O Iluminismo é a emergência do homem da imaturidade a que ele mesmo se submete. Imaturidade é a incapacidade de usar a própria compreensão sem a orientação de terceiros. Essa imaturidade é algo que o próprio indivíduo se impõe, quando sua causa não é a falta de entendimento, mas a falta de determinação e coragem para usá-li sem a orientação de outrem. Sapere aude! Atreve-te a saber! É este o lema do Iluminismo.
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domingo, janeiro 09, 2011
Com a Palavra, Immanuel Kant
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sexta-feira, fevereiro 12, 2010
Com a Palavra, Max Weber
Inicialmente, tentemos perceber com clareza o que significa, na prática, essa racionalização intelectualista que devemos à ciência e à técnica científica. Acaso, significará que todos os que estão reunidos nesta sala possuem, no que se refere às respectivas condições de vida, conhecimento superior ao que um índio ou um hotentote poderiam alcançar a respeito de suas próprias condições de vida? É pouco provável. Dentre nós, aquele que entra num trem não tem noção alguma do mecanismo que permite ao veículo pôr-se em marcha - exceto se for um físico de profissão. De outra feita, nào temos necessidade de conhecer aquele mecanismo. É suficiente poder "contar" com o trem e orientar, conseqüentemente, nosso comportamento. Não sabemos todavia como se constrói aquela máquina que tem condições de deslizar. Contrariamente, o selvagem conhece, de modo incomparavelmente melhor, os instrumentos que se utiliza. (...) A intelectualização e a recionalização crescentes não equivalem, portanto, a um conhecimento geral crescente a respeito das condições em que vivemos. Antes, significam que sabemos ou acreditamos que, a qualquer instante, poderíamos, conquanto que o quiséssemos, provar que não existe, primordialmente, nenhum poder misterioso e imprevisível que interfira com o curso de nossa vida. Em outras palavras, que podemos dominar tudo, por meio da previsão. Isso é o mesmo que despojar de magia o mundo. (...) Essa é a essência da significação da intelectualização.
Parágrafo extraído do livro "Ciência e Política, Duas Vocações".
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segunda-feira, novembro 23, 2009
Filosofia: Novas Respostas para Antigas Questões - Nicholas Fearn
Já faz algum tempo que eu tenho curiosidade em saber como os filósofos da atualidade explicam as questões fundamentais do seu ramo do conhecimento. Quem somos nós? Para onde vamos? O que sabemos? Eu gostaria muito de sabar se os filósofos atuais tinham idéias novas e pouco conhecidas pelo público que não é da área, se eles ainda estão muito ligados aos mestres do passado, ou se eles estavam imersos na pós-modernidade de negação da identidade objetiva e da verdade. Nesse sentido, esse pequeno livro do Nicholas Fearn respondeu muitas das minhas dúvidas: sim, existem muitos filósofos contemporâneos com novas respostas para as antigas questões.
O livro é dividido em 13 capítulos, agrupados em 3 sessões, “Quem Sou?”, que aborda a questaão da identidade pessoal, “Que Sei”, que aborda questões epistemológicas, e que “Que Devo Fazer?”, que aborda questões éticas, morais e sobre a vida após a morte. O autor utilizou, como método de pesquisa, entrevistas com os maiores filósofos vivos, a maioria norte-americanos, sobre o ponto de vista deles sobre os problemas filosóficos fundamentais. Esses filósofos seguem, em geral, a linha da filosofia analítica, predominante no mundo anglo-saxônico e escandinavo, segundo a qual a filosofia é vista como um ramo de conhecimento complementar à ciência. Isto é, o conhecimento científico é tido como válido e verdadeiro, e cabe à filosofia especular sobre as implicações ainda não demonstráveis e testáveis do que a ciência já provou. Por isso, muitas das “novas idéias” estão intrínsecamente ligadas à mecânica quântica, para explicações metafísicas, e à biologia evolucionista darwiniana, para explicar aspectos da natureza humana. Posso listar um breve resumo das idéias presentes no livro.
- A noção de que os indivíduos humanos têm uma identidade singular é decorrente do pensamento religioso ocidental. Não há nenhuma evidência de que isso ocorra. Pelo contrário, a existência de uma doença como o mal de Alzeihmer, em que as pessoas perdem suas faculdades mentais e sua racionalidade antes de perder sua vida é um forte argumento contra a existência de uma alma imortal no interior de cada ser humano. Por isso, a identidade individual é melhor explicada como um mero somatório de processos biológicos dinâmicos.
- Os seres humanos tomam decisões restritas por uma série de circunstâncias. O autor obviamente não fala na “restrição orçamentária”, já que o livro não é de economia, mas sim em restrições políticas, sociais, legais, cognitivas e biológicas. Por isso, a questão do livre-arbítrio é relativa: as pessoas são livres para agir dadas essas circustâncias, que acabam determinando as decisões das mesmas. Todavia, não há nenhuma forma de controle total exógeno sobre a racionalidade humana.
- Existe a verdade. Ela está na natureza das coisas. Contudo, não é certo se os seres humanos são capazes de alcançá-la, já que nossas capacidades cognitivas são limitadas e determinadas pela seleção natural darwiniana. Isto é, as habilidades dos nossos cinco sentidos decorrem de um processo evolucionário de adaptação ao ambiente em que vivemos, e não necessariamente são capazes de capturar toda a verdade universal, já que isso seria um desperdício de energia. Por outro lado, nada impede que seres de uma civilização extraterrestre sejam capazes de se comunicar com os mortos, por exemplo, se isso fosse necessário para que eles se adaptassem melhor ao seu ambiente.
- O conhecimento de cada indivíduo decorre de suas crenças, já que a verdade muitas vezes é inalcançável. Porém, essas crenças são criadas pelas ações e observações de cada um em relação ao mundo objetivo, e não de processos intrínsecos de revelações. A existência das linguagens é uma forte evidência a favor da objetividade das crenças.
- A necessidade humana de conhecimento filosófico pode ser explicado pela biologia evolucionária. Para uma melhora adaptação psicológica ao nosso meio, necessitamos de conhecimento que transceda aquilo que conseguimos observar, e que explique nosso papel no mundo.
- A filosofia pós-moderna da Europa Continental é falha por considerar os conceitos de verdade e de razão como conseqüência de intenções políticas, e não o contrário. Assim, como as intenções políticas são tidas como exógenas, não explicadas racionalmente, abre-se espaço para teorias totalitárias, místicas e românticas sobre a realidade. Por outro lado, o desapego à verdade e à razão tende a transformar os textos pós-modernos em coletivos de prolixidade vazia. Eu, pessoalmente, já suspeitava dessa idéia desde a disciplina de Introdução às Ciências Sociais, no primeiro semestre da graduação.
- Não há nenhuma evidência de que exista algo como uma ética universal à humanidade. Cada sociedade tem o seu código de conduta moral, que pode ou não ser expresso formalmente, em termos totais ou parciais, em leis. Nossas ações podem seguir ou se desviar do que achamos ético de acordo com as circunstâncias, isto é, do que ganhamos em transgredir a moral e da possibilidade de sermos descobertos e punidos. A moral religiosa, de que há um Deus que tudo vê e que determina o que é certo e errado, é fundamentalmente autoritária e coercitiva. Atualmente, há um processo social de abandono ao compromisso com a moral, laica e religiosa, isto é, as pessoas cada vez mais se preocupam apenas em seguir as regras formais de conduta.
- Também não há nenhuma evidência de que exista vida após a morte. A necessidade dela para explicar a finalidade da nossa vida terrena não é um argumento válido, pois então teríamos que descobrir qual seria a finalidade da vida após a morte. Na verdade, a possibilidade de entendermos a finalidade do “tudo” é limitada por não conseguimos delimitar o que é esse “tudo”. Ao contrário, o conhecimento humano progride mais na medida em que a realidade pode ser dividida em partes cada vez menores. Por outro lado, a crença na vida após a morte decorre do medo humano da não-existência, o que é conseqüência de uma estratégia racional evolutiva de auto-preservação.
Eu sei que tudo é muito polêmico, e os filósofos da tradição da Europa Continental, como a grande parte dos pensadores sociais brasileiros, têm seus argumentos de defesa e de contra-ataque. Além disso, afirmar que determinados fatores metafísicos não existem simplesmente porque não há evidências da ciência empírica ao seu favor parece refletir uma visão muito estreita de mundo. E ainda, a tentativa de fundamentar todos os aspectos da natureza humana de acordo com o evolucionismo darwiniano também tende a ficar demasiadamente ad-hoc, já que essa teoria foi construída para explicar a dinâmica das espécies em prazos muito longos, e não fenômenos sociais com poucos séculos ou mesmo décadas de existência. Mas o livro é leitura recomendada pelo seu papel desalienador, de fazer pensar.
O livro é dividido em 13 capítulos, agrupados em 3 sessões, “Quem Sou?”, que aborda a questaão da identidade pessoal, “Que Sei”, que aborda questões epistemológicas, e que “Que Devo Fazer?”, que aborda questões éticas, morais e sobre a vida após a morte. O autor utilizou, como método de pesquisa, entrevistas com os maiores filósofos vivos, a maioria norte-americanos, sobre o ponto de vista deles sobre os problemas filosóficos fundamentais. Esses filósofos seguem, em geral, a linha da filosofia analítica, predominante no mundo anglo-saxônico e escandinavo, segundo a qual a filosofia é vista como um ramo de conhecimento complementar à ciência. Isto é, o conhecimento científico é tido como válido e verdadeiro, e cabe à filosofia especular sobre as implicações ainda não demonstráveis e testáveis do que a ciência já provou. Por isso, muitas das “novas idéias” estão intrínsecamente ligadas à mecânica quântica, para explicações metafísicas, e à biologia evolucionista darwiniana, para explicar aspectos da natureza humana. Posso listar um breve resumo das idéias presentes no livro.
- A noção de que os indivíduos humanos têm uma identidade singular é decorrente do pensamento religioso ocidental. Não há nenhuma evidência de que isso ocorra. Pelo contrário, a existência de uma doença como o mal de Alzeihmer, em que as pessoas perdem suas faculdades mentais e sua racionalidade antes de perder sua vida é um forte argumento contra a existência de uma alma imortal no interior de cada ser humano. Por isso, a identidade individual é melhor explicada como um mero somatório de processos biológicos dinâmicos.
- Os seres humanos tomam decisões restritas por uma série de circunstâncias. O autor obviamente não fala na “restrição orçamentária”, já que o livro não é de economia, mas sim em restrições políticas, sociais, legais, cognitivas e biológicas. Por isso, a questão do livre-arbítrio é relativa: as pessoas são livres para agir dadas essas circustâncias, que acabam determinando as decisões das mesmas. Todavia, não há nenhuma forma de controle total exógeno sobre a racionalidade humana.
- Existe a verdade. Ela está na natureza das coisas. Contudo, não é certo se os seres humanos são capazes de alcançá-la, já que nossas capacidades cognitivas são limitadas e determinadas pela seleção natural darwiniana. Isto é, as habilidades dos nossos cinco sentidos decorrem de um processo evolucionário de adaptação ao ambiente em que vivemos, e não necessariamente são capazes de capturar toda a verdade universal, já que isso seria um desperdício de energia. Por outro lado, nada impede que seres de uma civilização extraterrestre sejam capazes de se comunicar com os mortos, por exemplo, se isso fosse necessário para que eles se adaptassem melhor ao seu ambiente.
- O conhecimento de cada indivíduo decorre de suas crenças, já que a verdade muitas vezes é inalcançável. Porém, essas crenças são criadas pelas ações e observações de cada um em relação ao mundo objetivo, e não de processos intrínsecos de revelações. A existência das linguagens é uma forte evidência a favor da objetividade das crenças.
- A necessidade humana de conhecimento filosófico pode ser explicado pela biologia evolucionária. Para uma melhora adaptação psicológica ao nosso meio, necessitamos de conhecimento que transceda aquilo que conseguimos observar, e que explique nosso papel no mundo.
- A filosofia pós-moderna da Europa Continental é falha por considerar os conceitos de verdade e de razão como conseqüência de intenções políticas, e não o contrário. Assim, como as intenções políticas são tidas como exógenas, não explicadas racionalmente, abre-se espaço para teorias totalitárias, místicas e românticas sobre a realidade. Por outro lado, o desapego à verdade e à razão tende a transformar os textos pós-modernos em coletivos de prolixidade vazia. Eu, pessoalmente, já suspeitava dessa idéia desde a disciplina de Introdução às Ciências Sociais, no primeiro semestre da graduação.
