Nessa última semana, fiquei sabendo que aquele artigo que fiz sobre o Imre Lakatos e a aplicação de suas idéias na ciência econômica está circulando bastante pela Internet.
Primeiro, vi que ele está fazendo parte da bibliografia básica do curso de Metodologia Econômica para a graduação em Economia na Universidade Federal de Santa Catarina.
Depois, o Vítor escreveu um post bem aprofundado sobre a metodologia da economia mainstream no blog dele. Não só citou o meu artigo, como também tentou corrigir o trabalho clássico do Weintraub, identificando aquilo que considera como núcleo irredutível de hipóteses estruturantes da teoria econômica. Em breve, vou comentar aqui o que achei.
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quinta-feira, setembro 09, 2010
Artigo do Lakatos Circulando
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terça-feira, junho 08, 2010
XV Encontro Nacional de Economia Política (São Luís-MA)
Na semana passada, estive em São Luís, capital do Maranhão (feudo de Sir Ney, o Terrível) para o encontro nacional da Sociedade de Economia Política. Passei, junto com ex-colegas de pós-graduação da UFMG, quatro dias sob clima amazônico: calor abafado de 40 graus todos os dias, sob sol muito forte. Esse clima era brevemente, mas diariamente, interrompido por violentas tempestades tropicais de meia hora, que, todavia, não ajudavam a refrescar o ambiente. E o pior foi que a faculdade de ciências sociais aplicadas da UFMA, sede do evento, é toda construída em concreto, de modo que as mesas de apresentações de trabalhos se tornaram verdadeiras chocadeiras. Pelo menos, as seções principais foram apresentadas em um auditório improvisado, dotado de potentes ar-condicionados.
Eu apresentei o meu clássico artigo - veterano de quatro congressos - sobre a metodologia da economia sob os conceitos de Imre Lakatos. Minha seção foi muito boa, como foram apenas duas apresentações, tive meia hora para expôr o trabalho, e mais uma hora para debater com os ouvintes. A outra apresentação da sessão foi da Angela Ganem (UFRJ), que fez um excelente paralelo entre a metodologia da ciência em Popper e na Escola de Frankfurt. O debate com o público (umas dez pessoas), comandado pela professora Leda Paulani (UFRJ) e pelo simpático professor uruguaio Ramon Garcia Fernandez (FGV-SP) foi frutífero e desafiador. Recebi críticas e comentários muito pertinentes que certamente vão me ajudar para a futura publicação do artigo em periódico.
Além desses comentários, recebi outros bastante - digamos - criativos. Quando expliquei que, segundo Lakatos, todo programa de pesquisa científico é fundamentado por um núcleo de hipóteses metafísicas, uma aluna da UFRJ me perguntou qual era o conceito de metafísica que o autor utilizava. Respondi que simplesmente ele se referia a hipóteses que não podiam ser testadas empiricamente, e que eram simplesmente aceitas pelos cientistas integrantes de um determinado programa. A moça, então, comentou que eu deveria explorar melhor a relação entre o conhecimento científico e a metafísica a partir da filosofia budista e dos Vedas do hinduísmo. Em seguida, outro aluno de mestrado (não sei de que instituição), dissertou durante uns dez minutos sobre a metafísica de Hegel, com passagens em alemão!
No mais, não gostei muito das outras seções do congresso que assisti. A maior parte dos apresentadores parece dominar o pensamento de seus autores favoritos, mas, na hora de aplicar esse conhecimento à conjuntura e aos problemas da economia real, faltam métodos analíticos e sobram distorções teórico-empíricas, retórica de esquerda e adjetivos de impacto (tipo, o sistema financeiro mundial é "perverso"; a economia norte-americana está "fodida", etc.). Esse problema é o que considero o mais grave na heterodoxia econômica em geral, isto é, a insistência em tentar entender questões contemporâneas baseadas em referências a autores clássicos em seus originais.
Outro ponto que achei controverso foi em relação ao debate sobre política econômica brasileira. O representante do governo expôs as diretrizes institucionais da política fiscal no Brasil e gráficos sobre os principais indicadores de análise. Porém, ao contrário do que eu esperava, não houve um confronto ideológico após a sua apresentação. Mesmo os marxistas mais radicais, que consideram fatores como o câmbio flutuante e o superávit primário como insultos pessoais, ficaram calados, ou quando muito fazendo sugestões pontuais, no geral apoiando o governo.
Eu apresentei o meu clássico artigo - veterano de quatro congressos - sobre a metodologia da economia sob os conceitos de Imre Lakatos. Minha seção foi muito boa, como foram apenas duas apresentações, tive meia hora para expôr o trabalho, e mais uma hora para debater com os ouvintes. A outra apresentação da sessão foi da Angela Ganem (UFRJ), que fez um excelente paralelo entre a metodologia da ciência em Popper e na Escola de Frankfurt. O debate com o público (umas dez pessoas), comandado pela professora Leda Paulani (UFRJ) e pelo simpático professor uruguaio Ramon Garcia Fernandez (FGV-SP) foi frutífero e desafiador. Recebi críticas e comentários muito pertinentes que certamente vão me ajudar para a futura publicação do artigo em periódico.
Além desses comentários, recebi outros bastante - digamos - criativos. Quando expliquei que, segundo Lakatos, todo programa de pesquisa científico é fundamentado por um núcleo de hipóteses metafísicas, uma aluna da UFRJ me perguntou qual era o conceito de metafísica que o autor utilizava. Respondi que simplesmente ele se referia a hipóteses que não podiam ser testadas empiricamente, e que eram simplesmente aceitas pelos cientistas integrantes de um determinado programa. A moça, então, comentou que eu deveria explorar melhor a relação entre o conhecimento científico e a metafísica a partir da filosofia budista e dos Vedas do hinduísmo. Em seguida, outro aluno de mestrado (não sei de que instituição), dissertou durante uns dez minutos sobre a metafísica de Hegel, com passagens em alemão!
No mais, não gostei muito das outras seções do congresso que assisti. A maior parte dos apresentadores parece dominar o pensamento de seus autores favoritos, mas, na hora de aplicar esse conhecimento à conjuntura e aos problemas da economia real, faltam métodos analíticos e sobram distorções teórico-empíricas, retórica de esquerda e adjetivos de impacto (tipo, o sistema financeiro mundial é "perverso"; a economia norte-americana está "fodida", etc.). Esse problema é o que considero o mais grave na heterodoxia econômica em geral, isto é, a insistência em tentar entender questões contemporâneas baseadas em referências a autores clássicos em seus originais.
Outro ponto que achei controverso foi em relação ao debate sobre política econômica brasileira. O representante do governo expôs as diretrizes institucionais da política fiscal no Brasil e gráficos sobre os principais indicadores de análise. Porém, ao contrário do que eu esperava, não houve um confronto ideológico após a sua apresentação. Mesmo os marxistas mais radicais, que consideram fatores como o câmbio flutuante e o superávit primário como insultos pessoais, ficaram calados, ou quando muito fazendo sugestões pontuais, no geral apoiando o governo.
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quarta-feira, agosto 26, 2009
Contra o Método - Paul Feyerabend
Ganhei o mais importante livro do intelectual alemão radicado nos Estados Unidos Paul Feyerabend em dezembro passado. Comecei a ler em janeiro deste ano, mas, devido à pressão para eu terminar minha dissertação de mestrado, acabei deixando de lado, e só concluí a leitura nesta última semana. Meu interesse pelo pensamento de Paul Feyerabend vem desde o segundo semestre de 2007, quando eu cursei a disciplina de Metodologia da Economia no meu curso de mestrado na UFMG, e encontrei os conceitos principais do autor no manual do A. F. Chalmers "O Que É Ciência, Afinal?". Imediatamente, as idéias provocadoras e anarquistas do autor me chamaram a atenção, isto é, concordando ou não, elas me fizeram pensar muito a respeito sobre a natureza da ciência, da academia e do conhecimento humano em geral.
As idéias de Feyerabend, conforme organizadas por Chalmers, podem ser agrupadas em quatro pilares estruturais.
Primeiro, o vale-tudo. Segundo Feyerabend, não existe um método científico universal, isto é, cada ramo da ciência e cada paradigma predominante em cada ramo apresenta suas próprias regras. Além disso, essas regras heurísticas para a condução da atividade investigativa existem exatamente para defender os interesses e as posições sociais dos cientistas engajados nos paradigmas vigentes. Por isso, para que um determinado ramo da ciência progrida, é necessário que os pesquisadores rompam com os métodos vigentes e superem o paradigma predominante. Portanto, para o progresso do conhecimento científico, é necessário que os vanguardistas apelem para o vale-tudo para conquistar espaço frente ao conhecimento estabelecido e aos dogmas vigentes. A demarcação entre os pensadores respeitáveis e os charlatões não precisa de regras metodológicas estritas, mas depende dos próprios resultados das pesquisas realizadas, isto é, os pensadores respeitáveis são aqueles com maior capacidade e interesse de trabalhar em suas teorias de modo a superar qualquer limitação que possa apresentar, ou crítica que possa receber. Já os charlatões se acomodam em defender seus pontos de vista em forma original.
Segundo, a incomensurabilidade. Segundo Feyerabend, a observação de dados, fatos e fenômenos está determinada pela base teórica que cada pesquisador tem em mente. Assim, escolas de pensamento distintas para um mesmo ramo da ciência podem ter intepretações totalmente distintas sobre o mundo real, e os métodos empíricos não são capazes de levar a um consenso. Em alguns casos, os princípios fundamentais de diferentes teorias sobre um mesmo objeto são tão distintos que não há sequer a possibilidade de interação entre elas. Como exemplo, o autor cita a relação entre a mecânica clássica e a teoria da relatividade. Por isso, a escolha por parte de um cientista de determinada teoria a ser seguida não depende de nenhum fator objetivo (como a busca do progresso do conhecimento, em Popper), mas sim de suas próprias preferências subjetivas.
Terceiro, a ciência não é necessariamente superior a outras áreas do conhecimento. Segundo Feyerabend, a superioridade do conhecimento científico frente a outras formas de conhecimento, como a espiritualidade, a religiosidade e o conhecimento popular é sempre assumida como pressuposto, mas nunca demonstrada. Para o autor, isso nunca poderá ser demonstrado, uma vez que os cientistas tendem a investigar essas outras formas de conhecimento seguindo seus próprios métodos, que por sua vez estão viesados em favor dos interesses e do modo de pensar e agir dos cientistas. Para uma comparação mais honesta entre todas as formas de conhecimento humano, seria apropriado comparar a natureza, os objetivos e os métodos de cada uma delas.
Quarto, a ênfase na liberdade individual. Feyerabend assume que o objetivo de sua obra, ao refutar a existência de um método científico universal, é encorajar a ação e a criatividade individuais para aprimorar o conhecimento humano. Isso vale não apenas para o conhecimento dito científico, mas abre a possibilidade dos indivíduos terem a liberdade de escolher qual forma de conhecimento seguir. Segundo o autor, a ciência, se não for contestada e não ter a concorrência dessas outras formas de conhecimento, torna-se uma ideologia dogmática que reprime a ação dos indivíduos em nome dos interesses dos cientistas e acadêmicos em geral.
Em relação a minha opinião pessoal sobre as idéias de Feyerabend, tento ser conciliador. Em primeiro lugar, com base em meus estudos e pesquisas em metodologia da ciência, concordo que não há um método científico universal além de definições muito genéricas do tipo "o conhecimento científico deve partir de uma teoria logicamente consistente e passível de comprovação ou refutação com base em testes empíricos". Porém, não estou apto a afirmar se a história do pensamento da humanidade segue a lógica dialética (há um paradigma vigente (tese); ele sofre críticas (antítese); ele pode ser derrubado e substituído por algo proposto pelos seus críticos (síntese)) proposto pelo autor. As revoluções científicas, conforme proposto por Thomas Kuhn, de mudança de paradigmas nos ramos da ciência geralmente seguem essa lógica, mas acho muito importante o progresso linear do conhecimento dentro dos paradigmas, mesmo com suas limitações.
Também concordo com o autor a respeito da dependência que as investigações empíricas têm das proposições teóricas que os pesquisadores seguem. Isso é ainda mais relevante para as ciências sociais, em que muitas das hipóteses levantadas pelas teorias simplesmente não são passíveis de teste, e a conduta de pesquisa tem um caráter mais lakatosiano (de defesa de um "núcleo irredutível" de hipóteses metafísicas). Mas, nem por isso, nego a importância fundamental dos métodos empíricos para o conhecimento humano, apenas defendo que eles devem sempre estar de acordo com um determinado aracabouço teórico, que possa explicar as observações realizadas.
Em relação à escolha por parte dos pesquisadores a respeito de qual corrente teórica seguir, estou mais com Imre Lakatos do que com Feyerabend. O que realmente conta são os interesses futuros, isto é, os pesquisadores estão, em geral, inclinados a se integrar em linhas de pesquisa que possam lhes trazer sucesso profissional, e esses movimentos de pesquisadores em busca do interesse próprio ajudam a explicar a história do pensamento. Os desejos subjetivos metafísicos, conforme proporsto por Feyerabend, têm papel secundário.
Por fim, considero que o debate sobre se a ciência é realmente superior a outras formas do conhecimento vem sendo super-dimensionado. Na verdade, a ciência é realmente superior as demais formas de conhecimento naquilo que propõe fazer, isto é, procurar teorias logicamente consistentes e passíveis de teste empírico. Por outro lado, nem todo o conhecimento humano é passível de ser testado, sobretudo no que diz respeito às ciências sociais, às humanidades e à filosofia (daí meu grande interesse sobre o pensamento de Imre Lakatos, que leva essa consideração em conta). Por isso, nas questões em que a ciência não se propõe a explicar e resolver, tenho muito respeito pelas demais formas do conhecimento, particularmente pela filosofia (no caso de reflexões subjetivas qualitativas não necessariamente empíricas), e pelas artes em geral (no caso da busca de livre expressão, interpretação e criatividade individual, sem necessidade de arranjos lógicos e de empiricidade).
Nesse ponto, considero que Feyerabend, ao tentar polemizar, acabou se excedendo. Ao invés de defender as ciências sociais e a filosofia contra a metafísica de um método científico universal, que são suas áreas de atuação, assim como da maior parte de seus leitores, o autor se prende demasiadamente à defesa de culturas minoritárias (como o vodu, citado pelo autor), da astrologia e da religiosidade, sem levar em conta que tais vertentes tem pouca ou nenhuma correlação com o conhecimento científico, como objetivos e métodos definidos. Nesse ponto, estou de acordo com a crítica de Chalmers. Por último, também achei de mal gosto o autor dedicar um capítulo inteiro da obra procurando defender a Inquisição Católica contra Galileu, mesmo Feyerabend não sendo um conservador.
De qualquer forma, o que interessa é que Feyerabend é provocador e faz com que seus leitores pensem, reflitam, concordem em alguns pontos e explodam de indignação em outros. É exatamente isso que justifica a leitura dessa obra.
As idéias de Feyerabend, conforme organizadas por Chalmers, podem ser agrupadas em quatro pilares estruturais.
Primeiro, o vale-tudo. Segundo Feyerabend, não existe um método científico universal, isto é, cada ramo da ciência e cada paradigma predominante em cada ramo apresenta suas próprias regras. Além disso, essas regras heurísticas para a condução da atividade investigativa existem exatamente para defender os interesses e as posições sociais dos cientistas engajados nos paradigmas vigentes. Por isso, para que um determinado ramo da ciência progrida, é necessário que os pesquisadores rompam com os métodos vigentes e superem o paradigma predominante. Portanto, para o progresso do conhecimento científico, é necessário que os vanguardistas apelem para o vale-tudo para conquistar espaço frente ao conhecimento estabelecido e aos dogmas vigentes. A demarcação entre os pensadores respeitáveis e os charlatões não precisa de regras metodológicas estritas, mas depende dos próprios resultados das pesquisas realizadas, isto é, os pensadores respeitáveis são aqueles com maior capacidade e interesse de trabalhar em suas teorias de modo a superar qualquer limitação que possa apresentar, ou crítica que possa receber. Já os charlatões se acomodam em defender seus pontos de vista em forma original.
Segundo, a incomensurabilidade. Segundo Feyerabend, a observação de dados, fatos e fenômenos está determinada pela base teórica que cada pesquisador tem em mente. Assim, escolas de pensamento distintas para um mesmo ramo da ciência podem ter intepretações totalmente distintas sobre o mundo real, e os métodos empíricos não são capazes de levar a um consenso. Em alguns casos, os princípios fundamentais de diferentes teorias sobre um mesmo objeto são tão distintos que não há sequer a possibilidade de interação entre elas. Como exemplo, o autor cita a relação entre a mecânica clássica e a teoria da relatividade. Por isso, a escolha por parte de um cientista de determinada teoria a ser seguida não depende de nenhum fator objetivo (como a busca do progresso do conhecimento, em Popper), mas sim de suas próprias preferências subjetivas.
Terceiro, a ciência não é necessariamente superior a outras áreas do conhecimento. Segundo Feyerabend, a superioridade do conhecimento científico frente a outras formas de conhecimento, como a espiritualidade, a religiosidade e o conhecimento popular é sempre assumida como pressuposto, mas nunca demonstrada. Para o autor, isso nunca poderá ser demonstrado, uma vez que os cientistas tendem a investigar essas outras formas de conhecimento seguindo seus próprios métodos, que por sua vez estão viesados em favor dos interesses e do modo de pensar e agir dos cientistas. Para uma comparação mais honesta entre todas as formas de conhecimento humano, seria apropriado comparar a natureza, os objetivos e os métodos de cada uma delas.
