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segunda-feira, janeiro 23, 2012

Filme do Tintim

Na sexta-feira passada foi feriado aqui no Rio, o dia de São Sebastião. Fui com minha namorada assisitir o filme do Tintim em 3D no cinema Unibanco Arteplex, na prai de Botafogo.

O filme é muito bem produzido. A computação gráfica conseguiu fielmente transformar atores reais nos personagens criados originalmente por Hergé, o criador da famosa série em quadrinhos. Os efeitos especiais são impressionantes, talvez os melhores que tenha visto recentemente.

Contudo, a velha máxima "o filme é sempre pior do que o livro" também valeu para esse filme. Sou fã dos livros do Tintim desde 1996, quando tinha 11 anos, e achei a história muito diferente do retratado nos quadrinhos. O filme resume três livros, "O Segredo do Licorne", "O Caranguejo das Tenazes de Ouro" e "O Tesouro de Rackham O Terrível", mas destaca muito (mais muito!) mais a ação do que o mistério, usando e abusando da destruição material. Tintim deixa de ser "o jovem Sherlock Holmes" e vira "o jovem Indiana Jones". Assim, o filme é divertido para os mais jovens, mais acaba ficando meio cansativo para mim e para a maior parte do público com mais de 20 e poucos anos.

Uma curiosidade é que o livro "O Segredo do Licorne" foi exatamente o primeiro da série que li, em 1996, quando o recebi de presente da minha madrinha. Já "O Tesouro de Rackham o Terrível", sua continuação, só o li aqui no Rio de Janeiro, quando o encontrei em um sebo no Catete em setembro do ano passado. Foram 15 anos de curiosidade reprimida sobre como acabava a história, e eu nunca procurei na internet nenhum spoiler, porque fazia questão de ver o mistério solucionado nas minhas mãos (ainda que o final fosse meio previsível, mas ok).

Momento clipping: o Victor Senna, economista cedeplariano e cartunista, fez uma resenha mais profissional do filme no seu blog.

quarta-feira, janeiro 27, 2010

O Símbolo Perdido - Dan Brown

O Símbolo Perdido é o mais novo livro de Dan Brown, autor do best-seller O Código Da Vinci. O livro é a terceira aventura de Robert Langdon, professor de simbologia em Harvard, envolvendo mistérios, misticismo, seitas secretas, códigos para serem resolvidos, perseguições policiais, vilões megalomaníacos psicóticos, e todo o mesmo esquema de sempre. Agora, comparando-se com o Código da Vinci, a luta entre o Protetorado de Sião e a Opus-Dei se transforma em uma luta entre a Maçonaria e o Satanismo, os quadros de Leonardo da Vinci se transformam nas pirâmides maçônicas, Paris e Londres e transformam em Washington, e o antagonista monge extremista albino se transforma em um antagonista fisioculturista, fã de tatuagens e de sacrifícios aos demônios.

A princípio, essas semelhanças estruturais com o Código da Vinci não são um problema para o presente romance, e até mesmo são esperados, dado o sucesso de vendas do anterior. Isto é, era previsível que o autor mantivesse a fórmula de seu sucesso. Contudo, nesse livro a repetição da fórmula foi longe de mais, é praticamente o mesmo enredo do anterior, com menos viagens e menos assassinatos. E ainda, os próprios mistérios descritos, e revelados, no decorrer do enredo são muito mais fracos, previsíveis e superficiais do que no anterior. Os segredos são tão mal fundamentados que não sinto nenhum rancor de revelá-los todos para os leitores do blog. A palavra mágica da Maçonaria é a Bíblia. O símbolo perdido é a letra O com um pontinho no meio, que é o símbolo do deus egípcio Amon Rá. O poder mágico que a maçonaria, e também o antagonista satânico, conhecem é uma espécie de cera que o cérebro humano produz quando entra em um processo de grande concentração, e que possui grandes propriedades terapêuticas. A pirâmide sagrada da maçonaria não é uma construção habitacional, mas sim um objeto de pedra de 30 centímetros de altura, e que revela seus segredos mediante procedimentos totalmente infantis, tal como pelo aquecimento, ou pela raspagem de uma camada de cera em seu fundo. O "plano macabro" do antagonista, que é descrito pelos demais personagens como uma grande ameaça à humanidade, é a revelação pela internet de um vídeo que mostra influentes políticos norte-americanos bebendo vinho em um crânio humano, durante um ritual maçônico. Ou seja, nada que realmente impressione, ou mesmo desperte curiosidade, tal como o mistério do Santo Graal do livro anterior.

Contudo, o maior problema do livro, e que é muito comum em outros romances do gênero, e também em filmes, é a conturbada relação entre o personagem principal (Robert Langdon) e o antagonista (o satânico Mal'Ach) no que se refere à condução do enredo. Em O Símbolo Perdido, é Mal'Ach quem toma as principais decisões, que vão afetar a ação dos demais personagens, e quem elabora e divulga os mistérios que serão resolvidas pelo professor Langdon. Além disso, sua história é melhor descrita - é quase um livro dentro do livro, mas com enredo muito mais interessante - do que a de qualquer outro personagem, ainda que sua "identidade secreta" é facilmente previsível desde logo o início da história. Por esses motivos, é fácil desenvolver uma empatia pelo antagonista, isto é, esperar que seus planos dêem certo no final das contas, dado todo o esforço do personagem em atingir seus objetivos. Pessoalmente, eu achei que se Mal'Ach enfim conseguisse obter a "palavra mágica" para se transformar em um demônio, o livro teria mais graça. Contudo, esse personagem cometeu dois erros muito toscos, que poderiam ser melhor pensados pelo autor. Em primeiro lugar, a idéia de destruir a ordem política mundial pela divulgação de políticos bebendo vinho em crânios me parece implausível. Se isso ocorresse, haveria um choque inicial na opinião público, mas logo todos esqueceriam e voltariam a viver suas vidas como se nada tivesse acontecido. Um vídeo desses não poderia ter impacto maior do que o de políticos escondendo dinheiro em suas meias, por exemplo. Em segundo lugar, quando teve a chance de matar o personagem principal (Langdon), Mal'Ach escolheu o bizarro método de trancá-lo em uma câmara de privação sensorial e esperar que ele morresse de fome, facilitando muito o trabalho da polícia no resgate que, inclusive, já tinha o seu endereço. Por que será que os super-vilões tem tanto preconceito com o eficiente tiro na testa, afinal?

domingo, julho 19, 2009

Brás, Bexiga e Barra Funda (Antônio de Alcântara Machado)

Este livro não nasceu livro: nasceu jornal. Estes contos não nasceram contos: nasceram notícias.

Semana passada, quando estava em Belo Horizonte, assistindo a uma maratona da série São Paulo 9 Milímetros com meus colegas de república, começamos a conversar sobre os bairros de São Paulo (eu, que nunca estive na cidade, só ouvia). Nessa conversa, me deu muita vontade de reler o famoso livro de crônicas do Alcântara Machado, que eu já tinha estudado no segundo ano do Ensino Médio. Na segunda-feira passada, comprei o livro da edição "A Obra-Prima de Cada Autor" da Ed. Martin Claret no Beco dos Livros, aqui em Porto Alegre. Nessa edição, estão presente 24 contos, metade deles do livro Brás, Bexiga e Barra Funda, e a outra metade do livro Laranja da China, ambos do mesmo autor.

"Brás, Bexiga e Barra Funda" descreve, em 11 contos (mais um prefácio), o cotidiano dos imigrantes italianos na capital paulista durante a década de 1920. Nesses contos, de narrativa simples, mas subjetiva, o autor destaca os principais sentimentos dos imigrantes em seu processo de adaptação à vida no Brasil. Incluem-se, dentre esses sentimentos, os sonhos das crianças, as relações familiares, inclusive em contradição com as relações familiares praticadas pelos paulistanos nativos, a ambigüidade entre o nascer estrangeiro e o desenvolvimento do patriotismo na terra nova, os conflitos amorosos, podendo haver triângulos entre imigrantes e nativos, e o espírito empreendedor do povo que chega, pela implantação de seus negócios.

O principal conto desta obra, na minha visão, chama-se "A Sociedade". Essa história se refere exatamente ao desenvolvimento das relações sociais entre os imigrantes italianos e os nativos. Um italiano, vendedor de legumes, se apaixona por uma moça de família tradicional paulista, mas a mãe dela é contra o seu casamento, por puro preconceito xenófobo. Contudo, conforme a família do rapaz prospera no país, os seus pais resolvem formar uma "sociedade", investindo juntos em uma fábrica. Com a formação dessa sociedade, o amor entre o italiano e a brasileira torna-se aceito, e o rapaz, no final das contas, se lembra com risadas do tempo em que vendia legumes fiado (!) para sua atual sogra. Esse conto sintetiza exatamente a integração dos imigrantes europeus na sociedade brasileira: inicialmente eram estranhados pelos nativos, sofrendo até mesmo exclusão social direta. Todavia, com o seu sucesso econômico, pelo desenvolvimento de atividades comerciais e mesmo fabris (nesse caso, principalmente após os anos 1930), passaram a se misturar com as demais etnias tropicais, passando a ser reconhecidos pela agregação de capital humano como contribuição à cultura nacional.

