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sexta-feira, março 05, 2010

Notícias de Uma Guerra Particular - Documentário

Encontrei no YouTube esse documentário, filmado em 1999 por João Moreira Salles, que aborda a questão da violência e do tráfico de drogas no Rio de Janeiro. São mostrados os pontos de vista dos traficantes, dos policiais, da comunidade dos morros e das autoridades superiores, cada qual com suas opiniões (e vivências) sobre o tema.

Particularmente, o que mais me chamou a atenção foi a questão levantada pelo então chefe da polícia civil no Rio de Janeiro, Hélio Luz: será que a sociedade brasileira realmente quer uma polícia honesta e não-violenta?



























segunda-feira, janeiro 18, 2010

O Que É Punk - Antonio Bivar (2)

Em 1973, com o choque do petróleo, houve uma crise econômica mundial, resultando no surgimento de uma grande massa de jovens trabalhadores desempregados nos grandes centros urbanos industriais. Esses jovens, empobrecidos com a crise, não se sentiam representados pela música popular predominante da época, isto é, o rock progressivo e o glam rock, e eram jovens demais para se apegar aos ídolos hippies da década anterior. Além disso, no próprio meio musical, os estilos do momento estavam sendo questionados pela onda minimal, liderado pela Patti Smith e pelo grupo New York Dolls. O estilo minimal era literal: pregava o retorno ao básico, a música mínima em termos de tempo de duração e de sofisticação.

Quem se deu conta da nova situação foi o micro-empresário britânico Malcolm McLaren, que tomou conhecimento da cena minimal em uma viagem a Nova York em 1973. Segundo Bivar (pg. 42-43),

... Malcolm McLaren volta a Londres consciente de algumas coisas relevantes: a) que músicas com mais de dois minutos de duração e letras que falassem dos problemas sociais urbanos tinham um futuro; b) que valia a pena praticar a política situacionista, de confrontos e controvérsias, assim como produzir eventos e gestos que polarizassem atitudes; c) que, resumindo, ele estava muito avançado para Nova Iorque, e que Londres continuava sendo o celeiro ideal para laboratórios artísticos de vanguarda.


Ou seja, havia mercado para o surgimento de bnadas de rock que refletissem a situação dos jovens diretamente afetados pela crise mundial de 1973, com músicas simples e agressivas, já que poucos ainda tinham dinheiro para investir em equipamentos musicais sofisticados e até mesmo em aulas de música. Assim, McLaren contrata quatro amigos para fundar o lendário grupo Sex Pistols, dando início ao movimento punk.

Daí até o final do livro, Bivar faz relatos sobre as histórias específicas das principais bandas punk, especialmente dos Sex Pistols. O livro perde seu caráter histórico e se torna uma publicação destinada especificamente para os fãs dessas bandas, o que é de interesse secundário para mim. Por fim, ao descrever como o movimento punk chegou ao Brasil, o autor dá a entender que foi de maneira muito semelhante a que ocorreu lá fora, mudando a cidade e a crise em vigor. Saem Londres e o primeiro choque do petróleo de 1973, chegam São Paulo e o colapso do modelo de substituição de importações, no início da década de 80. De resto, a descrição do surgimento do movimento permanece muito semelhante nos dois casos: são massas de jovens trabalhadores urbanos desempregados que, revoltados e empobrecidos pela situação, adotam um padrão estético e cultural de confronto agressivo contra o que está estabelecido, e lutam (com certo sucesso) pela sua aceitação perante aos setores mais conservadores da sociedade, que os conideram meros arruaceiros marginalizados.

Uma crítica pessoal que posso fazer à análise histórica feita pelo autor (que foi meu maior interesse ao ler esse livro) é a sua total desconsideração da cena novaiorquina (principalmente dos grupos Ramones e do próprio New York Dolls), não apenas como a verdadeira originária do movimento punk, mas também como tendo qualquer importância nesse sentido. É de conhecimento público que Malcolm McLaren teve contato com ambas as bandas em sua viagem a Nova York em 1973. E, nessa época, os Ramones já eram tudo aquilo que o autor descreve dos primórdios do movimento punk: jovens pobres, revoltados com a sua situação e com a cena musical predominante no seu tempo, e que, graças a suas restrições orçamentárias, fazem músicas rápidas, simples e agressivas divulgando suas idéias. E os Ramones fizeram isso espontaneamente.

Acho que, pelo menos em parte, isso decorre de um preconceito que muitos intelectuais brasileiros tenham em relação aos Estado Unidos. Os nossos pensadores tendem a associar toda a cultura norte-americana a produção em massa de bens de consumo imediato, sem preocupações com a qualidade e a expressão, mesmo sem estudá-la seriamente. A contra-cultura e o progresso da liberdade de expressão, com a inclusão dos jovens e das classes sociais menos favorecidas, parecem relegadas como que de maneira mística, seguindo leis históricas inequívocas, à França revolucionária ou à Inglaterra operária.

sexta-feira, janeiro 15, 2010

O Que É Punk - Antonio Bivar

Para quem quer se iniciar nos estudos sobre a compreensão da pós-modernidade, os livrinhos de bolso coleção Primeiros Passos dão uma boa ajuda. O livrinho "O Que É Punk", de Antonio Bivar faz uma breve revisão histórica sobre a evolução da contra-cultura ocidental do final da Segunda Guerra até a década de oitenta, com a eclosão do movimento punk. Além disso, o livro conta como esse movimento chegou ao Brasil, e faz relatos mais descritivos sobre a história das principais bandas punk nacionais e internacionais.

Segundo o autor, o início da contra-cultura tem origem nos anos imediatos após a guerra, no final dos anos quarenta, pela difusão da intelectualidade existencialista franciesa, liderada por Sartre e Camus. Essa corrente filosófica, influenciada diretamente pelo clima de desesperança do pós-guerra, era eminentemente pessimista, via a vida humana como um grande absurdo, e o futuro da humanidade condenado pelo desenvolvimento da tecnologia militar, capaz de provocar destruição a taxas crescentes. O existencialismo influenciou a vanguarda dos músicos de jazz da época, conhecidos como beatniks.

Os beatniks eram rebeldes em relação aos valores da sociedade em que viviam, mas ao contrário dos filósofos existencialistas, não eram fatalistas em relação ao futuro da humanidade. Eles acreditavam em uma contrapartida à rígida disciplina da tríade "educação-trabalho-família" apresentada em um ideal de vida simples e aventureiro, inspirado no misticismo oriental, no naturalismo e no padrão de vida das classes menos favorecidas do ocidente. Esses músicos foram fundamentais para difundir as idéias da contra-cultura de Paris para o mundo, mas tinham um padrão estético e artístico ainda demasiadamente elitista, isto é, eles eram membros da classe alta, que, apsear de críticos de sua cultura, dirigiam essas críticas para outros integrantes de classe alta.

A cultura popular que estava emergindo desde a década de cinqüenta, e que adotou os ideias de vida estabelecidos pelos beatniks foi a música do rock'n'roll, originado pela fusão dos ritmos negros e da música popular country. Antonio Bivar argumenta que isso aconteceu devido a uma mudança das relaçoes políticas internacionais, com a Inglaterra e os Estados Unidos tomando da França a vanguarda da cultura ocidental. COntudo, de acordo com alguns historiadores econômicos que eu já li, o fator mais importante para explicar essa transição cultural nos anos sessenta é o "efeito renda" sobre as famílias provocado pela expansão econômica do pós-guerra, chamada de "era dourada do capitalismo". Graças a esse efeito, a partir dessa época os jovens passaram a dispor de renda para seu consumo pessoal, e não mais apenas para contribuir com a subsistência familiar, expandindo o mercado para o bens de consumo que atendem suas preferências. E ainda, a classe média se expandiu muito nesse período, tornando-se a classe predominante na América do Norte e na Europa Ocidental, e suas preferências de consumo acabaram se tornando os padrões das suas sociedades. Assim, da incorporação do idealismo beatnik pelo rock'n'roll nasceu o movimento hippie, que é considerado pelo autor como o primeiro movimento contra-cultural genuinamente popular.

