quinta-feira, setembro 28, 2006

Ortodoxia X Heterodoxia

Desde a famosa discussão entre David Ricardo e Thomas Malthus sobre a tendência natural da economia de mercado ao equilíbrio, a ciência econômica se dividiu, ao longo de seu desenvolvimento, em incontáveis correntes e escolas de pensamento, cada qual seguindo determinados axiomas e metodologias de análise.

Geralmente, as novas escolas de pensamento econômico surgem como contraposição às idéias predominantes no seu período. Por exemplo, Malthus, ao defender que excessos de poupança agregada poderiam deixar uma economia de mercado fora de uma situação de equilíbrio de pleno-emprego, rompeu com a Lei de Say, incontestável pela Economia Política Clássica. Depois, a Escola Histórica Alemã bateu no pressuposto de que as leis econômicas são universais, defendendo que cada nação tem uma cultura econômica característica. Marx, por sua vez, atacou as bases morais do capitalismo, até então vistas como decorrência do direito natural do homem e da disposição natural das pessoas à troca. No início do século XX, Keynes, tal como Malthus, negou a tendência da economia de mercado ao equilíbrio, pelo que o autor denominou de princípio da demanda efetiva. Schumpeter, por sua vez, desconsiderou o desenvolvimento linear da economia capitalista, apresentando sua teoria dos ciclos. Por fim, a Éscola Austríaca negou a possibilidade de descrição quantitativa (matemática e estatística) dos fenômenos econômicos, pela complexidade da ação humana.

Nas últimas décadas, com o declínio da Escola Keynesiana, tornou-se comum nos meios acadêmicos denominar de "Ortodoxia" as correntes predominantes ao longo de todo o desenvolvimento da Ciência Econômica (Economia Política Clássica, Teoria Neoclássica, Síntese Neoclássica da Teoria Geral Keynesiana, Monetarismo e Novo-Classicismo), também conhecida como o "Mainstream" da Economia, defendida pelos grandes centros acadêmicos, e "Heterodoxia" as correntes de oposição, sendo as principais citadas no parágrafo anterior.

Atualmente, a dicotomia entre "Ortodoxos" e "Heterodoxos" dentro da Economia tende a deixar de ser um debate sobre axiomas e pressupostos sobre a análise empírica da disciplina, e se tornar um verdadeiro choque de visões de mundo. Expicando melhor, Ortodoxos e Heterodoxos não se preocupam tanto em discutir campos tradicionais de controvérsia na Economia, tais como o papel do Estado no desenvolvimento (liberalismo ou planejamento ativo), o comércio internacional (vantagens comparativas ou deterioração dos termos de intercâmbio) e a relação entre crescimento econômico e bem-estar social, a tampouco se apegam a determinadas correntes políticas (direita ou esquerda), mas sim tendem a criar um duelo de opiniões sobre a própria natureza da ciência econômica e seu papel na sociedade.

Por um lado, vemos economistas ditos "Ortodoxos", orgulhosos por se considerar na "fronteira da ciência", admirando engenheiros, menosprezando sociólogos, e de vez em quando largando pérolas do tipo "se eu pudesse voltar no tempo, teria estudado matemática, em vez de economia". Por trás desse compertamento, estão as características das próprias ciências naturais contemporâneas, marcadas pela frieza, pelo determinismo estrito (a não ser pela "Teoria do Caos", que não é muito conhecida) da realidade aos modelos já apresentados e descritos, e o caráter prático da atividade profissional, isto é, a idéia de que o economista deve ser preparado para FAZER, e não para ARGUMENTAR, sendo portanto, os campos de controvérsia da Ciência Econômica deixados de lado.