Quarto, a ênfase na liberdade individual. Feyerabend assume que o objetivo de sua obra, ao refutar a existência de um método científico universal, é encorajar a ação e a criatividade individuais para aprimorar o conhecimento humano. Isso vale não apenas para o conhecimento dito científico, mas abre a possibilidade dos indivíduos terem a liberdade de escolher qual forma de conhecimento seguir. Segundo o autor, a ciência, se não for contestada e não ter a concorrência dessas outras formas de conhecimento, torna-se uma ideologia dogmática que reprime a ação dos indivíduos em nome dos interesses dos cientistas e acadêmicos em geral.
Em relação a minha opinião pessoal sobre as idéias de Feyerabend, tento ser conciliador. Em primeiro lugar, com base em meus estudos e pesquisas em metodologia da ciência, concordo que não há um método científico universal além de definições muito genéricas do tipo "o conhecimento científico deve partir de uma teoria logicamente consistente e passível de comprovação ou refutação com base em testes empíricos". Porém, não estou apto a afirmar se a história do pensamento da humanidade segue a lógica dialética (há um paradigma vigente (tese); ele sofre críticas (antítese); ele pode ser derrubado e substituído por algo proposto pelos seus críticos (síntese)) proposto pelo autor. As revoluções científicas, conforme proposto por Thomas Kuhn, de mudança de paradigmas nos ramos da ciência geralmente seguem essa lógica, mas acho muito importante o progresso linear do conhecimento dentro dos paradigmas, mesmo com suas limitações.
Também concordo com o autor a respeito da dependência que as investigações empíricas têm das proposições teóricas que os pesquisadores seguem. Isso é ainda mais relevante para as ciências sociais, em que muitas das hipóteses levantadas pelas teorias simplesmente não são passíveis de teste, e a conduta de pesquisa tem um caráter mais lakatosiano (de defesa de um "núcleo irredutível" de hipóteses metafísicas). Mas, nem por isso, nego a importância fundamental dos métodos empíricos para o conhecimento humano, apenas defendo que eles devem sempre estar de acordo com um determinado aracabouço teórico, que possa explicar as observações realizadas.
Em relação à escolha por parte dos pesquisadores a respeito de qual corrente teórica seguir, estou mais com Imre Lakatos do que com Feyerabend. O que realmente conta são os interesses futuros, isto é, os pesquisadores estão, em geral, inclinados a se integrar em linhas de pesquisa que possam lhes trazer sucesso profissional, e esses movimentos de pesquisadores em busca do interesse próprio ajudam a explicar a história do pensamento. Os desejos subjetivos metafísicos, conforme proporsto por Feyerabend, têm papel secundário.
Por fim, considero que o debate sobre se a ciência é realmente superior a outras formas do conhecimento vem sendo super-dimensionado. Na verdade, a ciência é realmente superior as demais formas de conhecimento naquilo que propõe fazer, isto é, procurar teorias logicamente consistentes e passíveis de teste empírico. Por outro lado, nem todo o conhecimento humano é passível de ser testado, sobretudo no que diz respeito às ciências sociais, às humanidades e à filosofia (daí meu grande interesse sobre o pensamento de Imre Lakatos, que leva essa consideração em conta). Por isso, nas questões em que a ciência não se propõe a explicar e resolver, tenho muito respeito pelas demais formas do conhecimento, particularmente pela filosofia (no caso de reflexões subjetivas qualitativas não necessariamente empíricas), e pelas artes em geral (no caso da busca de livre expressão, interpretação e criatividade individual, sem necessidade de arranjos lógicos e de empiricidade).
Nesse ponto, considero que Feyerabend, ao tentar polemizar, acabou se excedendo. Ao invés de defender as ciências sociais e a filosofia contra a metafísica de um método científico universal, que são suas áreas de atuação, assim como da maior parte de seus leitores, o autor se prende demasiadamente à defesa de culturas minoritárias (como o vodu, citado pelo autor), da astrologia e da religiosidade, sem levar em conta que tais vertentes tem pouca ou nenhuma correlação com o conhecimento científico, como objetivos e métodos definidos. Nesse ponto, estou de acordo com a crítica de Chalmers. Por último, também achei de mal gosto o autor dedicar um capítulo inteiro da obra procurando defender a Inquisição Católica contra Galileu, mesmo Feyerabend não sendo um conservador.
De qualquer forma, o que interessa é que Feyerabend é provocador e faz com que seus leitores pensem, reflitam, concordem em alguns pontos e explodam de indignação em outros. É exatamente isso que justifica a leitura dessa obra.
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quarta-feira, março 19, 2008
Ainda a Metodologia da Economia
Comentário de Henrique a minha conclusão:
Caro Ricardo,
Meu nome é Henrique, sou aluno do último ano da graduação em Economia da USP e conheci seu blog através do blog do Thomas. Bem vamos aos comentários. Realmente gera muita estranheza considerar o individualismo metodológico uma verdade absoluta: ele não nem uma verdade, muito menos absoluta, é apenas um método. Para adotar um tom popperiano, esta não é o tipo de hipótese falsificável ou de fácil verificação. É um método de trabalho, apenas isso. Concordo que a Lei de Say x Demanda Efetiva não é a cisma fundamental da teoria econômica. Mas também não concordo que o que chamamos de ortodoxia seja inerentemente algo atemporal, ageográfico, etc. A economia regional/espacial estuda impacto sobre a especifidade locacional sobre os resultados econômicos (conhece econometria espacial ?, seria interessante para o seu estudo sobre a pobreza em Porto Alegre), o papel da história e das instituições vem ganhando força com o trabalho dos institucionalistas e aos poucos vem sendo adotado pelo mainstream. Os trabalhos em economia política não ignoram simplesmente o que acontece nas outras ciências sociais, como a sociologia e a ciência política. O meu último ponto é que o que define, em última instância, os limites de uma ciência é muito mais o seu método do que seu tema. Não há dúvida que trabalhos como a macro pós-keynesiana, como a lei de Thirwall, se trata de teoria econômica. Mas, trabalhos como o da moderna sociologia econômica (Granovetter, Fligstein, etc.) tratam de temas econômicos (mercado de trabalho, "teoria da firma", etc.), mas não deixa de ser sociologia (eles não fazem economia sociológica ...). O que quero dizer é: uma economia fundada em profissões ou em outros agregados sociais, acredito eu, cruzaria a linha da ciência econômica e te levaria efetivamente para a sociologia ou a ciência política.
Gostei muito do blog e da dessa discussão em particular. (PS.: Desculpe a extensão do comentário, mas havia muita coisa interessante para comentar).
Esse é exatamente o desafio final da metodologia da economia. Não há um critério universal, objetivo e infalível para se caracterizar o que é uma "boa ciência", ou mesmo para demarcar os limites do conhecimento científico em relação a qualquer outra forma de conhecimento. O falsificacionismo popperiano é uma teoria provocativa e interessante, mas nenhum estudioso sobre o assunto admite que ela é diretamente aplicada à ciência econômica. Hoje, li um artigo do Fayerabend (anarquista radical, mas divertido), nao qual o autor afirma que o falsificacionismo está longe de explicar o trabalho científico em qualquer ramo do conhecimento humano. Aspectos ideológicos, metafísicos, inconsistências lógicas, ajustes ad hoc são mais comuns do que imaginamos. Muitas vezes, recorre-se a critérios subjetivos, ou de autoridade científica, para se justificar determinado método como superior aos demais.
Mesmo o falsificacionismo refinado de Lakatos, tema sobre o qual desenvolvi um artigo no semestre passado (e que quero publicar), é contraditório. Por um lado, o autor afirma que um ramo científico é uma "boa ciência" se é progressivo, no sentido de alcançar progressivamente novas previsões, e é "degenerativo" se seu desenvolvimento está estagnado. Por outro lado, o mesmo autor afirma que os cientistas escolhem seu programa de pesquisa, dentro do qual exercerão suas atividades, com base em suas expectativas sobre o progresso ou a estagnação do mesmo. Ou seja, o critério demarcacionista da ciência, para Lakatos, acaba caindo na subjetividade.
Por outro lado, a teoria dos programas de pesquisa lakatosianos é apontada como um critério válido na ciência econômica, mas não como um demarcacionismo entre as correntes de pensamento progressivas e degenerativas, mas sim apenas para diferenciá-las e caracterizá-las de acordo com os conceitos desenvolvidos pelo autor (de acordo com Blaug (1976).
Contudo, como muito bem coloca Hausman (1994), essa atividade ainda não é plenamente conclusiva, devido a grande quantidade, à flexibilidade e às sobreposições dos programas de pesquisa na ciência econômica. O que é um "núcleo irredutível" hipotético de um programa pode ser um "cinturão protetor" de outro, ou mesmo inexistente nos demais programas. Quando apontei o individualismo metodológico e a desconexão com demais fatores relacionados a outras ciências sociais como o principal mecanismo pertencente ao "núcleo irredutível" de um programa de pesquisa neoclássico geral (independente de suas sub-divisões internas), citei no artigo (mesmo não citando no post) o próprio Hausman.
Na verdade, quando o Henrique cita o desenvolvimento da economia regional e institucional como argumentos contra a hipótese de não-relatividade social, histórica e geográfica da economia neoclássica, está, na verdade, reforçando que a definição de programas de pesquisa generalizados dentro da ciência econômica é complicado. Por exemplo, aqui no Cedeplar, o pessoal que trabalha com economia regional (e são muitos) gosta, em geral, de se referir como heterodoxos, críticos à teoria do crescimeno de Solow e do crescimento endógeno. Contudo, seu uso predominante de métodos quantitativos e econométricos avançados para dar embasamento empírico as suas teorias os afastam de muitas das correntes heterodoxas (sobretudo às que tive contato na graduação da UFGRS) de tradição mais racionalística, retórica e bibliográfica.
É por motivos como esse que a própria discussão de métodos demarcacionistas gerais para a metodologia da ciência (não só da economia) "perdeu gás" ao longo dos anos oitenta. As teorias de Popper, Kuhn e Lakatos foram progressivamente dando lugar a teorias construtivistas e pós-modernas na filosofia da ciência, as quais se caracterizam exatamente por ser mais relativistas no que diz respeito à demarcação do que é um "bom conhecimento científico". Por outro lado, partindo desse mesmo fato, outras linhas de pesquisa se desenvolveram na área de retórica científica (como que os cientistas defendem seus pontos de vista) e de sociologia da ciência (quais os meios sociais que mais propiciam o desenvolvimento das atividades científicas).
Meu conhecimento sobre o presente e o futuro da filosofia e metodologia da ciência não passa muito disso, na verdade. Mas, acho bom que ainda há muitas discussões para serem realizadas e pesquisas desenvolvidas nesse ramo.
Agradeço a contribuição do Henrique ao debate.
Caro Ricardo,
Meu nome é Henrique, sou aluno do último ano da graduação em Economia da USP e conheci seu blog através do blog do Thomas. Bem vamos aos comentários. Realmente gera muita estranheza considerar o individualismo metodológico uma verdade absoluta: ele não nem uma verdade, muito menos absoluta, é apenas um método. Para adotar um tom popperiano, esta não é o tipo de hipótese falsificável ou de fácil verificação. É um método de trabalho, apenas isso. Concordo que a Lei de Say x Demanda Efetiva não é a cisma fundamental da teoria econômica. Mas também não concordo que o que chamamos de ortodoxia seja inerentemente algo atemporal, ageográfico, etc. A economia regional/espacial estuda impacto sobre a especifidade locacional sobre os resultados econômicos (conhece econometria espacial ?, seria interessante para o seu estudo sobre a pobreza em Porto Alegre), o papel da história e das instituições vem ganhando força com o trabalho dos institucionalistas e aos poucos vem sendo adotado pelo mainstream. Os trabalhos em economia política não ignoram simplesmente o que acontece nas outras ciências sociais, como a sociologia e a ciência política. O meu último ponto é que o que define, em última instância, os limites de uma ciência é muito mais o seu método do que seu tema. Não há dúvida que trabalhos como a macro pós-keynesiana, como a lei de Thirwall, se trata de teoria econômica. Mas, trabalhos como o da moderna sociologia econômica (Granovetter, Fligstein, etc.) tratam de temas econômicos (mercado de trabalho, "teoria da firma", etc.), mas não deixa de ser sociologia (eles não fazem economia sociológica ...). O que quero dizer é: uma economia fundada em profissões ou em outros agregados sociais, acredito eu, cruzaria a linha da ciência econômica e te levaria efetivamente para a sociologia ou a ciência política.
Gostei muito do blog e da dessa discussão em particular. (PS.: Desculpe a extensão do comentário, mas havia muita coisa interessante para comentar).
Esse é exatamente o desafio final da metodologia da economia. Não há um critério universal, objetivo e infalível para se caracterizar o que é uma "boa ciência", ou mesmo para demarcar os limites do conhecimento científico em relação a qualquer outra forma de conhecimento. O falsificacionismo popperiano é uma teoria provocativa e interessante, mas nenhum estudioso sobre o assunto admite que ela é diretamente aplicada à ciência econômica. Hoje, li um artigo do Fayerabend (anarquista radical, mas divertido), nao qual o autor afirma que o falsificacionismo está longe de explicar o trabalho científico em qualquer ramo do conhecimento humano. Aspectos ideológicos, metafísicos, inconsistências lógicas, ajustes ad hoc são mais comuns do que imaginamos. Muitas vezes, recorre-se a critérios subjetivos, ou de autoridade científica, para se justificar determinado método como superior aos demais.
Mesmo o falsificacionismo refinado de Lakatos, tema sobre o qual desenvolvi um artigo no semestre passado (e que quero publicar), é contraditório. Por um lado, o autor afirma que um ramo científico é uma "boa ciência" se é progressivo, no sentido de alcançar progressivamente novas previsões, e é "degenerativo" se seu desenvolvimento está estagnado. Por outro lado, o mesmo autor afirma que os cientistas escolhem seu programa de pesquisa, dentro do qual exercerão suas atividades, com base em suas expectativas sobre o progresso ou a estagnação do mesmo. Ou seja, o critério demarcacionista da ciência, para Lakatos, acaba caindo na subjetividade.
Por outro lado, a teoria dos programas de pesquisa lakatosianos é apontada como um critério válido na ciência econômica, mas não como um demarcacionismo entre as correntes de pensamento progressivas e degenerativas, mas sim apenas para diferenciá-las e caracterizá-las de acordo com os conceitos desenvolvidos pelo autor (de acordo com Blaug (1976).
Contudo, como muito bem coloca Hausman (1994), essa atividade ainda não é plenamente conclusiva, devido a grande quantidade, à flexibilidade e às sobreposições dos programas de pesquisa na ciência econômica. O que é um "núcleo irredutível" hipotético de um programa pode ser um "cinturão protetor" de outro, ou mesmo inexistente nos demais programas. Quando apontei o individualismo metodológico e a desconexão com demais fatores relacionados a outras ciências sociais como o principal mecanismo pertencente ao "núcleo irredutível" de um programa de pesquisa neoclássico geral (independente de suas sub-divisões internas), citei no artigo (mesmo não citando no post) o próprio Hausman.
Na verdade, quando o Henrique cita o desenvolvimento da economia regional e institucional como argumentos contra a hipótese de não-relatividade social, histórica e geográfica da economia neoclássica, está, na verdade, reforçando que a definição de programas de pesquisa generalizados dentro da ciência econômica é complicado. Por exemplo, aqui no Cedeplar, o pessoal que trabalha com economia regional (e são muitos) gosta, em geral, de se referir como heterodoxos, críticos à teoria do crescimeno de Solow e do crescimento endógeno. Contudo, seu uso predominante de métodos quantitativos e econométricos avançados para dar embasamento empírico as suas teorias os afastam de muitas das correntes heterodoxas (sobretudo às que tive contato na graduação da UFGRS) de tradição mais racionalística, retórica e bibliográfica.
É por motivos como esse que a própria discussão de métodos demarcacionistas gerais para a metodologia da ciência (não só da economia) "perdeu gás" ao longo dos anos oitenta. As teorias de Popper, Kuhn e Lakatos foram progressivamente dando lugar a teorias construtivistas e pós-modernas na filosofia da ciência, as quais se caracterizam exatamente por ser mais relativistas no que diz respeito à demarcação do que é um "bom conhecimento científico". Por outro lado, partindo desse mesmo fato, outras linhas de pesquisa se desenvolveram na área de retórica científica (como que os cientistas defendem seus pontos de vista) e de sociologia da ciência (quais os meios sociais que mais propiciam o desenvolvimento das atividades científicas).
Meu conhecimento sobre o presente e o futuro da filosofia e metodologia da ciência não passa muito disso, na verdade. Mas, acho bom que ainda há muitas discussões para serem realizadas e pesquisas desenvolvidas nesse ramo.
Agradeço a contribuição do Henrique ao debate.
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sexta-feira, fevereiro 29, 2008
Discussão Interessante sobre a Metodologia da Economia - Parte Final - A Heterodoxia
Em toda a sua discussão, até aqui, o autor (do blog http://koenigsberg.wordpress.com) criticou alguns dos princípios metodológicos da economia mainstream, e defendeu conceitos ditos heterodoxos, como a demanda efetiva, como sendo empiricamente mais realistas do que os da teoria neoclássica. Contudo, o autor afirma seu maior interesse e simpatia pela ortodoxia. Nesse final de sua narrativa, ele explica o por quê.