O movimento hippie teve seu apogeu na década de 60, mas a partir da década de 70 perdeu força. Segundo Bivar, parte da crise dos hippies na década de 70 se deu por causa da reação da sociedade conservadora, sobretudo agravada pelos próprios excessos cometidos por alguns jovens hippies. Além disso, a música característica desse movimento, o rock, evoluiu de uma forma negativa - para o autor - no início dessa década. As riquezas acumuladas pelos principais músicos da década de 60 tivaram um grande impacto nos seus egos. Assim, aAs melodias simples do rock`n`roll foram dando lugar para experimentalismos complexos, pela eclosão do rock progressivo, e ao culto à forma e à estética, pelo surgimento do chamado glam rock. Desse modo, o rock perdeu seu lado popular e adotou um espírito parnasiano de "arte pela arte", o que desagradou muitos dos antigos fãs. Segundo Bivar (pg. 28),

Pode ter sido engraçado para o rockeiro, durante algum tempo - e na falta de outra novidade - acompanhar pela imprensa a escalada social daqueles que até há pouco eram pobres como eles e faziam parte da mesma irmandade - e que diziam batalhar pelos mesmos ideais. Mas agora... milionários e com comportamento de playboys, enquanto que estes (os rockeiros pobres, em sua maioria) continuavam morando em quartos infectos e sem perspectivas - e quanto deles na fila de desemprego! Era o fim da picada, mesmo. Abandonados, traídos e, pior de tudo, fora de moda. Sim, porque quando se está na moda, mesmo que essa moda seja a pobreza, e mesmo a pessoa sendo contra modismos, existe qualquer coisa nesse estar na crista da onda que é, no mínimo, divertido estar lá. Mas quando tudo isso acaba e os mais epsertos saem ganhando (e a moda seguinte é o "retorno à elegância"), pra quem fica de fora e recebe o bye-bye dos vencedores, é tristíssimo.


(CONTINUA)

segunda-feira, dezembro 21, 2009

Ainda Há Esperança para Porto Alegre

Em 2006, quando prestei o exame ANPEC para tentar o mestrado em Economia, sabia que, no fundo, eu precisava mesmo sair do Rio Grande do Sul se quisesse receber oportunidades profissionais promissoras. Se eu resolvess ficar por lá, hoje certamente seria caixa de algum banco, ouvindo reclamações desaforadas o dia inteiro, ou então burocrata do serviço público. As coisas parecem que não evoluem por lá.

Eu realmente gosto muito de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul como lugares para se viver. Tenho muito orgulho de ter nascido e vivido 22 anos de vida nesse lugar. Aprecio muito o frio, o clima (fora o verão em Porto Alegre), as paisagens, os parques e praças da Capital, o MARGs, tomar suco na Feira da Fruta, dar pipocas para os patos do Parcão, respirar o ar perfumado pelas flores dos jacarandás, sentir o vento frio contornando meu corpo enquanto caminho pelas ruas à sombra das árvores, a culinária, feijão preto e bife mal-passado, cerveja Polar, X-lombo do cavanhas, Pastel da República, comprar livros antigos no Beco da Riachuelo, caçar discos usados no viaduto da Borges, fotografar a vista do Gasômetro e caminhar sob as margens do Guaíba.

Mas há dois elementos presentes na sociedade gaúcha que me incomodam muito, e que considero que são cruciais para explicar a crise política e a estagnação econômica que o estado vem passando nas últimas décadas.

Em primeiro lugar, a aversão pelas mudanças, pelo próprio progresso, que é visto sempre como se fosse algo imposto por algum inimigo externo, ao invés deser causado pelas ações e decisões dos próprios membros internos da sociedade. Pelo contrário, há uma valorização do tradicionalismo e do atraso. Por isso, as carroças não devem ser retiradas das ruas portoalegrenses porque "elas fazem parte das nossas tradições". Se os cavalos sujam as ruas e as calçadas de estrume, não podemos reclamar, porque "esse é o cheiro característico das aldeias históricas rio-grandenses". A FORD quer construir uma fábrica de automóveis em Guaíba? Nem pensar, onde já se viu? Se fosse para construir uma charqueada, aí tudo bem. Prédios altos devem ser barrados da cidade o quanto antes, Porto Alegre nasceu para ser provinciana. Pontal do Estaleiro, que horror! Para que imitar cidades desenvolvidas, se o nosso mato é mais belo que os Jardins da Babilônia, e as ruínas do Estaleiro Só fazem inveja às ruínas dos templos romanos? Para que metrô na cidade, se os gaúchos foram feitos para andar a cavalo? Se eu continuar listando tudo o que já ouvi dos habitantes locais em conversas aleatórias, ficaria um dia inteiro postando aqui.

Estrapolando essa aversão às inovações para o lado econômico, isso se caracteriza pela total falta de oportunidades de bons empregos para os jovens universitários recém-formados. A maioria acaba entrando no serviço público ou emigrando de estado.

Em segundo lugar, a noção de que valores individuais como a coragem e a virilidade não são eternos, e devem estar sempre sendo testados e reforçados. Quando não podemos ter o que queremos por meios pacíficos, temos que resolver na ponta da faca, se somos realmente dignos de ser chamados de homens. Por isso, se o governador eleito não for do partido de nossa preferência, devemos derrubá-lo imediatamente, e de preferência, com direito a enforacamentos e fuzilamentos! Se uma empresa multinacional se instala na nossa região e somos bairristas, vamos depredá-la! Se sou o governador, e não tenho competência política de elaborar um pacote de ajuste fiscal, obviamente vou aumentar os impostos! O povo que se dane, e falo isso com orgulho, porque sou macho!

Para minha surpresa, e minha felicidade, percebo que não sou o único crítico de determinados elementos da mentalidade sul-rio-grandense. O pessoal do blog Porto Imagem tem feito um trabalho muito legal em apontar saídas para os problemas do desenvolvimento de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul sem medo de se render para o progresso e a modernidade.

E hoje, fui surpreendido pela notícia de que, depois de décadas de discussão, enfim o projeto de revitalização do Cais do Porto foi aprovado pela prefeitura. Espero que as margens do lago Guaíba estejam ao acesso do público, e da iniciativa privada, em breve. Como eu conheço muito bem a política gaúcha, já estou esperando que muito em breve as hordas bárbaras ataquem com unhas, dentes e machados esse projeto urbanístico, em nome de preservar tudo do jeito que está. Mas a aprovação pode nos devolver a esperança de um futuro melhor.

sexta-feira, setembro 25, 2009

A Identidade Cultural na Pós-Modernidade - Stuart Hall

Comprei esse volume em uma feira de livros na Unicamp, durante o congresso de história econômica, para ter uma opção de entretenimento durante as conferências que não eram de meu interesse. Porém, meu interesse pela pós-modernidade não é recente. Comecei a ler sobre essa temática, que procura teorizar e relacionar a sociedade, a cultura e a intelectualidade contemporâneas, por indicação de um médico psiquiatra, em 2005. Primeiramente, conheci a obra de Michel Maffesoli, e em seguida estudei o livrinho de bolso do Jair Ferreira dos Santos ("O Que É Pós-Moderno?"). Nos últimos dois anos, porém, após longas discussões em mesa de bar com o "Vagabundo Iluminado" Diego Rodrigues, ando mais curioso sobre esse tema, e tenho procurado livros e artigos sobre isso.

No entanto, muito do que tenho lido sobre isso tem me agregado pouca conhecimento. Infelizmente, muitos sociólogos (que são os acadêmicos que mais estudam a pós-modernidade) têm o hábito de escrever de forma obscura, usando e abusando de figuras e formas metafóricas de linguagem, tornando seus textos pouco compreensíveis para quem não tem formação nessa área. Além disso, vários ramos das ciências humanas são impregnados por um relativismo radical, que tira toda e qualquer objetividade do conhecimento, o que torna a leitura de suas obras muito cansativa.

Felizmente, esse não é o caso do livro do Stuart Hall. O autor sabe escrever de maneira bastante clara suas idéias. Segundo o autor, a pós-modernidade, isto é, o período histórico da sociedade, da cultura e da intelectualidade após a Segunda Guerra Mundial, consiste em uma brusca mudança nas identidades sociais tais como elas eram definidas. Ou seja, o autor considera a pós-modernidade como um surto de "crise de identidade" generalizada para o indivíduo humano.

Explicando melhor, o autor diferencia três concepções da identidade individual, de acordo com o período histórico e o ramo do conhecimento implícito. Primeiro, o "sujeito Moderno", ou "sujeito do Iluminismo", visto como um indivíduo unificado e plenamente dotado do senso de razão, decisão, consciência e ação. A racionalidade é vista como o centro essencial da identidade de uma pessoa: todo indivíduo utiliza meios para atingir seus interesses individualmente estabelecidos. Essa concepção de indivíduo está diretamente relacionada à teoria da escolha racional da Ciência Econômica, e à teoria do Direito Natural.

