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segunda-feira, junho 18, 2012

Uma Partida de Civilization II de 10 Anos

Um dos maiores vícios da minha junventude é o jogo de computador Civilization II. Ganhei ele de Natal da minha avó em 1997, e ainda atualmente o jogo às vezes quando bate uma saudade. O software é, em resumo, um simulador da história mundial, em que o jogador lidera uma civilização do ano de 4.000 A.C. até o ano de 2.000 D.C., e, em sua trajetória, coopera e - principalmente - compete com outras civilizações controladas pelo computador. O vencedor do jogo é a civilização que dominar as demais, seja militarmente (pela conquista mundial), seja tecnologicamente (por ser a pioneira na exploração espacial). Além disso, é possível jogar cenários históricos, que são facilmente encontrados para download na internet, e é o que eu mais aprecio pessoalmente.

Hoje, li na internet que um outro viciado está jogando a mesma partida há 10 anos, e não pretende desistir tão cedo. Segundo o simulador, como seria o mundo no ano 4.000 D.C.? A resposta está no mapa abaixo:



Segundo o jogo, o futuro da humanidade não é nada animador. As características do mundo são as seguintes:

- Três civilizações dominam o mundo, e estão em eterna guerra entre si. Uma, a do jogador humano, é uma ditadura comunista. As demais, controladas por inteligência artificial, são teologias fundamentalistas. A guerra permanente inviabilizou governos mais abertos.

- As armas nucleares provocaram o derretimento das calotas polares, transformando o mundo em um grande pântano (com excessão das áreas montanhosas). A agricultura se tornou impraticável, 90% da população mundial morreu de fome, e as grandes cidades viraram coisa do passado.

- Toda a produção das cidades é voltada à guerra e à construção de estradas para as tropas passarem. Nenhuma melhoria de infra-estrutura é viável.

Contudo, para não deixar o post fatalista, faço duas observações pertinentes, relacionadas ao realismo do jogo.

Em primeiro lugar, no Civilization II original, tal como eu ganhei em 1997, a ênfase da competição entre as civilizações era o domínio tecnológico. As partidas eram mais pacíficas, e os protagonistas mais cooperavam   (via trocas de pesquisas, alianças, etc.) do que se enfrentavam em guerra. Na década seguinte, no entanto, os desenvolvedores do jogo criaram uma versão tida como mais "emocionante", em que a inteligência artificial do simulador se tornou extremamente hostil e belicosa. Tão logo atingem a Revolução Industrial, as civilizações controladas pelo computador tendem a adotar regimes fundamentalistas e atacar todos os demais adversários. Essa é a única versão do jogo compatível com Windows Vista e Windows 7, e a jogo desde 2007.

Em segundo lugar, o Civilization II se baseia no princípio que o "motor do desenvolvimento" é o crescimento populacional. Conforme a população de uma civilização cresce, ela aumenta a produção, cria trabalhadores, faz obras de infra-estrutura e pesquisa tecnologia de modo a aumentar a produtividade. Segue mais ou menos uma lógica marxista: o trabalho humano é o único fator de produção. E isso vale durante o jogo inteiro, com uma aceleração brusca da produtividade quando a população atinge a industrialização. Por isso, para uma civilização crescer, é necessária a contínua conquista de novas terras para a construção de novas cidades e a ocupação do solo para atividades agrícolas. Se o algoritmo do jogo fosse aberto para outros fatores de produção, como a acumulação de capital privado, o capital humano e o desenvolvimento endógeno de tecnologia, o resultado poderia ser bem diferente.

PS 1: Observo que na macroeconomia moderna, o modelo unificado de crescimento de Galor admite que a importância dos fatores de produção para o desenvolvimento das economias varia de acordo com o tamanho do produto. Assim, em sociedades primitivas, o crescimento populacional de fato é o motor do crescimento econômico. Contudo, quando o produto atinge um determinado patamar, o processo de acumulação de capital baseado em poupança e investimento assume o seu lugar, e, mais para a frente, o desenvolvimento tecnológico e a sua incorporação pelas pessoas se tornam mais relevantes. Por isso, o jogo pode ser resumido a uma simulação sobre o que aconteceria se bárbaros tivessem armas modernas.

PS 2: Durante um tempo, tentei jogar o Civilization Call to Power, uma continuação da série, que inclui aspectos mais complexos do desenvolvimento das sociedades. Mas achei tão complexo que ficou chato.


quinta-feira, fevereiro 03, 2011

Hipóteses sobre a Balança Comercial de Futebolistas Brasileiros

O Flamengo contratou o Ronaldinho Gaúcho (que leilou seu contrato com o Grêmio e o Palmeiras) e o Thiago Neves. O Fluminense contratou o Araújo e o Diego Cavalieri. O Inter acertou com o argentino Cavenaghi. O Santos buscou o Elano de volta. O Vasco importou o Eduardo Costa e o Elton. O Corinthians se reforçou (ainda que tardiamente) com o Liédson. E todos esses times só exportaram suas revelações do ano passado para times desconhecidos de campeonatos desconhecidos, como a Ucrânia, a China e os países do Oriente Médio, salvo raras exceções.

Nesses últimos meses, a imprensa esportiva vem nos brindando com informações sobre as transações dos times de futebol brasileiros com os times do exterior. Ao contrário do que qualquer torcedor com mais de 10 anos de idade está acustumado a ler e ouvir, agora são os times brasileiros que estão importando (ou repatriando) os jogadores do exterior. Para explicar esse fenômeno, levanto três hipóteses para serem testadas, caso alguém tenha uma boa planilha de dados a respeito.

Em primeiro lugar, a hipótese mais provável: a crise financeira e fiscal que assola os países europeus contagiou o mercado do futebol. Por isso, os clubes estão investindo menos em reforços, e se desfazendo de jogadores de alto salário. Contudo, cabe lembrar que uma parte significativa das cifras futebolísticas de vários grandes times europeus não é proveniente de geração própria, mas sim de repasses diretos de seus proprietários, muitos deles com negócios escusos em países da antiga União Soviética e do Oriente Médio. Por isso, acredito que esse fator, por si só, não explica o atual déficit em conta corrente futebolística da economia brasileira.

A segunda hipótese é a valorização cambial. O real valorizado está fazendo com que a compra de jogadores de futebol brasileiros por parte dos clubes europeus não valha a pena, pois esses têm que arcar com o risco da não-adaptação dos jogadores a sua realidade (risco entendido como saudade da praia, da cerveja gelada, do carnaval e do samba), afetando negativamente o seu desempenho. Por outro lado, o real valorizado significa a valorização dos salários no Brasil, incentivando alguns jogadores a procurar empregos nos clubes nacionais pelos mesmos motivos expostos anteriormente.

Por fim, levanto uma terceira hipótese, mais pessimista que as duas anteriores. Talvez o futebol brasileiro tenha perdido o seu brilho em relação às décadas passadas. Nos anos 90, Romário, Ronaldo Nazário, Rivaldo, Leonardo, e mais recentemente, Ronaldinho Gaúcho e Kaká, eram os melhores jogadores do mundo. Atualmente, qual jogador brasileiro é considerado incontestavelmente um grande craque de reputação internacional, a não ser os veteranos como o zagueiro Lúcio? O Felipe Melo? Não se pode descartar a hipótese de que o mau futebol desempenhado pela Seleção Brasileira na última Copa do Mundo seja proveniente (não estou eximindo de culpa a escalação do ex-técnico Dunga) de uma crise de renovação dos jogadores brasileiros. Por isso, os clubes europeus podem estar querendo abrir vagas nas suas cotas de jogadores extrangeiros em benefício de africanos e hispano-americanos, às custas dos brasileiros.

Tudo isso são hipóteses, gostaria de ver dados mais concretos para ter uma opinião mais sólida a respeito do que está acontecendo. Provavelmente, o déficit na balança comercial do futebol brasileiro se deve a combinações entre as três hipóteses, mas qual delas seria a mais importante?

segunda-feira, janeiro 31, 2011

O Ser Humano É um Micróbio

Clique para ampliar (a imagem, não o ser humano).



PS. Tenho outra prova no próximo domingo. Mais "férias de blog" pela frente.

segunda-feira, fevereiro 22, 2010

Um Experimento Socialista (para Ler e Refletir)

Recebi esse texto na lista de e-mails da minha turma de pós-graduação.

Um professor de economia na universidade Texas Tech disse que ele nunca reprovou um só aluno antes, mas tinha, uma vez, reprovado uma classe inteira.

Esta classe em particular tinha insistido que o socialismo realmente funcionava: ninguém seria pobre e ninguém seria rico, tudo seria igualitário e "justo". O professor então disse, "Ok, vamos fazer um experimento socialista nesta classe. Ao invés de dinheiro, usaremos suas notas nas provas." Todas as notas seriam concedidas com base na média da classe, e portanto seriam "justas". Isso quis dizer que todos receberiam as mesmas notas, o que significou que ninguém seria reprovado. Isso também quis dizer, claro, que ninguém receberia um "A".

Depois que a média das primeiras provas foram tiradas, todos receberam "B". Quem estudou com dedicação ficou indignado, mas os alunos que não se esforçaram ficaram muito felizes com o resultado.