"Laranja da China" inclui doze contos narrando breves fatos cotidianos de típicos cidadãos paulistanos estereotipados. Principalmente, destacam-se o funcionário público rebelde contra o governo e os costumes (O Revoltado Robespierre), o retirante interiorano que migra para a cidade grande sem ter nenhum recurso para se manter, ou mesmo algum destino para seguir (O Aventureiro Ulisses), e o incasável pai de família cuidando corujamente de sua prole na folia do carnaval (O Mártir Jesus). Em todos esses contos, o autor ironiza a cultura nacional de homenagear personalidades estrangeiras nos nomes dos filhos (como Robespierre, Washington, Cícero, Ulisses, etc.), e que permanece ainda hoje, quase um século depois, ainda que de maneira ainda mais grosseira.

O livro é escrito sobre influência do Modernismo, mais específicamente da Semana da Arte Moderna de 1922, da qual o autor não participou devido a sua precoce idade na época, mas que manteve forte contato pessoal com seus fundadores. A linguagem dos contos se aproxima muito da linguagem falada; cada conto tende a se referir a poucos fatos cotidianos, e como que os personagens reagem a esses fatos. Em alguns casos, como no conto "O Monstro sobre Rodas", o fato em si nem chega a ser relatado (mas implicitamente indica um atropelamento), toda a história circula em torno das reações das personagens à tragédia. Em alguns casos, principalmente nos contos de "Laranja da China" a própria compreensão da idéia central de cada história torna-se complexa. O autor também usa e abusa de metáforas, termos coloquiais e gírias da época, tornando a leitura um tanto cansativa, mas compreensiva (ao contrário de outras obras de seu tempo, como Macunaíma).

Por outro lado, pensando como cientista social, este livro pode ser pensado como um verdadeiro banco de dados sobre a vida privada dos paulistanos na década de 1920, tanto no que diz respeito ao seu comportamento individual e psicológico, como também as suas relações sociais e até mesmo seus hábitos de consumo. Isto é, é um chance para nós, habitantes do século XXI, podermos entneder como que viviam os habitantes urbanos do Brasil nos breves anos imediatamente anteriores à industrialização do país e ao processo de substituição de importações. Dessa população urbana, ainda incipiente, é que sairiam os grandes empresários, políticos, economistas e trabalhadores que guiariam o processo de desenvolvimento do Brasil nas décadas seguintes.

Por fim, a leitura desse livro me remete as minhas excelentes aulas de Economia Brasileira Contemporânea I, na graduação na UFRGS. Estudando a evolução da economia e da sociedade brasileira ao longo do século XX, não parece estranho que, apesar de São Paulo ter se tornado o motor da indústria nacional, e acumulado muito capital financeiro e produtivo desde a época da agro-exportação cafeicultura, a contribuição desse estado à cultura brasileira tenha sido muito pequena? Como exemplos de artistas paulistas podemos facilmente lembrar de Monteiro Lobato , Cândido Portinari e dos Modernistas de 22, mas, dentre eles pouquíssimos são de conteúdo acessível ao público leigo, como Alcântara Machado. Mais recentemente, São Paulo passou a ser representada pelas histórias em quadrinhos do Maurício de Souza (e, diga-se de passagem, uma São Paulo digna dos anos 1920, com crianças brincando livremente em ruas cobertas por grama e parquinhos abundantes), por bandas emo e, agora, pela série policial de TV. A tradicional festa de aniversário da cidade nem acho que mereça ser considerada como "cultura", já que o espetáculo das hordas humanas atacando e consumindo o qulométrico bolo consegue ser mais grotesco que uma corrida de touros na Espanha. Mas, fora isso, os principais expoentes da cultura brasileira parecem ser ligados ao Rio de Janeiro, ou ainda a pólos regionais como Minas Gerais e Bahia. Será que há alguma explicação sociológica ou política para isso?

segunda-feira, janeiro 12, 2009

As Guerras de Trolltooth - Steve Jackson

Uma das coisas que mais marcou o final da minha infância (ou início da adolescência) foi a popularidade dos livros-jogos individuais de RPG da série "Aventuras Fantásticas", publicados pelos autores britânicos Steve Jackson e Ian Livingstone. Durante os anos de 1994 e 1995, os livros viraram uma verdadeira febre entre os jovens, e seus cerca de 30 volumes tornaram-se ítens de coleção. O jogo, basicamente, consistia no uso de uma planilha de dados do jogador (o leitor), dois dados, e uma numeração dos parágrafos do livro. O leitor começa a ler no primeiro parágrafo, e de acordo com uma série de escolhas e decisões que tomava ao longo da leitura, era encaminhado para parágrafos seguintes, podendo fazer com que a história se desenrolasse de diversas maneiras distintas.

O livro "As Guerras de Trolltooth", de Steve Jackson, é um romance (nada de RPG), inspirado nas histórias apresentadas nos livros-jogos. Tudo se passa em um fantasioso mundo de Titan, mais especificamente, no continente de Allansia. O lugar é um ambiente medieval, habitado por uma infinidade de raças humanóides alinhadas com o bem (homens, anões, elfos) ou com o mal (orcs, goblins, trolls, ogros, mortos-vivos), que controlam cidades-estado isoladas, e em permanente estado de guerra entre elas. Nesse mundo, a magia está presente, e os maiores feiticeiros conquistam muito status e poder político. Em resumo, é uma cópia descarada da "Terra Média", o mundo da trilogia "O Senhor dos Anéis", inspirada nas lendas anglo-germânicas arcaicas.

A história que se passa no livro é simples. Uma disputa sobre a posse de ervas com propriedades mágicas (chamadas de Cunnelwort) opõe dois dos mais diabólicos feiticeiros de Allansia: Balthus Dire, senhor-da-guerra suserano de uma infinidade de tribos de humanóides e monstros "do mal", e Zharradan Marr, necromante com poderes sobre seres morto-vivos e criaturas espirituais. Preocupado com o desfecho da iminente guerra, o rei do reino "do bem" de Salamonis envia um guerreiro merceneário chamado Chadda Darkmane para garantir que os dois lados percam, de modo que não haja a possibilidade de surgir um império "do mal" nas proximidades do seu reino. Darkmane se torna o herói da história, e forma uma Sociedade do Anel, quer dizer, um grupo de aventureiros incluindo o elfo-anão Chervah, a feiticeira Lissamina e o mercenário Jamut Mantrapper, para assassinar os dois feiticeiros.

A narrativa ocorre por duas frentes. O autor alterna capítulos descrevendo as estratégias de guerra entre os dois exércitos, e o seu desenvolvimento e impacto sobre a vida dos humanos residentes na região de disputa, com capítulos em que Darkmane viaja por diversas regiões de Allansia para conseguir ajuda para traçar um plano eficiente de eliminar seus dois alvos. No entanto, achei tudo muito monótono, a não ser pelos três últimos capítulos, em que o plano de ação finalmente é executado. A descrição das guerras mágicas e monstruosas tem certa dose de criatividade (aborda as questões puramente estratégicas de maneira mais profunda do que no Senhor dos Anéis), mas exclui a possibilidade de qualquer leitor que não esteja familiarizado com as características das criaturas presentes, isto é, que não seja um jogador de RPG ou leitor do Senhor dos Anéis, entender o que se passa. Por outro lado, a jornada de Chadda Darkmane e seu grupo pelos feudos de Allansia me parece totalmente aleatória, a não ser pelos últimos capítulos do livro, quando se torna interessante. O autor pareceu mais interessado em descrever lugares e criaturas grotescas, presentes nos seus livros-jogos, do que com uma trama coerente. Por fim, existem demasiados personagens e enredos paralelos à guerra e à jornada de Darkmane, cujo desfecho não é claro ao longo do livro. Isso toma o espaço dos temas principais, o que atrapalha a compreensão da história, principalmente porque o livro de um formato de pocket book e tem menos de 300 páginas.

Em suma, sinto que já estou meio velho para esse tipo de leitura. Mas valeu a pena ter adquirido no Beco dos Livros, no Centro de Porto Alegre, só para matar as saudades da infância. E ler alguma coisa que fuja do ciclo economia-pobreza-educação-econometria-metodologia só me faz bem.

quarta-feira, julho 30, 2008

Arquivo X e Mario Quintana

Segunda-feira fui assistir ao novo filme do Arquivo X (Eu Quero Acreditar). De longe, foi o filme mais enfadonho que assisti nos últimos tempos. Conseguiram transformar uma consagrada série de mistério e suspense num dramalhão cheio de clichês existenciais.

