Quinta-feira, Janeiro 26, 2012

Sobre os Investimentos Estrangeiros Diretos no Brasil

Segundo os dados do balanço de pagamentos brasileiro, divulgado pelo Banco Central na terça-feira, em 2011 o país acumulou déficit em conta corrente (saldo das transações de bens, serviços, rendas e transferências unilaterais entre o Brasil e o resto do mundo) de US$ 52,6 bilhões, o maior da história. Por outro lado, esse déficit foi mais do que coberto pela maciça entrada de investimentos estrangeiros diretos no Brasil, que acumularam ingressos líquidos de US$ 66,7 bilhões no ano. O ingresso de IEDs no país se acelerou a partir de agosto de 2010, conforme pode ser visto nos gráficos abaixo, e seguem um fluxo jamais visto anteriormente, certamente influenciado pela crise nos países desenvolvidos, que exportam seus capitais para economias com retorno mais promissor.



A entrada de IEDs para financiar o déficit no saldo em conta corrente significa que o país está crescendo pela captação de poupança externa. Explicando melhor, imaginemos que na economia a produção (Y) é direcionada para o consumo das famílias (C), o investimento das empresas (I), os gastos do governo (G) e as exportações (X), descontadas das importações (IM), que é a produção estrangeira consumida no país. Por outro lado, as famílias, unidades básicas da economia, utilizam sua renda (Y, pois, no agregado, é igual à produção) para o consumo (Y), poupança (S) e pagamento de impostos (T). Ou seja, dadas as seguintes equações:

Y = C + I + G + (X - IM)
Y = C + S + T

Para se identificar as fontes de recursos para os investimentos, causas do crescimento econômico a médio prazo, basta igualar as duas equações e isolar o termo I. Portanto:

C + S + T = C + I + G + (X - IM)
I = S + (T - G) + (IM - X)

Ou seja, o investimento pode ser financiado pela poupança doméstica privada, poupança doméstica pública ou poupança externa. No Brasil, segundo os últimos dados de que disponho, a poupança privada é de 18,8% do PIB (lembro que na China, é de cerca de 50% do PIB) e o setor público opera com um déficit nominal de cercade 100 bilhões de reais ao ano, e se financia com poupança privada pela venda de títulos públicos. Portanto, para o país conseguir crescer a taxas expressivas, acaba recorrendo à poupança externa, captada pelo déficit em conta-corrente (IM - X). Dentro das categorias de capitais externos, os investimentos diretos têm a vantagem de se tratarem de capitais de longo prazo, voltados diretamente ao investimento produtivo, ao contrário dos investimentos em carteira, por exemplo, que são voltados ao curto prazo, isto é, a investimentos no mercado financeiro.

Tenho lido algumas críticas pela internet a esse modelo de crescimento que o país vem adotando desde a recuperação após a crise de 2010. Investimentos estrangeiros, por se traduzirem em ingresso de capitais ao país, apreciariam o câmbio, o que prejudica a competitividade dos produtos brasileiros no exterior, prejudicando as exportações. Além disso, poderiam piorar a situação da conta-corrente do país por causa das remessas de lucro aos países de origem, que deterioram o saldo da balança de renda.

Independentemente do mérito dessas críticas, questiono qual seria uma possível alternativa. A poupança privada depende, dentre outras coisas, das preferências de consumo das famílias brasileiras, em relação às quais a política econômica tem pouca influência. O déficit público, apesar de não ser grande o suficiente para provocar uma crise de insolvência do setor público brasileiro, é persistente mesmo com toda a elevação da carga tributária que se viu por aqui nos últimos anos, e isso reflete a dificuldade do processo político do governo federal. E simplesmente interromper o processo de crescimento com geração de renda e empregos no país teria um custo de oportunidade em termos de bem-estar social politicamente insustentável.

Terça-feira, Janeiro 24, 2012

Salário dos Professores - Comentário

O Thomas Kang publicou em seu blog uma crítica ao economista Gustavo Ioschpe (aquele da VEJA) sobre o papel dos salários dos professores sobre a qualidade do ensino do Brasil. Ioschpe afirmou que "o salário do professor não é uma variável estatisticamente significativa ou relevante na determinação do aprendizado dos alunos". Por isso, investimentos na qualidade da educação básica não deveriam ser direcionados na valorização da remuneração dos docentes.

Neste ponto contribuo com uma observação: até que ponto a baixa significância da variável "salário do professor" sobre os indicadores de "aprendizado do aluno" reflete uma relação de (não) causalidade tão forte como o autor sugere? Acho mais provável que as escolas que melhor remuneram seus professores sejam exatamente aquelas com melhor infra-estrutura física, ou que se localizam nos melhores bairros das grandes cidades, onde moram as famílias de alta renda, provocando uma colinearidade no modelo econométrico que faz com que a elasticidade da variável de interesse seja capturada em parte pelas variáveis de controle. Uma outra hipótese é a de que a variabilidade dos salários dos professores nas escolas públicas é baixa demais para que seus efeitos sobre outras variáveis sejam estatisticamente observáveis.