Quando a segunda prova foi aplicada, os preguiçosos estudaram ainda menos - eles esperavam tirar notas boas de qualquer forma. Aqueles que tinham estudado bastante no início resolveram que eles também se aproveitariam do trem da alegria das notas. Portanto, agindo contra suas tendências, eles copiaram os hábitos dos preguiçosos. Como um resultado, a segunda média das provas foi "D". Ninguém gostou.

Depois da terceira prova, a média geral foi um "F". As notas não voltaram a patamares mais altos mas as desavenças entre os alunos, buscas por culpados e palavrões passaram a fazer parte da atmosfera das aulas daquela classe. A busca por "justiça" dos alunos tinha sido a principal causa das reclamações, inimizades e senso de injustiça que passaram a fazer parte daquela turma. No final das contas, ninguém queria mais estudar para beneficiar o resto da sala. Portanto, todos os alunos repetiram o ano. Para sua total surpresa.

O professor explicou que o experimento socialista tinha falhado porque ele foi baseado no menor esforço possível da parte de seus participantes. Preguiça e mágoas foi seu resultado. Sempre haveria fracasso na situação a partir da qual o experimento tinha começado. "Quando a recompensa é grande", ele disse, "o esforço pelo sucesso é grande, pelo menos para alguns de nós. Mas quando o governo elimina todas as recompensas ao tirar coisas dos outros sem seu consentimento para dar a outros que não batalharam por elas, então o fracasso é inevitável."


Refletindo, essa é mais uma história que reforça a tese de que indivíduos são sensíveis a incentivos. Já tinha lido uma variante em que o professor, para salvar a turma da reprovação, instituiu um sistema de trabalhos forçados, atolando o pessoal de listas de exercícios para entregar diariamente.

Na lista de e-mails, houve um consenso geral de que a mensagem da história acima depende da hipótese de que todos os alunos partiram de condições equânimes, de modo que suas notas refletiram diretamente e unicamente o esforço de cada um (no caso, somado e dividido entre todos). Para o caso da atribuição de notas em uma universidade, essa hipótese é factível, já que a maioria das faculdades tem biblioteca e sistemas de bolsas para alunos carentes, além do próprio fato de que cursar curso superior é uma escolha voluntária. Em outras situações da vida, o desempenho de cada um não depende só do próprio indivíduo, isto é, existem heranças, path-dependency, externalidades, exclusão social e assimetrias de informação. Nesses casos, a intervenção política para suavizar a desigualdade de oportunidades, desde que desenhada institucionalmente para não provocar incentivos adversos, pode melhorar o bem-estar social.

Por outro lado, essa história me fez lembrar da minha vida acadêmica, em que professores que queriam parecer "bonzinhos" frente aos seus estudantes, fazendo provas fáceis e correções superficiais, acabaram sendo considerados ao mesmo tempo "fracos" pelos bons alunos e "otários" pelos maus alunos. Essa foi uma das principais preocupações que tive quando dei aulas, no ano passado.

domingo, julho 05, 2009

Como Identificar Truques Retóricos em Textos?

Continuando o meu post "O Que Mudou com o Mestrado?", sobre como meus últimos dois anos e meio de jornada acadêmica melhoraram minha leitura de textos de economia, aproveito para citar dois posts relevantes. Ambos citam técnicas para identificar truques retóricos em posts de blogs, isto é, artifícios para "ganhar-debates-sem-necessariamente-estar-certo". Saber lidar com esse tipo de discurso ajuda muito a filtrar nosso conhecimento e nosso aprendizado, assim como a escolher melhor os autores que lemos (ou mesmo nossos companheiros de bar).

Segundo o Léo Monastério, em seu post sobre como identificar besteiras em textos de economia, é sembre bom ficar de olho nas seguintes características:

- Recomendações de política econômica abundam e há pouca evidência empírica; (principalmente baseadas em "evidências históricas" evidentemente manipuladas, e com pouca ou nenhuma aplicação à realidade atual).

- Muitas referêncais aos economistas mortos. Sua otoridade é central no argumento. Além disso, o autor e sua patota se mostram como quem finalmente entendou o Livro Sagrado; (isso é particularmente interessante. Alguém mais já reparou que todo pensador medíocre, economista ou não, adora se mascarar em uma determinada "escola de pensamento", na qual todos os seus membros são vistos como indivíduos iluminados, e toda a discussão intelectual se resume a uns deles bajulando outros, vivos ou não?)

- Poucas referências às evidências e teorias recentes que contradizem o autor. Estas, quando aparecem, são tratadas com desprezo ou sarcasmo. Em geral, quem discorda é burro ou mal intencionado; (isso se chama argumentação "ad hominem". É um dos artifícios retóricos mais básicos, e também mais baixos.)

- Linguagem colorida. As taxas "explodem" ou "despencam", as reservas são "corroídas", "derretem" e assim por diante. O tom é panfletário e catastrofista. O catastrofismo também é um truque retórico dos mais baixos; tenta fazer com que qualquer pessoa que discorde do texto se passe por um colaborador do apocalipse.

No blog O Indivíduo, de orientação ideológica liberal, foi postado um texto auto-crítico, mas que também pode ser estendido a artigos de qualquer panfletagem ideológica. Dentre os principais pontos apresentados pelo autor eu destaco os seguintes:

- Censura. Referir-se à ausência de reprensentatividade de certas idéias ou pessoas na imprensa como “uma forma de censura mais insidiosa, e por isso pior, do que aquela praticada na ditadura”. (os socialistas são barrados pela mídia "elitista"; os liberais são barrados pela mídia "que beija a mão do Estado"; os conservadores são barrados pela mídia "libertina", ou mesmo "comunista"; o que acontece é que, na maioria das vezes, as empresas da mídia só querem preservar seu mercado, não ofendendo seu público leitor e seus anunciantes; qualquer teoria da conspiração não faz sentido).

- Ditadura & opressão. Direita — e esquerda — tratam sua sensação subjetiva de marginalidade cultural como opressão de facto. Estar no Brasil de hoje e sonhar comparar-se aos perseguidos de URSS, Cuba, Camboja, Alemanha nazista etc. é um insulto a esses perseguidos. (gostei muito da última frase, parece que as discussões sobre economia, política e sociedade provocam a banalização dos genocídios).

- Insistência em culpar o Brasil por tudo. Isso serve como crítica a qualquer teoria social baseada em determinismo cultural. São débeis, baseadas em hipóteses completamente ad hoc e não falsificáveis, as tentativas de buscar explicar problemas dinâmicos (como o desenvolvimento sócio-econômico) com base apenas em parâmetros puramente estáticos, como a religião, os hábitos e costumes populares, etc.

- Pronunciamentos categóricos. Dos esquerdistas, eu já cansei de ler "a desigualdade social no Brasil atinge parâmetros moralmente inaceitáveis.". Dos liberais, já não agüento mais "não existe almoço grátis" em cada post.

- Fetichismo intelectual inviabilizador da vida. Quem não leu o autor X é um completo ignorante a respeito do tema em discussão. Se X é totalmente desconhecido, a culpa é do viés ideológico (qualquer um) das editoras, que censuram suas obras. É um artifício para tentar fazer com que o debatedor adversário passe por ignorante, principalmente se ele não for.

- Amor incondicional por determinados governos. Conservadores idolatram George W. Bush. Liberais idolatram Reagan e Thatcher. Esquerdistas preferem, em geral, opções latino-americanas, de diferentes níveis de radicalismo. Mas todos partem do princípio de que se alguma coisa de bom aconteceu no país (ou até mesmo no mundo) durante o governo idolatrado em questão, há uma relação confiável de causalidade entre a honestidade e a sagacidade do nobre líder e esses fatos.

Particularmente, eu considero que a análise desses recursos retóricos nos permite separar o joio do trigo em nossos estudos.

quarta-feira, setembro 03, 2008

O Longo Amanhecer - Cinebiografia de Celso Furtado

O XIII Encontro de Economia Mineira, realizado na semana passada na cidade de Diamantina, se encerrou com a pré-estreia do filme "O Longo Amanhecer", uma cinebiografia de Celso Furtado. O documentário foi montado por trechos de vídeos históricos e pessoais da vida do célebre economista paraibano ao longo de toda sua trajetória, intercalados por depoimentos do próprio Furtado (no ano de seu falecimento, 2004) e de seus contemporâneos, como Maria da Conceição Tavares e Chico de Oliveira.

O documentário, mesmo elaborado antes do falecimento de Furtado, tem um tom muito melancólico. Os intelectuais entrevistados parecem estar o tempo todo se lamentando pelo fato de que seus ideais desenvolvimentistas dos anos 50 e 60 estão cada vez mais distantes dos projetos dos atuais governos brasileiros. O tom tristonho acompanha os depoimentos de Celso Furtado e de Chico de Oliveira em todo o filme, enquanto que a Conceição mantém seus tradicionais esbravejos raivosos. Seus alvos favoritos, culpados pela queda de seus ideais, não deixam de ser "as elites", "os interesses dos países centrais contra a periferia", "o sistema financeiro especulativo", etc.