Deixo para o Mario Quintana, em "Drácula e os Pesquisadores" (1988) a crítica fundamental ao filme:

"O que chateia nos filmes de vampiros não são os ditos vampiros - em geral uns verdadeiros amores no gênero - mas aqueles dois indefectíveis personagens: um que acredita em tudo e outro que não acredita em nada... Falta-lhes o espírito de disponibilidade - que talvez não seja apenas uma característica do homem moderno, e sim do homem eterno. Ou, no mínimo, do leitor inteligente."

No filme, os "vampiros" são trocados por um padre pedófilo com visões sobrenaturais e por um casal gay de cirurgiões russos psicopatas. Pior ainda!

terça-feira, novembro 20, 2007

Harry Potter e As Relíquias da Morte - J. K. Rowling

Enfim, a saga "Harry Potter" chega ao seu fim, no seu sétimo livro. Como ávido leitor, e fã assumido, não resisti uma promoção de lançamento nas Lojas Americanas e matei esse livro em não mais do que cinco dias, com uma breve interrupção para concluir o trabalho de Modelos Hierárquicos.

Já falei que sou fã assumido da saga de Harry Potter. As histórias são consistentes, os enredos mantém mistérios que cativam a leitura, as histórias sabem alternar fantasias mágicas e realidades da vida inanto-juvenil, desperta a imaginação e a nostalgia e, acima de tudo, incentiva milhões de crianças em todo o mundo a ler. É verdade que muitos dos personagens são descritos de maneira extremamente estereotipada e caricatural, e a maturidade apresentada pelos personagens principais em suas aventuras não corresponde nem de longe àquela presente mesmo em pessoas adultas, no mundo real, nas situações críticas como as descritas nos livros. Porém, a grande maioria das críticas feitas à autora têm conteúdo muito mais invejoso do que propriamente técnico e construtivo.

Todavia, confesso que o desfecho da saga do menino-prodígio-bruxo me deixou bastante decepcionado. O último livro não acompanha, nem de longe, a qualidade das obras anteriores, seja na temática da história em si, seja pelo desenrolar do enredo.

A história baseia-se, basicamente, na luta entre os amigos de Harry Potter (incluindo os antigos personagens membros da "Ordem da Fênix" e da "Armada de Dumbledore"), isto é, o "bem", contra os suportadores do Lorde das Trevas Voldemort (os "Comensais da Morte"), isto é, o "mal". Na história, só há um personagem aparentemente ambíguo, cujo comportamento pende hora para um lado, hora para outro, que é Severo Snape, o professor que Harry Potter tanto odeia. Concluir uma saga com uma grande luta do bem cotra o mal não é nem um pouco criativo, mas, conforme a narração pelo autor, sempre tem boas possibilidades de prender o leitor. Porém, os pontos fracos do livro passam longe daí.

Segundo a narrativa do livro, os suportadores de Harry Potter se preparam para um confronto físico (quer dizer, mágico) diretamente contra os Comensais da Morte, Harry e os seus melhores amigos (Rony e Hermione) se separam do grupo principal, abandonam a escola Hogwarts e partem por uma jornada sem rumo pelo mundo, com o objetivo de destruir os sete objetos que contêm fragmentos da alma de Voldemort (Horcruxes). E essa jornada é totalmente vaga, a narração foca muito mais problemas irrelevantes de relacionamento entre os personagens do que a aventura propriamente dita. Além disso, a autora dá pouquíssimas informações sobre o que acontece na luta formal da Ordem da Fênix contra os Comensais da Morte, o que desperta uma curiosidade insasciável, e uma sensação de incompletude do enredo. Por fim, alguns dos personagens mais clássicos da série são mutilados e mortos nas batalhas tais como baratas, isto é, sem o componente humanístico presente nos livros anteriores quando tais situaçÕes ocorreram. E ainda, no final do livro (sem spoiler), as próprias horcruxes, em sua maioria, estavam localizadas em lugares óbvios e de fácil acesso para os personagens obterem.

Ou seja, o livro dá a impressão de que foi escrito no improviso, isto é, o final da saga não estava planejado pela autora logo no seu início. É um tanto frustrante para os leitores mais "chatos", como eu, mas quem acompanhou toda a série, é improvável que não vá ler o último livro apenas por causa das críticas.

quinta-feira, outubro 18, 2007

O Mapa - Mário Quintana

Momento de saudades, olhando o mapa de Porto Alegre no Google Maps.

Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo...

(É nem que fosse o meu corpo!)

Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei...

Há tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei...)

Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso

Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)

E talvez de meu repouso...

quinta-feira, setembro 13, 2007

A Infância Acabou - Renato Tapajós

Achei esse livro num lixo daqui do Cedeplar, e, pela fome literária que eu tinha acumulada nestes últimos seis meses sem acabar um romance (acho que o último foi um do Sherlock Holmes em fevereiro), eu matei ele de uma vez só.

O livro é infanto-juvenil, da editora Ática, desses que a gente lê na sexta série, no colégio. São 150 páginas, letras grandes, pouca descrição e muitos diálogos e ação. Bom para recomeçar a vida cultural, após quase dois semestres só lendo artigos técnicos...

A história se passa em São Paulo, no final dos anos noventa. Um rapaz de quinze anos vê sua condição financeira se deteriorar muito rapidamente, quando seu pai é demitido do emprego e se separa de sua mãe. Para conseguir pagar o colégio, o personagem tem que se virar, assumir responsabilidades e conquistar independência (como o título do livro já diz, a infância acabou). Consegue emprego de baterista profissional e tenta montar uma revista de bandas independentes com os amigos. Nesse choque de mudança de hábitos de vida, o rapaz entra em contato com as questões do mundo adulto, o pânico da pobreza, a violência urbana, as drogas, o sexo casual, a busca do sucesso. O enredo em si, não tem nada de mais, é bem focado para o público adolescente, nenhum conflito psicológico muito forte, e o personagem principal, idealizado como um verdadeiro herói romântico, supera facilmente todos os seus problemas demonstrando pouca ou nenhuma insegurança. Isso obviamente não é um comportamento nem um pouco verossímil, mesmo para um adulto, mas é de se notar que trata-se do ideal de comportamento visto entre o público-alvo do livro - o jovem que não demonstra fragilidades, vistas como meras infantilidades, e isso pode ser um truque do autor para cativar seus leitores.

Outro ponto de destaque no livro é de que suas seqüências de ações são muito curtas e rápidas, mesmo para um livro de apenas 150 páginas. O enredo central do livro parece ser não uma ação específica, mas o somatório geral delas, isto é, todas as experiências que transformam o personagem principal, supostamente, de criança em adulto. Dentre essas pequenas ações, destacam-se aquelas relacionadas com o posicionamento do personagem com situações sociais características do Brasil atual, como, principalmente, o abismo social. O rapaz pertence à classe média, mesmo que decadente, e, como todos os seus amigos, é músico, fã de trash metal, toca bateria, e briga nas ruas contra gangues de skinheads. Mas, ao longo da história, ele entra em contato com os extremos da sociedade brasileira, isto é, como uma colega sua que faz o gênero típico da patricinha-fútil-interesseira, e uma comunidade de rappers que ele entrevista para sua revista. A impressão que o personagem tem de cada mundo, sob um aspecto emocional e crítico, é muito bem explorada pelo autor.

É claro que o livro tem exageros romântico e estereotipados. Há, por exemplo, um personagem que é um velho hippie que se torna um verdadeiro "irmão mais velho" de todos os jovens, e dá conselhos de todos os tipos para os outro personagens, agindo de maneira mais altruísta do que o razoável para um ser humano. Provavelmente, esse personagem é um alter-ego do escritor, dando sua opinião sobre a sociedade contemporânea. Além disso, trash metal é um gênero musical bem menos popular do que o autor aponta no livro, pelo menos em Porto Alegre, onde eu vivi. Lá, a classe média tenta emular os hábitos de consumo da classe alta em todos os sentidos, e, no plano musical, isso se traduz em um grande gosto pelo pop-standard da Jovem Pan, e por danças de ritmos brasileiros ultra-sensual-vulgarizados. Heavy metal, trash metal e outros sons alternativos são compartilhados pelos indivíduos que não se integram com os grupos majoritários por motivos não-econômicos, como questões intelectuais, psicológicas, sociológicas, ou mesmo por moral pessoal.