Em primeiro lugar:
Nesse ponto cabe destacar que não existe simplesmente "uma escola de pensamento econômico heterodoxo". O que existe é uma linha de pensamento econômico mainstream (com sub-correntes internas), e uma diversidade de linhas alternativas, críticas aos seus postulados, que, no agregado, denomina-se de heterodoxia. O autor minimiza esse fato ao considerar a ortodoxia como um ramo de pensamento econômico pós-ricardiano, e a heterodoxia, uma mera evolução de pensamento pós-malthusiano. Cada linha de pensamento heterodoxo, na verdade, pode ser associado a um programa lakatosiano de pesquisa independente, cada qual com seu núcleo irredutível de hipóteses metafísicas básicas, cinturão protetor de hipóteses auxiliares e heurísticas. Muitos desses programas são sobrepostos e inter-dependentes - entre si e com a ortodoxia - mas não podem ser agregados em um único programa de pesquisa heterodoxo.
Logo após, o autor aponta mais três vantagens da ortodoxia sobre as correntes heterodoxas. Em primeiro lugar, a ortodoxia teria uma vantagem normativa sobre as demais linhas de pensamento, já que a defesa do sistema de preços como orientador da produção e da distribuição teria contido um sistema ético e moral a ele indissolúvel. Os preços seriam um mecanismo de conciliação social, entre indivíduos de interesses distintos. Nesse ponto, tenho pouco a dizer, já que não domino os estudos referentes à ética da economia. Contudo, confesso que essa é a primeira vez que leio que o mercado é moral como defesa para sua manutenção; sempre li que ele é eficiente. Por outro lado, em uma palestra da Deidre Mc Closkey (ortodoxa e conservadora) no encontro da Anpec em Recife, ela deixou claro que haveria mais espaço para a ética cristã na economia neoclássica do que tem atualmente.
Em segundo lugar, a teoria neoclássica faz da economia uma "ciência lúgubre", isto é, comprometida com os problemas econômicos reais (trade-offs), sem espaço para utopias de cunho político. Nesse ponto, eu concordo com o autor, desde que isso não signifique que todos os heterodoxos, de todas as linhas de pensamento, acreditem que os maiores problemas econômicos possam se resumir a falta de boa vontade política. O modelo pós-keynesiano com o qual venho trabalhando, por exemplo, supõe que a inflação é ruim para o crescimento econômico, e que o crescimento pode ser limitado por problemas na balança de pagamentos dos países. Por isso, generalizações, nesse sentido, são perigosas.
Em terceiro lugar, a teoria neoclássica, por manter um aparato teórico coeso (mais uma vez o autor faz referência aos paradigmas kuhnianos), impede um pluralismo irresponsável de soluções de problemas, e se afasta das discussões de cunho político. Nesse ponto, eu concordo em parte com o pensamento do autor. De fato, a teoria neoclássica tenta se afastar de ideologismos políticos. Mas se isso é bom ou é mau, trata-se de um juízo de valor pessoal, passível de discordâncias. Explicarei isso mais tarde.
Por fim, encerrando sua abordagem, o autor aponta o principal motivo que o faz simpatizar pela ortodoxia. Segundo ele, os heterodoxos têm razão ao defender que a economia real é desagregada, na qual a produção decidida ex ante com base nas expectativas sobre a demanda futura. Mas a ortodoxia têm razão ao manter como pressuposto fundamental de sua teoria (um verdadeiro hardcore lakatosiano) um fator que o autor aponta explicitamente como verdade científica absoluta: o individualismo metodológico. Contudo, o individualismo, mesmo sendo uma verdade absoluta, é constantemente ameaçado dentro da própria ortodoxia, quando os economistas trabalham com índices agregados para mensurar o bem-estar social:
Esse ponto, que consiste no principal argumento de todo o post do autor, é exatamente o ponto que considero mais crítico. Em primeiro lugar, questiono o que vem a ser, exatamente, uma verdade empírica absoluta em uma ciência social. Na verdade, é passível de discussão a existência de verdades absolutas na própria ciência; nas principais correntes de metodologia científica (Popper, Kuhn e Lakatos), as verdades científicas não são absolutas e infalíveis, mas sim provisórias, constantemente testadas com cada vez mais rigor, falsificadas e substituídas por novas teorias, em um processo evolutivo. Tal processo pode ocorrer com teorias individuais (Popper), paradigmas científicos (Kuhn) ou programas de pesquisa concorrentes (Lakatos), mas a crença de que a ciência pode chegar a verdades empíricas imutáveis procede apenas ao positivismo, do final do século XIX até o início do século XX, ao qual Popper, o principal metodólogo do século passado, foi grande crítico.
Na verdade, a definição de "verdades empíricas" como fontes de hipóteses seguras para a formulação de teorias econômicas remete a John Stuart Mill, estudioso crítico do positivismo, na metade do século XIX. Segundo esse autor, as ciências sociais como um todo teriam o objetivo metodológico de dividir as diferentes motivações que movem o comportamento humano, e estudar cada motivação separadamente. A economia, nesse sentido, teria o objetivo de estudar o comportamento humano lidando com a riqueza (ressalta-se que, na época, ainda não havia definida uma teoria para o consumo). Esse ramo da ciência social poderia basear suas teorias com base em duas premissas consideradas empiricamente verdadeiras pelo autor: as pessoas preferem sempre estar na melhor posição possível de riqueza, e as pessoas, para um nível fixo de riqueza, preferem obtê-la fazendo o menor esforço possível.
Contudo, como já referi em posts anteriores, essa visão metodológica de Mill foi duramente rebatida nas primeiras décadas do século XX por ser demasiadamente racionalista (pela ênfase no deducionimo com base em poucas premissas) e pouco empírica. O debate foi finalizado, para a ortodoxia, com o artigo de Friedman (1952) segundo o qual o que importa são as previsões realizadas pelas teorias econômicas, e não com o seu realismo. Isto é, a ciência econômica é um instrumento de trabalho dos economistas, e não uma coleção de verdades absolutas. Portanto, sob o ponto de vista ortodoxo, a discussão sobre o realismo das teorias de Ricardo e de Malthus, enfatizada pelo autor como cerne da discussão entre ortodoxia e heterodoxia, simplesmente não é relevante para destacar qualquer uma dessas linhas de pensamento. Porém, um dos ramos da heterodoxia ainda mantém a metodologia original de Mill: a escola austríaca, fundamentada naquilo que chama de praxis do comportamento humano.
Ao meu ver, o verdadeiro dissenso entre a ortodoxia e a heterodoxia não é a questão da Lei de Say versus Demanda Efetiva, como defende o autor. Tal ponto pode ser harmonizado, e, de fato, foi conciliado ao longo do século XX pela macroeconomia neokeynesiana, monetarista e novo-keynesiana, pela distinção entre um curto prazo "keynesiano, ou malthusiano", e um longo prazo "clássico, ou ricardiano". Muito mais estrutural do que isso, o que está em discórdia é o próprio individualismo metodológico e a apolitização da ciência econômica, o que o autor destaca como as principais vantagens da ortodoxia!
Explicando melhor, na minha opinião, o que diferencia os economistas ortodoxos dos heterodoxos é que, enquanto que os primeiros acreditam que a ciência econômica pode ser um ramo de conhecimento atemporal, ageográfico, acultural e apolítico, os últimos acreditam que a economia, pelo contrário, não pode se desfazer de seus laços com outras ciências sociais, seja com a história (no sentido de que a economia é socialmente, e não individualmente construída), seja com a política (no sentido de que a economia tem comprimissos políticos, de promoção do bem-estar social, a cumprir). Minha base empírica para essa observação vem dos meus próprios colegas de graduação e de mestrado: enquanto que os mais simpatizantes da ortodoxia dedicam seus estudos à realização de previsões e de métodos empíricos, os mais simpatizantes da heterodoxia preferem estudar relações da economia com a história e a política.
Praticamente todas os ramos da economia heterodoxa pendem para um desses lados - história e política. Marxistas, historicistas (List, explicitamente), institucionalistas, evolucionistas e estruturalistas cepalinos, por um lado, concordam que a economia estudada hoje em dia é um fenômeno socialmente construído e historicamente situado, e não pode ser analisada sem levar em conta esse fato. Por outro lado, outros ramos destacam a importância da economia com objetivos agregados de promoção de bem-estar: pós-keynesianos, estruturalistas, evolucionistas e até mesmo austríacos, com sua ênfase na defesa do liberalismo econômico, visto como nada menos do que um princípio de bem-estar social.
Sobre esses dois pontos, declaro que minha posição pessoal é relativista em ambos. Considero que em parte, a economia tem influências institucionais e históricas; independentemente da propensão natural da humanidade à troca (e se esse fator for relevante), certamente a economia atual difere da economia de 100, 500, 1000, 5000 anos atrás, e isso tem raízes institucionais e da evolução cultural da humanidade. Certamente a economia numa sociedade moderna, baseada numa dinâmica trabalho-produção-troca-consumo não é a mesma de uma numa sociedade bárbara, baseada no roubo e na pilhagem. Além disso, a ciência econômica emergiu em meados do século XVIII não por acaso.
Além disso, mesmo achando importante que as teorias econômicas tentem, pelo menos, evitar tomar ideologias políticas explícitas, de modo procurar tomar conclusões mais robustas sobre suas análises. Mas, por outro lado, o individualismo estrito, está muito longe de ser considerado uma verdade empírica absoluta do comportamento humano. O ser humano é um ser social; é racional os indivíduos viverem próximos uns dos outros, e agir cooperativamente (LUCAS, 1988) quando for vantajoso para todos. Por isso, acho importante o desenvolvimento de teorias econômicas que levem em conta o comportamento de indivíduos agregados em grupos sociais (famílias, profissões, comunidades habitacionais, etc.) para aperfeiçoar as análises.
Um ponto final que quero destacar é o fato de que, independente de relativismos sociais, históricos e políticos que possa afetar a ciência econômica, não acho isso passível da defesa de um niilismo em seu estudo. Isto é, apesar dos problemas enfrentados pelas teorias econômicas, sejam ortodoxas, sejam heterodoxas, e que são intrínsecos à própria noção de conhecimento humano, não acho que isso possa defender que a análise econômica, seja de previsão, seja de explicação, simplesmente não seja possível, de modo que a economia se torne apenas um campo de conflito de interesses ideológicos. Essas críticas, realizadas por diversos autores e estudiosas, destacam mais o desafio de se construir estudos econômicos mais concretos, do que quaisquer impossibilidades.
Em primeiro lugar:
O problema básico da heterodoxia é que todas as premissas e proposições são
colocadas constantemente em discussão, até o ponto que o modelo heurístico de um
economista heterodoxo pode ser parametrizado para obter qualquer coisa.
Nesse ponto cabe destacar que não existe simplesmente "uma escola de pensamento econômico heterodoxo". O que existe é uma linha de pensamento econômico mainstream (com sub-correntes internas), e uma diversidade de linhas alternativas, críticas aos seus postulados, que, no agregado, denomina-se de heterodoxia. O autor minimiza esse fato ao considerar a ortodoxia como um ramo de pensamento econômico pós-ricardiano, e a heterodoxia, uma mera evolução de pensamento pós-malthusiano. Cada linha de pensamento heterodoxo, na verdade, pode ser associado a um programa lakatosiano de pesquisa independente, cada qual com seu núcleo irredutível de hipóteses metafísicas básicas, cinturão protetor de hipóteses auxiliares e heurísticas. Muitos desses programas são sobrepostos e inter-dependentes - entre si e com a ortodoxia - mas não podem ser agregados em um único programa de pesquisa heterodoxo.
Logo após, o autor aponta mais três vantagens da ortodoxia sobre as correntes heterodoxas. Em primeiro lugar, a ortodoxia teria uma vantagem normativa sobre as demais linhas de pensamento, já que a defesa do sistema de preços como orientador da produção e da distribuição teria contido um sistema ético e moral a ele indissolúvel. Os preços seriam um mecanismo de conciliação social, entre indivíduos de interesses distintos. Nesse ponto, tenho pouco a dizer, já que não domino os estudos referentes à ética da economia. Contudo, confesso que essa é a primeira vez que leio que o mercado é moral como defesa para sua manutenção; sempre li que ele é eficiente. Por outro lado, em uma palestra da Deidre Mc Closkey (ortodoxa e conservadora) no encontro da Anpec em Recife, ela deixou claro que haveria mais espaço para a ética cristã na economia neoclássica do que tem atualmente.
Em segundo lugar, a teoria neoclássica faz da economia uma "ciência lúgubre", isto é, comprometida com os problemas econômicos reais (trade-offs), sem espaço para utopias de cunho político. Nesse ponto, eu concordo com o autor, desde que isso não signifique que todos os heterodoxos, de todas as linhas de pensamento, acreditem que os maiores problemas econômicos possam se resumir a falta de boa vontade política. O modelo pós-keynesiano com o qual venho trabalhando, por exemplo, supõe que a inflação é ruim para o crescimento econômico, e que o crescimento pode ser limitado por problemas na balança de pagamentos dos países. Por isso, generalizações, nesse sentido, são perigosas.
Em terceiro lugar, a teoria neoclássica, por manter um aparato teórico coeso (mais uma vez o autor faz referência aos paradigmas kuhnianos), impede um pluralismo irresponsável de soluções de problemas, e se afasta das discussões de cunho político. Nesse ponto, eu concordo em parte com o pensamento do autor. De fato, a teoria neoclássica tenta se afastar de ideologismos políticos. Mas se isso é bom ou é mau, trata-se de um juízo de valor pessoal, passível de discordâncias. Explicarei isso mais tarde.
Por fim, encerrando sua abordagem, o autor aponta o principal motivo que o faz simpatizar pela ortodoxia. Segundo ele, os heterodoxos têm razão ao defender que a economia real é desagregada, na qual a produção decidida ex ante com base nas expectativas sobre a demanda futura. Mas a ortodoxia têm razão ao manter como pressuposto fundamental de sua teoria (um verdadeiro hardcore lakatosiano) um fator que o autor aponta explicitamente como verdade científica absoluta: o individualismo metodológico. Contudo, o individualismo, mesmo sendo uma verdade absoluta, é constantemente ameaçado dentro da própria ortodoxia, quando os economistas trabalham com índices agregados para mensurar o bem-estar social:
Cada vez que um ortodoxo fala em políticas para o crescimento, ele está
adotando o pior da heterodoxia, a incapacidade de perceber que a sociedade não é
um corpo, uma vontade, mas um amontoado de corpos, vontades e desejos tentando
conviver em desarmonia. E essa é a culpa radical da nossa profissão: nós
gostamos de fingir que a teoria normativa gera soluções políticas, e com isso no
lugar de vender soluções para os problemas que as pessoas enfrentam, nós
entramos no mercado de algo no que acreditar: crescimento, emprego,
desenvolvimento.
Esse ponto, que consiste no principal argumento de todo o post do autor, é exatamente o ponto que considero mais crítico. Em primeiro lugar, questiono o que vem a ser, exatamente, uma verdade empírica absoluta em uma ciência social. Na verdade, é passível de discussão a existência de verdades absolutas na própria ciência; nas principais correntes de metodologia científica (Popper, Kuhn e Lakatos), as verdades científicas não são absolutas e infalíveis, mas sim provisórias, constantemente testadas com cada vez mais rigor, falsificadas e substituídas por novas teorias, em um processo evolutivo. Tal processo pode ocorrer com teorias individuais (Popper), paradigmas científicos (Kuhn) ou programas de pesquisa concorrentes (Lakatos), mas a crença de que a ciência pode chegar a verdades empíricas imutáveis procede apenas ao positivismo, do final do século XIX até o início do século XX, ao qual Popper, o principal metodólogo do século passado, foi grande crítico.
Na verdade, a definição de "verdades empíricas" como fontes de hipóteses seguras para a formulação de teorias econômicas remete a John Stuart Mill, estudioso crítico do positivismo, na metade do século XIX. Segundo esse autor, as ciências sociais como um todo teriam o objetivo metodológico de dividir as diferentes motivações que movem o comportamento humano, e estudar cada motivação separadamente. A economia, nesse sentido, teria o objetivo de estudar o comportamento humano lidando com a riqueza (ressalta-se que, na época, ainda não havia definida uma teoria para o consumo). Esse ramo da ciência social poderia basear suas teorias com base em duas premissas consideradas empiricamente verdadeiras pelo autor: as pessoas preferem sempre estar na melhor posição possível de riqueza, e as pessoas, para um nível fixo de riqueza, preferem obtê-la fazendo o menor esforço possível.
Contudo, como já referi em posts anteriores, essa visão metodológica de Mill foi duramente rebatida nas primeiras décadas do século XX por ser demasiadamente racionalista (pela ênfase no deducionimo com base em poucas premissas) e pouco empírica. O debate foi finalizado, para a ortodoxia, com o artigo de Friedman (1952) segundo o qual o que importa são as previsões realizadas pelas teorias econômicas, e não com o seu realismo. Isto é, a ciência econômica é um instrumento de trabalho dos economistas, e não uma coleção de verdades absolutas. Portanto, sob o ponto de vista ortodoxo, a discussão sobre o realismo das teorias de Ricardo e de Malthus, enfatizada pelo autor como cerne da discussão entre ortodoxia e heterodoxia, simplesmente não é relevante para destacar qualquer uma dessas linhas de pensamento. Porém, um dos ramos da heterodoxia ainda mantém a metodologia original de Mill: a escola austríaca, fundamentada naquilo que chama de praxis do comportamento humano.