Mas, pensando bem, será que o "nacional-desenvolvimentismo" deu tanto errado assim? Qual é o real motivo da aparente frustração desses pensadores? Ora, o regime de política econômica baseado no nacionalismo, na substituição de importações, no uso de políticas expansionistas, no apoio explícito à industrialização e na concentração espacial das atividades produtivas teve os resultados históricos que seriam esperados de acordo com a teoria econômica: estímulo aos investimentos, causando o crescimento econômico, mas com um grave custo social, em termos de desigualdade (pessoal e regional) e de pobreza acumulada na periferia das grandes cidades, provocadas pela emigração das regiões rurais estagnadas. A maior limitação desse modelo de política econômica de longo prazo, a meu ver, foi não ter dado a merecida atenção nas pessoas (assim como deu ao capital), em termos de capital humano, tal como investimentos em saúde, saneamento e, sobretudo, educação. Talvez dessa maneira os brasileiros poderiam desenvolver suas capacitações de modo a continuar o processo de desenvolvimento do país autonomamente, sem mais tanta necessidade do apoio governamental (tal como aconteceu nos Tigres Asiáticos) após a crise de seu endividamento.

No ano passado eu tinha escrito um post sobre a falta de novas idéias dos atuais pensadores brasileiros. Ao invés de procurar pensar o Brasil contemporâneo, urbano, prestador de serviços, globalizado e democrático, preferem remoer suas lembranças de sua juventude, e seus ideais sufocados pelo regime militar. E esse filme reforça ainda mais meu desapontamento. No caso de Furtado, Conceição e Chico de Oliveira, está tudo bem. Os "anos dourados" de sua atuação intelectual foram mesmo os anos do nacional-desenvolvimentismo. Mas em relação aos pensadores do Brasil atual, onde estão?

terça-feira, junho 03, 2008

O Lado Irônico da Inflação de Alimentos

Praticamente todos os blogs e revistas de economia nas últimas semanas publicaram comentários e teses sobre a inflação mundial de alimentos recente. Eu, para não cair na redundância com outras publicações, me abstive. Contudo, vejo que o problema nessas discussões é que os economistas ainda não encontraram com unanimidade qual foi o principal fator causador desse problema. Crescimento do consumo pelos chineses e indianos? Aumento dos preços do petróleo? Mudanças de expectativas? Aquecimento global? Subsídios à produção de biocombustíveis?

Pessoalmente, acho que o melhor é investigar sob um ponto de vista mais empírico e técnico para se encontrar o fato causador. As previsões sobre o que vai acontecer daqui para frente depende dessa identificação. Se se tratar de choques NAS curvas de oferta e de demanda, espera-se que as forças de mercado ajustem os preços para o equilíbrio inicial. Mas se se tratar de choques exógenos DAS curvas de oferta e de demanda, significa que o mercado está se encaminhando para um novo equilíbrio, com preços estruturalmente mais altos.

Mas agora o fato irônico. Será que só eu notei que o preço do papel higiênico nos supermercados quase dobrou do início do ano para cá? E agora? Será que a inflação de alimentos está se espalhando para todas as fases do processo digestivo? Ou será que os chineses estão... er... "consumindo" mais, e fazendo força(ops!) de demanda sobre o produto? Ou então, os indianos estão começando a usar (eca!)?

Eu sei que essa discussão não é tão "nobre" como as referentes aos preços do petróleo e dos alimentos. Na verdade, existem certas coisas que as pessoas preferem não pensar...

sábado, março 29, 2008

Post Interessante

Meu amigo Diego "Gordinho" Rodrigues escreveu um post que eu gostaria muito de ter escrito pessoalmente, de tanto que gostei e concordei:

esses caras que ficam se cercando de mulheres, as agradando, todos penteadinhos, arrumadinhos, discutindo a "balada" (eca!) da noite anterior, são, definitivamente, veados!

Fico me perguntando onde estará a boa e velha virilidade dos homens mal vestidos, suados do jogo de futebol, que gritam nas mesas de churrasco e truco bêbados de cerveja, que olham descaradamente para os decotes, que escutam ACDC e Ramones, que dormem tarde e vêem revistas de mulher pelada.

O link para o post (e o blog) é:
http://vagabundos-iluminados.blogspot.com/2008/03/mulheres-do-mundo-uni-vos-ao-machismo.html

quinta-feira, outubro 04, 2007

Tipos Sociológicos entre Estudantes de Economia

Esse é um post de cunho humorístico/sarcástico, inspirado em um comentário do professor Jorge Araújo (UFRGS) sobre a heterogeneidade de interesses entre os estudantes de economia.

Tomando como amostra os alunos de uma turma de um semestre de qualquer curso de graduação em Economia no Brasil, encontramos os seguintes tipos de alunos:

QUASE-HISTORIADOR: aluno que gosta de história, ou de ciências humanas em geral, e escolheu fazer vestibular para economia porque essa seria a ciência social mais propícia ao sucesso profissional, ou o curso dessa área ideologicamente mais eclético. A maioria dos quase-historiadores tende a se interessar pela heterodoxia (ou pela nova economia institucional), e podem se tornar pesquisadores em história econômica, HPE, economia política, desenvolvimento sócio-econômico e economia brasileira. Sua tendência após concluir o curso é de procurar pós-graduação, e seguir vida acadêmica. Por parecerem intelectualódies, em média, os quase-historiadores podem ser considerados "chatos" por parte de seus colegas, particularmente pelos "jovens empreendedores".

POLÍTICO: aluno que tem interesse em seguir carreira nos meios políticos, e, na inexistência de cursos de graduação em ciência política ou administração pública na região onde vive, presta vestibular para economia. Suas áreas de interesse são economia do setor público, direito aplicado à economia e políticas macroeconômicas (a "macroeconomia hidráulica" segundo o Jorge Araújo, de causalidade qualitativa entre políticas, o nível de produto e o nível de preços de uma economia). Alguns políticos abandonam o curso para ingressar em algum "movimento". Após o término do curso, os políticos formados tentam, além de inserir-se em seu meio, realizar concursos públicos.

ORTODOXO ESTRITO: aluno que já tem alguma noção do conteúdo básico de um curso de economia, e espera obter uma boa base de conteúdo quantitativo (matemática, econometria) e teórico (micro e macroeconomia), de acordo com o currículo-padrão de cursos de economia em nível internacional. Contudo, como a grande maior parte dos cursos de graduação em ciências econômicas do Brasil segue uma linha eclética ou heterodoxa, o aluno ortodoxo estrito pode desenvolver o mal-hábito de ficar falando mal de seu curso durante toda a sua graduação, e derreter-se em arrependimentos por não ter escolhido um curso "mais sério" (de ciências exatas), como matemática ou engenharia. Alguns ortodoxos estritos são mais radicais, ignorando inclusive a importância das cadeiras de macroeconomia para seu conhecimento. Alguns ortodoxos estritos são "fraudes acadêmicas", isto é, falam aos seus colegas que são muito bons em matemática, que deveriam estar na FGV ou no IMPA, etc, mas seu desempenho nas provas não corresponde ao seu ego. Por outro lado, os ortodoxos estritos que são realmente bons conseguem obter excelentes resultados no exame Anpec, e cursar pós-graduação em centros mais de acordo com suas preferências.

"JOVEM EMPREENDEDOR": aluno que presta vestibular para economia pensando em seguir um curso prático, indutivo, que o prepare exclusivamente para o mercado profissional, ou como ele mesmo diz, "para ganhar dinheiro". Contudo, como os cursos de economia no Brasil (e, segundo alguns, isso vale em nível internacional) seguem uma linha predominantemente acadêmica e teórica, e pouco voltados para a área de economia empresarial e financeira, tal aluno sente-se decepcionado logo no primeiro semestre. Algumas versões mais caricaturais de sovens empreendedores chegam a afirmar que qualquer conteúdo teórico na economia é inútil: matemática é "abstrato", micro "não corresponde ao mundo real", macro é "política", história "já passou", economia do setor público "é só para funcionário público", cadeiras de pesquisa "são para acadêmicos", e por aí vai. Talvez seja por isso que boa parte dos alunos desse tipo abandonem o curso antes de terminar, mudando para administração ou ciências contábeis (que são, de fato, cursos mais práticos), ou mesmo para ingressar no mercado profissional mais cedo. Praticamente todos procuram estágios profissionais logo no início do curso, o que pode inclusive reforçar a sua decepção com a ciência econômica em sua aplicação ao mundo profissional real. Outros convertem-se em ortodoxos ou heterodoxos e procuram pós-graduação, podendo obter muito sucesso a partir daí. Outros ainda, por inércia, formam-se em economia sem, de fato, acreditar na importância do curso, apenas para ter algum diploma superior.

PERDIDO NA SELVA: aluno que presta vestibular para economia sem saber muito bem (ou absolutamente nada) do que quer de sua vida, tal como muitos vestibulandos de direito e de administração. Durante o curso, o aluno perdido na selva pode se "encontrar", e se converter em ortodoxo, heterodoxo, ou mesmo em "jovem empreendedor decepcionado", seguindo o rumo de seu novo tipo individual. Ou então, continua perdido em uma selva cada vez mais selvagem. Muitos desses alunos "somem" ao longo de sua graduação, desistindo de sua faculdade, ou migrando para ser trabalhador escravo em algum país desenvolvido. Alguns dos que "somem" "voltam" de forma tão misteriosa como aquela em que sumiram. Outros chegam a se formar, com a impressão de que não aprenderam nada com o seu curso.

PS. 1: todos esses tipos sociais entre cursos de economia são versões caricaturais, descritos em cunho humorístico, e não foram inspirados pessoalmente em ninguém que eu conheça. Os alunos reais tendem a ser combinações lineares de características de todos os grupos. Como nos filmes, "qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou mortas, é mera coincidência". Se tu te identificares com algum tipo, é problema teu!