- Não há nenhuma evidência de que exista algo como uma ética universal à humanidade. Cada sociedade tem o seu código de conduta moral, que pode ou não ser expresso formalmente, em termos totais ou parciais, em leis. Nossas ações podem seguir ou se desviar do que achamos ético de acordo com as circunstâncias, isto é, do que ganhamos em transgredir a moral e da possibilidade de sermos descobertos e punidos. A moral religiosa, de que há um Deus que tudo vê e que determina o que é certo e errado, é fundamentalmente autoritária e coercitiva. Atualmente, há um processo social de abandono ao compromisso com a moral, laica e religiosa, isto é, as pessoas cada vez mais se preocupam apenas em seguir as regras formais de conduta.
- Também não há nenhuma evidência de que exista vida após a morte. A necessidade dela para explicar a finalidade da nossa vida terrena não é um argumento válido, pois então teríamos que descobrir qual seria a finalidade da vida após a morte. Na verdade, a possibilidade de entendermos a finalidade do “tudo” é limitada por não conseguimos delimitar o que é esse “tudo”. Ao contrário, o conhecimento humano progride mais na medida em que a realidade pode ser dividida em partes cada vez menores. Por outro lado, a crença na vida após a morte decorre do medo humano da não-existência, o que é conseqüência de uma estratégia racional evolutiva de auto-preservação.
Eu sei que tudo é muito polêmico, e os filósofos da tradição da Europa Continental, como a grande parte dos pensadores sociais brasileiros, têm seus argumentos de defesa e de contra-ataque. Além disso, afirmar que determinados fatores metafísicos não existem simplesmente porque não há evidências da ciência empírica ao seu favor parece refletir uma visão muito estreita de mundo. E ainda, a tentativa de fundamentar todos os aspectos da natureza humana de acordo com o evolucionismo darwiniano também tende a ficar demasiadamente ad-hoc, já que essa teoria foi construída para explicar a dinâmica das espécies em prazos muito longos, e não fenômenos sociais com poucos séculos ou mesmo décadas de existência. Mas o livro é leitura recomendada pelo seu papel desalienador, de fazer pensar.
sexta-feira, setembro 25, 2009
A Identidade Cultural na Pós-Modernidade - Stuart Hall
Comprei esse volume em uma feira de livros na Unicamp, durante o congresso de história econômica, para ter uma opção de entretenimento durante as conferências que não eram de meu interesse. Porém, meu interesse pela pós-modernidade não é recente. Comecei a ler sobre essa temática, que procura teorizar e relacionar a sociedade, a cultura e a intelectualidade contemporâneas, por indicação de um médico psiquiatra, em 2005. Primeiramente, conheci a obra de Michel Maffesoli, e em seguida estudei o livrinho de bolso do Jair Ferreira dos Santos ("O Que É Pós-Moderno?"). Nos últimos dois anos, porém, após longas discussões em mesa de bar com o "Vagabundo Iluminado" Diego Rodrigues, ando mais curioso sobre esse tema, e tenho procurado livros e artigos sobre isso.
No entanto, muito do que tenho lido sobre isso tem me agregado pouca conhecimento. Infelizmente, muitos sociólogos (que são os acadêmicos que mais estudam a pós-modernidade) têm o hábito de escrever de forma obscura, usando e abusando de figuras e formas metafóricas de linguagem, tornando seus textos pouco compreensíveis para quem não tem formação nessa área. Além disso, vários ramos das ciências humanas são impregnados por um relativismo radical, que tira toda e qualquer objetividade do conhecimento, o que torna a leitura de suas obras muito cansativa.
Felizmente, esse não é o caso do livro do Stuart Hall. O autor sabe escrever de maneira bastante clara suas idéias. Segundo o autor, a pós-modernidade, isto é, o período histórico da sociedade, da cultura e da intelectualidade após a Segunda Guerra Mundial, consiste em uma brusca mudança nas identidades sociais tais como elas eram definidas. Ou seja, o autor considera a pós-modernidade como um surto de "crise de identidade" generalizada para o indivíduo humano.
Explicando melhor, o autor diferencia três concepções da identidade individual, de acordo com o período histórico e o ramo do conhecimento implícito. Primeiro, o "sujeito Moderno", ou "sujeito do Iluminismo", visto como um indivíduo unificado e plenamente dotado do senso de razão, decisão, consciência e ação. A racionalidade é vista como o centro essencial da identidade de uma pessoa: todo indivíduo utiliza meios para atingir seus interesses individualmente estabelecidos. Essa concepção de indivíduo está diretamente relacionada à teoria da escolha racional da Ciência Econômica, e à teoria do Direito Natural.
Segundo, o "sujeito sociológico", definido pelas relações de cada indivíduo com o seu meio social, de acordo com a interação com outras pessoas. Isto é, a personalidade de cada sujeito é definida pela interação com a sociedade; cada indivíduo tem uma essência interior, mas esta é continuamente afetada e alterada pelas suas relações com o mundo exterior. Tal visão surgiu no final do século XIX, com o desenvolvimento das ciências sociais, particularmente a sociologia, sobretudo com as obras de autores como Èmile Durkheim.
Terceiro, o "sujeito pós-moderno", visto de acordo com a negação de que as pessoas tenham uma essência individual interior unificada. Isto é, o sujeito tem não uma única, mas sim uma grande variedade de identidades pessoais, e muitas delas podem ser contraditórias umas com as outras, ou mesmo mal resolvidas.
A transformação da concepção moderna-sociológica de sujeito para a concepção pós-moderna, segundo Stuart Hall, decorreu dos avanços nas ciências biológicas e sociais nos séculos XIX e XX que demonstraram a superficialidade da noção do indivíduo unificado definida anteriormente. Na verdade, a própria noção do indivíduo moderno decorreu da evolução intelectual do Ocidente a partir do Renascimento, em contraposição à visão religiosa anterior. Segundo Hall (pg. 26),
Essa noção de indivíduo foi abalada, a partir do século XIX, tanto pelo desenvolvimento da biologia darwiniana, que encontrou fundamentos naturais para o explicar a racionalidade humana, como pela complexização das sociedades modernas, com o crescimento das atividades comerciais, industriais e a urbanização, o que permitiu o desenvolvimento de novas teorias capazes de explicar a ação e a interação dos indivíduos. Hall aponta cinco avanços da teoria social que contribuíram para a superação da noção do sujeito moderno:
1 - O historicismo marxismo-hegeliano. Nessa concepção, a identidade individual é determinada pelos condicionantes históricos do meio social em que o indivíduo age. Para Hegel, o principal condicionante histórico são as idéias vigentes e aceitas pelos membros da sociedade. Para Marx, o principal condicionante histórico são os meios materiais de produção, isto é, a estrutura econômica vigente.
2 - A psicanálise freudiana. Segundo essa teoria, a formação da identidade individual depende de fatores psíquicos que muitas vezes são inconscientes ao sujeito. Ou seja, a capacidade plena do indivíduo de tomar decisões e agir conscientemente em busca de seus interesses é posta em dúvida.
3 - A linguística estrutural, segundo a qual o pensamento individual é determinado pela cultura do meio social que o cerca, por meio da linguagem. Isto é, cada pessoa só pode se expressar se posicionando a respeito de su cultura, que define a sua língua e a sua capacidade de comunicação com as outras pessoas.
4 - A filosofia do poder disciplinar de Michel Foucault. Segundo esse autor, as instituições sociais têm o papel de vigiar e punir o comportamento individual em benefício não da coletividade, mas sim dos próprios detentores do poder, não apenas do poder político, mas também do poder econômico, ideológico e intelectual. Segundo Hall (pg. 42):
5 - O surgimento de movimentos sociais das minorias, isto é, que se uniam de acordo com identidades para além daquelas de natureza individual ou de classe social. Hall cita como exemplos o movimentos feminista, estudantil, pacifista e contracultural de 1968. Esses movimentos politizaram a subjetividade e o processo de identificação social, além de escancarar a pluralidade de identidades. Como exemplo, o autor cita o caso de um juiz norte-americano negro e conservador acusado de assediar sexualmente uma estagiária branca, e como que a opinião pública regiu a isso. Os indivíduos tenderam a reagir com base em seus conjuntos de identidades pessoais (do tipo homem/mulher, negro/branco, liberal/conservador), isto é, os homens negros liberais tenderam a ser favoráveis ao juiz, mas não os conservadores, ao passo que os homens brancos, liberais ou conservadores, foram mais favoráveis à estagiária. As mulheres, em geral, foram favoráveis à estagiária, a não ser o caso das mulheres negras liberais, que foram favoráveis ao juiz, acreditando que a denúncia foi alguma espécie de intriga de cunho racista.
No resto do livro, Stuart Hall explica como a pós-modernidade, influenciada pelas cinco correntes de pensamento social descritas anteriormente, abalou a noção de identidade cultural até então mais aceita, que é a identidade nacional, isto é, a cultura de uma sociedade como a cultura de um país. A pós-modernidade, assim como a globalização, desconstriu a noção de que há um senso de nacionalidade acima da individualidade e de localidade. Ou seja, as pessoas estão perdendo seu senso de nacionalismo e de patriotismo, que são vistos como discursos para direcionar o senso de coesão social. Contudo, Hall destaca que a decadência das nacionalidade não significa o fim da coesão social, já que é um discurso relativamente novo na história da humanidade, datando do surgimento dos estados modernos ocidentais, e sua construção não foi um fenômeno pacífico e voluntário, mas decorreu da conquista e imposição por parte dos governos imperiais, que passaram a promover alguns de seus vassalos mais fiéis e próximos à condição de "compatriotas" ao custo da imposição da cultura imperial. Porém, a questão da nacionalidade, apesar de recente, já se enraizou nas sociedades modernas, e têm impacto sobre a cultura vigente nos meios em que vivem os sujeitos, seja na forma da linguagem, seja na forma das instituições, ou ainda na forma da ideologia historicista presente nos meios educacionais.
Com isso, o autor explica a questão do obscurantismo e da perda de identidade intrínsecos à pós-modernidade. Com a globalização, a nacionalidade perde o seu sentido; as pessoas são membros ao mesmo tempo de pequenas comunidades locais e de uma grande aldeia global. Mas a nacionalidade canalizou o senso de cultura, em relação a qual se definem todas as identidades de cada indivíduo, de modo que as pessoas residentes nos países da civilização ocidental sentem que algum sentimento de coesão social tenha se enfraquecido nas últimas décadas. No resto do livro, Hall explica algumas controvérsias a respeito desse impacto da globalização sobre a desconstrução das identidades nacionais, com ênfase na relação da civilização ocidental com as demais culturas humanas.
O melhor do livro, em resumo, é que ele fornece uma boa noção para o público mais leigo sobre os últimos desenvolvimentos nas humanidades sem aquele tradicional "discurso crítico" de forte viés de ideologia política que impregna tantas das obras das ciências sociais.
No entanto, muito do que tenho lido sobre isso tem me agregado pouca conhecimento. Infelizmente, muitos sociólogos (que são os acadêmicos que mais estudam a pós-modernidade) têm o hábito de escrever de forma obscura, usando e abusando de figuras e formas metafóricas de linguagem, tornando seus textos pouco compreensíveis para quem não tem formação nessa área. Além disso, vários ramos das ciências humanas são impregnados por um relativismo radical, que tira toda e qualquer objetividade do conhecimento, o que torna a leitura de suas obras muito cansativa.
Felizmente, esse não é o caso do livro do Stuart Hall. O autor sabe escrever de maneira bastante clara suas idéias. Segundo o autor, a pós-modernidade, isto é, o período histórico da sociedade, da cultura e da intelectualidade após a Segunda Guerra Mundial, consiste em uma brusca mudança nas identidades sociais tais como elas eram definidas. Ou seja, o autor considera a pós-modernidade como um surto de "crise de identidade" generalizada para o indivíduo humano.
Explicando melhor, o autor diferencia três concepções da identidade individual, de acordo com o período histórico e o ramo do conhecimento implícito. Primeiro, o "sujeito Moderno", ou "sujeito do Iluminismo", visto como um indivíduo unificado e plenamente dotado do senso de razão, decisão, consciência e ação. A racionalidade é vista como o centro essencial da identidade de uma pessoa: todo indivíduo utiliza meios para atingir seus interesses individualmente estabelecidos. Essa concepção de indivíduo está diretamente relacionada à teoria da escolha racional da Ciência Econômica, e à teoria do Direito Natural.