Ao meu ver, o verdadeiro dissenso entre a ortodoxia e a heterodoxia não é a questão da Lei de Say versus Demanda Efetiva, como defende o autor. Tal ponto pode ser harmonizado, e, de fato, foi conciliado ao longo do século XX pela macroeconomia neokeynesiana, monetarista e novo-keynesiana, pela distinção entre um curto prazo "keynesiano, ou malthusiano", e um longo prazo "clássico, ou ricardiano". Muito mais estrutural do que isso, o que está em discórdia é o próprio individualismo metodológico e a apolitização da ciência econômica, o que o autor destaca como as principais vantagens da ortodoxia!
Explicando melhor, na minha opinião, o que diferencia os economistas ortodoxos dos heterodoxos é que, enquanto que os primeiros acreditam que a ciência econômica pode ser um ramo de conhecimento atemporal, ageográfico, acultural e apolítico, os últimos acreditam que a economia, pelo contrário, não pode se desfazer de seus laços com outras ciências sociais, seja com a história (no sentido de que a economia é socialmente, e não individualmente construída), seja com a política (no sentido de que a economia tem comprimissos políticos, de promoção do bem-estar social, a cumprir). Minha base empírica para essa observação vem dos meus próprios colegas de graduação e de mestrado: enquanto que os mais simpatizantes da ortodoxia dedicam seus estudos à realização de previsões e de métodos empíricos, os mais simpatizantes da heterodoxia preferem estudar relações da economia com a história e a política.
Praticamente todas os ramos da economia heterodoxa pendem para um desses lados - história e política. Marxistas, historicistas (List, explicitamente), institucionalistas, evolucionistas e estruturalistas cepalinos, por um lado, concordam que a economia estudada hoje em dia é um fenômeno socialmente construído e historicamente situado, e não pode ser analisada sem levar em conta esse fato. Por outro lado, outros ramos destacam a importância da economia com objetivos agregados de promoção de bem-estar: pós-keynesianos, estruturalistas, evolucionistas e até mesmo austríacos, com sua ênfase na defesa do liberalismo econômico, visto como nada menos do que um princípio de bem-estar social.
Sobre esses dois pontos, declaro que minha posição pessoal é relativista em ambos. Considero que em parte, a economia tem influências institucionais e históricas; independentemente da propensão natural da humanidade à troca (e se esse fator for relevante), certamente a economia atual difere da economia de 100, 500, 1000, 5000 anos atrás, e isso tem raízes institucionais e da evolução cultural da humanidade. Certamente a economia numa sociedade moderna, baseada numa dinâmica trabalho-produção-troca-consumo não é a mesma de uma numa sociedade bárbara, baseada no roubo e na pilhagem. Além disso, a ciência econômica emergiu em meados do século XVIII não por acaso.
Além disso, mesmo achando importante que as teorias econômicas tentem, pelo menos, evitar tomar ideologias políticas explícitas, de modo procurar tomar conclusões mais robustas sobre suas análises. Mas, por outro lado, o individualismo estrito, está muito longe de ser considerado uma verdade empírica absoluta do comportamento humano. O ser humano é um ser social; é racional os indivíduos viverem próximos uns dos outros, e agir cooperativamente (LUCAS, 1988) quando for vantajoso para todos. Por isso, acho importante o desenvolvimento de teorias econômicas que levem em conta o comportamento de indivíduos agregados em grupos sociais (famílias, profissões, comunidades habitacionais, etc.) para aperfeiçoar as análises.
Um ponto final que quero destacar é o fato de que, independente de relativismos sociais, históricos e políticos que possa afetar a ciência econômica, não acho isso passível da defesa de um niilismo em seu estudo. Isto é, apesar dos problemas enfrentados pelas teorias econômicas, sejam ortodoxas, sejam heterodoxas, e que são intrínsecos à própria noção de conhecimento humano, não acho que isso possa defender que a análise econômica, seja de previsão, seja de explicação, simplesmente não seja possível, de modo que a economia se torne apenas um campo de conflito de interesses ideológicos. Essas críticas, realizadas por diversos autores e estudiosas, destacam mais o desafio de se construir estudos econômicos mais concretos, do que quaisquer impossibilidades.
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Metodologia da Economia
quinta-feira, fevereiro 21, 2008
Discussão Interessante sobre a Metodologia da Economia - Parte 5 (Metodologia da Economia Neoclássica)
Nesse ponto de sua dissertação, o autor aponta aqueles que considera os maiores pontos de sua crítica à metodologia da economia neoclássica:
Nesse ponto, destaco um detalhe: afirmar que os axiomas da teoria econômica neoclássica são "proposições científicas que são falsificáveis", mesmo que seja aceito pela maior parte dos economistas dessa linha de pensamento, é freqüentemente refutado por estudiosos de metodologia científica (economistas ou não). Cabe ressaltar que o falsificacionismo é um princípio metodológico pensado e teorizado para as ciências naturais, e não para as ciências sociais, e isso foi lembrado pelo próprio Karl Popper. Sendo uma ciência social aplicada, a economia tem suas teorias construídas a partir de proposições de origem filosófica e metafísica. Ou seja, os conceitos fundamentais da economia neoclássica, como "racionalidade", "equilíbrio", ou mesmo "market-clearing", não podem ser continuamente testados, até serem falsificados, refutados e substituídos por outros, tal como a metodologia popperiana propõe, simplesmente porque não são princípios empíricos. Se fossem, precisariam estar fundamentados por teorias biológicas e bioquímicas (isto é, exatas e naturais) do comportamento humano.
A metodologia da economia neoclássica, até meados da década de 1940, defendeu que esses conceitos e premissas fundamentais de suas teorias consistiam em verdades empíricas observadas, como apontou Stuart Mill ("as pessoas têm necessidades, e procuram satisfazê-las", "para atingir um mesmo fim, as pessoas escolhem um meio menos trabalhoso"). Contudo, após a crise da ciência economia, na década de 30, potencializada pela crítica keynesiana, segundo a qual os economistas não conseguiram prever a crise de 29 exatamente porque se ocupavam meramente de teorizar em cima de pressupostos pouco empíricos e demasiado metafísicos. A solução dessa crise metodológica saiu com o famoso artigo de Milton Friedman, no início da década de 50 (época do boom de crescimento econômico internacional pós-guerra), para o qual os pressupostos da ciência econômica têm importância meramente de caráter instrumental, isto é, devem ser avaliados, no sentido metodológico, não de acordo com sua observação empírica, mas sim com sua conveniência para a tomada de conclusões e de previsões de eventos futuros. Certamente, o instrumentalismo científico, tal como proposto por Friedman, é passível de críticas. Contudo, após sua publicação, suas idéias foram amplamente aceitas pela comunidade científica econômica, mesmo que muitos de seus membros ainda confiem na "lógica indutiva" de Stuart Mill.
Nesse ponto, o autor destaca o caráter pouco empírico da teoria do equilíbrio geral walrasiano, de grande importância na economia neoclássica. De fato, o equilíbrio geral depende de muitas suposições abstratas, inclusive de conclusões de modelos econômicos abstratos mais elementares, e a sua empiricidade é tema de muitas discussões. O autor também muito bem aponta a própria preocupação dos teóricos em economia com as suas limitações, ao continuamente desenvolver esboços de soluções técnicas para tentar fazer as conclusões dos modelos de equilíbrio geral emularem o mundo econômico real, mesmo às custas de novas suposições metafísicas e abstratas.
Contudo, novamente, associar esse fato com a inserção da economia neoclássica em um "paradigma kuhniano" é forçado. Thomas Khun desenvolveu sua noção de paradigma científico, no qual os cientistas se ocupam apenas com seu trabalho heurístico (técnico), pensando em "ciências normais", no qual as discussões metodológicas já foram superadas pelos seus estudiosos. E esse, obviamente, não é o caso da economia (em nenhuma corrente de pensamento)! Se as dicussões metodológicas são ignoradas, ou mesmo subestimadas, no departamento de economia da PUC-Rio é um assunto interno seu; mas estender esse problema à comunidade econômica interncacional, é um grande equívoco. Mesmo no mundo anglo-saxônico, em que a economia mainstream é mesmo mainstream, as discussões metodológicas não são conclusivas (e eu posso garantir isso pessoalmente, como pesquisador sobre o tema).
Uma alternativa aos paradigmas kuhnianos é a associação das correntes de pensamento econômico aos programas de pesquisa lakatosianos. Em Lakatos, ao contrário de em Kuhn, apresenta-se a dicussão metodológica não em "ciências normais", com um paradigma definido, mas sim em ciências com linhas de pensamento concorrentes. Nesse caso, os problemas apontados pelo autor sobre a falta de discussões metodológicas sobre os pressupostos das teorias econômicas na PUC-Rio devem-se à agregação desses pressupostos ao "núcleo irredutível" de hipóteses pertencentes ao programa de pesquisa local, que não necessariamente precisam se repetir em outros programas de pesquisa econômicos. Logicamente, a aplicação dos programas de pesquisa lakatosianos à ciência econômica também não é impassível de críticas, principalmente devido à flexibilidade de suas hipóteses fundamentais (com a própria constante busca por refinamentos técnicos a seus problemas mais empíricos), e pela existência de sub-programas de pesquisa, ou de programas inter-dependentes (por exemplo, o programa novo-clássico de Chicago não é igual ao programa novo-keynesiano do MIT, mesmo que ambos pertençam a um programa neoclássico superior).
O problema básico da ortodoxia é que ela traveste suas premissas fundamentais
(semânticas) de método de comunicação objetiva (sintática). É assim que
progressivamente proposições científicas que são falsificáveis e deveriam ter
justificativas teóricas mais profundas — e freqüentemente têm, mas muitos
ortodoxos ignoram os aspectos mais abstrusos do fundamento profundo da
ortodoxia, a teoria neo-walrasiana — são elevadas a verdades triviais.
Nesse ponto, destaco um detalhe: afirmar que os axiomas da teoria econômica neoclássica são "proposições científicas que são falsificáveis", mesmo que seja aceito pela maior parte dos economistas dessa linha de pensamento, é freqüentemente refutado por estudiosos de metodologia científica (economistas ou não). Cabe ressaltar que o falsificacionismo é um princípio metodológico pensado e teorizado para as ciências naturais, e não para as ciências sociais, e isso foi lembrado pelo próprio Karl Popper. Sendo uma ciência social aplicada, a economia tem suas teorias construídas a partir de proposições de origem filosófica e metafísica. Ou seja, os conceitos fundamentais da economia neoclássica, como "racionalidade", "equilíbrio", ou mesmo "market-clearing", não podem ser continuamente testados, até serem falsificados, refutados e substituídos por outros, tal como a metodologia popperiana propõe, simplesmente porque não são princípios empíricos. Se fossem, precisariam estar fundamentados por teorias biológicas e bioquímicas (isto é, exatas e naturais) do comportamento humano.
A metodologia da economia neoclássica, até meados da década de 1940, defendeu que esses conceitos e premissas fundamentais de suas teorias consistiam em verdades empíricas observadas, como apontou Stuart Mill ("as pessoas têm necessidades, e procuram satisfazê-las", "para atingir um mesmo fim, as pessoas escolhem um meio menos trabalhoso"). Contudo, após a crise da ciência economia, na década de 30, potencializada pela crítica keynesiana, segundo a qual os economistas não conseguiram prever a crise de 29 exatamente porque se ocupavam meramente de teorizar em cima de pressupostos pouco empíricos e demasiado metafísicos. A solução dessa crise metodológica saiu com o famoso artigo de Milton Friedman, no início da década de 50 (época do boom de crescimento econômico internacional pós-guerra), para o qual os pressupostos da ciência econômica têm importância meramente de caráter instrumental, isto é, devem ser avaliados, no sentido metodológico, não de acordo com sua observação empírica, mas sim com sua conveniência para a tomada de conclusões e de previsões de eventos futuros. Certamente, o instrumentalismo científico, tal como proposto por Friedman, é passível de críticas. Contudo, após sua publicação, suas idéias foram amplamente aceitas pela comunidade científica econômica, mesmo que muitos de seus membros ainda confiem na "lógica indutiva" de Stuart Mill.
Em um movimento de espiral, a ortodoxia vai elevando resultados
anteriormente construídos em um contexto teórico (e logo frágil) a categorias da
razão pura, e mesmo aqueles um pouco mais antenados em epistemologia aceitam
isso passivamente, um pouco por esperança de soluções técnicas superiores que
façam tudo entrar no lugar (”ah, mas no mestrado da PUC vê-se equilíbrios
múltiplos”), em parte pela força da autoridade (”mas é o Pedro Malan dizendo
isso”) e em parte pela facilidade com que um ser humano de atenção e cognição
limitada se insere num paradigma kuhniano.
Nesse ponto, o autor destaca o caráter pouco empírico da teoria do equilíbrio geral walrasiano, de grande importância na economia neoclássica. De fato, o equilíbrio geral depende de muitas suposições abstratas, inclusive de conclusões de modelos econômicos abstratos mais elementares, e a sua empiricidade é tema de muitas discussões. O autor também muito bem aponta a própria preocupação dos teóricos em economia com as suas limitações, ao continuamente desenvolver esboços de soluções técnicas para tentar fazer as conclusões dos modelos de equilíbrio geral emularem o mundo econômico real, mesmo às custas de novas suposições metafísicas e abstratas.
Contudo, novamente, associar esse fato com a inserção da economia neoclássica em um "paradigma kuhniano" é forçado. Thomas Khun desenvolveu sua noção de paradigma científico, no qual os cientistas se ocupam apenas com seu trabalho heurístico (técnico), pensando em "ciências normais", no qual as discussões metodológicas já foram superadas pelos seus estudiosos. E esse, obviamente, não é o caso da economia (em nenhuma corrente de pensamento)! Se as dicussões metodológicas são ignoradas, ou mesmo subestimadas, no departamento de economia da PUC-Rio é um assunto interno seu; mas estender esse problema à comunidade econômica interncacional, é um grande equívoco. Mesmo no mundo anglo-saxônico, em que a economia mainstream é mesmo mainstream, as discussões metodológicas não são conclusivas (e eu posso garantir isso pessoalmente, como pesquisador sobre o tema).
Uma alternativa aos paradigmas kuhnianos é a associação das correntes de pensamento econômico aos programas de pesquisa lakatosianos. Em Lakatos, ao contrário de em Kuhn, apresenta-se a dicussão metodológica não em "ciências normais", com um paradigma definido, mas sim em ciências com linhas de pensamento concorrentes. Nesse caso, os problemas apontados pelo autor sobre a falta de discussões metodológicas sobre os pressupostos das teorias econômicas na PUC-Rio devem-se à agregação desses pressupostos ao "núcleo irredutível" de hipóteses pertencentes ao programa de pesquisa local, que não necessariamente precisam se repetir em outros programas de pesquisa econômicos. Logicamente, a aplicação dos programas de pesquisa lakatosianos à ciência econômica também não é impassível de críticas, principalmente devido à flexibilidade de suas hipóteses fundamentais (com a própria constante busca por refinamentos técnicos a seus problemas mais empíricos), e pela existência de sub-programas de pesquisa, ou de programas inter-dependentes (por exemplo, o programa novo-clássico de Chicago não é igual ao programa novo-keynesiano do MIT, mesmo que ambos pertençam a um programa neoclássico superior).
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Metodologia da Economia
segunda-feira, fevereiro 18, 2008
Discussão Interessante sobre a Metodologia da Economia - Parte 4
Segundo o autor do post sobre o qual estou comentando (já referido nos posts anteriores), não custa lembrar e reafirmar, o debate fundamental entre ortodoxia e heterodoxia, em sua visão, a lei de Say ricardiana versus a demanda efetiva malthusiana nunca foi resolvido pelos autores, mas, pelo contrário, tem sido cada vez mais evitado. O autor refere a essa problemática como se fosse uma verdadeira "canalhice" realizada pelos teóricos de ambas as tendências.
Por um lado, os ortodoxos, de forma não apontada diretamente pelo autor, mas a associação é muito clara, acabaram por assumir os pressupostos de sua visão (a lei de Say) como núcleo irredutível de um programa de pesquisa lakatosiano. Isto é, o que seria apenas uma tese parte de um debate, consistindo em uma teoria econômica abstrata, acabou se tornando um pressuposto, praticamente um axioma não-questionável para todos os pesquisadores de sua área. E, a partir desse pressuposto, foram construídos, ao longo dos séculos XIX e XX, todo um cinturão de hipóteses auxiliares e heurísticas de pesquisa, mas nunca colocando o seu núcleo em discussão. Em resumo, o autor aponta que a "canalhice ortodoxa" consiste em "castrar o debate" por questões de pragmatismo técnico.
Como exemplo, relembra seus professores, ortodoxos, na PUC-Rio. Segundo o autor, em um centro ortodoxo, questões como a lei de Say nunca são discutidas, mas sim são apresentadas como pressupostos absolutamente triviais de outros modelos econômicos.