Contudo, o grande mérito do autor é tentar pintar a situação cotidiana presente das grandes cidades brasileiras, focando nos indivíduos jovens ("esses monstros", de acordo com o livro do Maffesoli). Numa época em que os tradicionais autores da literatura brasileira parecem simplesmente ignorar a atualidade, prendendo-se no mundo de sua juventude sessentista e setentista, Renato Tapajós faz um grande trabalho ao apresentar alguns fatores da sociedade atual sob um olhar muitas vezes analítico, mas sem o criticismo boçal que caracteriza muitos outros autores brasileiros.

quarta-feira, janeiro 31, 2007

Memórias de Sherlock Holmes - Arthur Conan Doyle

"Memórias de Sherlock Holmes", segunda coletânea de contos sobre os casos do detetive Sherlock Holmes, foi publicada em 1894, e seus 11 contos foram periodicamente publicados em jornais britânicos a partir de 1892. Dentre esses contos, destacam-se a primeira aventura do detetive, em que ele busca decifrar um segredo que levou o pai de seu melhor amigo a ser jurado de morte ("A Tragédia do Glória Scott").

Além disso, nessa obra o autor Conan Doyle buscou "assassinar" seu mais célebre personagem, no conto "O Problema Final". Nele, Holmes foge do Professor Moriarty, um líder mafioso genial, que domina o crime organizado na Inglaterra (um "Napoleão do Crime", nas palavras do detetive), e se refugia com seu fiel amigo Dr. Watson na Suíça. Contudo, Moriarty descobre o paradeiro dos dois personagens e formula um plano para matar Holmes, em um momento em que Watson estivesse ausente. No final das contas, Holmes e Moriarty lutam na beira de um precipício, aparentemente caem, e seus corpos nunca mais são vistos.

Na verdade, Conan Doyle procurou eliminar seu personagem Sherlock Holmes para poder dedicar-se a outros ramos literários, como a ficção científica, e desvincular-se da fama de romancista unicamente policial. Porém, a reação do público à morte de Holmes foi tão forte que ocorreu quase que um "boicote branco" às novas publicações do autor, o que levou o mesmo, para não cair no esquecimento e na pobreza, a "ressuscitar" seu personagem no clássico romance "O Cão dos Baskerville", e depois no livro de contos "O Retorno de Sherlock Holmes".

Observação: na última Feira do Livre de Porto Alegre, comprei (saldo de R$2,50) um RPG inspirado em Sherlock Holmes (A Corôa Contra do Dr. Watson) que remete a essa mesma fase das histórias do personagem. Nesse RPG, Sherlock Holmes é dado como morto, mas, na verdade, está disfarçado como um dos personagens do livro, e descobrir a sua identidade é um dos objetivos do jogo.

Sobre as características dos contos e da psicologia de Sherlock Holmes, os contos não trazem novidades. Crimes aparentemente insolúveis acontecem em qualquer lugar na Inglaterra, os personagens lesados por esses crimes procuram o melhor detetive particular do país (Holmes), que viaja até a cena do crime, faz observações e deduções quase que mágicas e, quando necessário, formula planos mirabolantes para encurralar o criminoso oculto. Assim, Holmes soluciona mais um caso de sua carreira, que é relatado pelo Dr. Watson, fica satisfeito com seu ego e retorna ao seu escritório na Baker Street, Londres. Quanto a Sherlock Holmes como indivíduo, sua descrição profunda é realizada na obra "Um Estudo em Vermelho", sendo que nada precisa ser acrescentado a ela. Contudo, a origem do personagem "Sherlock Holmes" obviamente remete ao Auguste Dupin (o nobre francês falido que tem como hobby a solução de mistérios criminosos) de Edgar Alan Poe. Porém, enquanto Dupin é um ser humano normal, com uma cultura literária, cultural e dedutiva acima da média, Holmes remete a quase um "super-homem", acima da humanidade em traços intelectuais, físicos e analíticos, e com grande orgulho de suas aptidões. Em contrapartida, o detetive muitas vezes se revela megalomaníaco, misógeno, misantropo e, por horas, depressivo, o que contrabalanceia a sua superioridade. Além disso, enquanto Poe é um autor considerado de segunda geração romântica pela maior parte da crítica, Conan Doyle é um legítimo pensador vitoriano, e o culto ao progresso científico, presente entre os autores de sua época, é evidente tanto na fundamentação científica dos elementos misteriosos das tramas, como até mesmo no pensamento cientificista e metódico de Sherlock Holmes.

Quanto à diversão de ler os contos em si, eu sinceramente prefiro os romances. Muitas vezes, o enredo acontece tão rapidamente que torna-se difícil a interação do raciocínio do leitor, fundamental na literatura policial, com as deduções de Sherlock Holmes. E, às vezes, a solução da trama torna-se óbvia para o leitor, mesmo que seja fantástica. Porém, mesmo assim, pretendo adquirir os dois livros de contos do personagem que ainda não li ("Case-Book" e "O Retorno").

O link do Wikipédia para maiores informações sobre o personagem é:
http://en.wikipedia.org/wiki/Sherlock_Holmes

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Citação de Émile Zola

Como resposta aos seus críticos:

"Vocês me tratam de escritor democrático e algo socialista e surpreendem-se de que eu pinte certa classe operária com cores verdadeiras e entristecedoras. De início, não aceito as etiquetas que vocês me colam nas costas. Creio ser um escritor sem epíteto; se desejam classificar-me, digam que sou um romancista naturalista, o que não me desgradará. Minhas opiniões políticas não contam... Quanto à pintura de certa classe operária, ela é tal como a expressei, sem sombra, sem uma atenuação. Eu digo o que vejo, verbalizao simplesmente, e deixo aos moralistas a preocupação de tirar lições. Desnudei as chagas do alto, não iria esconder as de baixo. Minha obra não é obra de partido e de propaganda. Ela é obra de verdade."

Germinal - Émile Zola

"Meu papel foi recolocar o homem no seu lugar dentro da criação, como um produto da terra, submetido ainda a todas as influências do meio; e no próprio homem coloquei em seu lugar o cérebro, um órgão entre outros órgãos, porque não creio que o pensamento seja outra coisa além de uma função de matéria." (Émile Zola)

Émile Zola, francês, foi o criador do gênero de romance naturalista, influenciando autores muito importantes da literatura em língua portuguesa, como Eça de Queirós e Aluísio de Azevedo. Vivendo nas décadas finais do século XIX, em que a fé no progresso e o culto à ciência imperavam nos círculos intelectuais em nível praticamente mundial, o estilo de Zola decorre de uma fusão do romance realista de Balzac, Stendhal e Flaubert, baseados na crítica de costumes sociais, com autores da biologia e da medicina, como Darwin e Claude Bernard. Da fusão do realismo com a biologia, Zola criou a escola naturalista, em que a análise social, crítica, do comportamento de seus personagens busca fundamentos no conhecimento científico da biologia de sua época. Assim, as características mais marcantes de sua obra, presentes também nos demais autores naturalistas, são:

1) Em primeiro lugar, a visão do homem como um animal, movido pela eterna satisfação de suas necessidades biológicas e pela adaptação ao seu meio. Repetidas vezes, Zola descreve as ações e o comportamento de seus personagens humanos como próprias de animais, ou então descreve animais como dotados de comportamento quase humano (como o cavalo Batalha, o "filósofo").

2) Em segundo lugar, a ação humana é muito inluenciada por questões patológicas na obra de Zola. O desenvolvimento da vida de seus personagens depende muito das doenças as quais os mesmos estão submetidos. Obviamente, isso decorre da busca de fundamentação científica para descrever o comportamento humano pelo autor. Assim, enquanto os mineradores, por estarem em contato com mais doenças, já são descritos fisicamente e psicologicamente como adultos logo na puberdade, os jovens burgueses mesmo depois dos vinte anos ainda são vistos como crianças.

3) O determinismo pelo meio. Sendo o homem um animal como todos os outros, vive em busca de se adaptar ao seu meio. Portanto, o meio é um fator determinante ao comportamento humano; é mais forte do que qualquer ação individual. No livro, por mais que fosse sofrida a vida dos mineiros de Montsou, eles nunca conseguiam viver sem trabalhar nas minas, ou então ir embora. Eles parecem biologicamente presos a sua condição, passando de geração para geração.

4) O instinto. Apesar de viver em uma época em que as pessoas intelectualizadas tinham plena fé no desenvolvimento científico e na racionalidade humana, Zola põe na irracionalidade, isto é, nos surtos emocionais de seus personagens, um fator de extrema importância no enredo. Por exemplo, a revolta dos mineradores contra seus patrões decorre muito mais do simples ódio de classe do que um movimento racional para elevar os seus salários.