Segundo, o "sujeito sociológico", definido pelas relações de cada indivíduo com o seu meio social, de acordo com a interação com outras pessoas. Isto é, a personalidade de cada sujeito é definida pela interação com a sociedade; cada indivíduo tem uma essência interior, mas esta é continuamente afetada e alterada pelas suas relações com o mundo exterior. Tal visão surgiu no final do século XIX, com o desenvolvimento das ciências sociais, particularmente a sociologia, sobretudo com as obras de autores como Èmile Durkheim.
Terceiro, o "sujeito pós-moderno", visto de acordo com a negação de que as pessoas tenham uma essência individual interior unificada. Isto é, o sujeito tem não uma única, mas sim uma grande variedade de identidades pessoais, e muitas delas podem ser contraditórias umas com as outras, ou mesmo mal resolvidas.
A transformação da concepção moderna-sociológica de sujeito para a concepção pós-moderna, segundo Stuart Hall, decorreu dos avanços nas ciências biológicas e sociais nos séculos XIX e XX que demonstraram a superficialidade da noção do indivíduo unificado definida anteriormente. Na verdade, a própria noção do indivíduo moderno decorreu da evolução intelectual do Ocidente a partir do Renascimento, em contraposição à visão religiosa anterior. Segundo Hall (pg. 26),
Muitos movimentos importantes no pensamento e na cultura ocidentais contribuíram para a emergência dessa nova concepção: a Reforma e o Protestantismo, que libertaram a consciência individual das instituições religiosas da Igreja e a expuseram diretamente aos olhos de Deus; o Humanismo Renascentistam que colocou o Homem (sic) no centro do universo; as revoluções científicas, que conferiram ao Homem a faculdade e as capacidades para inquirir, investigar e decifrar os mistérios da Natureza; e o Iluminismo, centrado na imagem do Homem racional, cientíico, libertado do dogma e da intolerância, e diante do qual se estendia a totalidade da história humana, para ser compreendida e dominada.
Essa noção de indivíduo foi abalada, a partir do século XIX, tanto pelo desenvolvimento da biologia darwiniana, que encontrou fundamentos naturais para o explicar a racionalidade humana, como pela complexização das sociedades modernas, com o crescimento das atividades comerciais, industriais e a urbanização, o que permitiu o desenvolvimento de novas teorias capazes de explicar a ação e a interação dos indivíduos. Hall aponta cinco avanços da teoria social que contribuíram para a superação da noção do sujeito moderno:
1 - O historicismo marxismo-hegeliano. Nessa concepção, a identidade individual é determinada pelos condicionantes históricos do meio social em que o indivíduo age. Para Hegel, o principal condicionante histórico são as idéias vigentes e aceitas pelos membros da sociedade. Para Marx, o principal condicionante histórico são os meios materiais de produção, isto é, a estrutura econômica vigente.
2 - A psicanálise freudiana. Segundo essa teoria, a formação da identidade individual depende de fatores psíquicos que muitas vezes são inconscientes ao sujeito. Ou seja, a capacidade plena do indivíduo de tomar decisões e agir conscientemente em busca de seus interesses é posta em dúvida.
3 - A linguística estrutural, segundo a qual o pensamento individual é determinado pela cultura do meio social que o cerca, por meio da linguagem. Isto é, cada pessoa só pode se expressar se posicionando a respeito de su cultura, que define a sua língua e a sua capacidade de comunicação com as outras pessoas.
4 - A filosofia do poder disciplinar de Michel Foucault. Segundo esse autor, as instituições sociais têm o papel de vigiar e punir o comportamento individual em benefício não da coletividade, mas sim dos próprios detentores do poder, não apenas do poder político, mas também do poder econômico, ideológico e intelectual. Segundo Hall (pg. 42):
O objetivo do "poder disciplinar" consiste em manter "as vidas, as atividades, o trabalho as infelicidades e os prazeres do indivíduo", assim como sua saúde física e moral, suas práticas sexuais e sua vida familiar, sob estrito controle e disciplina, com base no poder dos regimes administrativos, do conhecimento éspecializado dos profissionais e do conhecimento fornecido pelas "disciplinas" das Ciências Sociais. Seu objetivo básico consiste em produzir "um ser humano que possa ser tratado como um corpo dócil".
5 - O surgimento de movimentos sociais das minorias, isto é, que se uniam de acordo com identidades para além daquelas de natureza individual ou de classe social. Hall cita como exemplos o movimentos feminista, estudantil, pacifista e contracultural de 1968. Esses movimentos politizaram a subjetividade e o processo de identificação social, além de escancarar a pluralidade de identidades. Como exemplo, o autor cita o caso de um juiz norte-americano negro e conservador acusado de assediar sexualmente uma estagiária branca, e como que a opinião pública regiu a isso. Os indivíduos tenderam a reagir com base em seus conjuntos de identidades pessoais (do tipo homem/mulher, negro/branco, liberal/conservador), isto é, os homens negros liberais tenderam a ser favoráveis ao juiz, mas não os conservadores, ao passo que os homens brancos, liberais ou conservadores, foram mais favoráveis à estagiária. As mulheres, em geral, foram favoráveis à estagiária, a não ser o caso das mulheres negras liberais, que foram favoráveis ao juiz, acreditando que a denúncia foi alguma espécie de intriga de cunho racista.
No resto do livro, Stuart Hall explica como a pós-modernidade, influenciada pelas cinco correntes de pensamento social descritas anteriormente, abalou a noção de identidade cultural até então mais aceita, que é a identidade nacional, isto é, a cultura de uma sociedade como a cultura de um país. A pós-modernidade, assim como a globalização, desconstriu a noção de que há um senso de nacionalidade acima da individualidade e de localidade. Ou seja, as pessoas estão perdendo seu senso de nacionalismo e de patriotismo, que são vistos como discursos para direcionar o senso de coesão social. Contudo, Hall destaca que a decadência das nacionalidade não significa o fim da coesão social, já que é um discurso relativamente novo na história da humanidade, datando do surgimento dos estados modernos ocidentais, e sua construção não foi um fenômeno pacífico e voluntário, mas decorreu da conquista e imposição por parte dos governos imperiais, que passaram a promover alguns de seus vassalos mais fiéis e próximos à condição de "compatriotas" ao custo da imposição da cultura imperial. Porém, a questão da nacionalidade, apesar de recente, já se enraizou nas sociedades modernas, e têm impacto sobre a cultura vigente nos meios em que vivem os sujeitos, seja na forma da linguagem, seja na forma das instituições, ou ainda na forma da ideologia historicista presente nos meios educacionais.
Com isso, o autor explica a questão do obscurantismo e da perda de identidade intrínsecos à pós-modernidade. Com a globalização, a nacionalidade perde o seu sentido; as pessoas são membros ao mesmo tempo de pequenas comunidades locais e de uma grande aldeia global. Mas a nacionalidade canalizou o senso de cultura, em relação a qual se definem todas as identidades de cada indivíduo, de modo que as pessoas residentes nos países da civilização ocidental sentem que algum sentimento de coesão social tenha se enfraquecido nas últimas décadas. No resto do livro, Hall explica algumas controvérsias a respeito desse impacto da globalização sobre a desconstrução das identidades nacionais, com ênfase na relação da civilização ocidental com as demais culturas humanas.
O melhor do livro, em resumo, é que ele fornece uma boa noção para o público mais leigo sobre os últimos desenvolvimentos nas humanidades sem aquele tradicional "discurso crítico" de forte viés de ideologia política que impregna tantas das obras das ciências sociais.
sábado, setembro 05, 2009
O Indivíduo Moderno e o Agente Pós-Moderno
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quarta-feira, agosto 26, 2009
Contra o Método - Paul Feyerabend
Ganhei o mais importante livro do intelectual alemão radicado nos Estados Unidos Paul Feyerabend em dezembro passado. Comecei a ler em janeiro deste ano, mas, devido à pressão para eu terminar minha dissertação de mestrado, acabei deixando de lado, e só concluí a leitura nesta última semana. Meu interesse pelo pensamento de Paul Feyerabend vem desde o segundo semestre de 2007, quando eu cursei a disciplina de Metodologia da Economia no meu curso de mestrado na UFMG, e encontrei os conceitos principais do autor no manual do A. F. Chalmers "O Que É Ciência, Afinal?". Imediatamente, as idéias provocadoras e anarquistas do autor me chamaram a atenção, isto é, concordando ou não, elas me fizeram pensar muito a respeito sobre a natureza da ciência, da academia e do conhecimento humano em geral.
As idéias de Feyerabend, conforme organizadas por Chalmers, podem ser agrupadas em quatro pilares estruturais.
Primeiro, o vale-tudo. Segundo Feyerabend, não existe um método científico universal, isto é, cada ramo da ciência e cada paradigma predominante em cada ramo apresenta suas próprias regras. Além disso, essas regras heurísticas para a condução da atividade investigativa existem exatamente para defender os interesses e as posições sociais dos cientistas engajados nos paradigmas vigentes. Por isso, para que um determinado ramo da ciência progrida, é necessário que os pesquisadores rompam com os métodos vigentes e superem o paradigma predominante. Portanto, para o progresso do conhecimento científico, é necessário que os vanguardistas apelem para o vale-tudo para conquistar espaço frente ao conhecimento estabelecido e aos dogmas vigentes. A demarcação entre os pensadores respeitáveis e os charlatões não precisa de regras metodológicas estritas, mas depende dos próprios resultados das pesquisas realizadas, isto é, os pensadores respeitáveis são aqueles com maior capacidade e interesse de trabalhar em suas teorias de modo a superar qualquer limitação que possa apresentar, ou crítica que possa receber. Já os charlatões se acomodam em defender seus pontos de vista em forma original.
Segundo, a incomensurabilidade. Segundo Feyerabend, a observação de dados, fatos e fenômenos está determinada pela base teórica que cada pesquisador tem em mente. Assim, escolas de pensamento distintas para um mesmo ramo da ciência podem ter intepretações totalmente distintas sobre o mundo real, e os métodos empíricos não são capazes de levar a um consenso. Em alguns casos, os princípios fundamentais de diferentes teorias sobre um mesmo objeto são tão distintos que não há sequer a possibilidade de interação entre elas. Como exemplo, o autor cita a relação entre a mecânica clássica e a teoria da relatividade. Por isso, a escolha por parte de um cientista de determinada teoria a ser seguida não depende de nenhum fator objetivo (como a busca do progresso do conhecimento, em Popper), mas sim de suas próprias preferências subjetivas.
Terceiro, a ciência não é necessariamente superior a outras áreas do conhecimento. Segundo Feyerabend, a superioridade do conhecimento científico frente a outras formas de conhecimento, como a espiritualidade, a religiosidade e o conhecimento popular é sempre assumida como pressuposto, mas nunca demonstrada. Para o autor, isso nunca poderá ser demonstrado, uma vez que os cientistas tendem a investigar essas outras formas de conhecimento seguindo seus próprios métodos, que por sua vez estão viesados em favor dos interesses e do modo de pensar e agir dos cientistas. Para uma comparação mais honesta entre todas as formas de conhecimento humano, seria apropriado comparar a natureza, os objetivos e os métodos de cada uma delas.
Quarto, a ênfase na liberdade individual. Feyerabend assume que o objetivo de sua obra, ao refutar a existência de um método científico universal, é encorajar a ação e a criatividade individuais para aprimorar o conhecimento humano. Isso vale não apenas para o conhecimento dito científico, mas abre a possibilidade dos indivíduos terem a liberdade de escolher qual forma de conhecimento seguir. Segundo o autor, a ciência, se não for contestada e não ter a concorrência dessas outras formas de conhecimento, torna-se uma ideologia dogmática que reprime a ação dos indivíduos em nome dos interesses dos cientistas e acadêmicos em geral.
Em relação a minha opinião pessoal sobre as idéias de Feyerabend, tento ser conciliador. Em primeiro lugar, com base em meus estudos e pesquisas em metodologia da ciência, concordo que não há um método científico universal além de definições muito genéricas do tipo "o conhecimento científico deve partir de uma teoria logicamente consistente e passível de comprovação ou refutação com base em testes empíricos". Porém, não estou apto a afirmar se a história do pensamento da humanidade segue a lógica dialética (há um paradigma vigente (tese); ele sofre críticas (antítese); ele pode ser derrubado e substituído por algo proposto pelos seus críticos (síntese)) proposto pelo autor. As revoluções científicas, conforme proposto por Thomas Kuhn, de mudança de paradigmas nos ramos da ciência geralmente seguem essa lógica, mas acho muito importante o progresso linear do conhecimento dentro dos paradigmas, mesmo com suas limitações.