PS. 2: acho que faltam alguns tipos minoritários. Se alguém quiser contribuir com novas descrições, pode mandar que eu incluo no post.

PS. 3: pensando em mim mesmo, acho que, ao longo dos meus nove semestres na graduação em Ciências Econômicas na UFRGS fui 60% quase-historiador, 30% jovem empreendedor e 10% político.

sexta-feira, setembro 21, 2007

O Brasil e a Intelectualidade: Presente e Futuro

Lendo o livro do Renato Tapajós, na semana passada, dei-me conta de como que é difícil encontrar trabalhos de intelectuais brasileiros sobre a sociedade nacional em sua atualidade. Como eu relatei no post sobre o livro, vejo que a grande parte dos intelectuais, não só escritores, mas também jornalistas, sociólogos, historiadores, etc, parecem prender-se em suas memórias de sua juventude e ignorar tudo aquilo que aconteceu no país e no mundo nas últimas duas décadas.

Tendo contato com grande parte da produção intelectual de autores brasileiros sobre questões sociais e políticas do país, o que vemos, geralmente, são relatos carregados de saudosismo sobre as virtudes das atitudes dos jovens rebeldes dos anos sessenta e setenta, particularmente a luta contra o autoritarismo militar e a luta por um projeto de desenvolvimento autônomo, nacionalista e distribuidor de renda. Sobre os anos oitenta e o período democrático após 1988, tudo o que lemos são definições baseadas em conceitos controversos como "década perdida", "juventude alienada", "crise da utopia", ou então radicalismos explícitos como "fim da história" ou "morte do desenvolvimento nacional". Contudo, esses estudos, como dito, são carregados de relatos saudosistas, e não estudos analíticos, sobre a trajetória recente da organização sócio-econômica recente do Brasil.

Como motivos para esse posicionamento dos intelectuais nacionais, de fato, cito o sentimento de salvacionismo e de mergulho utópico que caracterizam o pensamento vanguardista dos anos sessenta e setenta. Naquele período, do final da Segunda Guerra Mundial até o segundo choque do petróleo (1979(, o Brasil e o mundo encontravam-se em um período de prosperidade econômica sem precedentes (os "Anos Dourados"), caracterizado pela constituição econômica do "capitalismo regulado", isto é, economia de mercado com intervenção estatal anti-cíclica e estrutural, e um arranjo de cooperação econômica internacional entre os países capitalistas, que inclusive incentivava mecanismos de investimentos produtivos dos países ricos para os subdesenvolvidos (o Acordo de Bretton-Woods). Todo esse clima de prosperidade abriu caminho para uma geração de pensadores voltados para a compreensão dos fenômenos do desenvolvimento social e econômico, e as problemáticas sociais, como a desigualdade e a persistência da pobreza e da miséria. Tais pensadores se preocuparam em formular ousados projetos de desenvolvimento (tanto em nível econômico como em nível social e político) para o país, em que os trabalhadores tomariam as instituições políticas, a economia seria independente das flutuações externas, a renda seria distribuída na sociedade, e a pobreza se extinguiria, pela constituição de um mercado interno no Brasil que poderia perpetuar o crescimento à la Adam Smith. Além disso, a presença de um regime autoritário no Brasil e de restrições à liberdade de expressão tornavam esses debates ainda mais desfiadores para os intelectuais. Na época, todos os vanguardistas (sejam eles desde os comunistas pró-soviéticos até os liberais-democratas) eram contra o regime, e a opressão intelectual servia apenas para alimentar o sentimento de oposição.

Contudo, os acontecimentos dos anos oitenta abalaram profundamente esse quadro. A crise de endividamento do setor público no início da década acabou com o último ciclo de crescimento da economia brasileira, e desde então, o Brasil praticamente estancou o seu crescimento per-capita. Os intelectuais viram que o crescimento econômico, tal como se dava nas décadas anteriores, não era um fenômeno permantente e inevitável. Muitos economistas abandonaram seus projetos de desenvolvimento nacional para se focar em problemas mais técnicos, como o controle da crise externa e o combate à inflação. A crise do comunismo, visível ao longo dessa década, provocou uma queda da utopia sócio-política em nível mundial. Por fim, a redemocratização construída de "cima para baixo", isto é, costurada pelos próprios políticos aliados do regime militar, retirou o caráter sebastianista que caracterizava os pensamentos intelectuais dos períodos anteriores. Agora, com a liberdade de expressão, qualquer um pode expor seus projetos e idéias sem medo de retaliação oficial, os debates tornam-se cada vez mais comuns e repetitivos. As idéias de desenvolvimento parecem que "perdem a graça", pelas repetições contínuas das mesmas idéias das décadas anteriores.

A partir dos anos noventa, o Brasil passa por grandes transformações nas esferas política, econômica e social. Na política, a redemocratização tem levado partidos políticos cada vez mais à esquerda ao controle do governo federal. Contudo, suas ações são cada vez mais semelhantes, como acontece em todo o mundo democrático, e isso, junto com os comportamentos eticamente inaceitáveis de homens públicos de altos postos hierárquicos, tem suscitado uma apatia política da sociedade brasileira crescente. No plano econômico, o endividamento externo elevado e o desenvolvimento tecnológico dos mercados financeiros internacionais praticamente inibiram a possibilidade de o Estado administrar a economia (via políticas fiscais, cambiais, monetárias e intervenção direta) como fazia nas décadas anteriores. Igualmente, tornou-se consenso que o excesso de proteção à indústria nacional havia criado um déficit tecnológico muito sério para as empresas brasileiras. Portanto, os governos sucessivamente têm optado por políticas de abertura econômica, privatizações e controles fiscais e monetários cada vez mais rígidos, acompanhando as tendências da economia mundial. Contudo, as políticas sociais de resdistribuição de renda vêm se tornando cada vez mais abrangentes, fazendo com que a distribuição de renda e a pobreza na realidade brasileira venham melhorando lentamente. Ou seja, no plano social, o Brasil, mesmo que não piorando mais desde o controle da inflação, ainda tem muitos desafios a cumprir. Ao contrário da miséria rural que caracterizava o país nas décadas anteriores, a bomba da vez está na periferia das grandes cidades, cada vez mais caóticas, violentas, sem instituições definidas, sem condições higiênicas de comportar o volume populacional que comportam, e carregadas por massas humanas sem perspectivas de futuro.

Dado esse panorama, é mesmo muito triste que a intelectualidade brasileria ainda se prenda ao passado, à luta contra o autoritarismo, aos devaneios comunistas e ultra-nacionalistas e ao asco à realidade atual mundial. Tal comportamento vem abrindo caminho para as críticas anti-intelectuais (praticamente neo-positivistas) que vemos nos dias atuais, de que o intelectual seria um ente mentalmente inferior ao do técnico (com pérolas do tipo "quem sabe faz, quem não sabe pensa, escreve e ensina"). Isso está errado, pois ainda há muito sobre o que se pensar nesse país. Técnicos e intelectuais podem e devem coabitar a mesma realidade, e resolver os mesmos problemas de modo complementar.

No plano econômico, o processo de abertura externa e a limitação crescente dos instrumentos de política econômica são inevitáveis, mas o fim dos projetos e das idéias de desenvolvimento sócio-econômico de longo prazo não são. A grande questão atual é o crescimento de longo prazo, isto é, a possibilidade de o Brasil recuperar uma trajetória de crescimento compatível com a dos outros países em desenvolvimento no mundo. Para isso, o papel do Estado será fundamental, mas agora fundamentado nos níveis institucional e regulatório, já que os recursos fiscais e tributários disponíveis são cada vez menores. O desafio presente é pensar qual o modelo de desenvolvimento queremos para o Brasil, pensando sobretudo no longo prazo e em uma economia cada vez mais integrada com a comunidade internacional. Fatores e alternativas são abundantes (educação?, integração regional?, reformas institucionais?, quais?, como?).

No plano político, o desafio é recuperar a credibilidade da democracia brasileira frente aos choques institucionais. A apatia política, mesmo presente em todas as democracias consolidadas, não deve se refletir em convivência e aceitação de comportamentos anti-sociais de políticos, de todos os partidos e ideologias. O risco de um novo governo autoritário aparecer e ser apoiado popularmente para "dar ordem na casa" é remoto, mas não é impossível.

No plano social, o foco é a compreensão da estrutura nacional como um país urbano, em que as desigualdades convivem cada vez mais próximas. Ou seja, desaparece o pensamento tradicional cepalino de dualidade entre o centro industrial rico e a periferia agrária pobre. O Brasil de hoje apresenta riqueza e pobreza habitando conjuntamente os mesmos lugares, centro e periferia, campo e cidade. Por fim, a grande mobilidade social que o país vem apresentando nas últimas décadas, possibilitada sobretudo pelo crescimento do setor de serviços na estrutura econômica nacional, faz com que o modo de pensar e de agir dos grupos sociais urbanos nacionais percam boa parte de seu comportamento econômico (isto é, de ricos e pobres, classes sociais), para comportamentos mais individuais, decorrentes de fatores psicológicos ou mesmo de preferências (isto é, o surgimento e a expansão de tribos urbanas).