Por outro lado, os economistas ditos "Heterodoxos", seja lá de qual corrente, se preocupam mais em humanizar os grandes problemas econômicos, em deixar a formalização matemática em segundo plano, em defender a multidisciplinaridade entre as ciências sociais para uma melhor observação da vida e da sociedade humana. Dessa maneira, a economia deixa de ser uma ciência estritamente positiva para assumir um lado mais moral (tal como era nos seus primórdios, na Economia Política Clássica), e o profissionalismo prático dá lugar a um caráter mais intelectual para o economista. Todavia, algumas vezes vemos economistas de correntes heterodoxas criticando a ortodoxia sendo a crítica um objetivo em si mesmo, isto é, não com o objetivo de correção, mas com a intenção de desmerecer os adversários, o que é prejudicial não só à atividade profissional e científica, mas sim à própria convivência democrática nos centros acadêmicos de Economia. Ou então, outros Economistas elegem como seus "guias" ou "mestres" os principais expoentes e/ou fundadores de suas correntes heterodoxas, e considerá-los a verdade absoluta, impassíveis de críticas, o que acaba por corromper a própria noção de Ciência Econômica, tornando-se algo como uma religião.

Fazendo uma analogia, a atual disputa na Ciência Econômica se assemelha à disputa entre os Românticos e os Realistas na literatura mundial na metade do século XIX.

Não cabe a nenhum economista, individual ou coletivamente, independentemente de suas escolhas ideológicas e profissionais, julgar qual das correntes Ortodoxas e Heterodoxas detém a verdade científica absoluta, uma vez que esse próprio conceito é passível de controvérsias. Além disso, nada sabemos sobre o que será "ortodoxo" ou "heterodoxo" na economia daqui a vinte ou trinta anos. Mas é importante que seja assegurado a todos os profissionais da economia o direito a expressar aquilo que acredita, sem linchamentos morais, de modo a evitar que os debates intelectuais se tornem verdadeiros campos de batalha, como já vem acontecendo.

quinta-feira, setembro 21, 2006

Debate acerca do Currículo do Curso de Economia da UFRGS

O presente texto se baseia em dois fatos empíricos:

FATO 1 - Praticamente 100% dos alunos do curso de Ciências Econômicas não concordam com o atual currículo do curso. Tal opinião é compartilhada tanto pelos alunos que, de uma maneira geral gostaram de ter cursado essa opção acadêmica (como é o caso deste autor), como por aqueles alunos que prefeririam ter escolhido outra coisa no vestibular (destes, é verdade, poucos chegam a se formar, mas sua opinião deve ser igualmente valorizada).

FATO 2 - Ao ser perguntado sobre qual seria a sua idéia de currículo ideal para o curso, cada aluno de Ciências Econômicas da UFRGS tem uma opinião muito particular; é muito difícil encontrar consensos. Alguns gostariam de mais matemática, para melhor competir com os engenheiros no mercado de trabalho; outros gostariam de mais Teoria Macro e Micro; outros prefeririam mais cadeiras de economia aplicada, voltadas para o mercado profissional.

Depois de muitos debates entre alunos de diversos círculos sociais dentro da comunidade acadêmica (bolsistas, membros do diretório estudantil, formandos, calouros, etc.), pude destacar algumas conclusões, isto é, pontos principais de divergência dos alunos em relação ao currículo atualmente vigente:

1- O currículo é demasiadamente rígido. Muitas cadeiras que são obrigatórias poderiam muito bem ser eletivas (tais como Economia Agrícola, Política e Planejamento Econômico), o que melhoraria inclusive a qualidade do ensino dessas aulas, já que apenas os alunos realmente interessados no conteúdo iriam se matricular.

2- As cadeiras introdutórias, dos 3 primeiros semestres, também podiam ser flexibilizadas. Antes de ter uma base quantitativa suficiente para enfrentar a teoria Microeconômica e a Contabilidade Social, os alunos deveriam ter opções de disciplinas para cursar no início do curso. Ser forçado a fazer Introdução a Administração, Instituições de Direito e Metodologia da Ciência, não dá para agüentar mais.