Também concordo com o autor a respeito da dependência que as investigações empíricas têm das proposições teóricas que os pesquisadores seguem. Isso é ainda mais relevante para as ciências sociais, em que muitas das hipóteses levantadas pelas teorias simplesmente não são passíveis de teste, e a conduta de pesquisa tem um caráter mais lakatosiano (de defesa de um "núcleo irredutível" de hipóteses metafísicas). Mas, nem por isso, nego a importância fundamental dos métodos empíricos para o conhecimento humano, apenas defendo que eles devem sempre estar de acordo com um determinado aracabouço teórico, que possa explicar as observações realizadas.
Em relação à escolha por parte dos pesquisadores a respeito de qual corrente teórica seguir, estou mais com Imre Lakatos do que com Feyerabend. O que realmente conta são os interesses futuros, isto é, os pesquisadores estão, em geral, inclinados a se integrar em linhas de pesquisa que possam lhes trazer sucesso profissional, e esses movimentos de pesquisadores em busca do interesse próprio ajudam a explicar a história do pensamento. Os desejos subjetivos metafísicos, conforme proporsto por Feyerabend, têm papel secundário.
Por fim, considero que o debate sobre se a ciência é realmente superior a outras formas do conhecimento vem sendo super-dimensionado. Na verdade, a ciência é realmente superior as demais formas de conhecimento naquilo que propõe fazer, isto é, procurar teorias logicamente consistentes e passíveis de teste empírico. Por outro lado, nem todo o conhecimento humano é passível de ser testado, sobretudo no que diz respeito às ciências sociais, às humanidades e à filosofia (daí meu grande interesse sobre o pensamento de Imre Lakatos, que leva essa consideração em conta). Por isso, nas questões em que a ciência não se propõe a explicar e resolver, tenho muito respeito pelas demais formas do conhecimento, particularmente pela filosofia (no caso de reflexões subjetivas qualitativas não necessariamente empíricas), e pelas artes em geral (no caso da busca de livre expressão, interpretação e criatividade individual, sem necessidade de arranjos lógicos e de empiricidade).
Nesse ponto, considero que Feyerabend, ao tentar polemizar, acabou se excedendo. Ao invés de defender as ciências sociais e a filosofia contra a metafísica de um método científico universal, que são suas áreas de atuação, assim como da maior parte de seus leitores, o autor se prende demasiadamente à defesa de culturas minoritárias (como o vodu, citado pelo autor), da astrologia e da religiosidade, sem levar em conta que tais vertentes tem pouca ou nenhuma correlação com o conhecimento científico, como objetivos e métodos definidos. Nesse ponto, estou de acordo com a crítica de Chalmers. Por último, também achei de mal gosto o autor dedicar um capítulo inteiro da obra procurando defender a Inquisição Católica contra Galileu, mesmo Feyerabend não sendo um conservador.
De qualquer forma, o que interessa é que Feyerabend é provocador e faz com que seus leitores pensem, reflitam, concordem em alguns pontos e explodam de indignação em outros. É exatamente isso que justifica a leitura dessa obra.
As idéias de Feyerabend, conforme organizadas por Chalmers, podem ser agrupadas em quatro pilares estruturais.
Primeiro, o vale-tudo. Segundo Feyerabend, não existe um método científico universal, isto é, cada ramo da ciência e cada paradigma predominante em cada ramo apresenta suas próprias regras. Além disso, essas regras heurísticas para a condução da atividade investigativa existem exatamente para defender os interesses e as posições sociais dos cientistas engajados nos paradigmas vigentes. Por isso, para que um determinado ramo da ciência progrida, é necessário que os pesquisadores rompam com os métodos vigentes e superem o paradigma predominante. Portanto, para o progresso do conhecimento científico, é necessário que os vanguardistas apelem para o vale-tudo para conquistar espaço frente ao conhecimento estabelecido e aos dogmas vigentes. A demarcação entre os pensadores respeitáveis e os charlatões não precisa de regras metodológicas estritas, mas depende dos próprios resultados das pesquisas realizadas, isto é, os pensadores respeitáveis são aqueles com maior capacidade e interesse de trabalhar em suas teorias de modo a superar qualquer limitação que possa apresentar, ou crítica que possa receber. Já os charlatões se acomodam em defender seus pontos de vista em forma original.
Segundo, a incomensurabilidade. Segundo Feyerabend, a observação de dados, fatos e fenômenos está determinada pela base teórica que cada pesquisador tem em mente. Assim, escolas de pensamento distintas para um mesmo ramo da ciência podem ter intepretações totalmente distintas sobre o mundo real, e os métodos empíricos não são capazes de levar a um consenso. Em alguns casos, os princípios fundamentais de diferentes teorias sobre um mesmo objeto são tão distintos que não há sequer a possibilidade de interação entre elas. Como exemplo, o autor cita a relação entre a mecânica clássica e a teoria da relatividade. Por isso, a escolha por parte de um cientista de determinada teoria a ser seguida não depende de nenhum fator objetivo (como a busca do progresso do conhecimento, em Popper), mas sim de suas próprias preferências subjetivas.
Terceiro, a ciência não é necessariamente superior a outras áreas do conhecimento. Segundo Feyerabend, a superioridade do conhecimento científico frente a outras formas de conhecimento, como a espiritualidade, a religiosidade e o conhecimento popular é sempre assumida como pressuposto, mas nunca demonstrada. Para o autor, isso nunca poderá ser demonstrado, uma vez que os cientistas tendem a investigar essas outras formas de conhecimento seguindo seus próprios métodos, que por sua vez estão viesados em favor dos interesses e do modo de pensar e agir dos cientistas. Para uma comparação mais honesta entre todas as formas de conhecimento humano, seria apropriado comparar a natureza, os objetivos e os métodos de cada uma delas.
Quarto, a ênfase na liberdade individual. Feyerabend assume que o objetivo de sua obra, ao refutar a existência de um método científico universal, é encorajar a ação e a criatividade individuais para aprimorar o conhecimento humano. Isso vale não apenas para o conhecimento dito científico, mas abre a possibilidade dos indivíduos terem a liberdade de escolher qual forma de conhecimento seguir. Segundo o autor, a ciência, se não for contestada e não ter a concorrência dessas outras formas de conhecimento, torna-se uma ideologia dogmática que reprime a ação dos indivíduos em nome dos interesses dos cientistas e acadêmicos em geral.
Em relação a minha opinião pessoal sobre as idéias de Feyerabend, tento ser conciliador. Em primeiro lugar, com base em meus estudos e pesquisas em metodologia da ciência, concordo que não há um método científico universal além de definições muito genéricas do tipo "o conhecimento científico deve partir de uma teoria logicamente consistente e passível de comprovação ou refutação com base em testes empíricos". Porém, não estou apto a afirmar se a história do pensamento da humanidade segue a lógica dialética (há um paradigma vigente (tese); ele sofre críticas (antítese); ele pode ser derrubado e substituído por algo proposto pelos seus críticos (síntese)) proposto pelo autor. As revoluções científicas, conforme proposto por Thomas Kuhn, de mudança de paradigmas nos ramos da ciência geralmente seguem essa lógica, mas acho muito importante o progresso linear do conhecimento dentro dos paradigmas, mesmo com suas limitações.
Também concordo com o autor a respeito da dependência que as investigações empíricas têm das proposições teóricas que os pesquisadores seguem. Isso é ainda mais relevante para as ciências sociais, em que muitas das hipóteses levantadas pelas teorias simplesmente não são passíveis de teste, e a conduta de pesquisa tem um caráter mais lakatosiano (de defesa de um "núcleo irredutível" de hipóteses metafísicas). Mas, nem por isso, nego a importância fundamental dos métodos empíricos para o conhecimento humano, apenas defendo que eles devem sempre estar de acordo com um determinado aracabouço teórico, que possa explicar as observações realizadas.
Em relação à escolha por parte dos pesquisadores a respeito de qual corrente teórica seguir, estou mais com Imre Lakatos do que com Feyerabend. O que realmente conta são os interesses futuros, isto é, os pesquisadores estão, em geral, inclinados a se integrar em linhas de pesquisa que possam lhes trazer sucesso profissional, e esses movimentos de pesquisadores em busca do interesse próprio ajudam a explicar a história do pensamento. Os desejos subjetivos metafísicos, conforme proporsto por Feyerabend, têm papel secundário.
Por fim, considero que o debate sobre se a ciência é realmente superior a outras formas do conhecimento vem sendo super-dimensionado. Na verdade, a ciência é realmente superior as demais formas de conhecimento naquilo que propõe fazer, isto é, procurar teorias logicamente consistentes e passíveis de teste empírico. Por outro lado, nem todo o conhecimento humano é passível de ser testado, sobretudo no que diz respeito às ciências sociais, às humanidades e à filosofia (daí meu grande interesse sobre o pensamento de Imre Lakatos, que leva essa consideração em conta). Por isso, nas questões em que a ciência não se propõe a explicar e resolver, tenho muito respeito pelas demais formas do conhecimento, particularmente pela filosofia (no caso de reflexões subjetivas qualitativas não necessariamente empíricas), e pelas artes em geral (no caso da busca de livre expressão, interpretação e criatividade individual, sem necessidade de arranjos lógicos e de empiricidade).
Nesse ponto, considero que Feyerabend, ao tentar polemizar, acabou se excedendo. Ao invés de defender as ciências sociais e a filosofia contra a metafísica de um método científico universal, que são suas áreas de atuação, assim como da maior parte de seus leitores, o autor se prende demasiadamente à defesa de culturas minoritárias (como o vodu, citado pelo autor), da astrologia e da religiosidade, sem levar em conta que tais vertentes tem pouca ou nenhuma correlação com o conhecimento científico, como objetivos e métodos definidos. Nesse ponto, estou de acordo com a crítica de Chalmers. Por último, também achei de mal gosto o autor dedicar um capítulo inteiro da obra procurando defender a Inquisição Católica contra Galileu, mesmo Feyerabend não sendo um conservador.
De qualquer forma, o que interessa é que Feyerabend é provocador e faz com que seus leitores pensem, reflitam, concordem em alguns pontos e explodam de indignação em outros. É exatamente isso que justifica a leitura dessa obra.
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terça-feira, janeiro 06, 2009
A Economia do Ócio - Domenico de Masi
Ganhei esse livro de presente de aniversário dos meus colegas de república, em Belo Horizonte. O título é bastante apropriado para minha vida de mestrando de quarto semestre de economia, vivendo em função da dissertação (ou não) em casa. Foi uma leitura agradável.
O livro "A Economia do Ócio", organizado por Domenico de Mesi, consiste em uma coletânea de duas obras: Elogio ao Ócio, de Bertrand Russell, e Direito ao Ócio, de Paul Lafargue. Ambas as obras são escritas por autores de viés esquerdista, apesar de Russell adotar um paradigma teórico baeado no utilitarismo britânico em seu texto, enquanto que Lafargue utiliza uma tradicional retórica marxista. Os autores criticam o "culto ao trabalho" instalado na cultura ocidental moderna, isto é, a visão do trabalho como uma virtude intrínseca, um bem, um fim em si mesmo. Para ambos os autores, tal perspectiva de pensamento é errônea, alienante, e historicamente muito recente, datada do desenvolvimento do capitalismo industrial (metade do século XVIII). O trabalho deve ser visto como um meio de se produzir os bens e serviços necessários para se obter um determinado patamar, equilibradamente distribuído na sociedade, de conforto material. Os verdadeiros fins da produção econômica são o consumo e o lazer, e não o trabalho e a produção.
Paul Lafargue utiliza a linguagem marxista mais emocional possível para defender que o culto ao trabalho fora instalado pela moral burguesa que dominou progressivamente as sociedades ocidentais com a expansão da industrialização, em detrimento da moral cristã tradicional. Segundo o autor, a moral do trabalho é um instrumento político de dominação e alienação dos trabalhadores, pressionados para se transformar em meros meios de produção ambulantes. Lafarge chega ao ponto de afirmar que a moral burguesa do trabalho é mais injusta do que a moral cristã feudal, ou mesmo que a moral clássica escravista, já que essas ao menos reconheciam algum tipo de virtude na vida intelectual, política e contemplativa. Todavia, a moral do trabalho estaria minada pela tendência de superprodução de bens pela economia (outro ponto crucial da teoria marxista), ito é, produção em nível acima do que a sociedade é capaz de produzir, o que leva a crises periódicas de recessão e de falência de empresas. Por essa linha de pensamento, achei o texto de Lafargue um tanto previsível e monótono.