Segundo, o "sujeito sociológico", definido pelas relações de cada indivíduo com o seu meio social, de acordo com a interação com outras pessoas. Isto é, a personalidade de cada sujeito é definida pela interação com a sociedade; cada indivíduo tem uma essência interior, mas esta é continuamente afetada e alterada pelas suas relações com o mundo exterior. Tal visão surgiu no final do século XIX, com o desenvolvimento das ciências sociais, particularmente a sociologia, sobretudo com as obras de autores como Èmile Durkheim.

Terceiro, o "sujeito pós-moderno", visto de acordo com a negação de que as pessoas tenham uma essência individual interior unificada. Isto é, o sujeito tem não uma única, mas sim uma grande variedade de identidades pessoais, e muitas delas podem ser contraditórias umas com as outras, ou mesmo mal resolvidas.

A transformação da concepção moderna-sociológica de sujeito para a concepção pós-moderna, segundo Stuart Hall, decorreu dos avanços nas ciências biológicas e sociais nos séculos XIX e XX que demonstraram a superficialidade da noção do indivíduo unificado definida anteriormente. Na verdade, a própria noção do indivíduo moderno decorreu da evolução intelectual do Ocidente a partir do Renascimento, em contraposição à visão religiosa anterior. Segundo Hall (pg. 26),

Muitos movimentos importantes no pensamento e na cultura ocidentais contribuíram para a emergência dessa nova concepção: a Reforma e o Protestantismo, que libertaram a consciência individual das instituições religiosas da Igreja e a expuseram diretamente aos olhos de Deus; o Humanismo Renascentistam que colocou o Homem (sic) no centro do universo; as revoluções científicas, que conferiram ao Homem a faculdade e as capacidades para inquirir, investigar e decifrar os mistérios da Natureza; e o Iluminismo, centrado na imagem do Homem racional, cientíico, libertado do dogma e da intolerância, e diante do qual se estendia a totalidade da história humana, para ser compreendida e dominada.


Essa noção de indivíduo foi abalada, a partir do século XIX, tanto pelo desenvolvimento da biologia darwiniana, que encontrou fundamentos naturais para o explicar a racionalidade humana, como pela complexização das sociedades modernas, com o crescimento das atividades comerciais, industriais e a urbanização, o que permitiu o desenvolvimento de novas teorias capazes de explicar a ação e a interação dos indivíduos. Hall aponta cinco avanços da teoria social que contribuíram para a superação da noção do sujeito moderno:

1 - O historicismo marxismo-hegeliano. Nessa concepção, a identidade individual é determinada pelos condicionantes históricos do meio social em que o indivíduo age. Para Hegel, o principal condicionante histórico são as idéias vigentes e aceitas pelos membros da sociedade. Para Marx, o principal condicionante histórico são os meios materiais de produção, isto é, a estrutura econômica vigente.

2 - A psicanálise freudiana. Segundo essa teoria, a formação da identidade individual depende de fatores psíquicos que muitas vezes são inconscientes ao sujeito. Ou seja, a capacidade plena do indivíduo de tomar decisões e agir conscientemente em busca de seus interesses é posta em dúvida.

3 - A linguística estrutural, segundo a qual o pensamento individual é determinado pela cultura do meio social que o cerca, por meio da linguagem. Isto é, cada pessoa só pode se expressar se posicionando a respeito de su cultura, que define a sua língua e a sua capacidade de comunicação com as outras pessoas.

4 - A filosofia do poder disciplinar de Michel Foucault. Segundo esse autor, as instituições sociais têm o papel de vigiar e punir o comportamento individual em benefício não da coletividade, mas sim dos próprios detentores do poder, não apenas do poder político, mas também do poder econômico, ideológico e intelectual. Segundo Hall (pg. 42):

O objetivo do "poder disciplinar" consiste em manter "as vidas, as atividades, o trabalho as infelicidades e os prazeres do indivíduo", assim como sua saúde física e moral, suas práticas sexuais e sua vida familiar, sob estrito controle e disciplina, com base no poder dos regimes administrativos, do conhecimento éspecializado dos profissionais e do conhecimento fornecido pelas "disciplinas" das Ciências Sociais. Seu objetivo básico consiste em produzir "um ser humano que possa ser tratado como um corpo dócil".


5 - O surgimento de movimentos sociais das minorias, isto é, que se uniam de acordo com identidades para além daquelas de natureza individual ou de classe social. Hall cita como exemplos o movimentos feminista, estudantil, pacifista e contracultural de 1968. Esses movimentos politizaram a subjetividade e o processo de identificação social, além de escancarar a pluralidade de identidades. Como exemplo, o autor cita o caso de um juiz norte-americano negro e conservador acusado de assediar sexualmente uma estagiária branca, e como que a opinião pública regiu a isso. Os indivíduos tenderam a reagir com base em seus conjuntos de identidades pessoais (do tipo homem/mulher, negro/branco, liberal/conservador), isto é, os homens negros liberais tenderam a ser favoráveis ao juiz, mas não os conservadores, ao passo que os homens brancos, liberais ou conservadores, foram mais favoráveis à estagiária. As mulheres, em geral, foram favoráveis à estagiária, a não ser o caso das mulheres negras liberais, que foram favoráveis ao juiz, acreditando que a denúncia foi alguma espécie de intriga de cunho racista.

No resto do livro, Stuart Hall explica como a pós-modernidade, influenciada pelas cinco correntes de pensamento social descritas anteriormente, abalou a noção de identidade cultural até então mais aceita, que é a identidade nacional, isto é, a cultura de uma sociedade como a cultura de um país. A pós-modernidade, assim como a globalização, desconstriu a noção de que há um senso de nacionalidade acima da individualidade e de localidade. Ou seja, as pessoas estão perdendo seu senso de nacionalismo e de patriotismo, que são vistos como discursos para direcionar o senso de coesão social. Contudo, Hall destaca que a decadência das nacionalidade não significa o fim da coesão social, já que é um discurso relativamente novo na história da humanidade, datando do surgimento dos estados modernos ocidentais, e sua construção não foi um fenômeno pacífico e voluntário, mas decorreu da conquista e imposição por parte dos governos imperiais, que passaram a promover alguns de seus vassalos mais fiéis e próximos à condição de "compatriotas" ao custo da imposição da cultura imperial. Porém, a questão da nacionalidade, apesar de recente, já se enraizou nas sociedades modernas, e têm impacto sobre a cultura vigente nos meios em que vivem os sujeitos, seja na forma da linguagem, seja na forma das instituições, ou ainda na forma da ideologia historicista presente nos meios educacionais.

Com isso, o autor explica a questão do obscurantismo e da perda de identidade intrínsecos à pós-modernidade. Com a globalização, a nacionalidade perde o seu sentido; as pessoas são membros ao mesmo tempo de pequenas comunidades locais e de uma grande aldeia global. Mas a nacionalidade canalizou o senso de cultura, em relação a qual se definem todas as identidades de cada indivíduo, de modo que as pessoas residentes nos países da civilização ocidental sentem que algum sentimento de coesão social tenha se enfraquecido nas últimas décadas. No resto do livro, Hall explica algumas controvérsias a respeito desse impacto da globalização sobre a desconstrução das identidades nacionais, com ênfase na relação da civilização ocidental com as demais culturas humanas.

O melhor do livro, em resumo, é que ele fornece uma boa noção para o público mais leigo sobre os últimos desenvolvimentos nas humanidades sem aquele tradicional "discurso crítico" de forte viés de ideologia política que impregna tantas das obras das ciências sociais.

terça-feira, janeiro 06, 2009

A Economia do Ócio - Domenico de Masi

Ganhei esse livro de presente de aniversário dos meus colegas de república, em Belo Horizonte. O título é bastante apropriado para minha vida de mestrando de quarto semestre de economia, vivendo em função da dissertação (ou não) em casa. Foi uma leitura agradável.

O livro "A Economia do Ócio", organizado por Domenico de Mesi, consiste em uma coletânea de duas obras: Elogio ao Ócio, de Bertrand Russell, e Direito ao Ócio, de Paul Lafargue. Ambas as obras são escritas por autores de viés esquerdista, apesar de Russell adotar um paradigma teórico baeado no utilitarismo britânico em seu texto, enquanto que Lafargue utiliza uma tradicional retórica marxista. Os autores criticam o "culto ao trabalho" instalado na cultura ocidental moderna, isto é, a visão do trabalho como uma virtude intrínseca, um bem, um fim em si mesmo. Para ambos os autores, tal perspectiva de pensamento é errônea, alienante, e historicamente muito recente, datada do desenvolvimento do capitalismo industrial (metade do século XVIII). O trabalho deve ser visto como um meio de se produzir os bens e serviços necessários para se obter um determinado patamar, equilibradamente distribuído na sociedade, de conforto material. Os verdadeiros fins da produção econômica são o consumo e o lazer, e não o trabalho e a produção.