3- As sugestões dadas por diferentes alunos a respeito de melhorias no atual currículo do curso refletem, em primeiro lugar, os seus objetivos particulares no futuro profissional (isso não é uma crítica, é uma constatação). Quem quer fazer mestrado, geralmente acha melhor que o curso de economia se resumisse a uma cadeira de matemática, outra de estatística, outra de teoria micro e outra de teoria macro por semestre. Contudo, um currículo desses seria estupidamente acadêmico, sem qualquer viés profissionalizante, e desfavorável àqueles que não podem / não querem fazer pós-graduação imediatamente após o término do curso. Por outro lado, ter um curso de "Economia Empresarial", voltado apenas para o lado prático da economia deixaria os alunos longe do mundo acadêmico e das perspectivas de fazer mestrado, pois não haveria espaço para a carga teórica exigida pelo exame da ANPEC.

Portanto, a melhor solução encontrada para a compatibilização do currículo do curso de Ciências Econômicas da UFRGS com os interesses dos alunos seria a divisão do curso em ênfases. Nesse caso, fariam parte do currículo básico, comum para todas as ênfases escolhidas pelos estudantes, as cadeiras de base quantitativa (matemática, estatística e econometria), base teórica fundamental (introdução à economia, introdução à contabilidade e contabilidade social), Teoria Microeconômica, Teoria Macroeconômica, Economia Internacional e Economia Brasileira.

Em relação ao resto do curso, os alunos realizariam disciplinas eletivas, agrupadas em ênfases acadêmicas, de acordo com suas preferências profissionais. As três ênfases básicas que são propostas são Economia Empresarial (voltada ao setor privado, com destaque à Economia Industrial, Mercado de Capitais e Administração Financeira), Economia do Setor Público (incluindo cadeiras como Economia Política, Política e Planejamento Econômico, além de Direito Aplicado) e, para aqueles que pretendem realizar a prova da ANPEC e seguir vida acadêmica, uma ênfase em Teoria Econômica, que abrangeria conhecimentos teóricos mais avançados, e abrangendo diversas correntes de pensamento econômico, ortodoxas e heterodoxas.

segunda-feira, setembro 11, 2006

Review - The Number of the Beast (Iron Maiden)

Para aliviar um pouco a minha cabeça dos estudos para a ANPEC, lá vou eu escrever mais um post intimista.

Esse foi o meu primeiro "grande" disco. Foi o primeiro clássico do rock pesado que eu comprei, lá em meados de março ou abril de 2000 (putz, como estou ficando velho!).

Nessa época eu tinha 15 anos, e já estava decicido que o rock'n'roll (pesado ou não) era o meu estilo musical de sangue, e procurava insistentemente a "banda ideal" (um visível caso de um adolescente procurando ídolos externos para se espelhar, mas isso é melhor deixar pra lá). Eu já ouvia Sepultura, Metallica (moderno) e Marilyn Manson, mas não estava satisfeito: precisava encontrar a banda que conseguisse associar o peso do heavy metal (guitarras distorcidas e ritmo forte) com melodias realmente musicais (ao contrário de Sepultura e Marilyn Manson, que eu progressivamente fui deixando de lado) e instrumentistas de técnica apurada.

Já tinha ouvido boas opiniões de amigos que tinham esse disco, e quando eu fui ouvir pela primeira vez (na Banana Records do Iguatemi, eu me lembro) ... só pensei: "É essa, A banda!". Comprei o disco imediatamente (era época em que o CD original e novo custava em torno de 20 reais, um preço acessível para o consumidor brasileiro, ao contrário dos 40 pila atuais, mas também é melhor deixar pra lá).

The Number of The Beast é o primeiro disco do Iron com o Bruce Dickinson nos vocais, e, muito provavelmente, é o melhor disco da história da banda. De cara, as minhas músicas favoritas foram Invaders e Run to The Hills, que por sinal, são as mais rápidas (também... eu era acostumado a curtir Sepultura...). Mais tarde, conforme meu gosto musical foi mudando, se aprimorando (ou não), passei a dar maior destaque para as músicas mais refinadas e complexas, como Children of The Damned, uma balada de refrão muito forte, e Hallowed be Thy Name, commais de 7 minutos de muitos solos e riffs de guitarra. Mas, na real, cada faixa tem o seu valor, a sua própria inspiração, o que faz do disco como um todo um grande ponto de destaque na história do heavy metal e do rock internacional.