5) O niilismo. O sofrimento e a injustiça são elementos freqüentes no comportamento humano. Mas, para uma sociedade de animais medíocres, irracionais e presos ao seu meio, por mais revoltante que ele seja, como a sociedade humana, melhoras são praticamente impossíveis.

Em termos de enredo, o livro conta a história de Etienne, um trabalhador qualificado com imulsos socialistas, que por ser demitido de seu antigo emprego por brigar com seu ex-patrão, consegue um emprego de minerador em Montsou. Trabalhando com os demais mineradores, muito mais embrutecidos que ele, Etienne acaba se incorporando ao ambiente de pobreza, promiscuidade e ignorância da comunidade de mineradores. Contudo, por sua natureza socialista e intelectual o faz tornar-se um líder carismático de sua comunidade, incitando os trabalhadores contra seus patrões. COntudo, antes de provocar um luta de classes no sentido marxista do termo, o personagem provoca uma revolta dos humanos contra o seu meio natural, que é muito mais forte do que eles.

A corrente de romance naturalista, mesmo que tenha sido fundamental para o desenvolvimento da literatura ocidental no final do século XIX, e tendo influenciado muitas das escolas modernas, tem a sua metodologia de análise do comportamento humano bastante ultrapassada aos olhos da ciência dos dias atuais. Atualmente, os pesquisadores sociais não acreditam mais no determinismo sobre o homem, isto é, fatores ambientais, patológicos e sociais podem influenciar o comportamento humano em uma escala que depende de indivíduo para indivíduo. Mas há um fator de individualidade (presente inclusive no DNA de cada pessoa) que não pode ser descartado sobre o comportamento, que diferencia as pessoas entre si, e que as fazem tomar ações distintas e criativas, podendo dessa forma se desvincular de seu meio social.

terça-feira, janeiro 09, 2007

A Literatura como Ciência Social

Todos nós, cientistas sociais (economistas, sociólogos, antropólogos, cientistas políticos e jurídicos, historiadores, filósofos) empenhamos nossa vida profissional e acadêmica em desenvolver modelos analíticos, muitas vezes mais complexos do que os das ciências naturais, seja em linguagem retórica ou matemática, buscando compreender, ou melhor ainda, prever o comportamento humano, individual e coletivo.

Contudo, muitas vezes nossos modelos (ou mesmo teses, teorias, enfim...) tornam-se o centro de nossas pesquisas; ao invés de buscarmos prever a realidade usando o nosso instrumental, chegamos muitas vezes a realizar exatamente o oposto: usamos a realidade para prever o que aconteceria nos nossos modelos. Tal fator, se por um lado é importante para a melhoria e a evolução no aparato teórico das ciências sociais, tem a má conseqüência de afastar o pensamento dos intelectuais da esfera social, tornando a ciência, em seu conjunto, aparentemente prolixa para o público leigo.

Por outro lado, em todas as ciências sociais, distintas escolas de pensamento parecem concorrer predatoriamente entre si, cada qual gabando-se de possuir supostamente as melhores teorias e o melhor método de abordagem da realidade. Ao menos na economia, mas acredito que isso se espalhe em todas as demais ciências sociais, tal situação faz com que as escolas de pensamento acabem mantendo suas teorias como dogmas, inflexíveis à crítica (mesmo construtiva), à reflexão e ao debate republicano com as demais escolas, buscando principalmente a chegada a sínteses teóricas e concordâncias entre as correntes ideológicas.

Por outro lado, a literatura parece ser mais parcial, no sentido de ser mais subjetiva. Autores literários, pelo menos a partir de meados do século XIX, tendem a escrever levados muito mais por suas paixões individuais do que a dogmadismos acadêmicos. Mesmo que esse viés individual possa ser (e certamente é) um fator de viés irrealista na narrativa, como se pode perceber no aspecto de pesadelo presente na obra de Franz Kafka, por exemplo, é igualmente óbvio que o mesmo fator também apareça em teses acadêmicas em ciências sociais. Por mais frio que um autor seja em sua abordagem teórica e empírica, certamente na sua conclusão o mesmo dissertará sobre o tema que estiver pesquisando com base não apenas na sua observação, mas em aspectos mais profundos de sua individualidade. Porém, ao contrário da literatura, no mundo acadêmico as obras são duplamente viesadas: tanto pela individualidade do autor como pela sua escola de pensamento. Em resumo, na literatura, o viés da abordagem é meramente subjetivo; nas demais ciências sociais, é ao mesmo tempo subjetivo e coletivo.

Mesmo que ao estudarmos a história da literatura nos deparemos com autores sendo catalogados e rotulados como pertencentes a uma ou outra determinada corrente literária, é preciso se lembrar que tais rótulos são definidos por estudiosos, e não exatamente por esses mesmos autores. Por exemplo, José de Alencar nunca definiu a si mesmo como "Eu sou um romântico"; foi com base em elementos de sua obra e em seu período cronológico que estudiosos o catalogaram como "autor romântico".

Assim, não se deve desprezar a literatura como uma importante fonte de dados e observações para as ciências sociais. Uma boa lida em "O Tempo e o Vento" de Érico Veríssimo pode ser uma fonte de conhecimento talvez muito mais rica do que qualquer manual de história do Rio Grande do Sul, em um exemplo óvio. Mas o mesmo vale para a obra de Mark Twain em relação à sociedade do meio-leste norte-americano em meados do século XIX, ou Charles Dickens e Èmile Zola dissertando sobre as conseqüências socias da Revolução Industrial na Europa.

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Os 500 Milhões da Begum - Júlio Verne

Esse é o último livro do Júlio Verne que eu tinha para ler, depois de ter comprado vários na feira do livro de Porto Alegre por míseros R$2,50 cada!

Júlio Verne em sua melhor fase! Nesse livro o autor consegue, enfim, reunir o romance de aventura fantástica, com complexa fundamentação científica e mistéiros que envolvem o autor. Agora, o autor não se prende por demasiado nem nas explicações físicas e químicas dos acontecimentos (como no Rumo à Lua), e nem nas questões históricas e geográficas (como no Arquipélago em Chamas). Aqui, o que realmente importa é a AÇÃO, isto é, aquilo que os personagens fazem e constroem.

O enredo, resumidamente, inicia-se com a história de uma nobre milionária indiana (Begum) que morre e deixa 500 milhões (acho que de libras esterlinas ou de francos) para seus dois únicos herdeiros: o professor Sarracin, francês, e o professor Schultze, austro-alemão. Depois de cada um sacar suas fortunas, ambos resolvem aplicar o dinheiro em empreendimentos científicos, construindo cidades-estado na costa oeste dos Estados Unidos. Sarracin constrói a "Cidade da Frnaça", com planejamento urbanístico e sanitário que visa maximizar a qualidade de vida (e, em conseqüência, a produtividade do trabalho) de seus habitantes. Schultze, por sua vez, constrói a "Cidade do Aço", marcada pelo culto à obediência, na disciplina e na hierarquia, investindo pesadamente na indústria aramamentícia e exercendo controle totalitário sobre seus domínios. Naturalmente, as cidades vizinhas tornam-se logo rivais, e assim o livro conta a história de Marcelo Bruckmann, um jovem alsasciano (leste da França), que é mandado para trabalhar na Cidade do Aço servindo como espião da Cidade de França. Cabia a Marcelo se infiltrar nas organizações burocráticas dessa cidade para descobrir as armas secretas que o maligno Dr. Schultze estava desenvolvendo para destruir a cidade da França.

Mas lendo o livro com mais cuidado, o enredo descreve, em suma, o choque de modelos de desenvolvimento: o humanismo latino contra o militarismo germânico. Verne, infelizmente adotando estereótipos étnicos para fundamentar suas teorias políticas e institucionais (mesmo que isso fosse recorrente entre os autores do século XIX), discorre sobre as diferenças entre as formas de organização das duas cidades, com uma posição declarada pró-Cidade da França, apresentada como a "heroína", contra a "vilã" Cidade do Aço. Na verdade, Verne parece estar fazendo uma analogia à conjuntura política internacional de sua época. No final do século XIX, os dois principais impérios da Europa (a Alemanha do Segundo Reich e o Império Austro-Húngaro) se aliaram, junto com outros países, em um bloco chamado de Tríplice Aliança, e passaram a hostilizar os países vizinhos mais liberais (França e Inglaterra, que se aliaram à Rússia). Esse período, chamado de "Paz armada", em que os países se preparavam para uma guerra iminente, tendo como objetivo o controle político e militar da Europa, e, conseqüentemente de todas as colônias ná África e Ásia, mesmo faltando um estopim para o conflito, é a mesma situação em que as duas cidades-estado descritas no livro estavam envolvidas.