Paul Lafargue utiliza a linguagem marxista mais emocional possível para defender que o culto ao trabalho fora instalado pela moral burguesa que dominou progressivamente as sociedades ocidentais com a expansão da industrialização, em detrimento da moral cristã tradicional. Segundo o autor, a moral do trabalho é um instrumento político de dominação e alienação dos trabalhadores, pressionados para se transformar em meros meios de produção ambulantes. Lafarge chega ao ponto de afirmar que a moral burguesa do trabalho é mais injusta do que a moral cristã feudal, ou mesmo que a moral clássica escravista, já que essas ao menos reconheciam algum tipo de virtude na vida intelectual, política e contemplativa. Todavia, a moral do trabalho estaria minada pela tendência de superprodução de bens pela economia (outro ponto crucial da teoria marxista), ito é, produção em nível acima do que a sociedade é capaz de produzir, o que leva a crises periódicas de recessão e de falência de empresas. Por essa linha de pensamento, achei o texto de Lafargue um tanto previsível e monótono.

Bertrand Russell me chamou muito mais a atenção. O autor, filósofo britânico, reconhece a individualidade dos processos sociais, isto é, a interação entre as ideologias e as culturas coletivas com o processo pessoal de tomada de escolhas e decisões. Para o autor, o culto ao trabalho não é uma imposição estrutural de luta de classes, mas um resíduo do passado, isto é, da preocupação do indivíduo com a sua subsistência. Mas, em uma sociedade industrial, em que o trabalho humano tem sua produtividade potencializada pelo progresso tecnológico, tal cultura se torna anacrônica, trazendo para as pessoas nada mais do que alienação, ansiedade e preocupações desnecessárias. A solução para esse problema está no desenvolvimento de métodos científicos para a administração pública e privada da alocação de recursos, o que inclui desde reformas educacionais (a educação para o lazer, que já referi em um post anterior), reformas arquitetônicas para minimizar o trabalho doméstico, estruturação dos sistemas financeiros nacionais de forma a reduzir o impacto e a incidência dos ciclos econômicos, e até mesmo a construção de um novo modelo político. Russell era um socialista, mas discordava dos seus contemporâneos marxistas por não acreditar que o motor da dinâmica social é a luta de classes. Para o autor, o desenvolvimento científico administrativo poderia criar um modo de produção planejado e centralizado mais eficiente do que o formado pela busca individual pelo lucro.

Em resumo, ambos os autores são muito polêmicos. No caso de Russell, a polêmica está combinada com uma dose de excentricidade. O livro é uma típica leitura de filosofia, muito interessante para expandir os horizontes de pensamento e de possibilidades de conhecimento, mas sem necessariamente concordar com os autores.

sexta-feira, setembro 26, 2008

Pobreza, Exclusão Social e Modernidade - Simon Schwartzman

No momento, estou pesquisando sobre o conceito econômico de pobreza, formas de sua mensuração e seu comportamento contemporâneo no Brasil. Para isso, além de uma pilha de artigos, comprei dois livros do Simon Schwartzman, sociólogo e cientista político da FGV-RJ. O autor é especializado nas áreas de pobreza e desenvolvimento social, e faz uma boa ponte entre a economia e as demais ciências sociais nesses temas. Já tinha lido textos dele nas cadeiras de Política e Planejamento Econômico, na UFGRS, e Desigualdade e Pobreza, no Cedeplar-UFMG.

No livro "Pobreza, Exclusão Social e Modernidade: Uma Introdução ao Mundo COntemporâneo", Schwartzman faz uma boa discussão teórica e aplicada sobre os principais temas contemporâneos que relacionamos ao desenvolvimento social e à modernidade. O autor descreve as principais correntes de pensamento sobre o tema da evolução das sociedades humanas, passando por Adam Smith, Marx, Polanyi, Weber, Durkheim, Castel, entre outros, apontando os pontos fortes e as limitações de cada ponto de vista. Diversas interpretações sobre a existência de sociedades subdesenvolvidas são abordadas (e criticadas), como a escravidão, a teoria da dependência e o papel da cultura sobre as civilizações. Além disso, o autor aborda questões relacionadas com a educação, a tecnologia e os direitos humanos, os quais, no mundo moderno, são diretamente associados ao desenvolvimento sócio-econômico.

O autor, mesmo sendo caracteristicamente liberal, faz um bom diálogo com as correntes de pensamento social mais de cunho marxista, predominantes na academia brasileira. São usados argumentos sólidos para criticar a aplicação direta da teoria marxista da linearidade da história em relação ao caso brasileiro. Para o autor, o Brasil, assim como a maior parte dos países fora da Europa Ocidental e da América do Norte, nunca teve uma estrutura social dividida uma classe capitalista e uma classe operária. O que havia era alguns grandes proprietários de terras, escravos (reduzindo de magnitude a partir de meados de 1850), pequenos empresários urbanos e alguns trabalhadores livres assalariados. Mas a maior parte da população, desde o final do século XIX consistia de excluídos (o lumperproletariat, de Marx), tais como ex-escravos, agricultores familiares e imigrantes pobres, os quais não tinham nenhum papel na produção econômica central nacional (isto é, fazendas de cana-de-açúcar e café), e tampouco tinham lugar na política e nas instituições nacionais.

Por outro lado, o autor não definiu objetivamente nenhum conceito de pobreza, de exclusão social ou de subdesenvolvimento em seu livro. Apenas apresentou as idéias de outros autores e comparou com as suas próprias. Além disso, mesmo tirando conclusões práticas similares ao comum no mainstream econômico, Schwartzman se mostra muito relativista em relação aos aspectos mais teóricos e conceituais, como é comum em trabalhos contemporâneos de Sociologia e Ciência Política. Por isso, dificilmente essa obra terá espaço na minha dissertação. Mas como um livro para trabalhos de graduação, ou mesmo para o lazer, é uma leitura muito agradável e interessante.

sexta-feira, setembro 21, 2007

O Brasil e a Intelectualidade: Presente e Futuro

Lendo o livro do Renato Tapajós, na semana passada, dei-me conta de como que é difícil encontrar trabalhos de intelectuais brasileiros sobre a sociedade nacional em sua atualidade. Como eu relatei no post sobre o livro, vejo que a grande parte dos intelectuais, não só escritores, mas também jornalistas, sociólogos, historiadores, etc, parecem prender-se em suas memórias de sua juventude e ignorar tudo aquilo que aconteceu no país e no mundo nas últimas duas décadas.

Tendo contato com grande parte da produção intelectual de autores brasileiros sobre questões sociais e políticas do país, o que vemos, geralmente, são relatos carregados de saudosismo sobre as virtudes das atitudes dos jovens rebeldes dos anos sessenta e setenta, particularmente a luta contra o autoritarismo militar e a luta por um projeto de desenvolvimento autônomo, nacionalista e distribuidor de renda. Sobre os anos oitenta e o período democrático após 1988, tudo o que lemos são definições baseadas em conceitos controversos como "década perdida", "juventude alienada", "crise da utopia", ou então radicalismos explícitos como "fim da história" ou "morte do desenvolvimento nacional". Contudo, esses estudos, como dito, são carregados de relatos saudosistas, e não estudos analíticos, sobre a trajetória recente da organização sócio-econômica recente do Brasil.

Como motivos para esse posicionamento dos intelectuais nacionais, de fato, cito o sentimento de salvacionismo e de mergulho utópico que caracterizam o pensamento vanguardista dos anos sessenta e setenta. Naquele período, do final da Segunda Guerra Mundial até o segundo choque do petróleo (1979(, o Brasil e o mundo encontravam-se em um período de prosperidade econômica sem precedentes (os "Anos Dourados"), caracterizado pela constituição econômica do "capitalismo regulado", isto é, economia de mercado com intervenção estatal anti-cíclica e estrutural, e um arranjo de cooperação econômica internacional entre os países capitalistas, que inclusive incentivava mecanismos de investimentos produtivos dos países ricos para os subdesenvolvidos (o Acordo de Bretton-Woods). Todo esse clima de prosperidade abriu caminho para uma geração de pensadores voltados para a compreensão dos fenômenos do desenvolvimento social e econômico, e as problemáticas sociais, como a desigualdade e a persistência da pobreza e da miséria. Tais pensadores se preocuparam em formular ousados projetos de desenvolvimento (tanto em nível econômico como em nível social e político) para o país, em que os trabalhadores tomariam as instituições políticas, a economia seria independente das flutuações externas, a renda seria distribuída na sociedade, e a pobreza se extinguiria, pela constituição de um mercado interno no Brasil que poderia perpetuar o crescimento à la Adam Smith. Além disso, a presença de um regime autoritário no Brasil e de restrições à liberdade de expressão tornavam esses debates ainda mais desfiadores para os intelectuais. Na época, todos os vanguardistas (sejam eles desde os comunistas pró-soviéticos até os liberais-democratas) eram contra o regime, e a opressão intelectual servia apenas para alimentar o sentimento de oposição.

