Antes do mestrado, me prestava a responder essas trollagens com certa pose. Hoje, deleto na hora.
9 - Também vejo uma grande boçalidade na maioria dos blogs de "economia austríaca", em que as obras originais escritas pelo Von Mises e pelo Hayek são elevadas a condição de verdade absoluta e sagrada, e quem simplesmente tenta ir contra elas, é detonado moralmente. No mestrado, pareceu-me óbvio que a ciência econômica busca a explicação, descrição e previsão de fenômenos econômicos. Por isso, um economista que tenta fazer análises aplicando diretamente pensamentos de seus autores favoritos dos anos 30 e 40 à realidade atual, mesmo que fazendo distorções horrendas, ou recorrendo a difamações morais, lei de Godwinn, e técnicas retóricas de ganhar debates sem ter razão, agora me parece ridículo. Por isso, deixei de acompanhar blogs desse tipo. E eu sei que eu fazia isso na graduação, não com os autores austríacos, mas com os autores que eu gostava de ler (Keynes, Amartya Sen, Fernando Rezende, Adam Smith, etc.). Agora, vejo que o que realmente importa na economia é a análise de dados econômicos, tanto quantitativos como qualitativos.
10 - Estou dando muito mais importância para a econometria do que eu dava durante a graduação. Mesmo que meu conhecimento esteja muito aquém daquilo que eu deveria ter (e isso não por falta de oportunidades no Cedeplar), já me sinto bem a vontade para analisar dados do Excel e no Stata. Sei rodar regressões de MQO, logísticas, quantílicas, de dados em painel e de modelos hierárquicos. Fico frustrado quando os modelos não dão certo, e senti muito isso durante a fase econométrica da minha dissertação, de fevereiro a maio desse ano. Mas, quando os resultados estão prontos, acho muito interessante fazer análise em cima dos dados, considero que as conclusões a que chego ficam bastante robustas.
11 - Como professor em estágio-docência, estou tendo uma experiência bastante interessante. Tento interagir o máximo possível com meus alunos, para descobrir os seus interesses pela matéria e como devo proceder didaticamente para maximizar o seu aprendizado. Quero, um dia, fazer um modelo matemático sobre a função de utilidade de uma aluno de graduação.