O livro de Tapajós é um início promissor de toda uma gama de fatores que compreendem a atual realidade brasileira, e são miseravelmente ignoradas pela maioria dos autores.

terça-feira, setembro 11, 2007

Citando Einstein

Nesses dias, visitei o Museu de Tecnologia da Oi, o que eu considero até agora como o principal ponto turístico cultural de Belo Horizonte (perde para a lagoa da Pampulha e a Praça do Papa). Nesse museu, que conta a história das telecomunicações, a exposição mais interessante é de uma máquina na qual se seleciona um determinado pensador, cientista ou poeta do passado, e a imagem 3D de um ator imitando esse pensador aparece em uma tela para falar, com interpretação teatral, as suas citações mais famosas. Eu cheguei a ver o Nostradamus, o Buda (falando de metodologia científica!) e o Einstein, e foi deste último que eu mais gostei.

Por isso, dedico esse post para incluir algumas citações inteligentes do Einstein que eu caçei pela Internet!

"A mais bela experiência que podemos ter é a do mistério. É a emoção fundamental existente na origem da verdadeira arte e ciência. Aquele que não a conhece e não pode se maravilhar com ela está praticamente morto e seus olhos estão ofuscados".

"A mente que se abre a uma nova idéia jamais voltará ao seu tamanho original".

"A palavra 'progresso' não terá qualquer sentido enquanto houver crianças infelizes".

"A tradição é a personalidade dos imbecis".

"Época triste a nossa em que é mais difícil quebrar um preconceito do que um átomo".

"Grandes espíritos sempre encontraram oposições violentas de mentes medíocres".

"Jamais esqueças que tua própria decisão de alcançar o sucesso é mais importante do que qualquer outra coisa".

"Lá longe existe um mundo vastíssimo, independentemente de nós, seres humanos, e que se apresenta para nós como um grande, eterno enigma, pelo menos parcialmente acessível à nossa inspeção e pensamento. A contemplação deste mundo acena para uma libertação".

"Nem tudo o que se enfrenta pode ser modificado. Mas nada pode ser modificado até que seja enfrentado".

"No meio de qualquer dificuldade encontra-se a oportunidade".

"O irracional respeito à autoridade é o maior inimigo da verdade".

"Para me punir por meu desprezo pela autoridade, o destino fez de mim mesmo uma autoridade".

"O nacionalismo é uma doença infantil: é o sarampo da humanidade".

"O que é mais incompreensível é que o universo seja compreensível".

"Quando se tenta conquistar uma garota, uma hora parece um minuto. Quando se está com o traseiro sobre um braseiro, um minuto parece uma hora. Isto é relatividade".

"Se as pessoas são boas somente por causa do seu medo de punição e sua esperança por recompensa, então nós somos, de fato, uma desculpa".

"Se um dia tiver que escolher entre o mundo e o amor lembre-se: Se escolher o mundo, ficará sem o amor, mas se escolher o amor, com ele conquistará o mundo".

"Todo mundo age não apenas movido por sua compulsão externa, mas também por necessidade íntima".

"Uma pessoa que nunca cometeu erros nunca fará nada de interessante".

"Jamais considere seus estudos como uma obrigação, mas como uma oportunidade invejável (...) para aprender a conhecer a influência libertadora da beleza do reino do espírito, para seu próprio prazer pessoal e para proveito da comunidade à qual seu futuro trabalho pertencer".

"O único lugar onde sucesso vem antes do trabalho é no dicionário".

segunda-feira, agosto 27, 2007

Efêmero - O Outro Lado da Parte do Diabo

www.youtube.com/watch?v=swTIIBOsmNw (VÍDEO NO YOUTUBE)

"Você nunca sabe o quanto pode custar uma escolha errada. Eu pensei que tudo fosse ser fácil. Não tinha nada a perder. Eu não tinha nada, mesmo."

"Eu só queria pertencer a esse mundo. Ter grana, um carro legal, umas roupas bacanas. E poder trazer a Lu nesses bares aí, levar ela no cinema, essas coisas. É foda não ter nada. Eu queria ter mais..."


O realista curta-metragem "Efêmero", de Yheuriet Kalil, mostra, de uma maneira hiper-dimensionada, um dos principais problemas da pós-modernidades, relacionado com a socialização entre pessoas super-individualistas. Pode-se fzer um paralelo entre os aspectos mais filosóficos o ponto de vista social desse filme com o livro de Michel Maffesoli (A Parte do Diabo), que eu li no início desse ano, o qual procura exatamente explicar as raízes sociológicas e filosóficas sobre o comportamento dos indivíduos no mundo moderno.

O filme, resumidamente, conta a história de um sujeito simples, um entregador de pizza que, para satisfazer seus anseios materiais e sentimentais (em relação a sua namorada Lu), envolve-se com dois indivíduos para assaltar pessoas na rua. O personagem demonstra durante todo o filme que seu objetivo nos crimes é puramente material, se incomoda com o sadismo de seus companheiros, e sua consciência o atormenta até o final do enredo. Aqui, podemos explicitamente destacar a questão da dualidade entre um individualismo extremado representado pelo desprezo que os personagens tem pelas instituições sociais vigentes, em nome de seus objetivos de curto prazo (o fato de "roubar pessoas na rua para ter grana para levar a sua namorada no cinema"), com um sentimento de inferioridade social, isto é, a angústia demonstrada pela necessidade de "pertencer a esse mundo", e de ser aceito pelos outros indivíduos. Tal dualidade é a chave de toda a ação dos três personagens principais, e cada um deles apresenta um certo grau de consciência de suas ações, que afeta o seu pensar e agir, passando desde o arrependimento do personagem principal, até a psicopatia pura e fria de um dos cúmplices.

O livro de Maffesoli, por sua vez, busca explicar o comportamento individual (e suas conseqüências sociais) na pós-modernidade. Segundo o autor, atualmente os indivíduos agem e pensam de maneira cada vez mais momentânea e isolada. Isto é, o "tipo puro", em uma linguagem weberiana, do indivíduo pós-moderno, é a "criança eterna", que age pelo seu prazer pessoal no período imediato, não se preocupa com as conseqüências de suas decisões e não assume compromissos. Em suma, é um indivíduo que não distingue os princípios do "bem" e do "mal", de acordo com a tradicional moral judaico-cristã. Ou seja, o que vale para suas decisões é o seu prazer máximo, e agora. Segunso Maffesoli, tal indivíduo explica as crises das instituições sociais, a apatia política e intelectual, e o culto ao corpo e à aparência em detrimento ao do trabalho e do comprometimento.

Segundo Maffesoli, tal indivíduo representa não a desagregação da sociedade ocidental, mas uma evolução a uma nova sociedade, que, de acordo com o autor, seria mais pacífica e tolerante que a anterior, já que o "combater o mal", raiz de todas as guerras nas sociedades patriarcais, seria abolido em nome de um "conviver com o mal" moderno, pela aceitação dos diferentes (conseqüência de uma sociedade mais individualista e independente). Ou seja, o autor se mostra otimista com a nova tendência da sociabilidade no mundo ocidental.

Contudo, o filme mostra um outro lado dessa nova sociedade. As coisas não parecem andar tão harmonicamente como Maffesoli imagina. As "crianças eternas" usam a violência para alcançar seus impulsos individualistas, imediatistas e momentistas, que sempre forma associados ao conceito de "Mal" pela moral social tradicional. E, mesmo que a ciência econômica tome como dado que todo indivíduo, em qualquer lugar e em qualquer época, age de acordo com a maximização de seu bem estar esperado, é bem verdade que as pessoas agem dentro de ambientes sócio-institucionais. Isto é, cada indivíduo não é uma ilha isolada, mas suas ações tem conseqüências para seus semelhantes, e, se a sociedade aceita que o bem estar de um pode ser ampliado pelo detrimento do bem estar alheio, certamente, haverão problemas de interação entre os indivíduos.

Obviamente não se defende, aqui, que a sociedade pós-moderna deva ser substituída pela sociedade tradicional. Muito pelo contrário, qualquer um que já tenha lido Aluísio de Azevedo sabe que as instituições vigentes podem ser tão ou mais violentas contra a liberdade e a felicidade individual do que os próprios indivíduos. Além disso, o tempo não pára e não volta atrás, e a interação social responde a comportamentos individuais que variam de acordo com incentivos dinâmicos, e até mesmo, algumas vezes aleatórios. Além disso, comparar indicadores de felicidade individual em diferentes sociedadas simplesmente não faz sentido. Contudo, o filme "Efêmero" nos dá muito menos otimismo sobre a sociedade pós-moderna do que a visão de Maffesoli e alguns outros autores ultra-individualistas.

segunda-feira, agosto 20, 2007

Logical Song (Supertramp)

Essa música, originalmente da banda new-age Supertramp, tem uma versão muito legal tocada pelo violonista brasileiro Emmerson Nogueira, gravada no disco Versão Acústica Vol. 2.