Contudo, os acontecimentos dos anos oitenta abalaram profundamente esse quadro. A crise de endividamento do setor público no início da década acabou com o último ciclo de crescimento da economia brasileira, e desde então, o Brasil praticamente estancou o seu crescimento per-capita. Os intelectuais viram que o crescimento econômico, tal como se dava nas décadas anteriores, não era um fenômeno permantente e inevitável. Muitos economistas abandonaram seus projetos de desenvolvimento nacional para se focar em problemas mais técnicos, como o controle da crise externa e o combate à inflação. A crise do comunismo, visível ao longo dessa década, provocou uma queda da utopia sócio-política em nível mundial. Por fim, a redemocratização construída de "cima para baixo", isto é, costurada pelos próprios políticos aliados do regime militar, retirou o caráter sebastianista que caracterizava os pensamentos intelectuais dos períodos anteriores. Agora, com a liberdade de expressão, qualquer um pode expor seus projetos e idéias sem medo de retaliação oficial, os debates tornam-se cada vez mais comuns e repetitivos. As idéias de desenvolvimento parecem que "perdem a graça", pelas repetições contínuas das mesmas idéias das décadas anteriores.

A partir dos anos noventa, o Brasil passa por grandes transformações nas esferas política, econômica e social. Na política, a redemocratização tem levado partidos políticos cada vez mais à esquerda ao controle do governo federal. Contudo, suas ações são cada vez mais semelhantes, como acontece em todo o mundo democrático, e isso, junto com os comportamentos eticamente inaceitáveis de homens públicos de altos postos hierárquicos, tem suscitado uma apatia política da sociedade brasileira crescente. No plano econômico, o endividamento externo elevado e o desenvolvimento tecnológico dos mercados financeiros internacionais praticamente inibiram a possibilidade de o Estado administrar a economia (via políticas fiscais, cambiais, monetárias e intervenção direta) como fazia nas décadas anteriores. Igualmente, tornou-se consenso que o excesso de proteção à indústria nacional havia criado um déficit tecnológico muito sério para as empresas brasileiras. Portanto, os governos sucessivamente têm optado por políticas de abertura econômica, privatizações e controles fiscais e monetários cada vez mais rígidos, acompanhando as tendências da economia mundial. Contudo, as políticas sociais de resdistribuição de renda vêm se tornando cada vez mais abrangentes, fazendo com que a distribuição de renda e a pobreza na realidade brasileira venham melhorando lentamente. Ou seja, no plano social, o Brasil, mesmo que não piorando mais desde o controle da inflação, ainda tem muitos desafios a cumprir. Ao contrário da miséria rural que caracterizava o país nas décadas anteriores, a bomba da vez está na periferia das grandes cidades, cada vez mais caóticas, violentas, sem instituições definidas, sem condições higiênicas de comportar o volume populacional que comportam, e carregadas por massas humanas sem perspectivas de futuro.

Dado esse panorama, é mesmo muito triste que a intelectualidade brasileria ainda se prenda ao passado, à luta contra o autoritarismo, aos devaneios comunistas e ultra-nacionalistas e ao asco à realidade atual mundial. Tal comportamento vem abrindo caminho para as críticas anti-intelectuais (praticamente neo-positivistas) que vemos nos dias atuais, de que o intelectual seria um ente mentalmente inferior ao do técnico (com pérolas do tipo "quem sabe faz, quem não sabe pensa, escreve e ensina"). Isso está errado, pois ainda há muito sobre o que se pensar nesse país. Técnicos e intelectuais podem e devem coabitar a mesma realidade, e resolver os mesmos problemas de modo complementar.

No plano econômico, o processo de abertura externa e a limitação crescente dos instrumentos de política econômica são inevitáveis, mas o fim dos projetos e das idéias de desenvolvimento sócio-econômico de longo prazo não são. A grande questão atual é o crescimento de longo prazo, isto é, a possibilidade de o Brasil recuperar uma trajetória de crescimento compatível com a dos outros países em desenvolvimento no mundo. Para isso, o papel do Estado será fundamental, mas agora fundamentado nos níveis institucional e regulatório, já que os recursos fiscais e tributários disponíveis são cada vez menores. O desafio presente é pensar qual o modelo de desenvolvimento queremos para o Brasil, pensando sobretudo no longo prazo e em uma economia cada vez mais integrada com a comunidade internacional. Fatores e alternativas são abundantes (educação?, integração regional?, reformas institucionais?, quais?, como?).

No plano político, o desafio é recuperar a credibilidade da democracia brasileira frente aos choques institucionais. A apatia política, mesmo presente em todas as democracias consolidadas, não deve se refletir em convivência e aceitação de comportamentos anti-sociais de políticos, de todos os partidos e ideologias. O risco de um novo governo autoritário aparecer e ser apoiado popularmente para "dar ordem na casa" é remoto, mas não é impossível.

No plano social, o foco é a compreensão da estrutura nacional como um país urbano, em que as desigualdades convivem cada vez mais próximas. Ou seja, desaparece o pensamento tradicional cepalino de dualidade entre o centro industrial rico e a periferia agrária pobre. O Brasil de hoje apresenta riqueza e pobreza habitando conjuntamente os mesmos lugares, centro e periferia, campo e cidade. Por fim, a grande mobilidade social que o país vem apresentando nas últimas décadas, possibilitada sobretudo pelo crescimento do setor de serviços na estrutura econômica nacional, faz com que o modo de pensar e de agir dos grupos sociais urbanos nacionais percam boa parte de seu comportamento econômico (isto é, de ricos e pobres, classes sociais), para comportamentos mais individuais, decorrentes de fatores psicológicos ou mesmo de preferências (isto é, o surgimento e a expansão de tribos urbanas).

O livro de Tapajós é um início promissor de toda uma gama de fatores que compreendem a atual realidade brasileira, e são miseravelmente ignoradas pela maioria dos autores.

quinta-feira, setembro 13, 2007

A Infância Acabou - Renato Tapajós

Achei esse livro num lixo daqui do Cedeplar, e, pela fome literária que eu tinha acumulada nestes últimos seis meses sem acabar um romance (acho que o último foi um do Sherlock Holmes em fevereiro), eu matei ele de uma vez só.

O livro é infanto-juvenil, da editora Ática, desses que a gente lê na sexta série, no colégio. São 150 páginas, letras grandes, pouca descrição e muitos diálogos e ação. Bom para recomeçar a vida cultural, após quase dois semestres só lendo artigos técnicos...

A história se passa em São Paulo, no final dos anos noventa. Um rapaz de quinze anos vê sua condição financeira se deteriorar muito rapidamente, quando seu pai é demitido do emprego e se separa de sua mãe. Para conseguir pagar o colégio, o personagem tem que se virar, assumir responsabilidades e conquistar independência (como o título do livro já diz, a infância acabou). Consegue emprego de baterista profissional e tenta montar uma revista de bandas independentes com os amigos. Nesse choque de mudança de hábitos de vida, o rapaz entra em contato com as questões do mundo adulto, o pânico da pobreza, a violência urbana, as drogas, o sexo casual, a busca do sucesso. O enredo em si, não tem nada de mais, é bem focado para o público adolescente, nenhum conflito psicológico muito forte, e o personagem principal, idealizado como um verdadeiro herói romântico, supera facilmente todos os seus problemas demonstrando pouca ou nenhuma insegurança. Isso obviamente não é um comportamento nem um pouco verossímil, mesmo para um adulto, mas é de se notar que trata-se do ideal de comportamento visto entre o público-alvo do livro - o jovem que não demonstra fragilidades, vistas como meras infantilidades, e isso pode ser um truque do autor para cativar seus leitores.

Outro ponto de destaque no livro é de que suas seqüências de ações são muito curtas e rápidas, mesmo para um livro de apenas 150 páginas. O enredo central do livro parece ser não uma ação específica, mas o somatório geral delas, isto é, todas as experiências que transformam o personagem principal, supostamente, de criança em adulto. Dentre essas pequenas ações, destacam-se aquelas relacionadas com o posicionamento do personagem com situações sociais características do Brasil atual, como, principalmente, o abismo social. O rapaz pertence à classe média, mesmo que decadente, e, como todos os seus amigos, é músico, fã de trash metal, toca bateria, e briga nas ruas contra gangues de skinheads. Mas, ao longo da história, ele entra em contato com os extremos da sociedade brasileira, isto é, como uma colega sua que faz o gênero típico da patricinha-fútil-interesseira, e uma comunidade de rappers que ele entrevista para sua revista. A impressão que o personagem tem de cada mundo, sob um aspecto emocional e crítico, é muito bem explorada pelo autor.