Para a sorte de Júlio Verne, e da humanidade como um todo, após duas Guerras Mundiais, ficou claro que o humanismo "latino" era superior social e institucionalmente ao militarismo "germânico". Contudo, após as guerras, os países germânicos absorveram muito melhor o modelo humanista-planejado de desenvolvimento, que se traduziram nas suas instituições sociais, políticas e econômicas de social-democracia, obtendo desse modo elevados padrões de qualidade de vida e IDH. Os países latinos, por sua vez, continuaram dominados por regimes autoritários (menos a França, a Costa Rica e outros poucos) até quase o último quarto do século XX.

Por último, é interessante ressaltar a importância que Júlio Verne dá à capacidade criativa individual de seus personagens como motor de todas as suas histórias. Ao contrário dos autores real-naturalistas, seus contemporâneos, que preferiam descrever seus personagens baseados nas suas relações com o meio social em que viviam (o "determinismo pelo meio" de Eça de Queirós e Aluísio de Azevedo), Verne descreve seus personagens principais como entes autônomos e totalmente dotados de livre-iniciativa. Assim, a toda a história do presente livro decorre dos investimentos pessoais de dois professores universitários europeus que subitamente descoriram-se milionários. Do mesmo modo, por exemplo, no livro "20.000 Léguas Submarinas", toda a história deve-se à ação de um milionário francês que, entediado de sua sociedade, resolve enclausurar-se em um submarino e navegar pelo mundo. Ou então o jovem oficial francês, que arrisca a sua vida para ajudar os gregos em sua guerra de independência contra os turcos, no livro "Arquipélago em Chamas". Certamente, a visão de homem de Júlio Verne, e sua diferença dos demais autores de sua época, é um tema muito interessante para estudos.

quarta-feira, dezembro 13, 2006

O Arquipélago em Chamas - Júlio Verne

Isto sim é Júlio Verne!

O romance "O Arquipélago em Chamas", de Júlio Verne, descreve uma história ambientada na guerra de independência da Grécia contra o Império Otomano, na década de 1820. O enredo em si é bastante simples, e meio clichesado: uma donzela romantisada herdeira de uma fortuna de seu pai banqueiro se apaixona por um oficial francês empenhado na guerra, mas foi prometida por seu pai a um temido pirata, a quem seu pai devia dinheiro. Então, o oficial francês, bonzinho, e o pirata, malvado, se juram de morte até o último capítulo, em que lutam até a morte com um final previsível. Mas, apesar disso, a leitura dessa obra é recomendável pela verdadeira aula de história e geografia que fornece ao leitor.

Em primeiro lugar, quem tiver um mapa detalhado das ilhas gragas e do sudeste europeu, é bom que tenha presente em mãos enquanto lê o livro. Várias passagens da obra, e quase capítulos inteiros, se tratam exclusivamente da descrição detalhada das pequenas regiões do arquipélago grego, em termos não apenas físicos e paisagísticos, mas também históricos, mitológicos e culturais. Muitos leitores, como eu, podem se sentir literalmente perdidos diante de tantas descrições de lugares remotos, mas é verdade que essas passagens alimentam a vontade de conhecer os lugares descritos.

Em termos históricos, como já referido, a obra conta a história da formação do Estado Nacional grego, formado a partir de uma violenta guerra contra o Império Turco Otomano. Nessa guerra, que apesar de ser vitoriosa politicamente para a Grécia, teve custos humanos incalculáveis, o que de fato pesou para a vitória dos rebeldes gregos contra o Império foi a adesão em massa dos países da Santa Aliança (incluindo principalmente a Inglaterra, França e Rússia) em favor da causa grega, incluindo ajuda técnica, operacional e militar. Tais fatos dão um bom insight sobre o que estava acontecendo no que diz respeito às relações internacionais da época (década de 1820).

Após a queda de Napoleão (1815), as principais potências européias, em processo de industrialização (umas mais avançadas, como a Inglaterra, do que outras, como a Rússia), e com Estados Nacionais consolidados, ou em via de consolidação (como Itália e Alemanha), decidem se unir em um congresso, decidindo abandonar as intermináveis guerras que vinham travando desde o início de suas histórias, para formar um corpo político de ajuda e cooperação mútua (a Santa Aliança), deixando seus membros mais livres para fomentar o progresso de seus sistemas econômicos e a expansão política e militar para cima de territórios da África e da Ásia, inclusive se unindo contra forças imperiais regionais que ameaçassem sua supremacia.

Assim, o contexto histórico do livro mostra o choque de sistemas político-econômicos que aconteceu nesse período. De um lado, temos o Império Otomano ainda preso às tradições coloniais-mercantilistas dos séculos XVI e XVII, com economia baseada na escravidão e na colônia de exploração, sendo a riqueza concentrada em uma região chamada Ásia Menor (atual oeste da Turquia), em que as cidades de Istanbul e Ezmirna serviam como as grandes metrópoles comerciais. Do outro lado, e em oposição, temos a Santa Aliança, formada pelos países mais ricos e poderosos do mundo naquela época. Seus membros, em grande parte (isto é, fora a Rússia), já haviam superado a forma comercial-mercantilista do capitalismo, e já entravam na II Revolução Industrial. Neles, as relações assalariadas de trabalho já haviam superado as de servidão, e a indústria, e não o comércio, se tornava o carro-chefe de suas economias. Seu objetivo principal, em termos de política externa, era de buscar expandir o comércio internacional e sua influência política sobre o mundo não-industrial, sendo necessário, para isso, enfraquecer, ou mesmo destruir, antigos impérios locais de organização institucional e econômica mais arcaica, como o Império Otomano, a Pérsia, a Índia e a China. E entre essas duas massas políticas e militares, o autor coloca a Grécia como um personagem que busca sua liberdade de maneira valente e combativa, aceitando a ajuda da Santa Aliança, mas que em seu interior ainda conserva elementos considerados antiquados, como o barbarismo de algumas regiões, a anarquia em termos de nação, as rivalidades regionais, e a pirataria generalizada em quase todas as suas ilhas, elementos os quais estavam sendo derrotados pelas forças aliadas na guerra, e desaparecendo do memso modo do que o domínio turco.

Obviamente, essa abordagem de Júlio Verne foi otimista demais em relação ao futuro da Grécia. Após a guerra de independência, várias ilhas gregas tornaram-se protetorado de França e Inglaterra, quebrando a unidade nacional, o país continuou envolvido em guerras contra os vizinhos e continuou sendo um dos mais pobres da Europa até meados do século XX.

domingo, novembro 26, 2006

Da Terra à Lua - Júlio Verne

De volta do Rio! E rumo a Belo Horizonte - UFMG-CEDEPLAR!

Júlio Verne é, sem dúvida, um dos maiores nomes da literatura mundial do século XIX, sendo suas principais obras permanentemente relançadas em novas edições, em diversos idiomas e países. Segundo a crítica, o estilo de Júlio Verne conseguiu associar a literatura fantástica do Romantismo de segunda geração (Byron, Poe), mas com muito menos morbidez, com o cientificismo da literatura Real-Naturalista (em português, representada por Aluízio de Azevedo e Eça de Queirós). Dessa fusão entre dois estilos aparentemente antagônicos, Verne iniciou a literatura denominada "Ficção Científica", que explora a narração de temáticas fantásticas, criativas e, principalmente, não-convencionais do ponto de vista da sociedade, sob uma forte fundamentação das leis científicas conhecidas na sua época.

Todavia, se Júlio Verne produziu obras-primas como "Viagem ao Centro da Terra" e "A Volta ao Mundo em 80 Dias", certamente não se pode dizer o mesmo de "Da Terra à Lua". Aqui, a fundamentação científica da narrativa é demasiadamente predominante, rompendo o equilíbrio entre "Fantástico" e "Científico" que deu ao autor toda a sua fama mundial e o seu lugar de honra na história da literatura de ficção. A quase ausência de ação, assim como a extrema irrealidade do enredo (uma sociedade privada de ex-combatentes da Guerra Civil Americana resolve construir um mega-canhão para dar um tiro na Lua, por iniciativa unilateral e arrecadação de recursos próprios, e um intelectual meio louco francês pede para ir junto com o projétil), acaba por tornar o livro um tanto monótono, o que o diferencia muito dos demais textos do autor.

Chamam a atenção no livro a analogia a teorias da época que hoje não seriam aceitas como "científicas", já que se voltam muito mais para a filosofia e a metafísica do que para a observação empírica da natureza e da realidade, e são essas teorias que dão um fundamento lógico para a empreitada dos personagens. Por exemplo, vemos, citado pelo próprio personagem principal Miguel Ardan, o princípio na inexistência de não-utilidade. Segundo essa curiosa teoria metafísica, nada no Universo é inútil, não há desperdícios naturais. Portanto, a vida não pode ser disperdiçada no Universo, o que faria com que todos os astros tenham condições ideais para a vida humana. Obviamente, sob a luz da ciência contemporânea, tais princípios são quase piadas, e praticamente toda a engenharia realizada pelos personagens seria fracassada.