Um ponto que destaco aqui é a possibilidade de se culpar a teoria econômica neoclássica, ou economia ortodoxa, por problemas que aparentemente se reduzem à falta de didática de professores. Pessoalmente, não vejo nehuma "heresia", no sentido de desrespeito por parte do acadêmico pelo seu programa de pesquisa, ao explicar reflexivamente os seus conceitos e pressupostos mais básicos aos alunos, principalmente os de graduação. Isso não se resume apenas à lei de Say, mas também a pontos mais centrais da ciência econômica neoclássica, tais como "racionalidade", "preferências", "equilíbrio", etc. Empiricamente, já observei repetidas vezes, ao longo da minha vida acadêmica (tanto na graduação como na pós), que um dos principais fatores que diferenciam um determinado professor e marcam a qualidade de sua aula, é sua capacidade de organizar logicamente as teorias econômicas, de forma a separar, e tornar explícito, aquilo que é pressuposto, e aquilo que é implicação. E, ainda, nem de longe tal problema se resume à ortodoxia. Muitos dos meus professores heterodoxos também se mostraram incapazes de proporcionar uma boa organização lógica de suas idéias para os alunos, tornando suas aulas absolutamente incompreensíveis e prolixas para quem já não tinha um bom conhecimento prévio sobre o assunto.
Pesquisadores, de certo, podem simplesmente aceitar determinados pressupostos de seus programas de pesquisa como núcleos irredutíveis, simplesmente porque não há espaço para demasiados longos "momentos de reflexão" em artigos científicos, que tendem a cobrar cada vez mais rigor objetivo aos seus elaboradores. Mas isso certamente não se aplica a professores, cuja competência profissional depende, além de seu conhecimento sobre a matéria, de sua capacidade didática e de comunicação.
Por um lado, os ortodoxos, de forma não apontada diretamente pelo autor, mas a associação é muito clara, acabaram por assumir os pressupostos de sua visão (a lei de Say) como núcleo irredutível de um programa de pesquisa lakatosiano. Isto é, o que seria apenas uma tese parte de um debate, consistindo em uma teoria econômica abstrata, acabou se tornando um pressuposto, praticamente um axioma não-questionável para todos os pesquisadores de sua área. E, a partir desse pressuposto, foram construídos, ao longo dos séculos XIX e XX, todo um cinturão de hipóteses auxiliares e heurísticas de pesquisa, mas nunca colocando o seu núcleo em discussão. Em resumo, o autor aponta que a "canalhice ortodoxa" consiste em "castrar o debate" por questões de pragmatismo técnico.
Como exemplo, relembra seus professores, ortodoxos, na PUC-Rio. Segundo o autor, em um centro ortodoxo, questões como a lei de Say nunca são discutidas, mas sim são apresentadas como pressupostos absolutamente triviais de outros modelos econômicos.
A canalhice ortodoxa consiste em fingir que muitos problemas
já estão resolvidos; fala-se de um “consenso emergente” na macroeconomia, como
se os problemas radicais da teoria ortodoxa vigente, problemas outrora
reconhecidos por ortodoxos de uma geração mais honesta, não existissem.
Um ponto que destaco aqui é a possibilidade de se culpar a teoria econômica neoclássica, ou economia ortodoxa, por problemas que aparentemente se reduzem à falta de didática de professores. Pessoalmente, não vejo nehuma "heresia", no sentido de desrespeito por parte do acadêmico pelo seu programa de pesquisa, ao explicar reflexivamente os seus conceitos e pressupostos mais básicos aos alunos, principalmente os de graduação. Isso não se resume apenas à lei de Say, mas também a pontos mais centrais da ciência econômica neoclássica, tais como "racionalidade", "preferências", "equilíbrio", etc. Empiricamente, já observei repetidas vezes, ao longo da minha vida acadêmica (tanto na graduação como na pós), que um dos principais fatores que diferenciam um determinado professor e marcam a qualidade de sua aula, é sua capacidade de organizar logicamente as teorias econômicas, de forma a separar, e tornar explícito, aquilo que é pressuposto, e aquilo que é implicação. E, ainda, nem de longe tal problema se resume à ortodoxia. Muitos dos meus professores heterodoxos também se mostraram incapazes de proporcionar uma boa organização lógica de suas idéias para os alunos, tornando suas aulas absolutamente incompreensíveis e prolixas para quem já não tinha um bom conhecimento prévio sobre o assunto.
Pesquisadores, de certo, podem simplesmente aceitar determinados pressupostos de seus programas de pesquisa como núcleos irredutíveis, simplesmente porque não há espaço para demasiados longos "momentos de reflexão" em artigos científicos, que tendem a cobrar cada vez mais rigor objetivo aos seus elaboradores. Mas isso certamente não se aplica a professores, cuja competência profissional depende, além de seu conhecimento sobre a matéria, de sua capacidade didática e de comunicação.
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Disscussão Interessante sobre a Metodologia da Economia - Parte 3 (Lei de Say e Demanda Efetiva)
O post que estou comentando, e debatendo, se chama "Malthus, ou: tudo o que eu precisava saber sobre economia aprendi vendo Senna X Mansell com meu pai", e está no blog köenigsberg (agradeço a lembrança por Enoch Filho).
Em resumo, o autor sugere que a diferença fundamental entre a economia ortodoxa e as visões heterodoxas nasceu da famosa discussão entre David Ricardo e Thomas Malthus sobre a "Controvérsia da Abundância Geral". Essa controvérsia discorreu-se sobre a possibilidade de economias de mercado enfrentarem crises de superprodução, ou de seu crescimento ser limitado por falta de demanda. De acordo com Ricardo, a decisão de produzir (oferta), por parte de um investidor, naturalmente provocaria uma demanda por fatores de produção (crescimento do emprego), os quais seriam devidamente remunerados, e suas remunerações seriam aplicadas em bens (consumo e investimento). Esse mecanismo ficou conhecido como Lei de Say. Assim, aumentos da oferta acarretariam em aumentos da demanda, essa não seria jamais um fator restritivo ao crescimento, mas sim apenas a disponibilidade de fatores de produção na economia. Malthus, por sua vez, defendeu que os empresários investiam, ou decidiam produzir (oferta) com base em suas expectativas de retornos futuros no mercado (demanda). Ou seja, a produção-oferta é decidida ex-ante com base em expectativas ex-post de mercado-demanda. Assim, se a demanda ex-post (ou demanda efetiva) não correspondesse ao esperado ex-ante, inibiria nosvos investimentos, e provocaria crise econômica. Nessa visão, a oferta é precedida pela demanda.
A curiosa analogia que o autor faz com Senna e Mansell é explicada: enquanto Mansell devia suas vitórias predominantemente à capacidade mecânica de seu carro (a Williams do início dos anos 90), Senna devia suas vitórias ao seu espírito esportivo individual. Ou seja, Mansell representaria a ortodoxia, em que a sua dinâmica dependeria de suas disponibilidades técnicas, e Senna representaria a heterodoxia, em que a sua dinâmica dependeria de seu estado de ânimo empreendedor.
Após a discussão entre Ricardo e Malthus, o autor argumenta as correntes de pensamento econômico trataram de expandir seus aparatos técnicos, baseados em suas suposições escolhidas. Ou seja, a controvérsia nunca foi resolvida, mas sim ignorada por autores de ambos os lados, como os neoclássicos, no caso da ortodoxia, como os marxistas e keynesianos, no caso da heterodoxia. Contudo, uma tentativa bastante clara e evidente de sintetizar essa discussão entre crescimento econômico liderado pela demanda e pela oferta foi realizada pela chamada síntese neoclássica da macroeconomia keynesiana, na década de 40, por parte de autores como Hicks, Hansen e Modigliani. Segundo essa teoria, a economia, em um curto prazo, em que preços e salários são fixos, o nível de produto é definido em um equilíbrio parcial entre a oferta e a demanda agregadas, e como essa última é empiricamente mais flexível, acaba determinando aumentos de produção e recessões. Mas, no longo prazo, em que a rigidez nominal é insignificante, o nível de produto é dado por um equilíbrio geral, que só seria deslocado por mudanças na fronteira técnica de produção. O autor coloca esse ponto como uma mera contra-reforma técnica da economia ortodoxa, de modo a acomodar o mercado de fundos emprestáveis, que garante a igualdade entre poupança e investimento implicadas pela lei de Say, como um mercado de remuneração de fatores. Desse modo, a teoria da demanda efetiva, famosa por Malthus e Keynes, seria posta como um caso especial da lei de Say, quando houvesse rigidez nominal nesses mercados.
Tal ponto de vista, mesmo que seja intuitivo, é bastante polêmico. Por um lado, afirmar que o crescimento de curto prazo liderado pela demanda é, pela síntese neoclássica, um "caso especial" da teoria clássica anterior, parece ser muito forte. Na verdade, toda a macroeconomia neoclássica, até mesmo o monetarismo e o novo-keynesianismo, é baseada numa noção de dualidade lógica entre um curto prazo no qual existe rigidez nominal, mais forte no mercado de fatores de produção, de modo que variações na demanda agregada afetam o produto, e um longo prazo em que a economia converge para uma situação de equilíbrio geral. O curto prazo, assim, não é um caso especial, mas faz parte da dinâmica de todo o sistema. Essa visão só está explicitamente presente na macroeconomia novo-clássica (expectativas racionais) de Robert Lucas, segundo a qual, a demanda agregada só pode influenciar o crescimento econômico se houver assimetria de informações entre os formuladores de política econômica e os produtores de bens. Essa situação de assimetria seria, sim, um caso especial da economia com informação perfeita, na qual vigora o equilíbrio geral mesmo em um curto prazo.
Em resumo, o autor sugere que a diferença fundamental entre a economia ortodoxa e as visões heterodoxas nasceu da famosa discussão entre David Ricardo e Thomas Malthus sobre a "Controvérsia da Abundância Geral". Essa controvérsia discorreu-se sobre a possibilidade de economias de mercado enfrentarem crises de superprodução, ou de seu crescimento ser limitado por falta de demanda. De acordo com Ricardo, a decisão de produzir (oferta), por parte de um investidor, naturalmente provocaria uma demanda por fatores de produção (crescimento do emprego), os quais seriam devidamente remunerados, e suas remunerações seriam aplicadas em bens (consumo e investimento). Esse mecanismo ficou conhecido como Lei de Say. Assim, aumentos da oferta acarretariam em aumentos da demanda, essa não seria jamais um fator restritivo ao crescimento, mas sim apenas a disponibilidade de fatores de produção na economia. Malthus, por sua vez, defendeu que os empresários investiam, ou decidiam produzir (oferta) com base em suas expectativas de retornos futuros no mercado (demanda). Ou seja, a produção-oferta é decidida ex-ante com base em expectativas ex-post de mercado-demanda. Assim, se a demanda ex-post (ou demanda efetiva) não correspondesse ao esperado ex-ante, inibiria nosvos investimentos, e provocaria crise econômica. Nessa visão, a oferta é precedida pela demanda.
A curiosa analogia que o autor faz com Senna e Mansell é explicada: enquanto Mansell devia suas vitórias predominantemente à capacidade mecânica de seu carro (a Williams do início dos anos 90), Senna devia suas vitórias ao seu espírito esportivo individual. Ou seja, Mansell representaria a ortodoxia, em que a sua dinâmica dependeria de suas disponibilidades técnicas, e Senna representaria a heterodoxia, em que a sua dinâmica dependeria de seu estado de ânimo empreendedor.
Basicamente, a interpretação ortodoxa da vida econômica está dizendo que
sem motor não adianta muque e a heterodoxa que sem muque não adianta
motor.
Após a discussão entre Ricardo e Malthus, o autor argumenta as correntes de pensamento econômico trataram de expandir seus aparatos técnicos, baseados em suas suposições escolhidas. Ou seja, a controvérsia nunca foi resolvida, mas sim ignorada por autores de ambos os lados, como os neoclássicos, no caso da ortodoxia, como os marxistas e keynesianos, no caso da heterodoxia. Contudo, uma tentativa bastante clara e evidente de sintetizar essa discussão entre crescimento econômico liderado pela demanda e pela oferta foi realizada pela chamada síntese neoclássica da macroeconomia keynesiana, na década de 40, por parte de autores como Hicks, Hansen e Modigliani. Segundo essa teoria, a economia, em um curto prazo, em que preços e salários são fixos, o nível de produto é definido em um equilíbrio parcial entre a oferta e a demanda agregadas, e como essa última é empiricamente mais flexível, acaba determinando aumentos de produção e recessões. Mas, no longo prazo, em que a rigidez nominal é insignificante, o nível de produto é dado por um equilíbrio geral, que só seria deslocado por mudanças na fronteira técnica de produção. O autor coloca esse ponto como uma mera contra-reforma técnica da economia ortodoxa, de modo a acomodar o mercado de fundos emprestáveis, que garante a igualdade entre poupança e investimento implicadas pela lei de Say, como um mercado de remuneração de fatores. Desse modo, a teoria da demanda efetiva, famosa por Malthus e Keynes, seria posta como um caso especial da lei de Say, quando houvesse rigidez nominal nesses mercados.
Tal ponto de vista, mesmo que seja intuitivo, é bastante polêmico. Por um lado, afirmar que o crescimento de curto prazo liderado pela demanda é, pela síntese neoclássica, um "caso especial" da teoria clássica anterior, parece ser muito forte. Na verdade, toda a macroeconomia neoclássica, até mesmo o monetarismo e o novo-keynesianismo, é baseada numa noção de dualidade lógica entre um curto prazo no qual existe rigidez nominal, mais forte no mercado de fatores de produção, de modo que variações na demanda agregada afetam o produto, e um longo prazo em que a economia converge para uma situação de equilíbrio geral. O curto prazo, assim, não é um caso especial, mas faz parte da dinâmica de todo o sistema. Essa visão só está explicitamente presente na macroeconomia novo-clássica (expectativas racionais) de Robert Lucas, segundo a qual, a demanda agregada só pode influenciar o crescimento econômico se houver assimetria de informações entre os formuladores de política econômica e os produtores de bens. Essa situação de assimetria seria, sim, um caso especial da economia com informação perfeita, na qual vigora o equilíbrio geral mesmo em um curto prazo.
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terça-feira, fevereiro 05, 2008
Discussão Interessante sobre a Metodologia da Economia - Parte 1
No blog Köenigsberg, feito por um mestrando em economia na UFRJ, e com graduação na PUC-RJ, encontrei uma discussão muito relevante a respeito da metodologia da economia, e as diferenciações funamentais entre ortodoxia e heterodoxia. Como chegou a freqüentar dois centros de grande prestígio na economia brasileira, mas de enfoque totalmente distinto (PUC-RJ é um dos principais centros de ortodoxia, a UFRJ é um dos principais centros de heterodoxia no país), o autor revela muito bom conhecimento sobre os aspectos centrais envolvidos em sua abordagem.
O autor identifica como o centro da divisão da teoria econômica entre ortodoxia e heterodoxia o ano de 1820, com a famosa discussão entre David Ricardo e Thomas Malthus sobre a natureza dinâmica do sistema econômico. Ricardo, como é amplamente sabido, defendia que os fatores relacionados à oferta tinham predominância sobre a demanda nesse processo, já que, para que se expanda a oferta, é necessário que a economia empregue mais fatores de produção, os quais serão remunerados, e sua remuneração será empregada em algum gasto. Ou seja, sem oferta, não há emprego; sem emprego, não há remuneração; sem remuneração, não há demanda. Malthus, por sua vez, defendeu que os empresários realizam seus investimentos com base em expectativas ex ante da demanda futura por seus produtos. Contudo, as expectativas podem falhar, e, nesse caso, o volume de vendas, que determina a produção econômica, acaba sendo determinado pela demanda ex post, ou demanda efetiva.
Após essa dicussão, segundo o autor, a economia voltou-se para assuntos de natureza técnica e formal, em que cada escola e pensamento assumiu uma determinada opção sobre essa divergência. Por um lado, a economia neoclássica adotou como axioma pensamento de David Ricardo (a "Ley de Say"), e procurou deduzir conseqüências lógicas desse pensamento. Esse tornou-se o pensamento "ortodoxo" da ciência econômica. Os críticos de Ricardo, por sua vez, adotaram pensamentos semelhantes ao de Malthus (tal como Keynes), e, por não consistirem em um grupo homogêneo de pensamento econômico, tornaram-se denominados como "heterodoxos".
Assim, autores posteriores, como Walras, Marshall, Keynes, e depois, Hicks, Hansen, Samuelson, Friedman e Lucas se ocuparam de desenvolver as teorias pré-existentes, assumindo como válidos os axiomas adotados por elas. E é esse o ponto em que o autor coloca como o principal problema metodológico da economia contemporânea: o debate entre ortodoxia e heterodoxia esvasiou-se sem que uma solução, ou uma síntese, tenha sido alcançada para a discussão do seu padrão de comportamento dinâmico, que originou a discórdia. Por um lado, os economistas ortodoxos simplesmente ignoram a existência de "debate" a respeito dos axiomas, utilizando exegeradamente hipóteses teóricas de grande conteúdo ficcionista, em nome de um pragmatismo técnico (tal como o instrumentalismo teórico, de Friedman).
Outro problema apresentado pela ortodoxia é o não-consenso interno (para não falar em confusão) no papel das hipóteses e axiomas assumidos, a partir dos quais as teorias econômicas são deduzidas: seriam eles verdades empíricas (como em Mill), ou meras conveniências técnicas para a realização de previsões (como em Friedman)?