Hoje em dia, minha índole rockeira já está bem abastecida com obras de bandas como AC-DC, Black Sabbath, Nightwish, Chuck Berry, Led Zeppellin, entre muitas outras. Mas cada vez que eu pego esse disco, e principalmente quando escuto os primeiros riffs de "Invaders", eu me lembro daquele adolescente recém-convertido ao mundo do rock, que tinha como principal meta de vida procurar a "banda ideal", os seus ídolos e, no final das contas, a definição de sua própria identidade pessoal e de sua personalidade, manifestada pelos seus gostos artísticos.

OBS. Pra quem agüentou ler até aqui, esse post foi só para eu me lembrar que em outras fases da minha vida as minhas preocupações e metas pessoais não se resumiam a encontrar pontos de tangência e pontos na prova da ANPEC. Agradeço a compreensão.

segunda-feira, setembro 04, 2006

Uma Música

Abra o SoulSeek, o Kasaa, o Emule, ou qualquer programa desses.

Procure por Nightwish - Wanderlust. Baixe.

Aprecie.

domingo, setembro 03, 2006

Ensaios sobre o Capitalismo no Século XX - Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo

Ganhei este livro de presente da minha ex-chefe-orientadora, em ocasião da minha formatura na UFRGS. Foi muito bom lê-lo para lembrar que existe economia (e por que não dizer VIDA) fora dos estudos para a ANPEC.

Belluzzo é economista da Unicamp, obviamente heterodoxo roxo, apresentando tanto as qualidades como os defeitos da sua corrente ideológica. Como qualidades, pode ser destacada a sua capacidade de relacionar a economia com as demais ciências sociais (história, direito, sociologia, ciência política), ao invés de se fechar em um mundo próprio, inclusive com um idioma próprio (o "economês"), como muitos economistas - de qualquer orientação - fazem. Com isso, o autor consegue quebrar muitos postulados teóricos que nós, economistas, tomamos como dados sem nenhum questionamento.

Por exemplo, Belluzzo faz uma crítica muito relevante à "naturalização" do capitalismo, tal como é feita pelo mainstream da intelectualidade internacional contemporânea. Tal visão teórica aponta que as instituições vigentes na nossa sociedade atual são decorrentes da "natural disposição do homem à troca", sendo, portanto, ahistóricas (de onde vem o que Francis Fukuyama chama de "Fim da História"), apolíticas e quase "associais", já que parte do princípio de que toda a ação humana, em qualquer dimensão, decorre da livre e espontânea vontade individual buscando, por parte de cada um, o seu máximo bem-estar, sem qualquer influência ou determinismo exógeno. Belluzzo acredita que o capitalismo e suas instituições são frutos de um processo histórico iniciado há pouco mais de trezentos anos, sendo que o estado natural do ser humano seria algo como o "bom selvagem" de Rousseau e o cooperativismo social de Marx. Portanto, as instituições capitalistas podem e devem ser moldadas politicamente. Tenho que observar que nesse ponto eu discordo do autor. Particularmente, tenho uma visão mais pessimista sobre a natureza humana, e considero e o "estado natural" do homem é muito mais o estado de barbárie e de guerra de todos contra todos de Thomas Hobbes do que o "bom selvagem" de Rousseau.