É claro que o livro tem exageros romântico e estereotipados. Há, por exemplo, um personagem que é um velho hippie que se torna um verdadeiro "irmão mais velho" de todos os jovens, e dá conselhos de todos os tipos para os outro personagens, agindo de maneira mais altruísta do que o razoável para um ser humano. Provavelmente, esse personagem é um alter-ego do escritor, dando sua opinião sobre a sociedade contemporânea. Além disso, trash metal é um gênero musical bem menos popular do que o autor aponta no livro, pelo menos em Porto Alegre, onde eu vivi. Lá, a classe média tenta emular os hábitos de consumo da classe alta em todos os sentidos, e, no plano musical, isso se traduz em um grande gosto pelo pop-standard da Jovem Pan, e por danças de ritmos brasileiros ultra-sensual-vulgarizados. Heavy metal, trash metal e outros sons alternativos são compartilhados pelos indivíduos que não se integram com os grupos majoritários por motivos não-econômicos, como questões intelectuais, psicológicas, sociológicas, ou mesmo por moral pessoal.

Contudo, o grande mérito do autor é tentar pintar a situação cotidiana presente das grandes cidades brasileiras, focando nos indivíduos jovens ("esses monstros", de acordo com o livro do Maffesoli). Numa época em que os tradicionais autores da literatura brasileira parecem simplesmente ignorar a atualidade, prendendo-se no mundo de sua juventude sessentista e setentista, Renato Tapajós faz um grande trabalho ao apresentar alguns fatores da sociedade atual sob um olhar muitas vezes analítico, mas sem o criticismo boçal que caracteriza muitos outros autores brasileiros.

segunda-feira, agosto 27, 2007

Efêmero - O Outro Lado da Parte do Diabo

www.youtube.com/watch?v=swTIIBOsmNw (VÍDEO NO YOUTUBE)

"Você nunca sabe o quanto pode custar uma escolha errada. Eu pensei que tudo fosse ser fácil. Não tinha nada a perder. Eu não tinha nada, mesmo."

"Eu só queria pertencer a esse mundo. Ter grana, um carro legal, umas roupas bacanas. E poder trazer a Lu nesses bares aí, levar ela no cinema, essas coisas. É foda não ter nada. Eu queria ter mais..."


O realista curta-metragem "Efêmero", de Yheuriet Kalil, mostra, de uma maneira hiper-dimensionada, um dos principais problemas da pós-modernidades, relacionado com a socialização entre pessoas super-individualistas. Pode-se fzer um paralelo entre os aspectos mais filosóficos o ponto de vista social desse filme com o livro de Michel Maffesoli (A Parte do Diabo), que eu li no início desse ano, o qual procura exatamente explicar as raízes sociológicas e filosóficas sobre o comportamento dos indivíduos no mundo moderno.

O filme, resumidamente, conta a história de um sujeito simples, um entregador de pizza que, para satisfazer seus anseios materiais e sentimentais (em relação a sua namorada Lu), envolve-se com dois indivíduos para assaltar pessoas na rua. O personagem demonstra durante todo o filme que seu objetivo nos crimes é puramente material, se incomoda com o sadismo de seus companheiros, e sua consciência o atormenta até o final do enredo. Aqui, podemos explicitamente destacar a questão da dualidade entre um individualismo extremado representado pelo desprezo que os personagens tem pelas instituições sociais vigentes, em nome de seus objetivos de curto prazo (o fato de "roubar pessoas na rua para ter grana para levar a sua namorada no cinema"), com um sentimento de inferioridade social, isto é, a angústia demonstrada pela necessidade de "pertencer a esse mundo", e de ser aceito pelos outros indivíduos. Tal dualidade é a chave de toda a ação dos três personagens principais, e cada um deles apresenta um certo grau de consciência de suas ações, que afeta o seu pensar e agir, passando desde o arrependimento do personagem principal, até a psicopatia pura e fria de um dos cúmplices.

O livro de Maffesoli, por sua vez, busca explicar o comportamento individual (e suas conseqüências sociais) na pós-modernidade. Segundo o autor, atualmente os indivíduos agem e pensam de maneira cada vez mais momentânea e isolada. Isto é, o "tipo puro", em uma linguagem weberiana, do indivíduo pós-moderno, é a "criança eterna", que age pelo seu prazer pessoal no período imediato, não se preocupa com as conseqüências de suas decisões e não assume compromissos. Em suma, é um indivíduo que não distingue os princípios do "bem" e do "mal", de acordo com a tradicional moral judaico-cristã. Ou seja, o que vale para suas decisões é o seu prazer máximo, e agora. Segunso Maffesoli, tal indivíduo explica as crises das instituições sociais, a apatia política e intelectual, e o culto ao corpo e à aparência em detrimento ao do trabalho e do comprometimento.

Segundo Maffesoli, tal indivíduo representa não a desagregação da sociedade ocidental, mas uma evolução a uma nova sociedade, que, de acordo com o autor, seria mais pacífica e tolerante que a anterior, já que o "combater o mal", raiz de todas as guerras nas sociedades patriarcais, seria abolido em nome de um "conviver com o mal" moderno, pela aceitação dos diferentes (conseqüência de uma sociedade mais individualista e independente). Ou seja, o autor se mostra otimista com a nova tendência da sociabilidade no mundo ocidental.

Contudo, o filme mostra um outro lado dessa nova sociedade. As coisas não parecem andar tão harmonicamente como Maffesoli imagina. As "crianças eternas" usam a violência para alcançar seus impulsos individualistas, imediatistas e momentistas, que sempre forma associados ao conceito de "Mal" pela moral social tradicional. E, mesmo que a ciência econômica tome como dado que todo indivíduo, em qualquer lugar e em qualquer época, age de acordo com a maximização de seu bem estar esperado, é bem verdade que as pessoas agem dentro de ambientes sócio-institucionais. Isto é, cada indivíduo não é uma ilha isolada, mas suas ações tem conseqüências para seus semelhantes, e, se a sociedade aceita que o bem estar de um pode ser ampliado pelo detrimento do bem estar alheio, certamente, haverão problemas de interação entre os indivíduos.

Obviamente não se defende, aqui, que a sociedade pós-moderna deva ser substituída pela sociedade tradicional. Muito pelo contrário, qualquer um que já tenha lido Aluísio de Azevedo sabe que as instituições vigentes podem ser tão ou mais violentas contra a liberdade e a felicidade individual do que os próprios indivíduos. Além disso, o tempo não pára e não volta atrás, e a interação social responde a comportamentos individuais que variam de acordo com incentivos dinâmicos, e até mesmo, algumas vezes aleatórios. Além disso, comparar indicadores de felicidade individual em diferentes sociedadas simplesmente não faz sentido. Contudo, o filme "Efêmero" nos dá muito menos otimismo sobre a sociedade pós-moderna do que a visão de Maffesoli e alguns outros autores ultra-individualistas.

quinta-feira, janeiro 25, 2007

Liberalismo, Coletivismo e Pós-Modernidade

Um dos principais focos das ciências sociais em geral (incluindo a literatura real-naturalista) se trata de explicar as relações possíveis entre o ser humano como indivíduo e o seu meio social, coletivo. Tais relações podem ser vistas nos mais diversos ângulos, de acordo com as diferentes correntes de pensamento dos autores, sendo que alguns procuram focar em questões determinísticas (isto é, como o meio social determina o individual, ou vice-versa), enquanto outros procuram focar sua análise sob um ponto de vista moral, dos possíveis conflitos entre a individualidade e a sociedade, pendendo para o lado que mais estiver de acordo com sua posição ideológica. Contudo, entre os autores mais atuais, a relação entre indivíduo e sociedade não tem mais um tom determinístico; reconhece-se a influência entre ambas as esferas, com ponderações relativas para cada cultura, mas não é possível deter-se num ponto de superioridade de uma delas sobre a outra que valha para a humanidade como um todo, englobando todo o tempo e espaço.