Bertrand Russell me chamou muito mais a atenção. O autor, filósofo britânico, reconhece a individualidade dos processos sociais, isto é, a interação entre as ideologias e as culturas coletivas com o processo pessoal de tomada de escolhas e decisões. Para o autor, o culto ao trabalho não é uma imposição estrutural de luta de classes, mas um resíduo do passado, isto é, da preocupação do indivíduo com a sua subsistência. Mas, em uma sociedade industrial, em que o trabalho humano tem sua produtividade potencializada pelo progresso tecnológico, tal cultura se torna anacrônica, trazendo para as pessoas nada mais do que alienação, ansiedade e preocupações desnecessárias. A solução para esse problema está no desenvolvimento de métodos científicos para a administração pública e privada da alocação de recursos, o que inclui desde reformas educacionais (a educação para o lazer, que já referi em um post anterior), reformas arquitetônicas para minimizar o trabalho doméstico, estruturação dos sistemas financeiros nacionais de forma a reduzir o impacto e a incidência dos ciclos econômicos, e até mesmo a construção de um novo modelo político. Russell era um socialista, mas discordava dos seus contemporâneos marxistas por não acreditar que o motor da dinâmica social é a luta de classes. Para o autor, o desenvolvimento científico administrativo poderia criar um modo de produção planejado e centralizado mais eficiente do que o formado pela busca individual pelo lucro.
Em resumo, ambos os autores são muito polêmicos. No caso de Russell, a polêmica está combinada com uma dose de excentricidade. O livro é uma típica leitura de filosofia, muito interessante para expandir os horizontes de pensamento e de possibilidades de conhecimento, mas sem necessariamente concordar com os autores.
O livro "A Economia do Ócio", organizado por Domenico de Mesi, consiste em uma coletânea de duas obras: Elogio ao Ócio, de Bertrand Russell, e Direito ao Ócio, de Paul Lafargue. Ambas as obras são escritas por autores de viés esquerdista, apesar de Russell adotar um paradigma teórico baeado no utilitarismo britânico em seu texto, enquanto que Lafargue utiliza uma tradicional retórica marxista. Os autores criticam o "culto ao trabalho" instalado na cultura ocidental moderna, isto é, a visão do trabalho como uma virtude intrínseca, um bem, um fim em si mesmo. Para ambos os autores, tal perspectiva de pensamento é errônea, alienante, e historicamente muito recente, datada do desenvolvimento do capitalismo industrial (metade do século XVIII). O trabalho deve ser visto como um meio de se produzir os bens e serviços necessários para se obter um determinado patamar, equilibradamente distribuído na sociedade, de conforto material. Os verdadeiros fins da produção econômica são o consumo e o lazer, e não o trabalho e a produção.
Paul Lafargue utiliza a linguagem marxista mais emocional possível para defender que o culto ao trabalho fora instalado pela moral burguesa que dominou progressivamente as sociedades ocidentais com a expansão da industrialização, em detrimento da moral cristã tradicional. Segundo o autor, a moral do trabalho é um instrumento político de dominação e alienação dos trabalhadores, pressionados para se transformar em meros meios de produção ambulantes. Lafarge chega ao ponto de afirmar que a moral burguesa do trabalho é mais injusta do que a moral cristã feudal, ou mesmo que a moral clássica escravista, já que essas ao menos reconheciam algum tipo de virtude na vida intelectual, política e contemplativa. Todavia, a moral do trabalho estaria minada pela tendência de superprodução de bens pela economia (outro ponto crucial da teoria marxista), ito é, produção em nível acima do que a sociedade é capaz de produzir, o que leva a crises periódicas de recessão e de falência de empresas. Por essa linha de pensamento, achei o texto de Lafargue um tanto previsível e monótono.
Bertrand Russell me chamou muito mais a atenção. O autor, filósofo britânico, reconhece a individualidade dos processos sociais, isto é, a interação entre as ideologias e as culturas coletivas com o processo pessoal de tomada de escolhas e decisões. Para o autor, o culto ao trabalho não é uma imposição estrutural de luta de classes, mas um resíduo do passado, isto é, da preocupação do indivíduo com a sua subsistência. Mas, em uma sociedade industrial, em que o trabalho humano tem sua produtividade potencializada pelo progresso tecnológico, tal cultura se torna anacrônica, trazendo para as pessoas nada mais do que alienação, ansiedade e preocupações desnecessárias. A solução para esse problema está no desenvolvimento de métodos científicos para a administração pública e privada da alocação de recursos, o que inclui desde reformas educacionais (a educação para o lazer, que já referi em um post anterior), reformas arquitetônicas para minimizar o trabalho doméstico, estruturação dos sistemas financeiros nacionais de forma a reduzir o impacto e a incidência dos ciclos econômicos, e até mesmo a construção de um novo modelo político. Russell era um socialista, mas discordava dos seus contemporâneos marxistas por não acreditar que o motor da dinâmica social é a luta de classes. Para o autor, o desenvolvimento científico administrativo poderia criar um modo de produção planejado e centralizado mais eficiente do que o formado pela busca individual pelo lucro.
Em resumo, ambos os autores são muito polêmicos. No caso de Russell, a polêmica está combinada com uma dose de excentricidade. O livro é uma típica leitura de filosofia, muito interessante para expandir os horizontes de pensamento e de possibilidades de conhecimento, mas sem necessariamente concordar com os autores.
quinta-feira, janeiro 25, 2007
Liberalismo, Coletivismo e Pós-Modernidade
Um dos principais focos das ciências sociais em geral (incluindo a literatura real-naturalista) se trata de explicar as relações possíveis entre o ser humano como indivíduo e o seu meio social, coletivo. Tais relações podem ser vistas nos mais diversos ângulos, de acordo com as diferentes correntes de pensamento dos autores, sendo que alguns procuram focar em questões determinísticas (isto é, como o meio social determina o individual, ou vice-versa), enquanto outros procuram focar sua análise sob um ponto de vista moral, dos possíveis conflitos entre a individualidade e a sociedade, pendendo para o lado que mais estiver de acordo com sua posição ideológica. Contudo, entre os autores mais atuais, a relação entre indivíduo e sociedade não tem mais um tom determinístico; reconhece-se a influência entre ambas as esferas, com ponderações relativas para cada cultura, mas não é possível deter-se num ponto de superioridade de uma delas sobre a outra que valha para a humanidade como um todo, englobando todo o tempo e espaço.
Autores sociais de corrente liberal, muito populares hoje em dia, parecem concordar que o homem é naturalmente livre e racional (para melhor compreensão desses conceitos, o estudo da obra de John Locke é fundamental). Contudo, dada a sua racionalidade, o homem sabe que viver em sociedade é muito mais produtivo do que viver isolado, pela possibilidade da divisão e especialização do trabalho entre os membros dessa sociedade (ver Adam Smith). Contudo, para resolver possíveis conflitos decorrentes da vida em sociedade, os homens como indivíduos racionais naturalmente delegam (pelo que Locke denominou "Contrato Social") seus poderes de julgar e executar normas morais para um ente externo, denominado Estado. O Estado, portanto, teria o papel de criar leis, fazer com que elas sejam cumpridas e punir quem não as cumpre, como modo de minimizar os conflitos individuais decorrentas da vida em sociedade. Qualquer maior poder para o Estado significaria uma invasão da coletividade sobre a individualidade, o que, além de ser anti-natural, segundo essa ideologia (pois a natureza do homem está voltada à liberdade), provocaria uma repressão da sociedade às liberdades individuais, acarretando em uma série de danos para ambas as esferas: para os indivíduos, a repressão da expressão de sua racionalidade, em suma, a busca de sua felicidade; para a sociedade, o bloqueio à criatividade, à meritocracia e ao próprio progresso social, já que todos esses valores estão ligados às iniciativas individuais.
Em resumo, segundo o liberalismo tradicional, bastaria reduzir-se o papel do Estado (a ligação institucional e racional entre o coletivo e o individual) ao mínimo possível para que a pressão social sobre a iniciativa individual - o fenômeno descrito como "coletivismo" - fosse minimizada e os indivíduos seriam totalmente livres para buscar a sua felicidade, desde que não afetassem a felicidade alheia. E indivíduos livres e felizes agiriam livremente buscando o melhor para si, o que, por somatório, levaria a sociedade como um todo a um progresso contínuo.
Contudo, a pós-modernidade atual parece indicar falhas empíricas a essa teoria. Atualmente, as instituições políticas estão em profundo descrédito no mundo inteiro. Grande parte das pessoas considera que políticos burocratas (o Estado Moderno) não passam de corruptos hipócritas (basta observar a evolução do significado do termo "burocrata" desde Max Weber até a atualidade), traduzindo-se em um baixo comprometimento das pessoas com as instituições democráticas, enquanto que a religião tradicional (o Estado Arcaico) é vista como retrógrada e cega, sendo progressivamente pulverizada em pequenas seitas e igrejas com características próprias, agindo muito mais como "bens de consumo espiritual" do que como normas morais. Mesmo o aprofundamento do radicalismo islâmico no Oriente Médio, ou do messianismo político em países da América Latina parecem ser antes a expressão da decadência dos valores do passado do que uma reação à cultura pós-moderna.
Contudo, mesmo com a atual decadência da política (tanto burocrática quanto espiritual), não é empricamente visível que as pessoas, individualmente falando, vem se tornando progressivamente mais autônomas em relação à sociedade. Muito pelo contrário, o que vemos atualmente é a divisão dos membros individuais da sociedade em grupos, denominados pelos autores de "tribos urbanas", cada qual com sua cultura, incluindo código moral e expressão artística, própria. Tal fenômeno é muito mais perceptível entre a população jovem, o que destaca ainda mais a sua novidade. Particularmente no Brasil, a população urbana de baixa renda se identifica com a "Cultura Hip-Hop", com linguajar, vestuário, expressão cultural (a Black Music e o grafite) e comportamento característicos. Dentre a população de mais alta renda parece predominar um movimento "Geração Saúde", valorizando primordialmente o próprio corpo, tanto em saúde como em aparência física, a prática de esportes radicais, o consumismo e a cultura Pop, isto é, a cultura de consumo instantâneo, de modas passageiras. Além dessas correntes predominantes, tanto na população de alta como na de baixa renda aparecem também grupos alternativos, como neo-hippies, rockeiros, metaleiros, punks anarquistas, comunistas, nerds, gays, góticos, clubbers.
Contudo, além da divisão da sociedade em grupos, não há comprovação empírica de que as pessoas de hoje em dia sejam mais felizes do que as de gerações atrás. E menos ainda que as pessoas estejam mais criativas - e consequentemente mais inteligentes - do que seria esperado como conseqüência do enfraquecimento das instituições políticas coletivistas, segundo a ideologia liberal predominante, como pode-se ver pela decadência da educação (principalmente pela falta de entusiasmo dos estudantes com o aprendizado) e pela baixa qualidade da produção cultural atual, cada vez mais massificante. E muito menos, mas muito menos mesmo, vem acontecendo um declínio dos conflitos sociais nos últimos tempos. Pelo contrário, há uma rivalidade entre tribos, principalmente entre as tribos hegemônicas contra as demais, mas também dentro de cada tribo, o que, além de traduzir-se em violência física, provoca uma indesejável pressão social sobre as decisões individuais de busca da felicidade.
Ou seja, as pessoas tendem a se submeter ao seu grupo social de tal modo que a individualidade acaba oprimida pelo seu meio. A ação humana deixa de ser em busca de sua felicidade para ser em busca de reconhecimento pelo grupo. Mesmo sem as grandes instituições políticas tradicionais, a sociedade oprime seus indivíduos de maneiras informais, traduzidas nesse coletivismo de tribo. Suas expressões são a massificação cultural, a mediocratização da intelectualidade e a alienação dos indivíduos em relação a sociedade como um todo, preferindo se isolarem em seus grupos.
Com o texto escrito, o autor não defende, de forma nenhuma, uma volta repressora das instituições tradicionais como forma de quebrar os grupos sociais e integrar todos os indivíduos em um só corpo social, como ocorria anteriormente. Muito pelo contrário, o autor, de ideologia predominantemente democrata, com um viés social em assuntos econômicos, e outro liberal em assuntos sócio-políticos e cético-pluralista em assuntos espirituais, abraça e defende a idéia da busca de felicidade com ideal de vida para cada indivíduo. Por isso, a crítica social presente nesse texto não tem um tom moralista; se as pessoas gostam de ser vazias e medíocres, que sejam, desde que respeitem aqueles que discordam desse modo de agir e pensar. Porém, cabe destacar a insuficiência da ideologia liberal, mainstream das Ciências Sociais atuais, em apontar uma situação de equilíbrio de bem-estar social e individual empiricamente comprovável.