Por fim, a ortodoxia, ao evitar o debate sobre os pontos historicamente não-resolvidos na ciência econômica, defende seu ponto de vista recorrendo ao desmerecimento dos heterodoxos como profissionais sérios, ou mesmo adotando argumentos de autoridade, valendo-se de opiniões de políticos e de acadêmicos famosos, com o seu ponto de vista, como verdades científicas.
Contudo, os defeitos da heterodoxia parecem ainda mais graves ao autor. Sobretudo, pela sua não-agregação em estruturas teóricas consistentemente fundamentadas, e dependentes de criticismos à teoria ortodoxa.
Nesse sentido, a ortodoxia mostra-se cientificamente superior à heterodoxia por três fatores. Em primeiro lugar, pela questão normativa relacionada com o sistema de preços como um mecanismo natural de alocação de renda e de recursos na sociedade, uma vez que expressa as verdadeiras variáveis individuais e tecnológicas dos agentes econômicos. Em segundo lugar, pela excessiva utopização da heterodoxia, sobretudo no que diz respeito às políticas macroeconômicas, ao gasto público e ao desenvolvimento. Há praticamente esquecimento da limitação de recursos no mundo real, a qual é originalmente o foco da ciência econômica. Por fim, o maior apego dos heterodoxos à política para fins de resolução de discussões mais técnicas e teóricas, o que deixa o debate profundamente ideologizado. Por essas três razões, o autor declara-se seguidor da teoria ortodoxa.
Contudo, em um trecho de conteúdo muito polêmico, o autor aponta uma suposta razão "humana" para a superioridade da ortodoxia sobre a heterodoxia. Segundo consta, a ortodoxia pode até estar em desvantagem no que diz respeito à Lei de Say e ao caráter dinâmico do sistema econômico, mas tem, a seu favor, uma grande vantagem epistemiológica. A ortodoxia baseia sua teoria, independentemente da veraciadade dos axiomas levantados, em um arranjo empiricamente correto, para o autor. Esse arranjo é o individualismo metodológico.
Portanto, a heterodoxia peca em defender, com muita freqüência, princípios econômicos normativos no nível agregado, tais como o desenvolvimento, o crescimento e o emprego. O autor enxerga a sociedade como uma integral de indivíduos independentes e plenamente conscientes de sua personalidade. E tal erro muitas vezes chega a contagiar a ortodoxia.
O post encerra com uma afirmação muito forte. Sendo o individualismo metodológico um procedimento epistemologicamente correto na economia, pois é uma verdade absoluta e empírica, deduções tomadas a partir disso também podem ser consideradas cientificamente corretas.
Nos meus próximos posts, vou discutir melhor as questões aqui levantadas. Mas já deixo adiantado que, como estudante de metodologia da economia, minhas opiniões pessoais podem representar o exato oposto do que o autor aqui apresentado apontou.
O fato é que tive nos meus seis anos de economia um contato íntimo com os extremos teóricos do pensamento econômico contemporâneo no Brasil: fui aluno de Dionísio Dias Carneiro e de Mário Luiz Possas. Mais ainda, tomei contato com duas visões bastante distintas sobre a história do pensamento econômico — e apesar de ter basicamente dormido durante os cursos que explicitaram a visão ideológica hard de cada escola sobre o assunto, pude inferí-las e reconstruí-las heuristicamente pelo pensamento vivo de seus economistas modernos.
O autor identifica como o centro da divisão da teoria econômica entre ortodoxia e heterodoxia o ano de 1820, com a famosa discussão entre David Ricardo e Thomas Malthus sobre a natureza dinâmica do sistema econômico. Ricardo, como é amplamente sabido, defendia que os fatores relacionados à oferta tinham predominância sobre a demanda nesse processo, já que, para que se expanda a oferta, é necessário que a economia empregue mais fatores de produção, os quais serão remunerados, e sua remuneração será empregada em algum gasto. Ou seja, sem oferta, não há emprego; sem emprego, não há remuneração; sem remuneração, não há demanda. Malthus, por sua vez, defendeu que os empresários realizam seus investimentos com base em expectativas ex ante da demanda futura por seus produtos. Contudo, as expectativas podem falhar, e, nesse caso, o volume de vendas, que determina a produção econômica, acaba sendo determinado pela demanda ex post, ou demanda efetiva.
Após essa dicussão, segundo o autor, a economia voltou-se para assuntos de natureza técnica e formal, em que cada escola e pensamento assumiu uma determinada opção sobre essa divergência. Por um lado, a economia neoclássica adotou como axioma pensamento de David Ricardo (a "Ley de Say"), e procurou deduzir conseqüências lógicas desse pensamento. Esse tornou-se o pensamento "ortodoxo" da ciência econômica. Os críticos de Ricardo, por sua vez, adotaram pensamentos semelhantes ao de Malthus (tal como Keynes), e, por não consistirem em um grupo homogêneo de pensamento econômico, tornaram-se denominados como "heterodoxos".
A ortodoxia está dizendo que a disponibilidade dos recursos produtivos implica em demanda, na medida em que as pessoas remuneradas por seu uso — salários e juros — vão sair e consumir, havendo assim tendência ao equilíbrio; como esses recursos são alocados entre os diferentes setores e fatores é um problema muito bem resolvido pela teoria de equilíbrio geral. A heterodoxia está dizendo que o empresário só vai contratar os fatores produtivos se esperar demanda, e só haverá demanda se os fatores produtivos forem contratados — o que implica numa tendência para círculos viciosos e virtuosos, dependendo dos espíritos animais keynesianos e da eficácia da política econômica em produzir o círculo virtuoso.
Assim, autores posteriores, como Walras, Marshall, Keynes, e depois, Hicks, Hansen, Samuelson, Friedman e Lucas se ocuparam de desenvolver as teorias pré-existentes, assumindo como válidos os axiomas adotados por elas. E é esse o ponto em que o autor coloca como o principal problema metodológico da economia contemporânea: o debate entre ortodoxia e heterodoxia esvasiou-se sem que uma solução, ou uma síntese, tenha sido alcançada para a discussão do seu padrão de comportamento dinâmico, que originou a discórdia. Por um lado, os economistas ortodoxos simplesmente ignoram a existência de "debate" a respeito dos axiomas, utilizando exegeradamente hipóteses teóricas de grande conteúdo ficcionista, em nome de um pragmatismo técnico (tal como o instrumentalismo teórico, de Friedman).
A canalhice ortodoxa consiste em fingir que muitos problemas já estão resolvidos; fala-se de um “consenso emergente” na macroeconomia, como se os problemas radicais da teoria ortodoxa vigente, problemas outrora reconhecidos por ortodoxos de uma geração mais honesta, não existissem.
Outro problema apresentado pela ortodoxia é o não-consenso interno (para não falar em confusão) no papel das hipóteses e axiomas assumidos, a partir dos quais as teorias econômicas são deduzidas: seriam eles verdades empíricas (como em Mill), ou meras conveniências técnicas para a realização de previsões (como em Friedman)?
O problema básico da ortodoxia é que ela traveste suas premissas fundamentais (semânticas) de método de comunicação objetiva (sintática). É assim que progressivamente proposições científicas que são falsificáveis e deveriam ter justificativas teóricas mais profundas — e freqüentemente têm, mas muitos ortodoxos ignoram os aspectos mais abstrusos do fundamento profundo da ortodoxia, a teoria neo-walrasiana — são elevadas a verdades triviais.E, baseadas nessas premissas e de conclusões lógicas desenvolvidas a partir dessas premissas, a ortodoxia desenvolve teorias cada vez mais ficcionais e pouco-empíricas.
Em um movimento de espiral, a ortodoxia vai elevando resultados anteriormente construídos em um contexto teórico (e logo frágil) a categorias da razão pura,
Por fim, a ortodoxia, ao evitar o debate sobre os pontos historicamente não-resolvidos na ciência econômica, defende seu ponto de vista recorrendo ao desmerecimento dos heterodoxos como profissionais sérios, ou mesmo adotando argumentos de autoridade, valendo-se de opiniões de políticos e de acadêmicos famosos, com o seu ponto de vista, como verdades científicas.
Contudo, os defeitos da heterodoxia parecem ainda mais graves ao autor. Sobretudo, pela sua não-agregação em estruturas teóricas consistentemente fundamentadas, e dependentes de criticismos à teoria ortodoxa.
O problema básico da heterodoxia é que todas as premissas e proposições são colocadas constantemente em discussão, até o ponto que o modelo heurístico de um economista heterodoxo pode ser parametrizado para obter qualquer coisa. E os economistas heterodoxos, estes canalhas, se prestam efetivamente a qualquer coisa.
Nesse sentido, a ortodoxia mostra-se cientificamente superior à heterodoxia por três fatores. Em primeiro lugar, pela questão normativa relacionada com o sistema de preços como um mecanismo natural de alocação de renda e de recursos na sociedade, uma vez que expressa as verdadeiras variáveis individuais e tecnológicas dos agentes econômicos. Em segundo lugar, pela excessiva utopização da heterodoxia, sobretudo no que diz respeito às políticas macroeconômicas, ao gasto público e ao desenvolvimento. Há praticamente esquecimento da limitação de recursos no mundo real, a qual é originalmente o foco da ciência econômica. Por fim, o maior apego dos heterodoxos à política para fins de resolução de discussões mais técnicas e teóricas, o que deixa o debate profundamente ideologizado. Por essas três razões, o autor declara-se seguidor da teoria ortodoxa.
Em outras palavras, por força da construção de sua teoria, ortodoxos estão mais preocupados com a justiça social — com toda a complexidade teórica que isso envolve –, são mais sóbrios e menos dados a cometer irresponsabilidades cujo preço terá que ser pago mais tarde e oferecem soluções concretas com base nesses dois condicionantes.
Contudo, em um trecho de conteúdo muito polêmico, o autor aponta uma suposta razão "humana" para a superioridade da ortodoxia sobre a heterodoxia. Segundo consta, a ortodoxia pode até estar em desvantagem no que diz respeito à Lei de Say e ao caráter dinâmico do sistema econômico, mas tem, a seu favor, uma grande vantagem epistemiológica. A ortodoxia baseia sua teoria, independentemente da veraciadade dos axiomas levantados, em um arranjo empiricamente correto, para o autor. Esse arranjo é o individualismo metodológico.
O princípio básico da teoria heterodoxa, chamado por Malthus de “princípio da demanda efetiva”, é inteiramente válido, até ligeiramente mais válido que o princípio básico ortodoxo que é a Lei de Say: no nível desagregado (ou seja, no plano walrasiano), as empresas decidem produzir com base na trajetória esperada da demanda pelo seu produto no futuro, e logo a economia é decidida ex ante facto. Mas não há nada que a sociedade possa decidir fazer a respeito, porque a sociedade não decide nada. A teoria ortodoxa vigente falha em perceber a natureza desagregada, inagregável e heterogênea da economia real, mas a teoria heterodoxa falha em perceber a natureza desagregada, inagregável e heterogêna dos interesses humanos.
Portanto, a heterodoxia peca em defender, com muita freqüência, princípios econômicos normativos no nível agregado, tais como o desenvolvimento, o crescimento e o emprego. O autor enxerga a sociedade como uma integral de indivíduos independentes e plenamente conscientes de sua personalidade. E tal erro muitas vezes chega a contagiar a ortodoxia.
Cada vez que um ortodoxo fala em políticas para o crescimento, ele está adotando o pior da heterodoxia, a incapacidade de perceber que a sociedade não é um corpo, uma vontade, mas um amontoado de corpos, vontades e desejos tentando conviver em desarmonia.
O post encerra com uma afirmação muito forte. Sendo o individualismo metodológico um procedimento epistemologicamente correto na economia, pois é uma verdade absoluta e empírica, deduções tomadas a partir disso também podem ser consideradas cientificamente corretas.
E nisso, eles, os heterodoxos, têm soluções mais coloridas — falsas, mas coloridas. A saída deste impasse envolve reverter uma dualidade para superar outra: nós precisamos estudar o que eles estão dizendo de mais correto e profundo, e ao mesmo tempo reafirmar o que nós temos de mais profundo e puro, que está na gênese walrasiana da teoria ortodoxa: a verdade.
Nos meus próximos posts, vou discutir melhor as questões aqui levantadas. Mas já deixo adiantado que, como estudante de metodologia da economia, minhas opiniões pessoais podem representar o exato oposto do que o autor aqui apresentado apontou.
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domingo, outubro 21, 2007
Metodologia da Economia em John Stuart Mill
A obra "Da Definição de Economia Política e do Método de Investigação Próprio a Ela" (1836), do inglês John Stuart Mill é considerada o primeiro texto que busca explicar a natureza e o método da Economia como uma ciência separada, isto é, independente da então chamada filosofia moral (que incluía, além da Economia Política, o Direito e a Ciência Política). Nesse texto, um grande clássico da história do pensamento econômico, o autor busca definir a problemática fundamental da Economia Política sendo influenciado tanto pelo método histórico-indutivo de Adam Smith, como pelo método dedutivo de David Ricardo, isto é, Mill formula a sua própria hipótese para a metodologia da Economia utilizando elementos, aparentemente antagônicos, desses dois autores, mas sem pender para nenhum lado.
Em princípio, Mill procura definir o que é Economia Política. Para isso, o autor procura, antes de dar a sua definição, explicar o que não é Economia Política:
Em primeiro lugar, Economia Política não é o estudo de como que uma determinada nação fica rica. Essa associação representa uma confusão entre Ciência e Arte, presente em muitos pensamentos. Ciência é definida pelo autor como um conjunto de relações lógicas entre fenômenos observados e suas leis gerais, ao passo que Arte é definida pelo mesmo como um conjunto de regras formais para a conduta, cisando produzir algum fim. Por isso, o estudo sobre o enriquecimento das nações é uma arte política, de fato, derivada da Economia Política, mas que não a define por si só.
Em segundo lugar, Economia Política não é o estudo das leis que regulam a produção, distribuição e consumo da riqueza. Para o autor, apesar dessa idéia tratar verdadeiramente a Economia como Ciência, e não como Arte, o conceito de riqueza ali presente é muito vago. Mill, sob a ótica da Economia Política Clássica, conceitua a riqueza como um conjunto de bens úteis e agradáveis a humanidade que são produzidos, ou obtidos em geral, pelo trabalho, ou por algum outro meio de esforço. Por isso, um estudo completo sobre todas as forças que influenciam a produção de riqueza pela humanidade, devido à abrangência do próprio conceito de riqueza, incluiria todas as ciências físicas existentes. E, como para o autor uma ciência se caracteriza pela limitação de seu objeto de estudo, esse problema acabaria por anular a Economia como uma ciência independente das ciências físicas.
Para formular seu próprio conceito de Economia Política, Mill define o seu objeto de estudo como uma ciência moral, ou psicológica, e isso a afasta das ciências físicas. Isto é, a economia estuda o comportamento humano, as relações entre os fenômenos econômicos e as leis gerais da mente humana. Por isso, para um melhor estudo, deve-se considerar todas as leis físicas (chamadas pelo autor de "leis da matéria" que influenciam a produção como dadas. Além disso, o estudo da economia deve assumir a existência de um corpo social, isto é, de que o homem vive e age em união com homens semelhantes, em busca de objetivos comuns. Ou seja, a Economia Política é um ramo de um grande objeto de estudo que o autor define como "Economia Social", que procura estabelecer as leis das relações entre a conduta individual dirigida pela mente humana com as necessidades e as orientações do estado de sociedade ao qual o homem naturalmente se agrega. Mais especificamente, a Economia Política é, no sentido de pode ser delimitada como, o ramo da Economia Social (cujo conceito pode ser associado ao que hoje consideramos como Ciência Social) que estuda os fenômenos referentes à humanidade associados especificamente com a idéia de acumulação de riqueza.
Explicando melhor, Mill define como Economia Política o estudo das leis que governam o comportamento humano decorrente das hipóteses observadas de que o homem tem necessidades, e age de modo a procurar satisfazê-las, e que, para um dado nível de esforço, obter mais riqueza é sempre preferível a menos. Ou seja, nessa definição, é visível a influência ao mesmo tempo do indutivismo de Smith e do dedutivismo de Ricardo. Pois, a Economia Política estuda as leis que decorrem, isto é, são deduzidas, a partir de hipóteses dadas. Contudo, as hipóteses tomadas como verdadeiras para o autor não são abstrações filosóficas sobre o comportamento humano (tal como o conceito de racionalidade na posterior Economia Positiva Neoclássica), mas sim são verdades observadas, de que as pessoas têm necessidades e que gostam de riqueza como recompensa ao seu esforço, obtidas indutivamente.
Pela delimitação do objeto de estudo da Economia Política, Mill argumenta que as leis gerais obtidas pelo desenvolvimento dessa ciência se restringem a essa delimitação, isto é, dos fatos humanos relacionados à obtenção de riqueza, entendida como qualquer objeto que interessa ao homem e que é obtido em custa de algum esforço. Nas palvras do autor (1974, pg. 302), a Economia Política é "a ciência que traça as leis daqueles fenômenos da sociedade que se originam das operações combinadas da humanidade para a produção da riqueza, na medida em que aqueles fenômenos não sejam modificados pela procura de qualquer outro objeto".