Contudo, é inegável o mérito de Júlio Verne de ter imaginado a possibilidade de o homem chegar à Lua, e até ter proposto um meio para alcançar esse objetivo, a cerca de 100 anos antes de o homem ter conseguido de fato chegar lá.

quarta-feira, novembro 08, 2006

As Aventuras de Huckleberry Finn - Mark Twain

"Toda moderna literatura americana procede de um livro de Mark Twain, Hucleberry Finn." Ernest Hemingway

"Aviso: se alguém tentar encontrar um tema nesta narrativa, será processado; se tentar encontrar uma moral, será banido; se tentar encontrar um enredo, será fuzilado." Mark Twain

Em primeiro lugar, Huckleberry "Huck" Finn é um clássico não apenas da moderna literatura americana, mas também da Semana da Criança do Cinema em Casa, pelo menos durante toda a minha infância (risos). Um filme de qualidade de produção bastante arcaica, em que um menino de cerca de oito ou nove anos, filho de um cowboy bandido que não o deixava ir a escola, foge de casa, matando um porco e espalhando o sangue por toda a cabana em que vive com o pai, para dar a impressão de ter sido assassinado. O pequeno Huck toma uma jangada e se lança, sem rumo algum, ao longo do rio Mississipi, com a companhia de um escravo fugido chamado Jim.

No livro, Huck já é um adolescente de 13 ou 14 anos, já maduro em termos emocionais, e foge com seu amigo Jim em busca "dos Estados Livres", isto é, os estados americanos em que a escravidão já havia sido abolida. No entanto, os dois personagens não tem a menor noção a respeito do caminho para esses estados, e rumam com sua jangada ao longo do rio Mississipi, sempre na direção sul. Ambos vivem uma vida nômade, de fuga pelo rio, sem outro rumo que não o sul, e sem qualquer perspectiva de vida futura; vivem apenas pensando no dia de hoje.

A obra, baseada nas lembranças da infância e juventude do autor Mark Twain, descreve de maneira fiel as características sócio-ambientais da região rural norte-americana, entre os montes Apalaches e o rio Mississipi, em meados da metade do século XIX. Dentre essas características, as mais marcantes ao longo do livro são o bucolismo, já que ao longo de centenas de quilômetros ao redor do Mississipi, o autor não faz nenhuma referência a qualquer grande cidade da região, ou mesmo à vida urbana, mas sim a um emaranhado de fazendas, pequenas vilas esparsas e muito terreno selvagem; a religiosidade do povo, sendo muitas vezes a religião cristã misturada com crendices populares e superstições de origem africana como forma de se buscar entender o mundo e atrair boa sorte; a hospitalidade das pessoas, especialmente com desconhecidos; a abundância de aventureiros, isto é, nômades, vagabundos ou vigaristas que vagam de povoado a povoado abusando da hospitalidade das pessoas como forma de não apenas sobreviver, mas também procurar furtuna pessoal. Por último, e em destaque, é notável a quase inexistência de autoridades legais na sociedade, salvo um ou outro xerife ou juiz de determinadas vilas. A lei é feita pelas próprias pessoas, a segurança é realizada pelos próprios fazendeiros e suas espingardas. A punição aos bandidos e escraos fugidos é decidida por esses fazendeiros no poder da voz, e na hora de o meliante ter sido acompanhado.

"As Aventuras de Huckleberry Finn" é uma continuação de "As Aventuras de Tom Sawyer", que eu já tinha lido a quase um ano. Porém, ao contrário deste último, em que o "enredo" da história é marcado pela leveza e pelo bom-humor, "Huckleberry Finn" tem um fator que faz a história ficar pesada, isso é, um fator que preocupa e instiga o leitor. Esse fator é a questão da escravidão, popular nos estados norte-americanos do sul, e presente em todos os ambientes descritos no livro, assim como a relação moral entre o jovem Huck e seu amigo negro fugido Jim. Durante quase toda a narrativa, Huck sente remorso por estar em companhia de um escravo fugido, isto é, de ter ajudado a roubar um negro, propriedade legítima de uma pobre velhinha que nunca fez nada de mal a ninguém. Por isso, muitas vezes sente-se um verdadeiro ladrão por não denunciar o negro, temendo inclusive ser condenado ao fogo do inferno por isso. E ainda por cima, Huck (como o narrador em primeira pessoa da história), tem idéias e frases sobre os negros (inclusive seu amigo) que hoje muito bem poderiam ser taxadas (e com razão) de racistas. Ao elogiar Jim, Huck comenta que "sabia que Jim era branco por dentro", ou então, "Jim é muito inteligente, para um negro". Ao discutir com Jim, comenta que "Jim é cabeça-dura, como todo negro". Ou, pior ainda, quando Jim lhe revela a intenção de, depois de se mudar para um Estado Livre, trabalhar duro e economizar dinheiro para comprar a liberdade de todos os seus parentes, Huck pensa sozinho que "não se pode dar um dedo a um negro, que eles vão querer a mão inteira".

Todavia, apesar de toda a confusão moral de Huck a respeito de ter ajudado um escravo a fugir, ele mantém-se fiel a seu companheiro em toda a narrativa, não só não o denunciando, como também o ajudando a fugir sempre que Jim é capturado por algum caçador de recompensas. Todavia, o sentimento que move Huck a fazer isso é a amizade que tem pessoalmente por Jim; jamais toca na moralidade ou não do regime de trabalho escravo ou na igualdade de direitos entre brancos e negros.

Em resumo, o livro é, indubitavelmente, um grande clássico da literatura americana e uma verdadeira lição de história e de antopologia. Mas, ao contrário da maioria das obras de Mark Twain, não se pode esperar bom-humor e o romantismo ficcional (como em "Tom Sawyer" e O "Príncipe e O Mendigo"). A questão racial e escravagista realmente sensibiliza os leitores.

segunda-feira, outubro 30, 2006

Caninos Brancos - Jack London

Essa é a ressurreição de um pseudo-crítico literário!

"Caninos Brancos" é o segundo romance de Jack London que eu tive a oportunidade de ler (o outro foi "O Chamado da Floresta"), e o método narrativo, assim como as descrições psicológicas dos personagens, é muito semelhante nas duas obras. O autor descreve a história da vida de animais como se eles fossem seres humanos, isto é, abordando não apenas seu desenvolvimento físico, mas também (e com muita ênfase) sua evolução psicológica e suas emoções e sentimentos. Igualmente, o autor discorre sobre as relações entre os personagens, o meio em que vivem e suas relações com os outros indivíduos (de sua espécie ou não) para tentar explicar os seus comportamentos.

Enquanto em "O Chamado da Floresta" a narrativa descreve a história de um cão doméstico que é roubado e enviado para o Alasca, passando por um incrível processo de adaptação ao meio selvagem e natural, "Caninos Brancos" mostra exatamente o oposto. Agora, a história é sobre um lobo selvagem do norte do Canadá que é domesticado por índios, depois vendido a um dono de rinhas e por fim vendido a um advogado de San Francisco. A ênfase da história é o processo de adaptação, psicológica e emocional, pelo qual o lobo Caninos Brancos passa ao longo de cada fase de sua vida, sendo que esse processo é descrito de forma idêntica ao desenvolvimento de um ser humano.

Assim, vivendo em seu meio natural (o Wild), Caninos Brancos aprende o seu instinto, e as leis da natureza (basicamente, "Comer ou ser comido"). Vivendo com os índios, aprende o senso de Obediência (de um modo como que religioso) com os humanos (descritos como deuses todo-poderosos para os cães) e a Solidão, pela rejeição que sofreu perante os cães domésticos da tribo, por ser um lobo selvagem. Vivendo como lutador com o dono de rinhas, Caninos Brancos aprende o Ódio, e se torna um assassino nato. Por fim, com o último dono, o lobo conhece o Amor, e torna-se perfeitamente adaptado à vida doméstica e entre os sere humanos.