Contudo, ao fazer a crítica à política econômica de FHC e de Lula, Belluzzo cai no mesmo erro de tantos outros autores de sua corrente de pensamento. Ao invés de apontar a falta de planejamento econômico efetivo de longo prazo como o maior limitante ao desenvolvimento do país, o autor prefere o abraçar o saudosismo sebastianista dos "Anos Dourados" de JK, do nacional-desenvolvimentismo e da política econômica da época (convivência com a inflação, juros reais negativos e déficit público crônico), sem lembrar que foi graças a essa mesma política que permitiu o crescimento econômico do Brasil na época, que o país tem toda a atual dificuldade para crescer expressivamente.

segunda-feira, agosto 28, 2006

Pinte o Cachorrinho por Último

Eu me lembro como se fosse ontem (clichezão) o dia em que fiz a minha primeira prova acadêmica. Não era bem uma prova como estou acostumado hoje, mas um "trabalhinho que a professora vai recolher e levar para o conselho de classe", um mero eufemismo para não assustar as inocentes crianças da primeira série do primeiro grau (hoje conhecido como "Ensino Fundamental").

A prova, ou o trabalhinho, consistia em uma série de animais desenhados em uma folha, em preto-e-branco, para a criançada colorir. O objetivo, eu imagino hoje, era avaliar aqueles que conseguiam pintar dentro das bordas do desenho, sem borrar (uma meta muito ousada para crianças de 6 ou 7 anos de idade). De todos os animais, o mais difícil de pintar era um cachorrinho, que era todo malhado, exigindo que as crianças usassem várias cores para pintar o desenho de seu pêlo. Imediatamente, diante da primeira adversidade de sua vida acadêmica, um dos meus colegas realizou a sua primeira estratégia de estudo de sua vida: Como é mais difícil, vamos pintar o cachorrinho por último! Brilhante, não?

Bom, pra mim 15 anos se passaram como vento desde então (1991), e encontrei pela minha vida a matemática, a física, de vez em quando a geografia, depois o Vestibular, mais depois ainda a faculdade, começando por Cálculo, continuando por álgebra e concluindo com a monografia, e agora estou suando a camisa em cima de concursos públicos e o exame ANPEC (para pós-graduação em economia). O moedor de carne humana representado pelo ensino fez muitas vítimas entre meus colgas de primeira série, e muitos deles eu nunca mais vi.

Mas eu ainda me lembro daquela maldita figura do cachorrinho. A primeira adversidade. A primeira gota do stress e da pressão que iria tomar conta do meu corpo nos 15 anos seguintes. A ponta do iceberg que iria afundar o Titanic chamado "tranqüilidade infantil".

Pensando bem, até que pintar aquele bicho não foi tão difícil. Se na prova da ANPEC desse ano ele aparecer para me amolar novamente, não terei medo, e o pintarei com segurança!

quinta-feira, agosto 24, 2006

Algumas Citações de Oscar Wilde

OBS: O estudo para a prova da ANPEC vem consumindo a minha criatividade ultimamente. Mas pretendo voltar a criar novos textos em breve.

"O homem perfeitamente bem informado, eis o ideal moderno. E o cérebro do homem perfeitamente bem informado é uma coisa horrorosa, uma espécie de bricabraque atulhado de monstrengos e de poeira, com tudo tabelado abaixo do verdadeiro valor."

"A finalidade da vida é para cada um de nós o aperfeiçoamento, a realização plena da nossa personalidade."

"A humanidade toma-se muito a sério (...) É o pecado original do mundo. Se o homem das cavernas soubesse rir, a história seria diferente."

"As mulheres representam o triunfo da matéria sobre o espírito; exatamente como os homens representam o triunfo do espírito sobre a moral." (obs. Oscar Wilde era bissexual)

sábado, agosto 12, 2006

A Natureza da Pobreza das Massas, de John Kenneth Galbraith

(Continuando o post anterior)