Autores sociais de corrente liberal, muito populares hoje em dia, parecem concordar que o homem é naturalmente livre e racional (para melhor compreensão desses conceitos, o estudo da obra de John Locke é fundamental). Contudo, dada a sua racionalidade, o homem sabe que viver em sociedade é muito mais produtivo do que viver isolado, pela possibilidade da divisão e especialização do trabalho entre os membros dessa sociedade (ver Adam Smith). Contudo, para resolver possíveis conflitos decorrentes da vida em sociedade, os homens como indivíduos racionais naturalmente delegam (pelo que Locke denominou "Contrato Social") seus poderes de julgar e executar normas morais para um ente externo, denominado Estado. O Estado, portanto, teria o papel de criar leis, fazer com que elas sejam cumpridas e punir quem não as cumpre, como modo de minimizar os conflitos individuais decorrentas da vida em sociedade. Qualquer maior poder para o Estado significaria uma invasão da coletividade sobre a individualidade, o que, além de ser anti-natural, segundo essa ideologia (pois a natureza do homem está voltada à liberdade), provocaria uma repressão da sociedade às liberdades individuais, acarretando em uma série de danos para ambas as esferas: para os indivíduos, a repressão da expressão de sua racionalidade, em suma, a busca de sua felicidade; para a sociedade, o bloqueio à criatividade, à meritocracia e ao próprio progresso social, já que todos esses valores estão ligados às iniciativas individuais.
Em resumo, segundo o liberalismo tradicional, bastaria reduzir-se o papel do Estado (a ligação institucional e racional entre o coletivo e o individual) ao mínimo possível para que a pressão social sobre a iniciativa individual - o fenômeno descrito como "coletivismo" - fosse minimizada e os indivíduos seriam totalmente livres para buscar a sua felicidade, desde que não afetassem a felicidade alheia. E indivíduos livres e felizes agiriam livremente buscando o melhor para si, o que, por somatório, levaria a sociedade como um todo a um progresso contínuo.
Contudo, a pós-modernidade atual parece indicar falhas empíricas a essa teoria. Atualmente, as instituições políticas estão em profundo descrédito no mundo inteiro. Grande parte das pessoas considera que políticos burocratas (o Estado Moderno) não passam de corruptos hipócritas (basta observar a evolução do significado do termo "burocrata" desde Max Weber até a atualidade), traduzindo-se em um baixo comprometimento das pessoas com as instituições democráticas, enquanto que a religião tradicional (o Estado Arcaico) é vista como retrógrada e cega, sendo progressivamente pulverizada em pequenas seitas e igrejas com características próprias, agindo muito mais como "bens de consumo espiritual" do que como normas morais. Mesmo o aprofundamento do radicalismo islâmico no Oriente Médio, ou do messianismo político em países da América Latina parecem ser antes a expressão da decadência dos valores do passado do que uma reação à cultura pós-moderna.
Contudo, mesmo com a atual decadência da política (tanto burocrática quanto espiritual), não é empricamente visível que as pessoas, individualmente falando, vem se tornando progressivamente mais autônomas em relação à sociedade. Muito pelo contrário, o que vemos atualmente é a divisão dos membros individuais da sociedade em grupos, denominados pelos autores de "tribos urbanas", cada qual com sua cultura, incluindo código moral e expressão artística, própria. Tal fenômeno é muito mais perceptível entre a população jovem, o que destaca ainda mais a sua novidade. Particularmente no Brasil, a população urbana de baixa renda se identifica com a "Cultura Hip-Hop", com linguajar, vestuário, expressão cultural (a Black Music e o grafite) e comportamento característicos. Dentre a população de mais alta renda parece predominar um movimento "Geração Saúde", valorizando primordialmente o próprio corpo, tanto em saúde como em aparência física, a prática de esportes radicais, o consumismo e a cultura Pop, isto é, a cultura de consumo instantâneo, de modas passageiras. Além dessas correntes predominantes, tanto na população de alta como na de baixa renda aparecem também grupos alternativos, como neo-hippies, rockeiros, metaleiros, punks anarquistas, comunistas, nerds, gays, góticos, clubbers.
Contudo, além da divisão da sociedade em grupos, não há comprovação empírica de que as pessoas de hoje em dia sejam mais felizes do que as de gerações atrás. E menos ainda que as pessoas estejam mais criativas - e consequentemente mais inteligentes - do que seria esperado como conseqüência do enfraquecimento das instituições políticas coletivistas, segundo a ideologia liberal predominante, como pode-se ver pela decadência da educação (principalmente pela falta de entusiasmo dos estudantes com o aprendizado) e pela baixa qualidade da produção cultural atual, cada vez mais massificante. E muito menos, mas muito menos mesmo, vem acontecendo um declínio dos conflitos sociais nos últimos tempos. Pelo contrário, há uma rivalidade entre tribos, principalmente entre as tribos hegemônicas contra as demais, mas também dentro de cada tribo, o que, além de traduzir-se em violência física, provoca uma indesejável pressão social sobre as decisões individuais de busca da felicidade.
Ou seja, as pessoas tendem a se submeter ao seu grupo social de tal modo que a individualidade acaba oprimida pelo seu meio. A ação humana deixa de ser em busca de sua felicidade para ser em busca de reconhecimento pelo grupo. Mesmo sem as grandes instituições políticas tradicionais, a sociedade oprime seus indivíduos de maneiras informais, traduzidas nesse coletivismo de tribo. Suas expressões são a massificação cultural, a mediocratização da intelectualidade e a alienação dos indivíduos em relação a sociedade como um todo, preferindo se isolarem em seus grupos.
Com o texto escrito, o autor não defende, de forma nenhuma, uma volta repressora das instituições tradicionais como forma de quebrar os grupos sociais e integrar todos os indivíduos em um só corpo social, como ocorria anteriormente. Muito pelo contrário, o autor, de ideologia predominantemente democrata, com um viés social em assuntos econômicos, e outro liberal em assuntos sócio-políticos e cético-pluralista em assuntos espirituais, abraça e defende a idéia da busca de felicidade com ideal de vida para cada indivíduo. Por isso, a crítica social presente nesse texto não tem um tom moralista; se as pessoas gostam de ser vazias e medíocres, que sejam, desde que respeitem aqueles que discordam desse modo de agir e pensar. Porém, cabe destacar a insuficiência da ideologia liberal, mainstream das Ciências Sociais atuais, em apontar uma situação de equilíbrio de bem-estar social e individual empiricamente comprovável.
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quarta-feira, janeiro 03, 2007
A Parte do Diabo - Michel Maffesoli
Sociólogo da Sourbonne (França), Michel Maffesoli disserta sobre o comportamento humano pós-moderno (contemporâneo), focando nas questões da política e da sociabilidade entre as pessoas. Seu objetivo é encontrar explicações científicas, dentro do universo da sociologia e da filosofia, para alguns dos mais relevantes fatos a respeito do comportamento das pessoas no presente, principalmente, a apatia política, a falta de entusiasmo com a construção de novas correntes intelectuais, o culto ao corpo, a deserção das instituições vigentes. O autor denomina o perfil de comportamento das pessoas no início do século XXI como o de uma "criança eterna", buscando sempre o prazer momentâneo, e demonstrando uma indiferença (manifestando-se como uma revolta branca) pelas instituições, como a democracia representativa (mediante os altos níveis de abstenções nas eleições), o intelectualismo e o culto ao trabalho.
O autor associa essa subverção da sociedade pós-moderna às instituições como não uma crise, mas sim uma mudança da estrutura de valores morais vigentes. Segundo Maffesoli, a tradição moral judaico-cristã construiu, ao longo de toda a sua história, uma visão de mundo em que o Bem e o Mal são valores absolutos e universais, e que o objetivo de todo código moral é desviar a ação individual e coletiva em busca do Bem, e combater o Mal. Assim, todas as grandes correntes de pensamento ocidental (fruto da tradição judaico-cristã), como a filosofia cristã, o Iluminismo e o Marxismo foram sempre focadas em construir o Bem absoluto, isto é, construir uma "sociedade ideal" e um "comportamento individual ideal", e combater toda e qualquer imperfeição relacionada ao comportamento social-individual humana, associada com o Mal. Contudo, para o autor, o Mal, isto é, as imperfeições da humanidade são tão sólidas como o conceito de Bem (o ideal), o que faz com que ambos valores tenham características muito mais relativas do que absolutas (o "relativismo moral", nas palavras do autor). Além disso, muitas das tradições morais fora do universo judaico-cristã (como o paganismo clássico, o animismo africano e o espiritualismo asiático) se preocupam não em combater o Mal, mas sim aceitar que o mesmo faça parte do mundo. Isto é, as imperfeições humanas, em que o autor destaca a mortalidade, devem ser toleradas pelas pessoas para que possamos ter uma visão holística de nossas vidas. Essas imperfeições são, em suma, nosso vínculo com a natureza; na moral judaico-cristã, o Bem é associado ao homem civilizado, racional e criado à forma e semelhança de Deus, o Bem máximo, enquanto que o Mal é associado ao homem animal, selvagem, bárbaro, com paixões e libidos voláteis e momentâneas. Contudo, o autor destaca que o homem é ao mesmo tempo racional e animal, e portanto, tanto o Bem quanto o Mal estão presentes em seu comportamento, e isso é perfeitamente natural.
Contudo, o autor destaca que na sociedade pós-moderna, as pessoas estão ignorando de forma cada vez mais profunda as instituições criadas pela tradição judaico-cristã (fundamentada sobretudo pelo Cristianismo, o Iluminismo e o Marxismo), abstendo-se de participação política, ignorando a cidadania como obrigação, reprovando idealismos intelectuais e moralismos rígidos de qualquer maneira. Pelo contrário, a sociedade parece estar cada vez valorizando mais o momento presente, o prazer em excesso, o movimento de violência, a libido. Isto é, a sociedade ocidental está se voltando para o Mal, isto é, ao contrário do que até agora vinha fazendo. Todavia, o autor argumenta que essa atitude é perfeitamente natural e positiva para a sociabilidade humana ocidental, já que o Mal, isto é, o homem-animal-imperfeito é um conceito universal que nunca será superado.
O autor não destaca uma razão principal para o fato de que a sociedade está em movimento para aceitar o Mal, em vez de combatê-lo. Contudo, mais para o final do livro, o autor parece relacionar isso ao sucesso do movimento feminista. Segundo Maffesoli, as sociedades patriarcais tem um claro espírito belicista e produtivista, e nelas o princípio de "construir um mundo ideal, custe o que custar" tende a se espalhar mais facilmente do que as sociedades matriarcais, com maior espírito de tolerância e compaixão entre as pessoas. Com o processo de independência individual das mulheres ocidentais, os valores morais matriarcais vão tomando cada vez mais importância frente aos patriarcais.
Em termos de estilo litérário, o livro é bastante complexo, não em termos de vocabulário, mas por trabalhar com conceitos relativamente avançados de sociologia e filosofia, o que faz com que leigos nesses assuntos (como eu) não consigam acompanhar todas as passagens do texto. Além disso, é curioso que o autor cite, para dar fundamento as suas teorias, não outros sociólogos, mas poetas e artistas em geral, interpretando sua sensibilidade frente ao mundo e à sociedade.
Por outro lado, o autor parece tratar com excessivo otimismo os valores morais da nova sociedade pós-moderna. A libertação individual feminina, a flexibilidade dos cógigos morais, a tolerância e a compaixão entre as pessoas e a maior proximidade entre o homem e a natureza certamente são avanços à sociabilidade e ao auto-conhecimento da humanidade. Mas outros fatores, tais como a apatia política, o culto ao corpo em detrimento da intelectualidade e o comportamento de "criança eterna", materialista, imediatista e consumista, não estão claros se realmente fazem parte de uma nova relação social no mundo ocidental, ou são sintomas de um processo de mediocratização intelectual e cultural que a nossa sociedade vem passando pelas últimas décadas, e que não tem nada a ver com a tolerância moral e o feminismo.