Mas o mais interessante da narrativa de Jack London é a sua maneira de enxergar o desenvolvimento dos indivíduos - animais ou homens. Muitas vezes ao longo do enredo, o autor descreve as potencialidades (principalmente durante a infância, mas presente ao longo de toda a vida) de cada indivíduo como "barro", o qual é moldado pelo meio em que esse mesmo indivíduo vive e pelas relações sociais que pratica, tendo como resultado final as características pessoais e a personalidade de cada um. Tal visão de indivíduo e sociedade remete ao Naturalismo (corrente literária predominante na segunda metade do século XIX), a qual defendia o determinismo do indivíduo pelo seu meio. Mas ao contrário dos autores naturalistas, que viam o determinismo como algo estritamente negativo, que anularia a criatividade e a virtude de cada indivíduo em vantagem dos vícios (ou as "doenças") da sociedade, Jack London tem uma visão mais otimista, destacando a possibilidade de um "determinismo positivo", no caso de um indivíduo, mesmo se for selvagem, se for suficientemente amado e reconhecido pelo seu meio, poder tornar-se virtuoso. No livro, temos o caso de um lobo que era um animal hostil até encontrar o significado do amor e do respeito com seu último dono e sua família.

quinta-feira, agosto 24, 2006

Algumas Citações de Oscar Wilde

OBS: O estudo para a prova da ANPEC vem consumindo a minha criatividade ultimamente. Mas pretendo voltar a criar novos textos em breve.

"O homem perfeitamente bem informado, eis o ideal moderno. E o cérebro do homem perfeitamente bem informado é uma coisa horrorosa, uma espécie de bricabraque atulhado de monstrengos e de poeira, com tudo tabelado abaixo do verdadeiro valor."

"A finalidade da vida é para cada um de nós o aperfeiçoamento, a realização plena da nossa personalidade."

"A humanidade toma-se muito a sério (...) É o pecado original do mundo. Se o homem das cavernas soubesse rir, a história seria diferente."

"As mulheres representam o triunfo da matéria sobre o espírito; exatamente como os homens representam o triunfo do espírito sobre a moral." (obs. Oscar Wilde era bissexual)

domingo, julho 16, 2006

O Retrato de Dorian Gray - Oscar Wilde

O Retrato de Dorian Gray é a obra-prima do irlandês Oscar Wilde, e sua trama, isto é, o seu enredo, é bastante complexo, exigindo minuciosa interpretação.

O livro conta a história de um rapaz (Dorian Gray), modelo de pintura, que, influenciado por um amigo (Lord Henry), toma consciência de sua aparência física singular, assim como da limitação de sua aparência ao longo do tempo, pensa em realizar um pacto com o diabo, de modo que o seu retrato envelheça no lugar dele próprio, ao longo dos anos. E, inexplicavelmente, isso acontece. Além disso, Lord Henry apresenta a Dorian Gray o hedonismo, isto é, ter como objetivo de vida simplesmente a satisfação de suas necessidades e a busca de novos prazeres, ignorando toda e qualquer forma de moral, vista pelos personagens como uma indesejável influência da sociedade sobre os indivíduos. Por isso, décadas se passam, Dorian Gray se entrega a uma vida voltada para festas, drogas e crimes, sendo que apenas o seu retrato sofreria as conseqüências físicas de suas ações.

O livro é cheio de pequenos trechos cujos personagens e suas ações muitas vezes não parecem fazer sentido lógico, o que torna o livro de difícil compreensão. Mas, tendo algum conhecimento sobre a vida e a obra de Oscar Wilde, assim como de suas influências, algumas conclusões podem ser tomadas.

Oscar Wilde, em seu segundo prefácio, mostra-se simpático aos ideais parnasianos, criticando o irrealismo da arte Romântica (o despeito de Calibã por não ver seu rosto no espelho) e a vulgaridade da literatura Realista. Segundo o autor, a arte não deve ter nenhuma influência de qualquer expressão ética ou moral, mas sim expressar a busca, por cada artista, de seu conceito de beleza plena. Ou seja, a arte seria um objetivo em si mesma (arte pela arte), determinada apenas pela intenção do artista em expressar o seu conceito de beleza formal. Em um trecho da obra, Wilde explica que um livro nunca pode ser rotulado de "imoral"; a imoralidade está na sociedade em que o artista vive, e que influenciuou (negativamente, para o autor) o livro. Portanto, para interpretar o "Retrato de Dorian Gray", deve-se evitar procurar críticas sociais, e deter-se mais nas questões individuais e formais artísticas.

No prefácio, o autor deixa claro que o primeiro capítulo de sua história é baseada em um fato real, sendo que Wilde corresponde ao Lord Henry. Por isso, a filosofia hedonista como ideal de vida ao homem corresponde exatamente ao seu ponto de vista. Ou seja, não parece sensato associar o Lord Henry ao diabo, que tenta os homens, como vários críticos apontam.

A meu ver, o livro conta na verdade a própria contradição entre arte e moral, exposta por Wilde no seu prefácio. Assim, Dorian Gray representa a arte como ela deve ser, formalmente e esteticamente plena, sendo que Lord Henry, ao defender perante Dorian o hedonismo como um ideal, defende a desvinculação entre a expressão artística e a moral social. Já o retrato representa a consciência da arte, isto é, a visão que a sociedade tem dessa expressão artística, que sempre acaba distorcida e deformada pelos vícios da própria sociadade, e repassados à obra. Tal consciência acaba por gerar os conflitos entre o artista e sua obra, o que no livro significou o assassinato do pintor do retrato (o artista) por Dorian Grey (sua obra), devido a sua revolta pela deformação de seu retrato (a consciência da arte).

Por fim, Dorian Grey não envelhece nunca, mesmo não tendo realizado nenhum esforço para manter sua juventude (nem mesmo pactos com o diabo, como a crítica tradicional sugere). O que pode simbolizar isso? Muito provavelmente, o autor quis transmitir a idéia de que a beleza, como um ideal artístico, é fixa e imutável ao longo do tempo, isto é, de que os artistas, em qualquer época e qualquer lugar, buscam sempre expressar esse ideal de beleza, mesmo que suas obras e seus modelos variem.

terça-feira, abril 04, 2006

As Minas do Rei Salomão - Henry Rider Haggard

É notável a tendência, nos últimos séculos, que os escritores de ficção têm de buscar lugares mágicos para ambientar suas histórias, como forma de fugir do ambiente monótono e racionalístico em que o autor e os leitores vivem. Nas últimas décadas do século XX, o lugar preferido dos autores de ficção, seja de livros, seja de cinema, é o espaço sideral, um infinito longe da realidade social humana. Já no final do século XIX, enquanto que a Europa se consolidava ao mesmo tempo a Segunda Revolução Industrial, tornando as paisagens urbanas cinzentas, frias e artificiais (no sentido de ser algo fora da natureza) e o processo que Max Weber denominou de "desencantamento do mundo", isto é, a racionalização e a burocratização de todas as relações humanas, os autores de ficção "escapavam" de suas realidades para o mundo selvagem, não-europeu, não-industrial.

Fugir da realidade. Fugir da racionalização excessiva das instituições humanas. Buscar o mágico, o inexplicável, o fantástico que povoa as mentes humanas desde os tempos imemoriáveis. Chega de determinismos superficiais, análises psicológicas e generalizações patológicas, que tanto povoaram a literatura real-naturalista internacional na segunda metade do século XIX. Vamos buscar a natureza, nos encontrarmos como os bons selvagens, em completa liberdade, que éramos antes de sermos dominados por esta prisão chamada de civilização. Esta é uma síntese do pensamento romântico, que influenciou diretamente os contos fantásticos do final do mesmo século.

As Minas do Rei Salomão, de Henry Haggard têm como principais personagens figuras idealizadas no melhor estilo primeira geração romântica: um explorador destemido, exemplo de força e de coragem (Allan Quatermain), um lorde inglês, herói nacional (barão Curtis), um perfeito gentleman vitoriano (capitão John), e um misterioso príncipe africano. Porém, mais importante que todos essas figuras, o principal personagem do livro é a África, o continente selvagem, misterioso, algo como puro, em relação à civilização. Todas as descrições ambientais, com a exceção do deserto que os personagens têm que atravessar logo no início da narrativa, tem algo de paradisíaco: oásis, savanas, animais colossais, aventuras, enfim, a liberdade.

A história central do livro, diga-se de passagem, é totalmente fantasiosa. O barão Curtis e o capitão John contratam o caçador de elefantes Allan Quatermain para explorar as montanhas do centro da África, com o objetivo de encontrar uma arcaica colônia fenícia onde o rei Salomão, de Israel, havia guardado os seus tesouros, incluindo diamantes gigantes. É algo tão absurdo que não vale a pena nem tentar explicar. Além disso, para leitores do século XXI acostumados com a febre do politicamente correto, a narrativa parece preconceituosa com os costumes dos nativos africanos, descritos como superticiosos, arrogantes e indolentes. Contudo, não se pode esquecer que a história foi escrita por um inglês da época vitoriana, o auge do Imperialismo Britânico e do orgulho que acarretou para os cidadãos. Ou seja, na verdade, não há uma rejeição do caráter africano, mas sim uma super-estimação dos personagens britânicos.

O livro, em suma, é uma boa recomendação para quem quer deixar de lado os problemas da vida por um momento e sonhar, viajar para uma terra distante e fantástica.