Mostrando postagens com marcador PNAD 2007. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador PNAD 2007. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, agosto 02, 2010

A Distribuição de Renda No Brasil segundo a PNAD 2007 (2)

Nesse post, vou comentar sobre a distribuição dos decis de renda domiciliar per capita brasileiros de acordo com as regiões do país em que vivem. Os dados da PNAD 2007 revelam os seguintes gráfico e tabela:



A tabela mostra a proporção da população de cada região que se encontra em cada um dos decis de renda, calculados tal como no post passado, de modo que as colunas somam 100%. Eu preferi calcular esse indicador por esse critério ao invés de fazer a conta inversa - qual porcentagem de cada decil brasileiro reside em cada região - como modo de controlar o efeito do tamanho populacional das regiões nordeste e sudeste em relação às demais. Além disso, resolvi separar o Distrito Federal do resto da região Centro-Oeste, pela diversidade da estrutura econômica (funcionalismo público versus agronegócio).

O gráfico revela quatro distintos padrões na distribuição regional de renda no Brasil. Primeiro, as regiões mais pobres - Nordeste e Norte - apresentam a maior parte das suas populações no primeiro e segundo decis, e linearmente cada vez menos a partir do terceiro. A desiguladade é explicitamente maior no Nordeste, que tem uma distribuição quase que hiperbólica, do que no Norte. Segundo, a região Centro-Oeste (sem o Distrito Federal) apresenta a distribuição populacional mais homogênea entre os decis no país. Esse resultado não deixa de ser surpreendente, já que há um discurso quase que universal de que o setor agrícola, particularmente referente ao agronegócio, seria a principal causa da concentração de renda no Brasil, pela concentração da propriedade fundiária. Terceiro, as regiões Sul e Sudeste apresentam distribuição de renda semelhante, com a maior parte da população entre o sexto e o nono decis, ainda que a região Sul tenha menos pobres. Quarto, por fim, chama a atenção a distribuição de renda do Distrito Federal: nada menos do que 27,5% de sua população está entre os 10% mais ricos do país.

Agora temos uma boa idéia do que gera concentração de renda no Brasil.

sexta-feira, julho 09, 2010

A Distribuição de Renda No Brasil segundo a PNAD 2007 (1)

A partir desse post, vou publicar alguns gráficos que montei a partir de dados da Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios (PNAD) referente ao ano de 2007 para ilustrar alguns aspectos da distribuição de renda no Brasil.

Em primeiro lugar, meus gráficos são montados pela distribuição de indicadores sócio-econômicos por decis de nível de renda per capita domiciliar. Os decis são montados de uma maneira muito simples: eu listei todos os indivíduos do banco de dados com base na renda mensal per capita de seu domicílio (variável construída já presente no banco de dados original), do mais pobre ao mais rico, e dividi a população assim listada em dez grupos com um mesmo número de pessoas, isto é, em quantis. Esses grupos são os decis populacionais, e são organizados da seguinte maneira: o primeiro decil engloba os 10% mais pobres da população, o segundo engloba dos 11% aos 20% mais pobres, e essa logica segue até o décimo decil, que integra os 10% mais ricos.

Após a construção dos decis populacionais, pode-se comparar as características sociais, econômicas e demográficas das diferentes faixas de renda. Assim, importantes perguntas podem ser respondidas a respeito da distribuição de renda no Brasil.

Em primeiro lugar, a distribuição da renda de acordo com duas medidas, a renda domiciliar per capita (variável utilizada para construir os decis), e a renda individual do trabalho. O resultado é o seguinte:


Pelo gráfico, é possível visualizar o "desfile de anões" na sociedade brasileira. Esse conceito foi cunhado por um autor importante da Economia do Bem-Estar Social em um paper que li no mestrado (acho que era o Angus Deaton). Em resumo, o autor imaginou uma população cuja altura das pessoas fosse proporcional a sua renda, em comparação com a média da sociedade. Além disso, esse país imaginário possui um desfile de carnaval anual em que todas as pessoas desfilam, e os blocos são organizados por ordem de altura das pessoas (primeiro os baixinhos, depois os gigantes). Segundo o autor, se a distribuição de renda desse país fosse semelhante aos dos países reais, tal carnaval seria um verdadeiro desfile de anões, em que a grande maioria da população seria de altura bastante inferior à média, ao passo que os últimos indivíduos a desfilar seriam titãs colossais de vários quilômetros de altura.

Isso é exatamente o que vemos no gráfico. A distribuição de renda é praticamente linear até o oitavo decil, a partir do qual cresce exponencialmente. Além disso, a renda domiciliar per capita do décimo decil é quase o dobro em relação a do nono.

Também é possível ver que a renda domiciliar per capita e a renda individual do trabalho são coincidentes até o oitavo decil, o que demonstra que o fator trabalho é praticamente a única fonte de renda para cerca de 80% da população brasileira. Não sei se a base de dados inclui o recebimento dos programas públicos de transferências de renda, como o Bolsa Família. Se incluir, está indicando que esses programas ainda são muito tímidos para elevar o bem-estar das famílias mais pobres.

Por fim, o gráfico permite ver qual é o perfil de renda da classe alta brasileira, isto é o décimo decil. A renda desse grupo é de cerca de 1500 reais per capita. Imaginando-se uma família de quatro pessoas, dois adultos e duas crianças, isso equivale a uma renda familiar total de 6000 reais por mês. Ou seja, a "elite" brasileira é predominantemente composta por famílias em que o pai ganha R$ 3500 por mês, e a mãe, R$ 2500, e sustentam dois filhos. Isso é muito diferente das "elites" descritas pelos discursos dos políticos do governo federal, ou do que o senso comum pensa. Não são mega-empresários, não são juízes do Supremo Tribunal Federal, não são políticos do alto escalão do governo, não são os chefes do tráfico do Rio de Janeiro e não são os coronéis nordestinos de chapéu branco, representados das novelas da Globo.