Segundo o autor, a pobreza de massas, característica dos meios rurais, decorre de uma situação de "equilíbrio de pobreza". Galbraith explica que em sociedades muito atrasadas economicamente (como a Índia da época em que ele era embaixador americano), as pessoas tendem a se acomodar em sua situação de pobreza, como conseqüência natural às tradições de seu modo de vida ancestral, assim como também uma reação à probabilidade de fracasso caso essas pessoas busquem romper com seu modo de vida. Em termos economiscistas (essa palavra existe?), nas regiões rurais dos países mais pobres, os agentes econômicos apresentam um comportamente de aversão ao risco praticamente inelástico em função a qualquer variável econômica, o que impede investimentos no setor produtivo, o progresso tecnológico e os ganhos de produtividade, característicos do processo de desenvolvimento. Tal comportamento de aversão ao risco decorre da elevada probabilidade de retorno negativo dos investimentos no setor produtivo em que os agentes lidam, aliado ao fato de que nesses países muito pobres, qualquer crise agrícola provoca escassez de alimentos, fome em massa e mortes, desincentivando assim a adoção de novidades no setor produtivo.

Assim, em um estado de equilíbrio de pobreza, as pessoas não se interessam em buscar ampliar seus padrões de vida (devido à aversão absoluta ao risco), e predomina a lei da população de David Ricardo e Thomas Malthus, isto é, de que ganhos e perdas de renda monetária se refletem, no longo prazo, em movimentos no tamanho total da população, sendo que o padrão de vida tende a permanecer estável, no nível mínimo de subsistência socialmente aceito.

Por isso, o autor defende que qualquer política pública que venha a ser adotada pelos países subdesenvolvidos com o objetivo de atacar a pobreza, necessariamente terá que quebrar essa situação de equilíbrio de pobreza em que os agentes econômicos se encontram. Para isso, o autor traz duas sugestões básicas: uma delas é o incentivo à industrialização (argumento fraco) para os países mais pobres, já que o choque da mudança econômica tenderia a quebrar os laços de equilíbrio de pobreza instituídos pelas antigas tradições sociais. A segunda é o incentivo à alfabetização e à educação em massa do povo rural (argumento forte) desses países, de modo a tornar os agentes econômicos críticos e inconformados com seu estado de penúria, e aptos a tomar atitudes a mudar isso.

Contudo, Galbraith acaba por pecar em suas generalizações, de observar empiricamente o que aconteceu em um lugar e uma época específica (a Índia rural de meados de 1940-50) e estabelecer um modelo teórico para toda a economia mundial. Um estado de equilíbrio de pobreza garantido e perpetuado por antigas tradições sociais e instituições pode fazer sentido em uma sociedade de castas como a da Índia arcaica. Mas eu não vejo, por exemplo, no Brasil atual, semelhante fenômeno.

Por outro lado, destaco a virtude da obra de Galbraith em destacar o papel da educação para o bem-estar de uma população e para o progresso social. Ao contrário da maioria dos economistas, que apontam a educação de massas como importante para elevar a produtividade do trabalho e favorecer à acumulação de capital, Galbraith pensa no bem-estar individual que a educação oferece às pessoas, de torná-las críticas de suas condições e aptas a superar seus problemas.

segunda-feira, julho 31, 2006

Teorias Sobre o Subdesenvolvimento

Ando lendo algumas obras de John Kenneth Galbraith. O cara tem idéias bastante interessantes sobre os temas mais controversos da economia.

As teorias mais populares sobre a pobreza, sob o olhar crítico de Galbraith:

- A pobreza é um fenômeno natural, e decorre das más condições de recursos naturais dos países mais afetados.

Segundo Galbraith, tal argumento não tem qualquer validade empírica. Países asiáticos, como o Japão, Taiwan e Coréia do Sul conseguem manter elevado padrão de desenvolvimento sócio-econômico sem que estejam providos de quantidades abundantes de recursos naturais.

- A pobreza decorre da natureza da estrutura política e econômica dos países.

Tal pensamento é compartilhado por autores tanto de direita como de esquerda. Segundo a direita, os países mais pobres assim são devido ao fato que não tomaram conhecimento da importância da iniciativa privada e da economia de mercado para criar riqueza, preferindo, alternativamente, manter-se submissos a governos burocratas, corruptos e interventures como guias do desenvolvimento econômico. A esquerda, por outro lado, tende a associar o subdesenvolvimento e a pobreza a relações de exploração entre grupos sociais, o que, além de ser desfavorável aos trabalhadores, tira o incentivo ao aumento de produtividade, já que todo o excedente iria parar nas mãos de um pequeno número de privilegiados.