O autor explica que certamente a procura pela riquezanão é o único fator que influencia o comportamento humano (e inclusive chama de "ridículos" os economistas que assim pensam). Para o autor, as ciências morais, dentro da qual existe a chamada Economia Social da qual a Economia Política é um ramo, têm a característica de suas leis agirem de forma combinada na realidade. Isto é, apesar de ser recomendável que cada ciência moral aborde uma possível base de influência no comportamento humano, é importante ter em mente que todas essas bases agem em conjunto, nos fenômenos reais. Tal efeito tem como conseqüência a impossibilidade de se realizar experimentos científicos para testar a validade das leis estudadas. Por isso, em qualquer conclusão tomada sob a ótica das ciências morais, sempre haverá um conceito de incerteza sobre as explicações e as previsões. Incerteza pelo fato de que o cientista nunca poderá estar certo de quais são todas as forças presentes no seu objeto de estudo, quais dessas forças são concorrentes ou agregativas, e quais são as predominantes para cada situação. Isso faz com que as causas particulares a cada situação estudada tenham papel fundamental como força de ação, e seu papel isolado pode inclusive neutralizar as causas gerais.
Por isso, para o autor, um cientista moral, tal como um economista político, nunca será algo como um profeta, pois nunca terá a informação plena de todas as causas particulares que complementam as cuasas gerais conhecidas em cada situação estudada, e qualquer previsão tomada sob essa ótica será sempre a observação de tendências, obtidas sob uma incerteza imensurável e natural ao conhecimento humano.
Em princípio, Mill procura definir o que é Economia Política. Para isso, o autor procura, antes de dar a sua definição, explicar o que não é Economia Política:
Em primeiro lugar, Economia Política não é o estudo de como que uma determinada nação fica rica. Essa associação representa uma confusão entre Ciência e Arte, presente em muitos pensamentos. Ciência é definida pelo autor como um conjunto de relações lógicas entre fenômenos observados e suas leis gerais, ao passo que Arte é definida pelo mesmo como um conjunto de regras formais para a conduta, cisando produzir algum fim. Por isso, o estudo sobre o enriquecimento das nações é uma arte política, de fato, derivada da Economia Política, mas que não a define por si só.
Em segundo lugar, Economia Política não é o estudo das leis que regulam a produção, distribuição e consumo da riqueza. Para o autor, apesar dessa idéia tratar verdadeiramente a Economia como Ciência, e não como Arte, o conceito de riqueza ali presente é muito vago. Mill, sob a ótica da Economia Política Clássica, conceitua a riqueza como um conjunto de bens úteis e agradáveis a humanidade que são produzidos, ou obtidos em geral, pelo trabalho, ou por algum outro meio de esforço. Por isso, um estudo completo sobre todas as forças que influenciam a produção de riqueza pela humanidade, devido à abrangência do próprio conceito de riqueza, incluiria todas as ciências físicas existentes. E, como para o autor uma ciência se caracteriza pela limitação de seu objeto de estudo, esse problema acabaria por anular a Economia como uma ciência independente das ciências físicas.
Para formular seu próprio conceito de Economia Política, Mill define o seu objeto de estudo como uma ciência moral, ou psicológica, e isso a afasta das ciências físicas. Isto é, a economia estuda o comportamento humano, as relações entre os fenômenos econômicos e as leis gerais da mente humana. Por isso, para um melhor estudo, deve-se considerar todas as leis físicas (chamadas pelo autor de "leis da matéria" que influenciam a produção como dadas. Além disso, o estudo da economia deve assumir a existência de um corpo social, isto é, de que o homem vive e age em união com homens semelhantes, em busca de objetivos comuns. Ou seja, a Economia Política é um ramo de um grande objeto de estudo que o autor define como "Economia Social", que procura estabelecer as leis das relações entre a conduta individual dirigida pela mente humana com as necessidades e as orientações do estado de sociedade ao qual o homem naturalmente se agrega. Mais especificamente, a Economia Política é, no sentido de pode ser delimitada como, o ramo da Economia Social (cujo conceito pode ser associado ao que hoje consideramos como Ciência Social) que estuda os fenômenos referentes à humanidade associados especificamente com a idéia de acumulação de riqueza.
Explicando melhor, Mill define como Economia Política o estudo das leis que governam o comportamento humano decorrente das hipóteses observadas de que o homem tem necessidades, e age de modo a procurar satisfazê-las, e que, para um dado nível de esforço, obter mais riqueza é sempre preferível a menos. Ou seja, nessa definição, é visível a influência ao mesmo tempo do indutivismo de Smith e do dedutivismo de Ricardo. Pois, a Economia Política estuda as leis que decorrem, isto é, são deduzidas, a partir de hipóteses dadas. Contudo, as hipóteses tomadas como verdadeiras para o autor não são abstrações filosóficas sobre o comportamento humano (tal como o conceito de racionalidade na posterior Economia Positiva Neoclássica), mas sim são verdades observadas, de que as pessoas têm necessidades e que gostam de riqueza como recompensa ao seu esforço, obtidas indutivamente.
Pela delimitação do objeto de estudo da Economia Política, Mill argumenta que as leis gerais obtidas pelo desenvolvimento dessa ciência se restringem a essa delimitação, isto é, dos fatos humanos relacionados à obtenção de riqueza, entendida como qualquer objeto que interessa ao homem e que é obtido em custa de algum esforço. Nas palvras do autor (1974, pg. 302), a Economia Política é "a ciência que traça as leis daqueles fenômenos da sociedade que se originam das operações combinadas da humanidade para a produção da riqueza, na medida em que aqueles fenômenos não sejam modificados pela procura de qualquer outro objeto".
O autor explica que certamente a procura pela riquezanão é o único fator que influencia o comportamento humano (e inclusive chama de "ridículos" os economistas que assim pensam). Para o autor, as ciências morais, dentro da qual existe a chamada Economia Social da qual a Economia Política é um ramo, têm a característica de suas leis agirem de forma combinada na realidade. Isto é, apesar de ser recomendável que cada ciência moral aborde uma possível base de influência no comportamento humano, é importante ter em mente que todas essas bases agem em conjunto, nos fenômenos reais. Tal efeito tem como conseqüência a impossibilidade de se realizar experimentos científicos para testar a validade das leis estudadas. Por isso, em qualquer conclusão tomada sob a ótica das ciências morais, sempre haverá um conceito de incerteza sobre as explicações e as previsões. Incerteza pelo fato de que o cientista nunca poderá estar certo de quais são todas as forças presentes no seu objeto de estudo, quais dessas forças são concorrentes ou agregativas, e quais são as predominantes para cada situação. Isso faz com que as causas particulares a cada situação estudada tenham papel fundamental como força de ação, e seu papel isolado pode inclusive neutralizar as causas gerais.
Por isso, para o autor, um cientista moral, tal como um economista político, nunca será algo como um profeta, pois nunca terá a informação plena de todas as causas particulares que complementam as cuasas gerais conhecidas em cada situação estudada, e qualquer previsão tomada sob essa ótica será sempre a observação de tendências, obtidas sob uma incerteza imensurável e natural ao conhecimento humano.
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quarta-feira, maio 16, 2007
Sobre a Necessidade de Conteúdo Factual na Economia
Estudando muito para a prova de econometria de sexta feira. Desejem-me sorte!
Todos aqueles que estudam, ou estudaram economia, seja o curso inteiro de graduação em Ciências Econômicas, seja pelo menos uma disciplina de Introdução à Economia voltada para outros cursos (como Administração, Direito, Jornalismo, etc.) leva um choque acadêmico logo nas primeiras semanas de aulas e estudos. Pelo menos umas 90% das pessoas que nunca haviam estudado economia antes imaginam que éssa é uma matéria de carátar essencialmente empírico (o que é certo, pelo menos formalmente), e de método de análise indutiva. Isto é, antes de começar a estudar, as pessoas imaginam que e Ciência Econômica é construída a partir de estudos de casos particulares (como um determinado país, ou uma determinada empresa, em exemplos macro e microeconômicos), por observação pura, de modo que as características particulares de cada caso estudado forneça um instrumental que pode ser levado ao estudo geral da economia. Ou seja, tal como acontece de fato na administração, imagina-se que, na economia, primeiro se observa os fatos reais, e só depois esses fatos induzem os pesquisadores a tirar teorias gerais.
Contudo, na verdade, e como é percebido logo na segunda semana de aula de Introdução à Economia para qualquer curso, a economia tem um método hipotético-dedutivo, tal como é o método da física e das ciências naturais em geral. Isto é, em uma teoria econômica, inicia-se o estudo levantando uma série de hipóteses sobre o comportamento de algum agente representativo (um consumidor, uma empresa, um governante), ou de alguma função econômica (como a demanda agregada macroeconômica), e a partir de todas as hipóteses levantadas, deduz-se logicamente as suas implicações, formando-se um modelo geral sobre as mudanças de comportamento dos agentes e das funções quando determinadas variáveis incluídas nas hipóteses levantadas mudam. Contudo, é importante destacar que, enquanto na física e nas ciências naturais as hipóteses levantadas nos seus modelos são as próprias "leis naturais" descobertas ao longo do desenvolvimento teórico dessas próprias ciências, na economia, devido ao natural comportamento estocástico do ser humano, as hipóteses não são exatas, mas são apontadas a partir de correlações entre variáveis, supostas ou observadas em estudos anteriores.
O uso do método hipotético-dedutivo é muito importante para a construção da ciência econômica por motivos tanto qualitativos, de forma que as hipóteses levantadas são explícitas nos modelos, e podem ser livremente alteradas por quem quer que discorde de alguma delas, de modo a se tomar novas conclusões lógico-dedutivas, como quantitativos, já que a construção de modelos a partir de hipóteses e formas funcionais levantadas permitem a estimação empírica não apenas de COMO as variáveis econômicas interagem, mas também de QUANTO essas variáveis mudam quando recebem alguma outra variável do modelo recebe um choque exógeno. Ou seja, mesmo de método teórico hipotético e dedutivo, a Ciência Econômica continua voltada para a explicação do mundo real, isto é, dos fatos econômicos.
Contudo, em muitos casos, e de um modo cada vez mais freqüente nos dias atuais, os economistas dão muito mais ênfase nos métodos lógicos do que na explicação dos fatos econômicos em si. Ou seja, quem estuda economia acaba se vendo forçado a ver modelos teóricos cada vez mais complexos, construídos sobre bases hiptéticas muito restritivas, que buscam explicar realidades que muitas vezes ainda não são conhecidas pelos alunos. Isso faz com que muitos desses estudiosos acabem assimilando que estudar economia se limita a decorar teoremas e modelos gerais de manuais, sem ter nenhuma preocupação sobre qual uso prático esses teoremas e modelos se aplicam, e como eles se adequam à realidade. Assim, o estudo deixa de ter um lado intuitivo e se torna uma grande "decoreba" de demonstrações matemáticas e de hipóteses para simplificar os cálculos. E, enquanto isso, os pesquisadores desenvolvem suas teorias mais preocupados em mostrar uns para os outros sua "inteligência abstrata" do que buscar explicar a realidade.
Assim, as disciplinas de economia aplicada dentro da CIência Econômica (Economia Industrial, Economia Agrícola, Economia Internacional, etc.), devem usar os métodos das teorias econômicas básicas para construir modelos capazes de dar conclusões empiricamente factíveis da realidade. Mas é muito importante que nessas abordagens, os estudos de fatos econômicos e de casos particulares façam parte da matéria a ser aprendida, de forma que os alunos dos cursos, e todos os estudiosos interessados, tenham uma noção real sobre o que se passa nesse mundo concreto que eles devem usar os instrumentais teóricos para explicar, assim como um conhecimento aprofundado sobre os problemas econômicos reais associados a essas áreas específicas de estudo, de forma que o economista tenha um racicínio, além de dedutivo, intuitivo e crítico a respeito da realidade.
Esse foi um texto escrito por um economista com saudade dos textos de economia brasileira e de economia aplicada em geral que lia nos seus anos de graduação.
Todos aqueles que estudam, ou estudaram economia, seja o curso inteiro de graduação em Ciências Econômicas, seja pelo menos uma disciplina de Introdução à Economia voltada para outros cursos (como Administração, Direito, Jornalismo, etc.) leva um choque acadêmico logo nas primeiras semanas de aulas e estudos. Pelo menos umas 90% das pessoas que nunca haviam estudado economia antes imaginam que éssa é uma matéria de carátar essencialmente empírico (o que é certo, pelo menos formalmente), e de método de análise indutiva. Isto é, antes de começar a estudar, as pessoas imaginam que e Ciência Econômica é construída a partir de estudos de casos particulares (como um determinado país, ou uma determinada empresa, em exemplos macro e microeconômicos), por observação pura, de modo que as características particulares de cada caso estudado forneça um instrumental que pode ser levado ao estudo geral da economia. Ou seja, tal como acontece de fato na administração, imagina-se que, na economia, primeiro se observa os fatos reais, e só depois esses fatos induzem os pesquisadores a tirar teorias gerais.
Contudo, na verdade, e como é percebido logo na segunda semana de aula de Introdução à Economia para qualquer curso, a economia tem um método hipotético-dedutivo, tal como é o método da física e das ciências naturais em geral. Isto é, em uma teoria econômica, inicia-se o estudo levantando uma série de hipóteses sobre o comportamento de algum agente representativo (um consumidor, uma empresa, um governante), ou de alguma função econômica (como a demanda agregada macroeconômica), e a partir de todas as hipóteses levantadas, deduz-se logicamente as suas implicações, formando-se um modelo geral sobre as mudanças de comportamento dos agentes e das funções quando determinadas variáveis incluídas nas hipóteses levantadas mudam. Contudo, é importante destacar que, enquanto na física e nas ciências naturais as hipóteses levantadas nos seus modelos são as próprias "leis naturais" descobertas ao longo do desenvolvimento teórico dessas próprias ciências, na economia, devido ao natural comportamento estocástico do ser humano, as hipóteses não são exatas, mas são apontadas a partir de correlações entre variáveis, supostas ou observadas em estudos anteriores.
O uso do método hipotético-dedutivo é muito importante para a construção da ciência econômica por motivos tanto qualitativos, de forma que as hipóteses levantadas são explícitas nos modelos, e podem ser livremente alteradas por quem quer que discorde de alguma delas, de modo a se tomar novas conclusões lógico-dedutivas, como quantitativos, já que a construção de modelos a partir de hipóteses e formas funcionais levantadas permitem a estimação empírica não apenas de COMO as variáveis econômicas interagem, mas também de QUANTO essas variáveis mudam quando recebem alguma outra variável do modelo recebe um choque exógeno. Ou seja, mesmo de método teórico hipotético e dedutivo, a Ciência Econômica continua voltada para a explicação do mundo real, isto é, dos fatos econômicos.
Contudo, em muitos casos, e de um modo cada vez mais freqüente nos dias atuais, os economistas dão muito mais ênfase nos métodos lógicos do que na explicação dos fatos econômicos em si. Ou seja, quem estuda economia acaba se vendo forçado a ver modelos teóricos cada vez mais complexos, construídos sobre bases hiptéticas muito restritivas, que buscam explicar realidades que muitas vezes ainda não são conhecidas pelos alunos. Isso faz com que muitos desses estudiosos acabem assimilando que estudar economia se limita a decorar teoremas e modelos gerais de manuais, sem ter nenhuma preocupação sobre qual uso prático esses teoremas e modelos se aplicam, e como eles se adequam à realidade. Assim, o estudo deixa de ter um lado intuitivo e se torna uma grande "decoreba" de demonstrações matemáticas e de hipóteses para simplificar os cálculos. E, enquanto isso, os pesquisadores desenvolvem suas teorias mais preocupados em mostrar uns para os outros sua "inteligência abstrata" do que buscar explicar a realidade.
Assim, as disciplinas de economia aplicada dentro da CIência Econômica (Economia Industrial, Economia Agrícola, Economia Internacional, etc.), devem usar os métodos das teorias econômicas básicas para construir modelos capazes de dar conclusões empiricamente factíveis da realidade. Mas é muito importante que nessas abordagens, os estudos de fatos econômicos e de casos particulares façam parte da matéria a ser aprendida, de forma que os alunos dos cursos, e todos os estudiosos interessados, tenham uma noção real sobre o que se passa nesse mundo concreto que eles devem usar os instrumentais teóricos para explicar, assim como um conhecimento aprofundado sobre os problemas econômicos reais associados a essas áreas específicas de estudo, de forma que o economista tenha um racicínio, além de dedutivo, intuitivo e crítico a respeito da realidade.
Esse foi um texto escrito por um economista com saudade dos textos de economia brasileira e de economia aplicada em geral que lia nos seus anos de graduação.
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quinta-feira, setembro 28, 2006
Ortodoxia X Heterodoxia
Desde a famosa discussão entre David Ricardo e Thomas Malthus sobre a tendência natural da economia de mercado ao equilíbrio, a ciência econômica se dividiu, ao longo de seu desenvolvimento, em incontáveis correntes e escolas de pensamento, cada qual seguindo determinados axiomas e metodologias de análise.