When I was young
It seemed that life was so wonderful
A miracle, oh it was beautiful, magical
And all the birds in the trees
Well they'd be singing so happily
Oh joyfully, oh playfully watching me
But then they sent me away
To teach me how to be sensible
Logical, oh responsible, practical
And they showed me a world
Where I could be so dependable
Oh clinical, oh intellectual, cynical

There are times when all the world's asleep
The questions run too deep
For such a simple man
Won't you please, please tell me what we've learned
I know it sounds absurd
But please tell me who I am

Now watch what you say
Or they'll be calling you a radical
A liberal, oh fanatical, criminal
Oh won't you sign up your name
We'd like to feel you're
Acceptable, respectable, oh presentable, a vegetable

At night when all the world's asleep
The questions run soo deep
For such a simple man
Won't you please, please tell me what we've learned
I know it sounds absurd
But please tell me who I am, who I am, who I am, who I am

Às vezes o conhecimento parece estar tão longe do Homem e de suas perguntas, a ciência parece ser o seu mestre, e não o seu instrumento de trabalho, a inteligência parece ser inimiga mortal da criatividade, e o intelectual parece se transformar em um simples técnico reprodutor não-crítico e não-pensante de conhecimentos passados...

terça-feira, junho 05, 2007

Não Sou Liberal, Não Sou Marxista

Texto interessante que eu encontrei em um blog, navegando pelo Google.

Concordo muito com o que o autor escreve sobre aquelas pessoas que, dentro das ciências sociais, gostam de rotular o pensamento alheio, e também a si mesmas, e se imaginar em uma guerra entre as escolas de pensamento, num jogo maniqueísta de "nós, os bons" contra "eles, os maus".

Normalmente quem se intitula alguma coisa, o faz pela necessidade de afirmação frente a outras pessoas, devido ao pífio conhecimento e aprofundamento sobre a determinada teoria e uma certa dose de imaturidade.

Só uma coisa eu não concordo com o autor. Não me intitulo anarquista.

quarta-feira, maio 23, 2007

Econometria, a Área mais Humana da Economia?

Estudando econometria desde o final de janeiro, e após passar por duas provas, muitos relatórios, e muitas horas debaixo de manuais, observo que o meu bloqueio para entender os conceitos básicos e a intuição dessa matéria vem caindo lentamente.

É bem curioso de se observar que, sendo a Econometria uma área originalmente dedicada à observação empírica quantitativa dos fatos econômicos, com o seu desenvolvimento contemporâneo, vem se preocupando cada vez mais em analisar os fenômenos econômicos sob uma ótica social, com a difusão do uso de variáveis instrumentais para estimar variáveis até então consideradas não-quantitativas, e, por isso, ignoradas dos modelos econômicos modernos. Mais do que isso, para se evitar problemas de viés nos modelos de estimação, provocados pela endogeneidade das variáveis explicativas (por simultaneidade com as variáveis explicadas, erros de medida ou correlação com variáveis não-observadas), os trabalhos em econometria se preocupam em descrever, de forma a contornar analiticamente, possibilidades de "viés social", ou "viés cultural" nas estimativas de dados de populações, as quais podem inclusive distorcer empiricamente as conclusões esperadas pela teoria econômica tradicional.

Estou preparando uma apresentação de um artigo (que vai me ajudar a recuperar nota na primeira prova...) que busca encontrar correlações entre as condições de saúde dos trabalhadores e os seus salários em países africanos. Nas estimativas, as condições de saúde foram medidas pelos dias de falta ao trabalho devido a doenças, e, para contornar os prováveis erros de medida desses dados (pois os trabalhadores autônomos podem adaptar seu trabalho a sua condição de saúde, e os assalariados podem evitar faltar ao emprego mesmo se estão doentes), assim como a correlação da saúde com o potencial biológico de cada indivíduo (não-observável), os autores incluíram variáveis instrumentais para a estimativa, tais como o preço dos alimentos nas regiões da África em que os indivíduos vivem, a infra-estrutura social de cada comunidade e os investimentos do país em saúde infantil. Além disso, o artigo aponta a possibilidade de haver um viés social para a estimativa de doenças, no sentido de que pessoas com mais renda e educação tendem a se preocupar mais com sua saúde e procurar médicos com mais freqüência, e viés cultural, já que o conceito de "boa saúde" varia de comunidade para comunidade.

É muito reconfortante poder ver que, em um contexto acadêmico na qual a Teoria Microeconômica foi engolida pela Análise Matemática, e a Teoria Macroeconômica pós-novo-clássica se resume a maximizar funções de utilidade de indivíduos representativos, cuja desutilidade pelo trabalho determina o nível de emprego e crescimento do produto, alguns economistas se preocupam com fatores sociais mais verossímeis, e demonstram interesse em utilizar conceitos teóricos de outras ciências sociais, de modo a abrir espaço para abordagens multidisciplinares dos problemas humanos.

quarta-feira, maio 16, 2007

Sobre a Necessidade de Conteúdo Factual na Economia

Estudando muito para a prova de econometria de sexta feira. Desejem-me sorte!

Todos aqueles que estudam, ou estudaram economia, seja o curso inteiro de graduação em Ciências Econômicas, seja pelo menos uma disciplina de Introdução à Economia voltada para outros cursos (como Administração, Direito, Jornalismo, etc.) leva um choque acadêmico logo nas primeiras semanas de aulas e estudos. Pelo menos umas 90% das pessoas que nunca haviam estudado economia antes imaginam que éssa é uma matéria de carátar essencialmente empírico (o que é certo, pelo menos formalmente), e de método de análise indutiva. Isto é, antes de começar a estudar, as pessoas imaginam que e Ciência Econômica é construída a partir de estudos de casos particulares (como um determinado país, ou uma determinada empresa, em exemplos macro e microeconômicos), por observação pura, de modo que as características particulares de cada caso estudado forneça um instrumental que pode ser levado ao estudo geral da economia. Ou seja, tal como acontece de fato na administração, imagina-se que, na economia, primeiro se observa os fatos reais, e só depois esses fatos induzem os pesquisadores a tirar teorias gerais.

Contudo, na verdade, e como é percebido logo na segunda semana de aula de Introdução à Economia para qualquer curso, a economia tem um método hipotético-dedutivo, tal como é o método da física e das ciências naturais em geral. Isto é, em uma teoria econômica, inicia-se o estudo levantando uma série de hipóteses sobre o comportamento de algum agente representativo (um consumidor, uma empresa, um governante), ou de alguma função econômica (como a demanda agregada macroeconômica), e a partir de todas as hipóteses levantadas, deduz-se logicamente as suas implicações, formando-se um modelo geral sobre as mudanças de comportamento dos agentes e das funções quando determinadas variáveis incluídas nas hipóteses levantadas mudam. Contudo, é importante destacar que, enquanto na física e nas ciências naturais as hipóteses levantadas nos seus modelos são as próprias "leis naturais" descobertas ao longo do desenvolvimento teórico dessas próprias ciências, na economia, devido ao natural comportamento estocástico do ser humano, as hipóteses não são exatas, mas são apontadas a partir de correlações entre variáveis, supostas ou observadas em estudos anteriores.

O uso do método hipotético-dedutivo é muito importante para a construção da ciência econômica por motivos tanto qualitativos, de forma que as hipóteses levantadas são explícitas nos modelos, e podem ser livremente alteradas por quem quer que discorde de alguma delas, de modo a se tomar novas conclusões lógico-dedutivas, como quantitativos, já que a construção de modelos a partir de hipóteses e formas funcionais levantadas permitem a estimação empírica não apenas de COMO as variáveis econômicas interagem, mas também de QUANTO essas variáveis mudam quando recebem alguma outra variável do modelo recebe um choque exógeno. Ou seja, mesmo de método teórico hipotético e dedutivo, a Ciência Econômica continua voltada para a explicação do mundo real, isto é, dos fatos econômicos.

Contudo, em muitos casos, e de um modo cada vez mais freqüente nos dias atuais, os economistas dão muito mais ênfase nos métodos lógicos do que na explicação dos fatos econômicos em si. Ou seja, quem estuda economia acaba se vendo forçado a ver modelos teóricos cada vez mais complexos, construídos sobre bases hiptéticas muito restritivas, que buscam explicar realidades que muitas vezes ainda não são conhecidas pelos alunos. Isso faz com que muitos desses estudiosos acabem assimilando que estudar economia se limita a decorar teoremas e modelos gerais de manuais, sem ter nenhuma preocupação sobre qual uso prático esses teoremas e modelos se aplicam, e como eles se adequam à realidade. Assim, o estudo deixa de ter um lado intuitivo e se torna uma grande "decoreba" de demonstrações matemáticas e de hipóteses para simplificar os cálculos. E, enquanto isso, os pesquisadores desenvolvem suas teorias mais preocupados em mostrar uns para os outros sua "inteligência abstrata" do que buscar explicar a realidade.

Assim, as disciplinas de economia aplicada dentro da CIência Econômica (Economia Industrial, Economia Agrícola, Economia Internacional, etc.), devem usar os métodos das teorias econômicas básicas para construir modelos capazes de dar conclusões empiricamente factíveis da realidade. Mas é muito importante que nessas abordagens, os estudos de fatos econômicos e de casos particulares façam parte da matéria a ser aprendida, de forma que os alunos dos cursos, e todos os estudiosos interessados, tenham uma noção real sobre o que se passa nesse mundo concreto que eles devem usar os instrumentais teóricos para explicar, assim como um conhecimento aprofundado sobre os problemas econômicos reais associados a essas áreas específicas de estudo, de forma que o economista tenha um racicínio, além de dedutivo, intuitivo e crítico a respeito da realidade.