Tal abordagem, segundo Galbraith, esbarra novamente na observação empírica. O capitalismo (incluindo as suas instituições características, como a propriedade privada e a economia de mercado) não tem uma correlação direta com a qualidade de vida da população, podendo trazer inegáveis avanços em alguns países (como os tigres asiáticos), ou grandes fracassos (como na maior parte da África).

- O subdesenvolvimento resume-se a um problema de escassez de capital.

Segundo essa teoria, um país subdesenvolvido apresenta baixa renda, o que significa em baixos volumes de poupança e de acumulãção de capital, o que tende a um círculo vicioso de pobreza. Mas, observando-se bem, a escassez de capital é CAUSA, ou CONSEQÜÊNCIA da pobreza, afinal?

- A pobreza decorre da falta de experiência técnica, educação e talento administrativo.

Novamente Galbraith aponta para uma confusão entre causa e efeito entre os fenômenos.

- A pobreza é resultado de um governo ineficiente e corrupto.

Segundo o autor, a ineficácia dos mecanismos de Estado é uma conseqüência da pobreza. Quanto mais pobre é uma sociedade, menos recursos tributários poderão ser repassados ao Estado, tornando-o ineficiente, e menor será a capacidade de escolha por parte dos cidadãos (mais preocupados com sua sobrevivência diária) de seus representantes políticos.

- A pobreza é determinada etnicamente.

Galbraith aponta essa teoria como a mais popular de todas. Contudo, por motivos morais, os pesquisadores não desenvolvem teorias veridicamente científicas sobre o tema, o que por si só já anula a sua credibilidade.

- A pobreza é determinada geograficamente.

Tal teoria é igualmente muito popular, tanto por leigos como por pesquisadores renomados no assunto. De acordo com essa tese, os países moderadamente mais frios condicionam os seus habitantes a manter um maior espírito de iniciativa, de inteligência e de valor ao trabalho, em comparação com os habitantes de países tropicais, habituados à sobrevivência mais fácil. Além disso, os países mais frios estariam menos sujeitos a doenças e epidemias do que os demais. Quando a temática do subdesenvolvimento foi repassada da geografia para a economia, tal hipótese ficou totalmente desacreditada.

- A pobreza é determinada historicamente, pelo legado do colonialismo.

O colonialismo foi um sistema econômico bastante prejudicial para a América Latina e para a África, como é universalmente conhecido. Contudo, quase 200 anos depois da independência, será que ainda existem heranças colonialistas que expliquem a pobreza na América Latina? Essa é uma questão amplamente discutível.

- Os países exportadores de bens primários sofrem deterioração de seus termos de intercâmbio em relação aos países exportadores de bens industriais, tornando-se fadados ao subdesenvolvimento.

Tal teoria, apresentada por Raul Prebish (Argentina), apresenta uma base formal e lógica bastante convincente: os exportadores de bens primários apresentam economia de concorrência quase perfeita, sem poder sobre o preço de seus produtos, ao passo que os países exportadores de bens industrializados apresentam uma economia oligopolizada, tanto em termos produtivos, como no mercado de trabalho, fazendo com que os preços de seus produtos mantenham-se sempre mais elevados que os dos demais países. Apesar de logicamente consistente, tal teoria esbarra na observação empírica: países como Austrália, Nova Zelândia, Canadá, e até mesmo o centro dos Estados Unidos, são basicamente produtores de bens primários, e nem por isso são países em processo de empobrecimento.

Agora, o negócio é terminar de ler o livro e ver como que o Galbraith explica, com suas palavras, o subdesenvolvimento. Aparentemente, o autor associa o termo a uma condição de equilíbrio econômico em um ponto sub-ótimo. Vamos ver.

domingo, julho 16, 2006

O Retrato de Dorian Gray - Oscar Wilde

O Retrato de Dorian Gray é a obra-prima do irlandês Oscar Wilde, e sua trama, isto é, o seu enredo, é bastante complexo, exigindo minuciosa interpretação.