Geralmente, as novas escolas de pensamento econômico surgem como contraposição às idéias predominantes no seu período. Por exemplo, Malthus, ao defender que excessos de poupança agregada poderiam deixar uma economia de mercado fora de uma situação de equilíbrio de pleno-emprego, rompeu com a Lei de Say, incontestável pela Economia Política Clássica. Depois, a Escola Histórica Alemã bateu no pressuposto de que as leis econômicas são universais, defendendo que cada nação tem uma cultura econômica característica. Marx, por sua vez, atacou as bases morais do capitalismo, até então vistas como decorrência do direito natural do homem e da disposição natural das pessoas à troca. No início do século XX, Keynes, tal como Malthus, negou a tendência da economia de mercado ao equilíbrio, pelo que o autor denominou de princípio da demanda efetiva. Schumpeter, por sua vez, desconsiderou o desenvolvimento linear da economia capitalista, apresentando sua teoria dos ciclos. Por fim, a Éscola Austríaca negou a possibilidade de descrição quantitativa (matemática e estatística) dos fenômenos econômicos, pela complexidade da ação humana.
Nas últimas décadas, com o declínio da Escola Keynesiana, tornou-se comum nos meios acadêmicos denominar de "Ortodoxia" as correntes predominantes ao longo de todo o desenvolvimento da Ciência Econômica (Economia Política Clássica, Teoria Neoclássica, Síntese Neoclássica da Teoria Geral Keynesiana, Monetarismo e Novo-Classicismo), também conhecida como o "Mainstream" da Economia, defendida pelos grandes centros acadêmicos, e "Heterodoxia" as correntes de oposição, sendo as principais citadas no parágrafo anterior.
Atualmente, a dicotomia entre "Ortodoxos" e "Heterodoxos" dentro da Economia tende a deixar de ser um debate sobre axiomas e pressupostos sobre a análise empírica da disciplina, e se tornar um verdadeiro choque de visões de mundo. Expicando melhor, Ortodoxos e Heterodoxos não se preocupam tanto em discutir campos tradicionais de controvérsia na Economia, tais como o papel do Estado no desenvolvimento (liberalismo ou planejamento ativo), o comércio internacional (vantagens comparativas ou deterioração dos termos de intercâmbio) e a relação entre crescimento econômico e bem-estar social, a tampouco se apegam a determinadas correntes políticas (direita ou esquerda), mas sim tendem a criar um duelo de opiniões sobre a própria natureza da ciência econômica e seu papel na sociedade.
Por um lado, vemos economistas ditos "Ortodoxos", orgulhosos por se considerar na "fronteira da ciência", admirando engenheiros, menosprezando sociólogos, e de vez em quando largando pérolas do tipo "se eu pudesse voltar no tempo, teria estudado matemática, em vez de economia". Por trás desse compertamento, estão as características das próprias ciências naturais contemporâneas, marcadas pela frieza, pelo determinismo estrito (a não ser pela "Teoria do Caos", que não é muito conhecida) da realidade aos modelos já apresentados e descritos, e o caráter prático da atividade profissional, isto é, a idéia de que o economista deve ser preparado para FAZER, e não para ARGUMENTAR, sendo portanto, os campos de controvérsia da Ciência Econômica deixados de lado.
Por outro lado, os economistas ditos "Heterodoxos", seja lá de qual corrente, se preocupam mais em humanizar os grandes problemas econômicos, em deixar a formalização matemática em segundo plano, em defender a multidisciplinaridade entre as ciências sociais para uma melhor observação da vida e da sociedade humana. Dessa maneira, a economia deixa de ser uma ciência estritamente positiva para assumir um lado mais moral (tal como era nos seus primórdios, na Economia Política Clássica), e o profissionalismo prático dá lugar a um caráter mais intelectual para o economista. Todavia, algumas vezes vemos economistas de correntes heterodoxas criticando a ortodoxia sendo a crítica um objetivo em si mesmo, isto é, não com o objetivo de correção, mas com a intenção de desmerecer os adversários, o que é prejudicial não só à atividade profissional e científica, mas sim à própria convivência democrática nos centros acadêmicos de Economia. Ou então, outros Economistas elegem como seus "guias" ou "mestres" os principais expoentes e/ou fundadores de suas correntes heterodoxas, e considerá-los a verdade absoluta, impassíveis de críticas, o que acaba por corromper a própria noção de Ciência Econômica, tornando-se algo como uma religião.
Fazendo uma analogia, a atual disputa na Ciência Econômica se assemelha à disputa entre os Românticos e os Realistas na literatura mundial na metade do século XIX.
Não cabe a nenhum economista, individual ou coletivamente, independentemente de suas escolhas ideológicas e profissionais, julgar qual das correntes Ortodoxas e Heterodoxas detém a verdade científica absoluta, uma vez que esse próprio conceito é passível de controvérsias. Além disso, nada sabemos sobre o que será "ortodoxo" ou "heterodoxo" na economia daqui a vinte ou trinta anos. Mas é importante que seja assegurado a todos os profissionais da economia o direito a expressar aquilo que acredita, sem linchamentos morais, de modo a evitar que os debates intelectuais se tornem verdadeiros campos de batalha, como já vem acontecendo.
Geralmente, as novas escolas de pensamento econômico surgem como contraposição às idéias predominantes no seu período. Por exemplo, Malthus, ao defender que excessos de poupança agregada poderiam deixar uma economia de mercado fora de uma situação de equilíbrio de pleno-emprego, rompeu com a Lei de Say, incontestável pela Economia Política Clássica. Depois, a Escola Histórica Alemã bateu no pressuposto de que as leis econômicas são universais, defendendo que cada nação tem uma cultura econômica característica. Marx, por sua vez, atacou as bases morais do capitalismo, até então vistas como decorrência do direito natural do homem e da disposição natural das pessoas à troca. No início do século XX, Keynes, tal como Malthus, negou a tendência da economia de mercado ao equilíbrio, pelo que o autor denominou de princípio da demanda efetiva. Schumpeter, por sua vez, desconsiderou o desenvolvimento linear da economia capitalista, apresentando sua teoria dos ciclos. Por fim, a Éscola Austríaca negou a possibilidade de descrição quantitativa (matemática e estatística) dos fenômenos econômicos, pela complexidade da ação humana.
Nas últimas décadas, com o declínio da Escola Keynesiana, tornou-se comum nos meios acadêmicos denominar de "Ortodoxia" as correntes predominantes ao longo de todo o desenvolvimento da Ciência Econômica (Economia Política Clássica, Teoria Neoclássica, Síntese Neoclássica da Teoria Geral Keynesiana, Monetarismo e Novo-Classicismo), também conhecida como o "Mainstream" da Economia, defendida pelos grandes centros acadêmicos, e "Heterodoxia" as correntes de oposição, sendo as principais citadas no parágrafo anterior.
Atualmente, a dicotomia entre "Ortodoxos" e "Heterodoxos" dentro da Economia tende a deixar de ser um debate sobre axiomas e pressupostos sobre a análise empírica da disciplina, e se tornar um verdadeiro choque de visões de mundo. Expicando melhor, Ortodoxos e Heterodoxos não se preocupam tanto em discutir campos tradicionais de controvérsia na Economia, tais como o papel do Estado no desenvolvimento (liberalismo ou planejamento ativo), o comércio internacional (vantagens comparativas ou deterioração dos termos de intercâmbio) e a relação entre crescimento econômico e bem-estar social, a tampouco se apegam a determinadas correntes políticas (direita ou esquerda), mas sim tendem a criar um duelo de opiniões sobre a própria natureza da ciência econômica e seu papel na sociedade.
Por um lado, vemos economistas ditos "Ortodoxos", orgulhosos por se considerar na "fronteira da ciência", admirando engenheiros, menosprezando sociólogos, e de vez em quando largando pérolas do tipo "se eu pudesse voltar no tempo, teria estudado matemática, em vez de economia". Por trás desse compertamento, estão as características das próprias ciências naturais contemporâneas, marcadas pela frieza, pelo determinismo estrito (a não ser pela "Teoria do Caos", que não é muito conhecida) da realidade aos modelos já apresentados e descritos, e o caráter prático da atividade profissional, isto é, a idéia de que o economista deve ser preparado para FAZER, e não para ARGUMENTAR, sendo portanto, os campos de controvérsia da Ciência Econômica deixados de lado.
Por outro lado, os economistas ditos "Heterodoxos", seja lá de qual corrente, se preocupam mais em humanizar os grandes problemas econômicos, em deixar a formalização matemática em segundo plano, em defender a multidisciplinaridade entre as ciências sociais para uma melhor observação da vida e da sociedade humana. Dessa maneira, a economia deixa de ser uma ciência estritamente positiva para assumir um lado mais moral (tal como era nos seus primórdios, na Economia Política Clássica), e o profissionalismo prático dá lugar a um caráter mais intelectual para o economista. Todavia, algumas vezes vemos economistas de correntes heterodoxas criticando a ortodoxia sendo a crítica um objetivo em si mesmo, isto é, não com o objetivo de correção, mas com a intenção de desmerecer os adversários, o que é prejudicial não só à atividade profissional e científica, mas sim à própria convivência democrática nos centros acadêmicos de Economia. Ou então, outros Economistas elegem como seus "guias" ou "mestres" os principais expoentes e/ou fundadores de suas correntes heterodoxas, e considerá-los a verdade absoluta, impassíveis de críticas, o que acaba por corromper a própria noção de Ciência Econômica, tornando-se algo como uma religião.
Fazendo uma analogia, a atual disputa na Ciência Econômica se assemelha à disputa entre os Românticos e os Realistas na literatura mundial na metade do século XIX.
Não cabe a nenhum economista, individual ou coletivamente, independentemente de suas escolhas ideológicas e profissionais, julgar qual das correntes Ortodoxas e Heterodoxas detém a verdade científica absoluta, uma vez que esse próprio conceito é passível de controvérsias. Além disso, nada sabemos sobre o que será "ortodoxo" ou "heterodoxo" na economia daqui a vinte ou trinta anos. Mas é importante que seja assegurado a todos os profissionais da economia o direito a expressar aquilo que acredita, sem linchamentos morais, de modo a evitar que os debates intelectuais se tornem verdadeiros campos de batalha, como já vem acontecendo.
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terça-feira, junho 13, 2006
Maniqueísmo e Ciência Econômica
Um dos fatores que fazem com que a ciência econômica seja muito interessante é a diversidade de correntes de pensamento, isto é, a possibilidade de se encontrar diversas possíveis respostas a um determinado problema, de acordo com diferentes pontos de vista. A diversidade de correntes de pensamento naturalmente leva a situações de rivalidade entre seus autores, o que é muito comum em qualquer ciência, além de ser saudável para a realização de debates e contrapontos.
Contudo, algumas vezes essa rivalidade, esse contraponto de idéias pode tomar a forma de uma verdadeira guerra dentro da ciência econômica, em que autores se valem de agressões verbais e teorias conspiratórias absurdas para valorizar aquilo que acredita e atacar aquilo que não concorda. Assim aparece o maniqueísmo na ciência econômica, isto é, uma situação em que o contraponto de idéias toma uma forma de uma luta do "bem" contra o "mal", no melhor estilo Star Wars, em que cada corrente de pensamento tenta tomar para si o monopólio sobre o bem (já que até agora não se ouviu falar de alguma Teoria Econômica Satânica...).
Economistas heterodoxos (incluindo todas as escolas fora do mainstream) muitas vezes podem se apresentar como os libertadores da ciência econômica do jugo do conceito de equilíbrio imposto pelos ortodoxos, o qual distorceria toda a realidade em nome da beleza teórica de seus modelos. O objetivo dos ortodoxos conservadores-fascistas-fundamentalistas seria, de acordo com as hipóteses maniqueístas, provar que o mundo se encontra em um estado estável de equilíbrio, um ponto ótimo em universo de possibiliades dentro do mundo real, em que ninguém poderia melhorar sua situação sem piorar a dos outros. Assim, o status quo de um mundo desigual, cruel e perverso poderia ser ideologicamente defendido com base em argumentos construídos camuflados de "científicos". Assim, a heterodoxia seria o "bem", progressista, defensora dos pobres e oprimidos, e a ortodoxia seria o "mal", retrógrada, defensora dos opressores.
Por outro lado, os economistas ortodoxos (todas as escolas pertencentes ao mainstream, mais aquelas que se julgam pertencer) podem se impôr como os defensores da liberdade, da livre iniciativa e da justiça alocativa. Os heterodoxos seriam todos agentes comunistas-fascistas-chavistas, que utilizam argumentos teóricos fracassados que quebram o princípio do equilíbrio para justificar a submissão de todos os indivíduos ao jugo de um Estado burocrático e opressor. E ainda, os heterodoxos seriam ladrões, no sentido de defender mecanismos de distribuição de renda fora do sistema de mercado (que, supostamente recompensaria cada indivíduo na exata medida de sua competência, de sua produtividade), de modo a sustentar pobres vagabundos e improdutivos. Assim, a ortodoxia seria o "bem", libertária, e a heterodoxia seria o "mal", autoritária.
Tais pensamentos radicais se manifestam sobretudo quando as correntes de pensamento assumem comportamentos extremos, isto é, quando a ortodoxia vira fundamentalismo de mercado, anarco-capitalismo "A-Sociedade-Que-Se-Dane-Eu-Quero-o-Meu-Dinheiro", e a heterodoxia vira anti-neoliberalismo "Anti-tudo-Anti-todos-Anti-Lei da Gravidade". Quando os impasses intelectuais assumem tais comportamentos, o debate some, cada participante olha apenas para o próprio umbigo, e começa a batalha do bem contra o mal.
Todavia, fazer ciência NÃO É, DE NENHUM MODO, fazer pregação ideológica. O objetivo da ciência é buscar compreender e explicar a realidade com base racional, lógica, empírica, e, sobretudo, FRIA. Todos nós temos nossas convicções ideológicas e visões de mundo próprias, que muitas vezes são discordantes do resto da humanidade. Mas a sociabilidade democrática e o respeito às normas morais da ciência exigem que tenhamos respeito com as visões de mundo e teorias alheias, como forma de abrirmos a mente para novas idéias. Senão, debate vira maniqueísmo, e ciência econômica vira filme de ação hollywoodiano.
Contudo, algumas vezes essa rivalidade, esse contraponto de idéias pode tomar a forma de uma verdadeira guerra dentro da ciência econômica, em que autores se valem de agressões verbais e teorias conspiratórias absurdas para valorizar aquilo que acredita e atacar aquilo que não concorda. Assim aparece o maniqueísmo na ciência econômica, isto é, uma situação em que o contraponto de idéias toma uma forma de uma luta do "bem" contra o "mal", no melhor estilo Star Wars, em que cada corrente de pensamento tenta tomar para si o monopólio sobre o bem (já que até agora não se ouviu falar de alguma Teoria Econômica Satânica...).
Economistas heterodoxos (incluindo todas as escolas fora do mainstream) muitas vezes podem se apresentar como os libertadores da ciência econômica do jugo do conceito de equilíbrio imposto pelos ortodoxos, o qual distorceria toda a realidade em nome da beleza teórica de seus modelos. O objetivo dos ortodoxos conservadores-fascistas-fundamentalistas seria, de acordo com as hipóteses maniqueístas, provar que o mundo se encontra em um estado estável de equilíbrio, um ponto ótimo em universo de possibiliades dentro do mundo real, em que ninguém poderia melhorar sua situação sem piorar a dos outros. Assim, o status quo de um mundo desigual, cruel e perverso poderia ser ideologicamente defendido com base em argumentos construídos camuflados de "científicos". Assim, a heterodoxia seria o "bem", progressista, defensora dos pobres e oprimidos, e a ortodoxia seria o "mal", retrógrada, defensora dos opressores.
Por outro lado, os economistas ortodoxos (todas as escolas pertencentes ao mainstream, mais aquelas que se julgam pertencer) podem se impôr como os defensores da liberdade, da livre iniciativa e da justiça alocativa. Os heterodoxos seriam todos agentes comunistas-fascistas-chavistas, que utilizam argumentos teóricos fracassados que quebram o princípio do equilíbrio para justificar a submissão de todos os indivíduos ao jugo de um Estado burocrático e opressor. E ainda, os heterodoxos seriam ladrões, no sentido de defender mecanismos de distribuição de renda fora do sistema de mercado (que, supostamente recompensaria cada indivíduo na exata medida de sua competência, de sua produtividade), de modo a sustentar pobres vagabundos e improdutivos. Assim, a ortodoxia seria o "bem", libertária, e a heterodoxia seria o "mal", autoritária.
Tais pensamentos radicais se manifestam sobretudo quando as correntes de pensamento assumem comportamentos extremos, isto é, quando a ortodoxia vira fundamentalismo de mercado, anarco-capitalismo "A-Sociedade-Que-Se-Dane-Eu-Quero-o-Meu-Dinheiro", e a heterodoxia vira anti-neoliberalismo "Anti-tudo-Anti-todos-Anti-Lei da Gravidade". Quando os impasses intelectuais assumem tais comportamentos, o debate some, cada participante olha apenas para o próprio umbigo, e começa a batalha do bem contra o mal.
Todavia, fazer ciência NÃO É, DE NENHUM MODO, fazer pregação ideológica. O objetivo da ciência é buscar compreender e explicar a realidade com base racional, lógica, empírica, e, sobretudo, FRIA. Todos nós temos nossas convicções ideológicas e visões de mundo próprias, que muitas vezes são discordantes do resto da humanidade. Mas a sociabilidade democrática e o respeito às normas morais da ciência exigem que tenhamos respeito com as visões de mundo e teorias alheias, como forma de abrirmos a mente para novas idéias. Senão, debate vira maniqueísmo, e ciência econômica vira filme de ação hollywoodiano.
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