O autor associa essa subverção da sociedade pós-moderna às instituições como não uma crise, mas sim uma mudança da estrutura de valores morais vigentes. Segundo Maffesoli, a tradição moral judaico-cristã construiu, ao longo de toda a sua história, uma visão de mundo em que o Bem e o Mal são valores absolutos e universais, e que o objetivo de todo código moral é desviar a ação individual e coletiva em busca do Bem, e combater o Mal. Assim, todas as grandes correntes de pensamento ocidental (fruto da tradição judaico-cristã), como a filosofia cristã, o Iluminismo e o Marxismo foram sempre focadas em construir o Bem absoluto, isto é, construir uma "sociedade ideal" e um "comportamento individual ideal", e combater toda e qualquer imperfeição relacionada ao comportamento social-individual humana, associada com o Mal. Contudo, para o autor, o Mal, isto é, as imperfeições da humanidade são tão sólidas como o conceito de Bem (o ideal), o que faz com que ambos valores tenham características muito mais relativas do que absolutas (o "relativismo moral", nas palavras do autor). Além disso, muitas das tradições morais fora do universo judaico-cristã (como o paganismo clássico, o animismo africano e o espiritualismo asiático) se preocupam não em combater o Mal, mas sim aceitar que o mesmo faça parte do mundo. Isto é, as imperfeições humanas, em que o autor destaca a mortalidade, devem ser toleradas pelas pessoas para que possamos ter uma visão holística de nossas vidas. Essas imperfeições são, em suma, nosso vínculo com a natureza; na moral judaico-cristã, o Bem é associado ao homem civilizado, racional e criado à forma e semelhança de Deus, o Bem máximo, enquanto que o Mal é associado ao homem animal, selvagem, bárbaro, com paixões e libidos voláteis e momentâneas. Contudo, o autor destaca que o homem é ao mesmo tempo racional e animal, e portanto, tanto o Bem quanto o Mal estão presentes em seu comportamento, e isso é perfeitamente natural.
Contudo, o autor destaca que na sociedade pós-moderna, as pessoas estão ignorando de forma cada vez mais profunda as instituições criadas pela tradição judaico-cristã (fundamentada sobretudo pelo Cristianismo, o Iluminismo e o Marxismo), abstendo-se de participação política, ignorando a cidadania como obrigação, reprovando idealismos intelectuais e moralismos rígidos de qualquer maneira. Pelo contrário, a sociedade parece estar cada vez valorizando mais o momento presente, o prazer em excesso, o movimento de violência, a libido. Isto é, a sociedade ocidental está se voltando para o Mal, isto é, ao contrário do que até agora vinha fazendo. Todavia, o autor argumenta que essa atitude é perfeitamente natural e positiva para a sociabilidade humana ocidental, já que o Mal, isto é, o homem-animal-imperfeito é um conceito universal que nunca será superado.
O autor não destaca uma razão principal para o fato de que a sociedade está em movimento para aceitar o Mal, em vez de combatê-lo. Contudo, mais para o final do livro, o autor parece relacionar isso ao sucesso do movimento feminista. Segundo Maffesoli, as sociedades patriarcais tem um claro espírito belicista e produtivista, e nelas o princípio de "construir um mundo ideal, custe o que custar" tende a se espalhar mais facilmente do que as sociedades matriarcais, com maior espírito de tolerância e compaixão entre as pessoas. Com o processo de independência individual das mulheres ocidentais, os valores morais matriarcais vão tomando cada vez mais importância frente aos patriarcais.
Em termos de estilo litérário, o livro é bastante complexo, não em termos de vocabulário, mas por trabalhar com conceitos relativamente avançados de sociologia e filosofia, o que faz com que leigos nesses assuntos (como eu) não consigam acompanhar todas as passagens do texto. Além disso, é curioso que o autor cite, para dar fundamento as suas teorias, não outros sociólogos, mas poetas e artistas em geral, interpretando sua sensibilidade frente ao mundo e à sociedade.
Por outro lado, o autor parece tratar com excessivo otimismo os valores morais da nova sociedade pós-moderna. A libertação individual feminina, a flexibilidade dos cógigos morais, a tolerância e a compaixão entre as pessoas e a maior proximidade entre o homem e a natureza certamente são avanços à sociabilidade e ao auto-conhecimento da humanidade. Mas outros fatores, tais como a apatia política, o culto ao corpo em detrimento da intelectualidade e o comportamento de "criança eterna", materialista, imediatista e consumista, não estão claros se realmente fazem parte de uma nova relação social no mundo ocidental, ou são sintomas de um processo de mediocratização intelectual e cultural que a nossa sociedade vem passando pelas últimas décadas, e que não tem nada a ver com a tolerância moral e o feminismo.
quarta-feira, outubro 04, 2006
Ortodoxos vs. Heterodoxos II
O embate entre diferentes pontos de vista dentro de uma mesma matéria transcede a Ciência Econômica, e está presente nas mais diversas áreas do conhecimento humano.
Li uma reportagem sobre um debate bastante acirrado dentro da biologia, mais especificamente, na área de genética. Segundo o artigo, os biólogos ditos "ortodoxos" defendem o determinismo do indivíduo (humano ou não) pelo seu código genético, em relação a praticamente todas as suas ações e potencialidades. Segundo esses pesquisadores, a função da vida de um indivíduo não é nada mais do que passar o seu DNA adiante. Por outro lado, os "heterodoxos" diferenciam o comportamento humano dos demais seres vivos. Segundo esses, os indivíduos da espécie humana são influenciados pelo seu meio social e pela sua cultura de modo tão intenso como a sua carga genética. Portanto, não haveria determinismo em relação ao comportamento humano.
Essa reportagem me fez pensar os limites mais genéricos dessa discussão presente dentro da Ciência, que divide os pontos de vista dos pesquisadores em dois blocos principais, geralmente rotulados de "ortodoxos" ou "heterodoxos":
-De um lado, existe a ciência "ortodoxa", determinística, fria e calculista. Todo indivíduo, toda partícula existente no universo tem um motivo para estar onde estiver e fazer o que estiver fazendo. A expressão lógica do funcionamento das forças naturais (incluindo o comportamento humano) é a linguagem matemática, isso é, a expressão da racionalidade lógica que governa o nosso Universo.
-De outro lado, temos a ciência "heterodoxa", que centra suas análises nos princípios de incerteza, do caos, da aleatoriedade. "Não existe uma verdade absoluta, e mesmo que existisse, estaria acima dos limites da inteligência humana" é o seu lema, inspirado na filosofia sofista. Dentro das ciências sociais (economia, sociologia, psicologia, etc.), o comportamento individual e coletivo deixa de ser fundamentado na racionalidade e na carga genética, e passa a ser explicado por fatores mais abstratos, tais como a emoção, a tradição cultural (Weber), as relações de dominação (Marx), os desejos contidos (Freud).
Li uma reportagem sobre um debate bastante acirrado dentro da biologia, mais especificamente, na área de genética. Segundo o artigo, os biólogos ditos "ortodoxos" defendem o determinismo do indivíduo (humano ou não) pelo seu código genético, em relação a praticamente todas as suas ações e potencialidades. Segundo esses pesquisadores, a função da vida de um indivíduo não é nada mais do que passar o seu DNA adiante. Por outro lado, os "heterodoxos" diferenciam o comportamento humano dos demais seres vivos. Segundo esses, os indivíduos da espécie humana são influenciados pelo seu meio social e pela sua cultura de modo tão intenso como a sua carga genética. Portanto, não haveria determinismo em relação ao comportamento humano.
Essa reportagem me fez pensar os limites mais genéricos dessa discussão presente dentro da Ciência, que divide os pontos de vista dos pesquisadores em dois blocos principais, geralmente rotulados de "ortodoxos" ou "heterodoxos":
-De um lado, existe a ciência "ortodoxa", determinística, fria e calculista. Todo indivíduo, toda partícula existente no universo tem um motivo para estar onde estiver e fazer o que estiver fazendo. A expressão lógica do funcionamento das forças naturais (incluindo o comportamento humano) é a linguagem matemática, isso é, a expressão da racionalidade lógica que governa o nosso Universo.
-De outro lado, temos a ciência "heterodoxa", que centra suas análises nos princípios de incerteza, do caos, da aleatoriedade. "Não existe uma verdade absoluta, e mesmo que existisse, estaria acima dos limites da inteligência humana" é o seu lema, inspirado na filosofia sofista. Dentro das ciências sociais (economia, sociologia, psicologia, etc.), o comportamento individual e coletivo deixa de ser fundamentado na racionalidade e na carga genética, e passa a ser explicado por fatores mais abstratos, tais como a emoção, a tradição cultural (Weber), as relações de dominação (Marx), os desejos contidos (Freud).
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terça-feira, junho 13, 2006
Maniqueísmo e Ciência Econômica
Um dos fatores que fazem com que a ciência econômica seja muito interessante é a diversidade de correntes de pensamento, isto é, a possibilidade de se encontrar diversas possíveis respostas a um determinado problema, de acordo com diferentes pontos de vista. A diversidade de correntes de pensamento naturalmente leva a situações de rivalidade entre seus autores, o que é muito comum em qualquer ciência, além de ser saudável para a realização de debates e contrapontos.
Contudo, algumas vezes essa rivalidade, esse contraponto de idéias pode tomar a forma de uma verdadeira guerra dentro da ciência econômica, em que autores se valem de agressões verbais e teorias conspiratórias absurdas para valorizar aquilo que acredita e atacar aquilo que não concorda. Assim aparece o maniqueísmo na ciência econômica, isto é, uma situação em que o contraponto de idéias toma uma forma de uma luta do "bem" contra o "mal", no melhor estilo Star Wars, em que cada corrente de pensamento tenta tomar para si o monopólio sobre o bem (já que até agora não se ouviu falar de alguma Teoria Econômica Satânica...).
Economistas heterodoxos (incluindo todas as escolas fora do mainstream) muitas vezes podem se apresentar como os libertadores da ciência econômica do jugo do conceito de equilíbrio imposto pelos ortodoxos, o qual distorceria toda a realidade em nome da beleza teórica de seus modelos. O objetivo dos ortodoxos conservadores-fascistas-fundamentalistas seria, de acordo com as hipóteses maniqueístas, provar que o mundo se encontra em um estado estável de equilíbrio, um ponto ótimo em universo de possibiliades dentro do mundo real, em que ninguém poderia melhorar sua situação sem piorar a dos outros. Assim, o status quo de um mundo desigual, cruel e perverso poderia ser ideologicamente defendido com base em argumentos construídos camuflados de "científicos". Assim, a heterodoxia seria o "bem", progressista, defensora dos pobres e oprimidos, e a ortodoxia seria o "mal", retrógrada, defensora dos opressores.
Por outro lado, os economistas ortodoxos (todas as escolas pertencentes ao mainstream, mais aquelas que se julgam pertencer) podem se impôr como os defensores da liberdade, da livre iniciativa e da justiça alocativa. Os heterodoxos seriam todos agentes comunistas-fascistas-chavistas, que utilizam argumentos teóricos fracassados que quebram o princípio do equilíbrio para justificar a submissão de todos os indivíduos ao jugo de um Estado burocrático e opressor. E ainda, os heterodoxos seriam ladrões, no sentido de defender mecanismos de distribuição de renda fora do sistema de mercado (que, supostamente recompensaria cada indivíduo na exata medida de sua competência, de sua produtividade), de modo a sustentar pobres vagabundos e improdutivos. Assim, a ortodoxia seria o "bem", libertária, e a heterodoxia seria o "mal", autoritária.
Tais pensamentos radicais se manifestam sobretudo quando as correntes de pensamento assumem comportamentos extremos, isto é, quando a ortodoxia vira fundamentalismo de mercado, anarco-capitalismo "A-Sociedade-Que-Se-Dane-Eu-Quero-o-Meu-Dinheiro", e a heterodoxia vira anti-neoliberalismo "Anti-tudo-Anti-todos-Anti-Lei da Gravidade". Quando os impasses intelectuais assumem tais comportamentos, o debate some, cada participante olha apenas para o próprio umbigo, e começa a batalha do bem contra o mal.
Todavia, fazer ciência NÃO É, DE NENHUM MODO, fazer pregação ideológica. O objetivo da ciência é buscar compreender e explicar a realidade com base racional, lógica, empírica, e, sobretudo, FRIA. Todos nós temos nossas convicções ideológicas e visões de mundo próprias, que muitas vezes são discordantes do resto da humanidade. Mas a sociabilidade democrática e o respeito às normas morais da ciência exigem que tenhamos respeito com as visões de mundo e teorias alheias, como forma de abrirmos a mente para novas idéias. Senão, debate vira maniqueísmo, e ciência econômica vira filme de ação hollywoodiano.