Esse foi um texto escrito por um economista com saudade dos textos de economia brasileira e de economia aplicada em geral que lia nos seus anos de graduação.

terça-feira, maio 08, 2007

Homenagem aos Bons Amigos que se Foram

Conforme fiquei sabendo via Orkut, meu professor de literatura do terceiro ano do Anchieta, Sergio Fischer, faleceu na quinta-feira passada. Deixará saudades para todos os alunos, ex-alunos e amigos.

Em um curto espaço de tempo, perdi três amigos ainda jovens, com muitas expectativas e planos para o futuro que subitamente, e inexplicavelmente foram ceifados. Em setembro passado, meu colega da UFRGS Luciano Cezar, 33 anos, foi abatido pela pneumonia em Fortaleza (CE), onde estava concluindo seu mestrado em economia, e já estava se preparando para o doutorado. Em novembro, Gabriel Pillar, 22 anos, meu colega de colégio de 1994-96 e 1998-2001 sofreu um acidente de trânsito, que foi inclusive muito comentado pela mídia gaúcha, por ter destruído um poste telefônico com o choque. O Pillar estava se formando em jornalismo pela UFRGS, defenderia sua monografia dois dias depois do acidadente e rumaria para o Canadá para fazer mestrado. Agora, o Sergio Fischer, 42 anos, faleceu de câncer, conforme fiquei sabendo. Além de ser ótimo professor, muito querido pelos alunos, tinha filhos pequenos para criar.

Para aqueles que se vão, cito uma passagem de John Donne (1572-1631), que foi lembrada por Ernest Hemingway no seu clássico "Por Quem os Sinos Dobram":

"Nenhum homem é uma ilha, sozinha; todo homem faz parte do continente, parte de outra terra; se um pedaço for levado pelo mar, a Europa diminui, como se fosse um monte, ou a casa de um de teus amigos ou até mesmo a tua; a morte de qualquer homem me diminui, porque faço parte da humanidade; assim, nunca pergunte por quem os sinos dobram: eles dobram por ti."

Observação: em inglês, perguntar "por quem os sinos dobram?" (for whom the bell tolls) é uma forma formal de se perguntar "quem morreu".

segunda-feira, abril 23, 2007

Memórias - Primeiro Dia de Aula na Graduação da UFRGS

Esse foi um tema de conversa entre os três membros da República Gaúcha do CEDEPLAR (Eu, Bruno e Rubens) em um boteco da Cidade Nova, regada a cerveja. Mesmo vários anos após a entrada na faculdade (5 anos para mim, 7 ou 8 anos para eles), relembramos os primeiros dias como se tivessem ocorrido na semana passada.

Meu primeiro dia de aula na UFRGS aconteceu em uma segunda-feira, em maio de 2002. A aula era para começar logo depois do jogo entre Brasil e Turquia na abertura da Copa do Mundo da Ásia, isto é, ali pelas 8 da manhã. Eu me lembro que fazia um clima nublado e escuro, aquela umidade morna muito característica de Porto Alegre, e que eu não sinto a menor saudade agora vivendo em Belo Horizonte.

Cheguei na FCE acho que meia hora antes. Não sabia qual era a sala de Introdução à Economia, mas sabia que ficava numa tal de Ëscola Técnica de Comércio". Perguntei para os porteios da faculdade. Obviamente, eles não sabiam, e voltaram a dormir logo depois (o cheiro deles, de cigarro misturado com suor e café velho me causou repugnância). Em seguida, perguntei para um cara de terno, gravata e pasta de couro que estava no saguão da FCE. Me lembro que o chamei de "senhor", achando que ele era um professor. Depois, vi que ele era estudante de Administração, e meu colega em Introdução à Contabilidade. O cara me falou: "Olha, pergunta para o cara do bar, que ele é quem mais sabe das coisas por aqui."

Então, entrei no bar do Fabiano (fundos do saguão da FCE) e perguntei. Incrivelmente para mim, ele sabia de cor o lugar da Escola Técnica de Comércio e o número da sala de Introdução à Economia, e ainda me falou como chegar lá (naquela época, ainda tinha aquela grade separando os prédios da Economia e do Direito da UFRGS). Atravessando um corredor de lodo (também não tinham colocado piso de pedra ao redor da FCE), cheguea a tal Escola Técnica, um cortiço de várias salas de aula paralelas, localizado nos fundos da FCE, entre um estacionamento e um depósito de lixo. De cara, vi que o cheiro e o barulho do lugar não correspondiam ao que eu esperava de uma universidade federal (más influências do Colégio Anchieta).

Cheguei na porta da sala de aula, tinha um sujeito gordinho sentado na mesa do professor a fazer discursos para a turma. Pedi autorização para entrar, pois estava atrasado, e ele prontamente me concedeu. Só que ele não era professor, era um colega meu, de histórias muito famosas pela faculdade, que será carinhosamente chamado de X nesse post. Pois bem, mal entrei na sala e sentei-me ao lado de um colega chamado Mauro (que se tornou um dos meus melhores amigos em toda a graduação), e X soltou sua primeira pérola: "Agora que chegou mais gente, vamos começar uma nova rodada de apresentações. Meu nome é X, tenho 22 anos, sou de família descendente de russo com polonês e eu danço polka". Em seguida, me apresentei: "Meu nome é Ricardo, tenho 17 anos e sou colorado." Os demais colegas preferiram, assim como eu, se apresentar com nome idade e time de futebol, sem entrar em detalhes de origem familiar e habilidades com dança.

A professora de Introdução à Economia não apareceu (um professor matar aula? Na UFRGS? Onde já se viu? Assim pensamos toda a turma...), e todos os colegas conversamos bastante, criando nossos primeiros laços de amizade. Me lembro que estavam lá o Mauro, o Matheus, o Rodrigo, o Rafael, a Rafaela Grazziotin (famosa jornalista do RS, e muito amiga minha), o André, a Luana, o Julius, o Oliver, o Fabiano (jornalista da Zero Hora), o Peteffi, a Luciana, e um senhor de cerca de quarenta anos chamado Cândido Ernesto, que fez um discurso sobre o esforço para voltar a estudar depois de várias décadas. Detalhe que ele sumiu da faculdade no segundo semestre do curso.

Às 9:30 da manhã nos dirigimos para a sala 22 da FCE (mas que memória, hein???) para a aula de Cálculo Diferencial Integral I. Cálculo I, mesmo tendo uma matéria trivial comparado com a matemática que estou vendo agora, já deu uma boa idéia das aulas de matemática pós-colégio: páginas e mais páginas de caderno para copiar, milhares de demonstrações e exemplos, e, quem quiser fazer exercícios, pegue o manual e faça em casa porque o gabarito está no livro. Me assustei com o ritmo da aula, mas já estava esperando isso.

Às 11:10 da manhã, voltei caminhando para casa com o Peteffi e X, que ficou o tempo todo contando a história de sua família e da Rússia, prendendo nossa atenção.

Os demais dias do primeiro semestre da graduação não me trazem tantas lembranças. No segundo dia, conheci colegas e professores novos, ainda achava estranho ter cada aula em uma sala (ou mesmo prédio) diferente, com uma turma diferente, envolvendo alunos de Economia, Contábeis, Atuariais e Administração, conheci o RU, viciei-me em café preto, comecei a jogar sinuca no DAECA (ensinado pelos tablemasters Éverton e Risco), levei trote (e até que gostei).

Outro dia escrevo mais lembranças antigas da UFRGS. Mas, é verdade, parece que tudo isso aconteceu na semana passada.

quinta-feira, janeiro 25, 2007

Liberalismo, Coletivismo e Pós-Modernidade

Um dos principais focos das ciências sociais em geral (incluindo a literatura real-naturalista) se trata de explicar as relações possíveis entre o ser humano como indivíduo e o seu meio social, coletivo. Tais relações podem ser vistas nos mais diversos ângulos, de acordo com as diferentes correntes de pensamento dos autores, sendo que alguns procuram focar em questões determinísticas (isto é, como o meio social determina o individual, ou vice-versa), enquanto outros procuram focar sua análise sob um ponto de vista moral, dos possíveis conflitos entre a individualidade e a sociedade, pendendo para o lado que mais estiver de acordo com sua posição ideológica. Contudo, entre os autores mais atuais, a relação entre indivíduo e sociedade não tem mais um tom determinístico; reconhece-se a influência entre ambas as esferas, com ponderações relativas para cada cultura, mas não é possível deter-se num ponto de superioridade de uma delas sobre a outra que valha para a humanidade como um todo, englobando todo o tempo e espaço.

Autores sociais de corrente liberal, muito populares hoje em dia, parecem concordar que o homem é naturalmente livre e racional (para melhor compreensão desses conceitos, o estudo da obra de John Locke é fundamental). Contudo, dada a sua racionalidade, o homem sabe que viver em sociedade é muito mais produtivo do que viver isolado, pela possibilidade da divisão e especialização do trabalho entre os membros dessa sociedade (ver Adam Smith). Contudo, para resolver possíveis conflitos decorrentes da vida em sociedade, os homens como indivíduos racionais naturalmente delegam (pelo que Locke denominou "Contrato Social") seus poderes de julgar e executar normas morais para um ente externo, denominado Estado. O Estado, portanto, teria o papel de criar leis, fazer com que elas sejam cumpridas e punir quem não as cumpre, como modo de minimizar os conflitos individuais decorrentas da vida em sociedade. Qualquer maior poder para o Estado significaria uma invasão da coletividade sobre a individualidade, o que, além de ser anti-natural, segundo essa ideologia (pois a natureza do homem está voltada à liberdade), provocaria uma repressão da sociedade às liberdades individuais, acarretando em uma série de danos para ambas as esferas: para os indivíduos, a repressão da expressão de sua racionalidade, em suma, a busca de sua felicidade; para a sociedade, o bloqueio à criatividade, à meritocracia e ao próprio progresso social, já que todos esses valores estão ligados às iniciativas individuais.