O livro conta a história de um rapaz (Dorian Gray), modelo de pintura, que, influenciado por um amigo (Lord Henry), toma consciência de sua aparência física singular, assim como da limitação de sua aparência ao longo do tempo, pensa em realizar um pacto com o diabo, de modo que o seu retrato envelheça no lugar dele próprio, ao longo dos anos. E, inexplicavelmente, isso acontece. Além disso, Lord Henry apresenta a Dorian Gray o hedonismo, isto é, ter como objetivo de vida simplesmente a satisfação de suas necessidades e a busca de novos prazeres, ignorando toda e qualquer forma de moral, vista pelos personagens como uma indesejável influência da sociedade sobre os indivíduos. Por isso, décadas se passam, Dorian Gray se entrega a uma vida voltada para festas, drogas e crimes, sendo que apenas o seu retrato sofreria as conseqüências físicas de suas ações.

O livro é cheio de pequenos trechos cujos personagens e suas ações muitas vezes não parecem fazer sentido lógico, o que torna o livro de difícil compreensão. Mas, tendo algum conhecimento sobre a vida e a obra de Oscar Wilde, assim como de suas influências, algumas conclusões podem ser tomadas.

Oscar Wilde, em seu segundo prefácio, mostra-se simpático aos ideais parnasianos, criticando o irrealismo da arte Romântica (o despeito de Calibã por não ver seu rosto no espelho) e a vulgaridade da literatura Realista. Segundo o autor, a arte não deve ter nenhuma influência de qualquer expressão ética ou moral, mas sim expressar a busca, por cada artista, de seu conceito de beleza plena. Ou seja, a arte seria um objetivo em si mesma (arte pela arte), determinada apenas pela intenção do artista em expressar o seu conceito de beleza formal. Em um trecho da obra, Wilde explica que um livro nunca pode ser rotulado de "imoral"; a imoralidade está na sociedade em que o artista vive, e que influenciuou (negativamente, para o autor) o livro. Portanto, para interpretar o "Retrato de Dorian Gray", deve-se evitar procurar críticas sociais, e deter-se mais nas questões individuais e formais artísticas.

No prefácio, o autor deixa claro que o primeiro capítulo de sua história é baseada em um fato real, sendo que Wilde corresponde ao Lord Henry. Por isso, a filosofia hedonista como ideal de vida ao homem corresponde exatamente ao seu ponto de vista. Ou seja, não parece sensato associar o Lord Henry ao diabo, que tenta os homens, como vários críticos apontam.

A meu ver, o livro conta na verdade a própria contradição entre arte e moral, exposta por Wilde no seu prefácio. Assim, Dorian Gray representa a arte como ela deve ser, formalmente e esteticamente plena, sendo que Lord Henry, ao defender perante Dorian o hedonismo como um ideal, defende a desvinculação entre a expressão artística e a moral social. Já o retrato representa a consciência da arte, isto é, a visão que a sociedade tem dessa expressão artística, que sempre acaba distorcida e deformada pelos vícios da própria sociadade, e repassados à obra. Tal consciência acaba por gerar os conflitos entre o artista e sua obra, o que no livro significou o assassinato do pintor do retrato (o artista) por Dorian Grey (sua obra), devido a sua revolta pela deformação de seu retrato (a consciência da arte).

Por fim, Dorian Grey não envelhece nunca, mesmo não tendo realizado nenhum esforço para manter sua juventude (nem mesmo pactos com o diabo, como a crítica tradicional sugere). O que pode simbolizar isso? Muito provavelmente, o autor quis transmitir a idéia de que a beleza, como um ideal artístico, é fixa e imutável ao longo do tempo, isto é, de que os artistas, em qualquer época e qualquer lugar, buscam sempre expressar esse ideal de beleza, mesmo que suas obras e seus modelos variem.