Contudo, algumas vezes essa rivalidade, esse contraponto de idéias pode tomar a forma de uma verdadeira guerra dentro da ciência econômica, em que autores se valem de agressões verbais e teorias conspiratórias absurdas para valorizar aquilo que acredita e atacar aquilo que não concorda. Assim aparece o maniqueísmo na ciência econômica, isto é, uma situação em que o contraponto de idéias toma uma forma de uma luta do "bem" contra o "mal", no melhor estilo Star Wars, em que cada corrente de pensamento tenta tomar para si o monopólio sobre o bem (já que até agora não se ouviu falar de alguma Teoria Econômica Satânica...).
Economistas heterodoxos (incluindo todas as escolas fora do mainstream) muitas vezes podem se apresentar como os libertadores da ciência econômica do jugo do conceito de equilíbrio imposto pelos ortodoxos, o qual distorceria toda a realidade em nome da beleza teórica de seus modelos. O objetivo dos ortodoxos conservadores-fascistas-fundamentalistas seria, de acordo com as hipóteses maniqueístas, provar que o mundo se encontra em um estado estável de equilíbrio, um ponto ótimo em universo de possibiliades dentro do mundo real, em que ninguém poderia melhorar sua situação sem piorar a dos outros. Assim, o status quo de um mundo desigual, cruel e perverso poderia ser ideologicamente defendido com base em argumentos construídos camuflados de "científicos". Assim, a heterodoxia seria o "bem", progressista, defensora dos pobres e oprimidos, e a ortodoxia seria o "mal", retrógrada, defensora dos opressores.
Por outro lado, os economistas ortodoxos (todas as escolas pertencentes ao mainstream, mais aquelas que se julgam pertencer) podem se impôr como os defensores da liberdade, da livre iniciativa e da justiça alocativa. Os heterodoxos seriam todos agentes comunistas-fascistas-chavistas, que utilizam argumentos teóricos fracassados que quebram o princípio do equilíbrio para justificar a submissão de todos os indivíduos ao jugo de um Estado burocrático e opressor. E ainda, os heterodoxos seriam ladrões, no sentido de defender mecanismos de distribuição de renda fora do sistema de mercado (que, supostamente recompensaria cada indivíduo na exata medida de sua competência, de sua produtividade), de modo a sustentar pobres vagabundos e improdutivos. Assim, a ortodoxia seria o "bem", libertária, e a heterodoxia seria o "mal", autoritária.
Tais pensamentos radicais se manifestam sobretudo quando as correntes de pensamento assumem comportamentos extremos, isto é, quando a ortodoxia vira fundamentalismo de mercado, anarco-capitalismo "A-Sociedade-Que-Se-Dane-Eu-Quero-o-Meu-Dinheiro", e a heterodoxia vira anti-neoliberalismo "Anti-tudo-Anti-todos-Anti-Lei da Gravidade". Quando os impasses intelectuais assumem tais comportamentos, o debate some, cada participante olha apenas para o próprio umbigo, e começa a batalha do bem contra o mal.
Todavia, fazer ciência NÃO É, DE NENHUM MODO, fazer pregação ideológica. O objetivo da ciência é buscar compreender e explicar a realidade com base racional, lógica, empírica, e, sobretudo, FRIA. Todos nós temos nossas convicções ideológicas e visões de mundo próprias, que muitas vezes são discordantes do resto da humanidade. Mas a sociabilidade democrática e o respeito às normas morais da ciência exigem que tenhamos respeito com as visões de mundo e teorias alheias, como forma de abrirmos a mente para novas idéias. Senão, debate vira maniqueísmo, e ciência econômica vira filme de ação hollywoodiano.
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domingo, fevereiro 05, 2006
Globalização - George Soros
Em um mundo que cada vez mais se polariza entre extrema-direita ultra-liberal, extrema esquerda comunista-chavista e fundamentalistas religiosos, é reconfortante descobrir que ainda existem pensadores práticos, pragmáticos e inovadores como George Soros.
Para quem não o conhece, George Soros é economista formado na London School of Economics, além de ser o economista mais rico do mundo (sua fortuna é de cerca de 10 bilhões de dólares), graças as suas operações nos mercados financeiros. Mas Soros não é "apenas" o maior investidor financeiro do mundo: é um economista cuja influência percorre diversas áreas da ciência, além de ser filantropo, filósofo político, crítico do pensamento econômico tradicional e ativista social-democrata.
Soros critica abertamente os extremos políticos - direita e esquerda - afirmando que ambas as posições (fundamentalismo de mercado e ativismo anti-globalização) são falhos no sentido de resolver os problemas que o mundo globalizado vem apresentando aos países e às populações. Ao invés de criticar as instituições econômicas internacionais (FMI, Banco Mundial) apenas pela sua existência, seja pela sua influência intervencionista sobre os mercados, seja pelo fato de que são controladas pelos países desenvolvidos, Soros questiona COMO tais instituições devem agir de modo a garantir o bem-estar das populações, principalmente dos países subdesenvolvidos. O autor bate de frente na teoria econômica tradicional ao afirmar que os mercados financeiros são reflexivos, isto é, não tendem a nenhum ponto de equilíbrio observável, pois operam apenas com expectativas, e não com ativos tangíveis. Essa característica torna os mercados financeiros instáveis por sua própria natureza, e exigem intervenção externa para garantir alguma estabilidade, principalmente em economias de instituições mais frágeis. Em um mundo globalizado, a regulação econômica dos mercados financeiros deve ser realizada pelas próprias instituições econômicas internacionais, como o FMI, a OMC, o BIRD, fortalecendo o seu papel sobre as economias nacionais.
Em primeiro lugar, o autor propõe a emissão de títulos por parte do FMI (Direitos Especiais de Saque), comprados pelos países desenvolvidos, e cujo montante seria repassado aos países subdesenvolvidos, de modo a aumentar a capacidade de investimento de seus governos. Obviamente, a gestão desses recursos seria feita por um comitê internacional dentro do FMI, de modo a priorizar repasses para governos que adotem políticas econômicas sensatas e respeitem os direitos civis.
Em segundo lugar, o autor afirma que o Banco Mundial, responsável por recursos internacionais para investimentos de longo prazo, não deve se reter a emprestar recursos apenas aos governos nacionais, devido ao perigo da corrupção e do clientelismo político nos países subdesenvolvidos. O Banco Mundial deveria expandir a sua atuação de modo a se aprximar não apenas dos governos regionais e locais, como também das próprias instituições da sociedade civil, como as ONGs e as empresas privadas. Além disso, deve prestar assessoria não apenas financeira, mas também técnica, de modo a garantir o uso mais racional desses recursos.
Em terceiro lugar, Soros defende que os países membros da OMC adotem padrões comuns de respeito aos direitos trabalhistas e à proteção do meio ambiente, evitando que a saudável competição internacional nos mercados de bens físicos degrade para o uso de tecnologias poluidoras e à perda de bem estar dos trabalhadores como forma de reduzir custos de produção (tal como a China vem fazendo hoje em dia).
Em suma, Soros propõe a chamada "Sociedade Aberta" como nova forma de organização social. A Sociadade Aberta conteria alguns princípios já conhecidos, como a democracia representativa e a economia de mercado, e também princípios inovadores, como a importância da moralidade e da ética na tomada de decisões econômicas e políticas. O objetivo da sociedade aberta é reconhecer que a perfeição não está ao alcance das instituições humanas (incluindo o mercado, o Estado e a democracia), e garantir a liberdade de crítica e questionamento de qualquer aspecto do sistema, de forma a sempre melhorá-lo.
Não é necessário concordar com todas as idéias de Soros (por exemplo, a hipótese dos Direitos Especiais de Saque, do FMI, me parece uma tentativa de expansão monetária, que poderia trazer conseqüências desastrosas em muitos países, como o Brasil). Mas a importância do seu pensamento está exatamente no seu caráter inovador e atuante, no sentido de buscar soluções para os problemas da sociedade contemporânea. É a prova viva de que a cada vez mais desacreditada social-democracia está se recuperando e se inovando, de modo a se apresentar novamente como sistema econômico-social-político capaz de aliar o dinamismo econômico com a garantia das liberdades individuais e a busca do bem-estar social e do desenvolvimento econômico.
Para quem não o conhece, George Soros é economista formado na London School of Economics, além de ser o economista mais rico do mundo (sua fortuna é de cerca de 10 bilhões de dólares), graças as suas operações nos mercados financeiros. Mas Soros não é "apenas" o maior investidor financeiro do mundo: é um economista cuja influência percorre diversas áreas da ciência, além de ser filantropo, filósofo político, crítico do pensamento econômico tradicional e ativista social-democrata.
Soros critica abertamente os extremos políticos - direita e esquerda - afirmando que ambas as posições (fundamentalismo de mercado e ativismo anti-globalização) são falhos no sentido de resolver os problemas que o mundo globalizado vem apresentando aos países e às populações. Ao invés de criticar as instituições econômicas internacionais (FMI, Banco Mundial) apenas pela sua existência, seja pela sua influência intervencionista sobre os mercados, seja pelo fato de que são controladas pelos países desenvolvidos, Soros questiona COMO tais instituições devem agir de modo a garantir o bem-estar das populações, principalmente dos países subdesenvolvidos. O autor bate de frente na teoria econômica tradicional ao afirmar que os mercados financeiros são reflexivos, isto é, não tendem a nenhum ponto de equilíbrio observável, pois operam apenas com expectativas, e não com ativos tangíveis. Essa característica torna os mercados financeiros instáveis por sua própria natureza, e exigem intervenção externa para garantir alguma estabilidade, principalmente em economias de instituições mais frágeis. Em um mundo globalizado, a regulação econômica dos mercados financeiros deve ser realizada pelas próprias instituições econômicas internacionais, como o FMI, a OMC, o BIRD, fortalecendo o seu papel sobre as economias nacionais.
Em primeiro lugar, o autor propõe a emissão de títulos por parte do FMI (Direitos Especiais de Saque), comprados pelos países desenvolvidos, e cujo montante seria repassado aos países subdesenvolvidos, de modo a aumentar a capacidade de investimento de seus governos. Obviamente, a gestão desses recursos seria feita por um comitê internacional dentro do FMI, de modo a priorizar repasses para governos que adotem políticas econômicas sensatas e respeitem os direitos civis.
Em segundo lugar, o autor afirma que o Banco Mundial, responsável por recursos internacionais para investimentos de longo prazo, não deve se reter a emprestar recursos apenas aos governos nacionais, devido ao perigo da corrupção e do clientelismo político nos países subdesenvolvidos. O Banco Mundial deveria expandir a sua atuação de modo a se aprximar não apenas dos governos regionais e locais, como também das próprias instituições da sociedade civil, como as ONGs e as empresas privadas. Além disso, deve prestar assessoria não apenas financeira, mas também técnica, de modo a garantir o uso mais racional desses recursos.
Em terceiro lugar, Soros defende que os países membros da OMC adotem padrões comuns de respeito aos direitos trabalhistas e à proteção do meio ambiente, evitando que a saudável competição internacional nos mercados de bens físicos degrade para o uso de tecnologias poluidoras e à perda de bem estar dos trabalhadores como forma de reduzir custos de produção (tal como a China vem fazendo hoje em dia).
Em suma, Soros propõe a chamada "Sociedade Aberta" como nova forma de organização social. A Sociadade Aberta conteria alguns princípios já conhecidos, como a democracia representativa e a economia de mercado, e também princípios inovadores, como a importância da moralidade e da ética na tomada de decisões econômicas e políticas. O objetivo da sociedade aberta é reconhecer que a perfeição não está ao alcance das instituições humanas (incluindo o mercado, o Estado e a democracia), e garantir a liberdade de crítica e questionamento de qualquer aspecto do sistema, de forma a sempre melhorá-lo.
Não é necessário concordar com todas as idéias de Soros (por exemplo, a hipótese dos Direitos Especiais de Saque, do FMI, me parece uma tentativa de expansão monetária, que poderia trazer conseqüências desastrosas em muitos países, como o Brasil). Mas a importância do seu pensamento está exatamente no seu caráter inovador e atuante, no sentido de buscar soluções para os problemas da sociedade contemporânea. É a prova viva de que a cada vez mais desacreditada social-democracia está se recuperando e se inovando, de modo a se apresentar novamente como sistema econômico-social-político capaz de aliar o dinamismo econômico com a garantia das liberdades individuais e a busca do bem-estar social e do desenvolvimento econômico.
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