Autores sociais de corrente liberal, muito populares hoje em dia, parecem concordar que o homem é naturalmente livre e racional (para melhor compreensão desses conceitos, o estudo da obra de John Locke é fundamental). Contudo, dada a sua racionalidade, o homem sabe que viver em sociedade é muito mais produtivo do que viver isolado, pela possibilidade da divisão e especialização do trabalho entre os membros dessa sociedade (ver Adam Smith). Contudo, para resolver possíveis conflitos decorrentes da vida em sociedade, os homens como indivíduos racionais naturalmente delegam (pelo que Locke denominou "Contrato Social") seus poderes de julgar e executar normas morais para um ente externo, denominado Estado. O Estado, portanto, teria o papel de criar leis, fazer com que elas sejam cumpridas e punir quem não as cumpre, como modo de minimizar os conflitos individuais decorrentas da vida em sociedade. Qualquer maior poder para o Estado significaria uma invasão da coletividade sobre a individualidade, o que, além de ser anti-natural, segundo essa ideologia (pois a natureza do homem está voltada à liberdade), provocaria uma repressão da sociedade às liberdades individuais, acarretando em uma série de danos para ambas as esferas: para os indivíduos, a repressão da expressão de sua racionalidade, em suma, a busca de sua felicidade; para a sociedade, o bloqueio à criatividade, à meritocracia e ao próprio progresso social, já que todos esses valores estão ligados às iniciativas individuais.

Em resumo, segundo o liberalismo tradicional, bastaria reduzir-se o papel do Estado (a ligação institucional e racional entre o coletivo e o individual) ao mínimo possível para que a pressão social sobre a iniciativa individual - o fenômeno descrito como "coletivismo" - fosse minimizada e os indivíduos seriam totalmente livres para buscar a sua felicidade, desde que não afetassem a felicidade alheia. E indivíduos livres e felizes agiriam livremente buscando o melhor para si, o que, por somatório, levaria a sociedade como um todo a um progresso contínuo.

Contudo, a pós-modernidade atual parece indicar falhas empíricas a essa teoria. Atualmente, as instituições políticas estão em profundo descrédito no mundo inteiro. Grande parte das pessoas considera que políticos burocratas (o Estado Moderno) não passam de corruptos hipócritas (basta observar a evolução do significado do termo "burocrata" desde Max Weber até a atualidade), traduzindo-se em um baixo comprometimento das pessoas com as instituições democráticas, enquanto que a religião tradicional (o Estado Arcaico) é vista como retrógrada e cega, sendo progressivamente pulverizada em pequenas seitas e igrejas com características próprias, agindo muito mais como "bens de consumo espiritual" do que como normas morais. Mesmo o aprofundamento do radicalismo islâmico no Oriente Médio, ou do messianismo político em países da América Latina parecem ser antes a expressão da decadência dos valores do passado do que uma reação à cultura pós-moderna.

Contudo, mesmo com a atual decadência da política (tanto burocrática quanto espiritual), não é empricamente visível que as pessoas, individualmente falando, vem se tornando progressivamente mais autônomas em relação à sociedade. Muito pelo contrário, o que vemos atualmente é a divisão dos membros individuais da sociedade em grupos, denominados pelos autores de "tribos urbanas", cada qual com sua cultura, incluindo código moral e expressão artística, própria. Tal fenômeno é muito mais perceptível entre a população jovem, o que destaca ainda mais a sua novidade. Particularmente no Brasil, a população urbana de baixa renda se identifica com a "Cultura Hip-Hop", com linguajar, vestuário, expressão cultural (a Black Music e o grafite) e comportamento característicos. Dentre a população de mais alta renda parece predominar um movimento "Geração Saúde", valorizando primordialmente o próprio corpo, tanto em saúde como em aparência física, a prática de esportes radicais, o consumismo e a cultura Pop, isto é, a cultura de consumo instantâneo, de modas passageiras. Além dessas correntes predominantes, tanto na população de alta como na de baixa renda aparecem também grupos alternativos, como neo-hippies, rockeiros, metaleiros, punks anarquistas, comunistas, nerds, gays, góticos, clubbers.

Contudo, além da divisão da sociedade em grupos, não há comprovação empírica de que as pessoas de hoje em dia sejam mais felizes do que as de gerações atrás. E menos ainda que as pessoas estejam mais criativas - e consequentemente mais inteligentes - do que seria esperado como conseqüência do enfraquecimento das instituições políticas coletivistas, segundo a ideologia liberal predominante, como pode-se ver pela decadência da educação (principalmente pela falta de entusiasmo dos estudantes com o aprendizado) e pela baixa qualidade da produção cultural atual, cada vez mais massificante. E muito menos, mas muito menos mesmo, vem acontecendo um declínio dos conflitos sociais nos últimos tempos. Pelo contrário, há uma rivalidade entre tribos, principalmente entre as tribos hegemônicas contra as demais, mas também dentro de cada tribo, o que, além de traduzir-se em violência física, provoca uma indesejável pressão social sobre as decisões individuais de busca da felicidade.

Ou seja, as pessoas tendem a se submeter ao seu grupo social de tal modo que a individualidade acaba oprimida pelo seu meio. A ação humana deixa de ser em busca de sua felicidade para ser em busca de reconhecimento pelo grupo. Mesmo sem as grandes instituições políticas tradicionais, a sociedade oprime seus indivíduos de maneiras informais, traduzidas nesse coletivismo de tribo. Suas expressões são a massificação cultural, a mediocratização da intelectualidade e a alienação dos indivíduos em relação a sociedade como um todo, preferindo se isolarem em seus grupos.

Com o texto escrito, o autor não defende, de forma nenhuma, uma volta repressora das instituições tradicionais como forma de quebrar os grupos sociais e integrar todos os indivíduos em um só corpo social, como ocorria anteriormente. Muito pelo contrário, o autor, de ideologia predominantemente democrata, com um viés social em assuntos econômicos, e outro liberal em assuntos sócio-políticos e cético-pluralista em assuntos espirituais, abraça e defende a idéia da busca de felicidade com ideal de vida para cada indivíduo. Por isso, a crítica social presente nesse texto não tem um tom moralista; se as pessoas gostam de ser vazias e medíocres, que sejam, desde que respeitem aqueles que discordam desse modo de agir e pensar. Porém, cabe destacar a insuficiência da ideologia liberal, mainstream das Ciências Sociais atuais, em apontar uma situação de equilíbrio de bem-estar social e individual empiricamente comprovável.

quarta-feira, janeiro 03, 2007

A Parte do Diabo - Michel Maffesoli

Sociólogo da Sourbonne (França), Michel Maffesoli disserta sobre o comportamento humano pós-moderno (contemporâneo), focando nas questões da política e da sociabilidade entre as pessoas. Seu objetivo é encontrar explicações científicas, dentro do universo da sociologia e da filosofia, para alguns dos mais relevantes fatos a respeito do comportamento das pessoas no presente, principalmente, a apatia política, a falta de entusiasmo com a construção de novas correntes intelectuais, o culto ao corpo, a deserção das instituições vigentes. O autor denomina o perfil de comportamento das pessoas no início do século XXI como o de uma "criança eterna", buscando sempre o prazer momentâneo, e demonstrando uma indiferença (manifestando-se como uma revolta branca) pelas instituições, como a democracia representativa (mediante os altos níveis de abstenções nas eleições), o intelectualismo e o culto ao trabalho.

O autor associa essa subverção da sociedade pós-moderna às instituições como não uma crise, mas sim uma mudança da estrutura de valores morais vigentes. Segundo Maffesoli, a tradição moral judaico-cristã construiu, ao longo de toda a sua história, uma visão de mundo em que o Bem e o Mal são valores absolutos e universais, e que o objetivo de todo código moral é desviar a ação individual e coletiva em busca do Bem, e combater o Mal. Assim, todas as grandes correntes de pensamento ocidental (fruto da tradição judaico-cristã), como a filosofia cristã, o Iluminismo e o Marxismo foram sempre focadas em construir o Bem absoluto, isto é, construir uma "sociedade ideal" e um "comportamento individual ideal", e combater toda e qualquer imperfeição relacionada ao comportamento social-individual humana, associada com o Mal. Contudo, para o autor, o Mal, isto é, as imperfeições da humanidade são tão sólidas como o conceito de Bem (o ideal), o que faz com que ambos valores tenham características muito mais relativas do que absolutas (o "relativismo moral", nas palavras do autor). Além disso, muitas das tradições morais fora do universo judaico-cristã (como o paganismo clássico, o animismo africano e o espiritualismo asiático) se preocupam não em combater o Mal, mas sim aceitar que o mesmo faça parte do mundo. Isto é, as imperfeições humanas, em que o autor destaca a mortalidade, devem ser toleradas pelas pessoas para que possamos ter uma visão holística de nossas vidas. Essas imperfeições são, em suma, nosso vínculo com a natureza; na moral judaico-cristã, o Bem é associado ao homem civilizado, racional e criado à forma e semelhança de Deus, o Bem máximo, enquanto que o Mal é associado ao homem animal, selvagem, bárbaro, com paixões e libidos voláteis e momentâneas. Contudo, o autor destaca que o homem é ao mesmo tempo racional e animal, e portanto, tanto o Bem quanto o Mal estão presentes em seu comportamento, e isso é perfeitamente natural.