Em resumo, segundo o liberalismo tradicional, bastaria reduzir-se o papel do Estado (a ligação institucional e racional entre o coletivo e o individual) ao mínimo possível para que a pressão social sobre a iniciativa individual - o fenômeno descrito como "coletivismo" - fosse minimizada e os indivíduos seriam totalmente livres para buscar a sua felicidade, desde que não afetassem a felicidade alheia. E indivíduos livres e felizes agiriam livremente buscando o melhor para si, o que, por somatório, levaria a sociedade como um todo a um progresso contínuo.

Contudo, a pós-modernidade atual parece indicar falhas empíricas a essa teoria. Atualmente, as instituições políticas estão em profundo descrédito no mundo inteiro. Grande parte das pessoas considera que políticos burocratas (o Estado Moderno) não passam de corruptos hipócritas (basta observar a evolução do significado do termo "burocrata" desde Max Weber até a atualidade), traduzindo-se em um baixo comprometimento das pessoas com as instituições democráticas, enquanto que a religião tradicional (o Estado Arcaico) é vista como retrógrada e cega, sendo progressivamente pulverizada em pequenas seitas e igrejas com características próprias, agindo muito mais como "bens de consumo espiritual" do que como normas morais. Mesmo o aprofundamento do radicalismo islâmico no Oriente Médio, ou do messianismo político em países da América Latina parecem ser antes a expressão da decadência dos valores do passado do que uma reação à cultura pós-moderna.

Contudo, mesmo com a atual decadência da política (tanto burocrática quanto espiritual), não é empricamente visível que as pessoas, individualmente falando, vem se tornando progressivamente mais autônomas em relação à sociedade. Muito pelo contrário, o que vemos atualmente é a divisão dos membros individuais da sociedade em grupos, denominados pelos autores de "tribos urbanas", cada qual com sua cultura, incluindo código moral e expressão artística, própria. Tal fenômeno é muito mais perceptível entre a população jovem, o que destaca ainda mais a sua novidade. Particularmente no Brasil, a população urbana de baixa renda se identifica com a "Cultura Hip-Hop", com linguajar, vestuário, expressão cultural (a Black Music e o grafite) e comportamento característicos. Dentre a população de mais alta renda parece predominar um movimento "Geração Saúde", valorizando primordialmente o próprio corpo, tanto em saúde como em aparência física, a prática de esportes radicais, o consumismo e a cultura Pop, isto é, a cultura de consumo instantâneo, de modas passageiras. Além dessas correntes predominantes, tanto na população de alta como na de baixa renda aparecem também grupos alternativos, como neo-hippies, rockeiros, metaleiros, punks anarquistas, comunistas, nerds, gays, góticos, clubbers.

Contudo, além da divisão da sociedade em grupos, não há comprovação empírica de que as pessoas de hoje em dia sejam mais felizes do que as de gerações atrás. E menos ainda que as pessoas estejam mais criativas - e consequentemente mais inteligentes - do que seria esperado como conseqüência do enfraquecimento das instituições políticas coletivistas, segundo a ideologia liberal predominante, como pode-se ver pela decadência da educação (principalmente pela falta de entusiasmo dos estudantes com o aprendizado) e pela baixa qualidade da produção cultural atual, cada vez mais massificante. E muito menos, mas muito menos mesmo, vem acontecendo um declínio dos conflitos sociais nos últimos tempos. Pelo contrário, há uma rivalidade entre tribos, principalmente entre as tribos hegemônicas contra as demais, mas também dentro de cada tribo, o que, além de traduzir-se em violência física, provoca uma indesejável pressão social sobre as decisões individuais de busca da felicidade.

Ou seja, as pessoas tendem a se submeter ao seu grupo social de tal modo que a individualidade acaba oprimida pelo seu meio. A ação humana deixa de ser em busca de sua felicidade para ser em busca de reconhecimento pelo grupo. Mesmo sem as grandes instituições políticas tradicionais, a sociedade oprime seus indivíduos de maneiras informais, traduzidas nesse coletivismo de tribo. Suas expressões são a massificação cultural, a mediocratização da intelectualidade e a alienação dos indivíduos em relação a sociedade como um todo, preferindo se isolarem em seus grupos.

Com o texto escrito, o autor não defende, de forma nenhuma, uma volta repressora das instituições tradicionais como forma de quebrar os grupos sociais e integrar todos os indivíduos em um só corpo social, como ocorria anteriormente. Muito pelo contrário, o autor, de ideologia predominantemente democrata, com um viés social em assuntos econômicos, e outro liberal em assuntos sócio-políticos e cético-pluralista em assuntos espirituais, abraça e defende a idéia da busca de felicidade com ideal de vida para cada indivíduo. Por isso, a crítica social presente nesse texto não tem um tom moralista; se as pessoas gostam de ser vazias e medíocres, que sejam, desde que respeitem aqueles que discordam desse modo de agir e pensar. Porém, cabe destacar a insuficiência da ideologia liberal, mainstream das Ciências Sociais atuais, em apontar uma situação de equilíbrio de bem-estar social e individual empiricamente comprovável.

terça-feira, janeiro 09, 2007

A Literatura como Ciência Social

Todos nós, cientistas sociais (economistas, sociólogos, antropólogos, cientistas políticos e jurídicos, historiadores, filósofos) empenhamos nossa vida profissional e acadêmica em desenvolver modelos analíticos, muitas vezes mais complexos do que os das ciências naturais, seja em linguagem retórica ou matemática, buscando compreender, ou melhor ainda, prever o comportamento humano, individual e coletivo.

Contudo, muitas vezes nossos modelos (ou mesmo teses, teorias, enfim...) tornam-se o centro de nossas pesquisas; ao invés de buscarmos prever a realidade usando o nosso instrumental, chegamos muitas vezes a realizar exatamente o oposto: usamos a realidade para prever o que aconteceria nos nossos modelos. Tal fator, se por um lado é importante para a melhoria e a evolução no aparato teórico das ciências sociais, tem a má conseqüência de afastar o pensamento dos intelectuais da esfera social, tornando a ciência, em seu conjunto, aparentemente prolixa para o público leigo.

Por outro lado, em todas as ciências sociais, distintas escolas de pensamento parecem concorrer predatoriamente entre si, cada qual gabando-se de possuir supostamente as melhores teorias e o melhor método de abordagem da realidade. Ao menos na economia, mas acredito que isso se espalhe em todas as demais ciências sociais, tal situação faz com que as escolas de pensamento acabem mantendo suas teorias como dogmas, inflexíveis à crítica (mesmo construtiva), à reflexão e ao debate republicano com as demais escolas, buscando principalmente a chegada a sínteses teóricas e concordâncias entre as correntes ideológicas.

Por outro lado, a literatura parece ser mais parcial, no sentido de ser mais subjetiva. Autores literários, pelo menos a partir de meados do século XIX, tendem a escrever levados muito mais por suas paixões individuais do que a dogmadismos acadêmicos. Mesmo que esse viés individual possa ser (e certamente é) um fator de viés irrealista na narrativa, como se pode perceber no aspecto de pesadelo presente na obra de Franz Kafka, por exemplo, é igualmente óbvio que o mesmo fator também apareça em teses acadêmicas em ciências sociais. Por mais frio que um autor seja em sua abordagem teórica e empírica, certamente na sua conclusão o mesmo dissertará sobre o tema que estiver pesquisando com base não apenas na sua observação, mas em aspectos mais profundos de sua individualidade. Porém, ao contrário da literatura, no mundo acadêmico as obras são duplamente viesadas: tanto pela individualidade do autor como pela sua escola de pensamento. Em resumo, na literatura, o viés da abordagem é meramente subjetivo; nas demais ciências sociais, é ao mesmo tempo subjetivo e coletivo.

Mesmo que ao estudarmos a história da literatura nos deparemos com autores sendo catalogados e rotulados como pertencentes a uma ou outra determinada corrente literária, é preciso se lembrar que tais rótulos são definidos por estudiosos, e não exatamente por esses mesmos autores. Por exemplo, José de Alencar nunca definiu a si mesmo como "Eu sou um romântico"; foi com base em elementos de sua obra e em seu período cronológico que estudiosos o catalogaram como "autor romântico".

Assim, não se deve desprezar a literatura como uma importante fonte de dados e observações para as ciências sociais. Uma boa lida em "O Tempo e o Vento" de Érico Veríssimo pode ser uma fonte de conhecimento talvez muito mais rica do que qualquer manual de história do Rio Grande do Sul, em um exemplo óvio. Mas o mesmo vale para a obra de Mark Twain em relação à sociedade do meio-leste norte-americano em meados do século XIX, ou Charles Dickens e Èmile Zola dissertando sobre as conseqüências socias da Revolução Industrial na Europa.