Contudo, o autor destaca que na sociedade pós-moderna, as pessoas estão ignorando de forma cada vez mais profunda as instituições criadas pela tradição judaico-cristã (fundamentada sobretudo pelo Cristianismo, o Iluminismo e o Marxismo), abstendo-se de participação política, ignorando a cidadania como obrigação, reprovando idealismos intelectuais e moralismos rígidos de qualquer maneira. Pelo contrário, a sociedade parece estar cada vez valorizando mais o momento presente, o prazer em excesso, o movimento de violência, a libido. Isto é, a sociedade ocidental está se voltando para o Mal, isto é, ao contrário do que até agora vinha fazendo. Todavia, o autor argumenta que essa atitude é perfeitamente natural e positiva para a sociabilidade humana ocidental, já que o Mal, isto é, o homem-animal-imperfeito é um conceito universal que nunca será superado.

O autor não destaca uma razão principal para o fato de que a sociedade está em movimento para aceitar o Mal, em vez de combatê-lo. Contudo, mais para o final do livro, o autor parece relacionar isso ao sucesso do movimento feminista. Segundo Maffesoli, as sociedades patriarcais tem um claro espírito belicista e produtivista, e nelas o princípio de "construir um mundo ideal, custe o que custar" tende a se espalhar mais facilmente do que as sociedades matriarcais, com maior espírito de tolerância e compaixão entre as pessoas. Com o processo de independência individual das mulheres ocidentais, os valores morais matriarcais vão tomando cada vez mais importância frente aos patriarcais.

Em termos de estilo litérário, o livro é bastante complexo, não em termos de vocabulário, mas por trabalhar com conceitos relativamente avançados de sociologia e filosofia, o que faz com que leigos nesses assuntos (como eu) não consigam acompanhar todas as passagens do texto. Além disso, é curioso que o autor cite, para dar fundamento as suas teorias, não outros sociólogos, mas poetas e artistas em geral, interpretando sua sensibilidade frente ao mundo e à sociedade.

Por outro lado, o autor parece tratar com excessivo otimismo os valores morais da nova sociedade pós-moderna. A libertação individual feminina, a flexibilidade dos cógigos morais, a tolerância e a compaixão entre as pessoas e a maior proximidade entre o homem e a natureza certamente são avanços à sociabilidade e ao auto-conhecimento da humanidade. Mas outros fatores, tais como a apatia política, o culto ao corpo em detrimento da intelectualidade e o comportamento de "criança eterna", materialista, imediatista e consumista, não estão claros se realmente fazem parte de uma nova relação social no mundo ocidental, ou são sintomas de um processo de mediocratização intelectual e cultural que a nossa sociedade vem passando pelas últimas décadas, e que não tem nada a ver com a tolerância moral e o feminismo.

sábado, março 11, 2006

Comunistas e Neocomunistas

Após o colapso da União Soviética, a queda do Muro de Berlim e a transição dos países do leste europeu para o capitalismo, parecia que o pensamento dito "de esquerda" tradicional, pró-socialista, "vermelho", simplesmente sumiria dos meios acadêmicos e políticos em geral, sendo suplantado pelo pensamento liberal em termos mundiais (lembrando-se do "fim da história", pregado por Francis Fukuyama). Assim, o pensamento político mundial ficaria dividido entre uma direita clássica, defensora do liberalismo econômico, e uma nova esquerda, também liberal, mas mais em termos sociais do que econômicos, isto é, comprometida com o politicamente correto e com as liberdades e os direitos civis. Ambos os lados se alternariam nos governos de todos os países, sem comprometer as estruturas democráticas.

Porém, não foi isso o que aconteceu. Devido principalmente ao fraco desempenho econômico da Europa, América Latina, África e Oriente Médio a partir da década de 80, o pensamento de "extrema-esquerda", anti-capitalista, passou a ganhar cada vez mais força, não apenas nos círculos acadêmicos, mas principalmente pela militância popular. Chegou até mesmo a tomar o poder em países como a Venezuela de Hugo Chavez. Mas, que fique bem claro, completamente distinta do comunismo ortodoxo do século XX (a não ser pelo culto por parte dos militantes latino-americanos ao revolucionário pop-star Che Guvara).

O comunismo tal como se organizou na União Soviética, na China e no Leste Europeu, basicamente não se caracterizou apenas pelo totalitarismo político, como é corriqueiramente sabido, mas também pela absoluta racionalização do modo de vida da sociedade. Isto é, o socialismo científico buscava, pela ação do Estado central, o desenvolvimento econômico, científico e tecnológico como objetivo de sua própria existência, abolindo-se qualquer pensamento religioso, metafísico ou espiritual que as culturas humanas naturalmente carregam a respeito de seu futuro e de seu destino (sua missão de vida, em termos mais simples). Assim, o planejamento econômico central era elaborado por complexos modelos matemáticos e matrizes de Leontief, e dirigidos com mão-de-ferro por burocratas de Estado com amplo conhecimento técnico. O mesmo ocorria para praticamente todas as áreas de atividade social presente no país, desde o esporte até a ciência.

Como todos já sabem, o socialismo científico caiu em função de suas próprias contradições. Ao invés de abolir as classes sociais e, com isso, tornar o poder do Estado desnecessário para garantir a ordem social, o comunismo dividiu a sociedade em novas classes sociais (sendo que os burocratas ligados ao governo eram, de longe, os mais privilegiados) e ampliou o poder do Estado em níveis monstruosos (literalmente o Estado Leviatã de Thomas Hobbes). Além disso, tornou-se óbvio que a sociedade e a economia não podem ser planejados com cálculos algébricos: cada indivíduo é um ser único, com seus próprios valores, e não mais um número em uma equação. Por isso, o nível de desenvolvimento humano e econômico nos países socialistas centrais é muito inferior do que os mesmos índices nos países capitalistas centrais.

A nova esquerda, surgida em meados da década de 1980, tem como pilares centrais de seu pensamento a utopia, o anarquismo (destruição da ordem social capitalista), a irracionalidade (no sentido de aproximar o pensamento político com sentimentos, não com teorias científicas). Tal pensamento, que eu chamo neocomunista, parece buscar, em síntese, o socialismo puro como foi concebido por Marx e Engels, isto é, a revolução e a luta de classes, sem pensar nas técnicas de planejamento público central exigido pelo regime comunista (alguém já viu algum militante do PSTU ou do PSOL carregando uma bandeira com um retrato de Leontief?). Ao invés da racionalização da sociedade (ou desencantamento do mundo), proposto pelo comunismo ortodoxo, o neocomunismo busca exatamente o oposto: a quebra das instituições, códigos morais e tradições sociais prevalecentes, sem apresentar nada definido em troca - apenas conceitos vagos como o "Bolivarianismo" de Hugo Chavez e o "Indianismo" de Evo Morales. Outro ponto importante do neocomunismo é, ao contrário de buscar construir uma sociedade ideal absoluta, como pregou Marx, dar maior valor às culturas locais, frente ao processo de unificação do comportamento social em todo o mundo.

Todavia, se o comunismo clássico fracassou devido a sua visão hiper-racionalista da sociedade, assim como por causa de seus paquidérmicos Estados nacionais, corruptos e ineficientes, o neocomunismo é frágil exatamente pelo oposto. Mesmo que não se possa comandar a organização da sociedade com cálculos matemáticos e matriciais, o caráter técnico é extremamente importante para uma melhor gestão de administração pública, assim como é o papel da educação para a população trabalhadora, capaz de elevar o potencial de produtividade laborial do país, assim como o de expandir a consciência de cidadania entre os membros da sociedade.

Já é hora de a esquerda internacional acordar de seus sonhos anárquicos-sentimentais para conceber uma nova idéia de organização política e institucional, capaz de aliar uma administração pública eficiente e transparente, capaz de garantir um padrão de vida mínimo para todos os cidadãos, assim como o desenvolvimento sócio-econômico de longo prazo, a uma visão de respeito à individualidade de cada membro da sociedade, no que diz respeito aos valores e às preferências de cada cidadão. Além disso, é preciso ter pleno respeito às instituições democráticas e à alternância de partidos no poder, de modo a se permitir diferentes propostas de políticas públicas, deixando que a população escolha a que mais lhe agrade via eleições.