Estudar microeconometria aplicada ajuda a abrir os olhos para as propriedades das amostras dos modelos, antes de achar que o resultado de um único estudo pode resolver os mistérios do mundo.

De minha parte, minha opinião de que os salários dos professores do ensino básico deveriam ser maiores (evidentemente seguindo critérios meritocráticos) reflete antes de mais nada uma observação pessoal minha. Já vi muitos casos de professoras da rede de ensino público básico abandonar a carreira docente para estudar para concursos públicos de nível técnico-administrativo, em que o trabalho é menos perigoso (já ouvi estórias assustadoras sobre o que acontece nas ecolas das periferias das grandes cidades) e melhor remunerado. Eu sinceramente gostaria de saber se em algum outro país do mundo a carreira de professor é inteiramente dominada pela carreira de burocrata.

Segunda-feira, Janeiro 23, 2012

Filme do Tintim

Na sexta-feira passada foi feriado aqui no Rio, o dia de São Sebastião. Fui com minha namorada assisitir o filme do Tintim em 3D no cinema Unibanco Arteplex, na prai de Botafogo.

O filme é muito bem produzido. A computação gráfica conseguiu fielmente transformar atores reais nos personagens criados originalmente por Hergé, o criador da famosa série em quadrinhos. Os efeitos especiais são impressionantes, talvez os melhores que tenha visto recentemente.

Contudo, a velha máxima "o filme é sempre pior do que o livro" também valeu para esse filme. Sou fã dos livros do Tintim desde 1996, quando tinha 11 anos, e achei a história muito diferente do retratado nos quadrinhos. O filme resume três livros, "O Segredo do Licorne", "O Caranguejo das Tenazes de Ouro" e "O Tesouro de Rackham O Terrível", mas destaca muito (mais muito!) mais a ação do que o mistério, usando e abusando da destruição material. Tintim deixa de ser "o jovem Sherlock Holmes" e vira "o jovem Indiana Jones". Assim, o filme é divertido para os mais jovens, mais acaba ficando meio cansativo para mim e para a maior parte do público com mais de 20 e poucos anos.

Uma curiosidade é que o livro "O Segredo do Licorne" foi exatamente o primeiro da série que li, em 1996, quando o recebi de presente da minha madrinha. Já "O Tesouro de Rackham o Terrível", sua continuação, só o li aqui no Rio de Janeiro, quando o encontrei em um sebo no Catete em setembro do ano passado. Foram 15 anos de curiosidade reprimida sobre como acabava a história, e eu nunca procurei na internet nenhum spoiler, porque fazia questão de ver o mistério solucionado nas minhas mãos (ainda que o final fosse meio previsível, mas ok).

Momento clipping: o Victor Senna, economista cedeplariano e cartunista, fez uma resenha mais profissional do filme no seu blog.

Blog de Volta às Origens

Os gatos-pingados leitores do blog reclamaram, e decidi abandonar o estilo "clipping macroeconômico" que mantive nas últimas semanas. Mas foi bom ter demonstrado a todos uma pequena amostra do que venho fazendo aqui no BNDES desde julho de 2011. Quem desejar receber as relatórios de conjuntura por e-mail pode entrar em contato comigo.

Daqui para frente, meu blog voltará a ser de opiniões aleatórias e de fotos paisagísticas.

Me lembro que, em 2005, quando resolvi iniciar o blog, escolhi o nome "Essa Metamorfose Ambulante" porque estava ouvindo na hora a música honônima, e nada mais. Felizmente, agora posso usar esse nome para justificar as mudanças repentinas de rumo que o blog toma, ao invés de ficar apagando e criando outros blogs, como outras pessoas fazem.

Quinta-feira, Janeiro 19, 2012

Clipping Internacional - 19/01/2012

* Nos Estados Unidos, o índice de preços ao produtor (IPP) registrou deflação de 0,1% em dezembro, puxado pelos ítens alimentos e energia (ambos -0,8%). No ano, o índice acumulou alta de 4,8%.

A inflação ao consumidor (IPC) ficou estável no mês, e fechou o ano com alta de 3,0%. Ao longo do ano, o índice foi bastante influenciado pelo preço da energia, que, embora tenha registrado queda nos três últimos meses, acumulou alta de 10,6% em 2011.

A produção industrial registrou alta de 0,4% em dezembro na comparação com novembro. Em relação a dezembro de 2010, o crescimento foi de 2,9%.

O setor imobiliário do país teve resultados negativos em dezembro. As permissões para novas construções tiveram queda de 0,1%, e o início de novas construções, de -4,1%. No ano, contudo, ambos indicadores tiveram variações positivas de, respectivamente, 7,8% e 24,9%.

* Na Zona do Euro, o saldo em conta corrente fechou em déficit de 1,8 bilhão de euros em novembro. O principal fator que contribuiu com esse resultado foi o déficit de 11,4 bilhões de euros das transferências correntes, apenas parcialmente coberto pelos superávits nas contas de bens, serviços e rendas.

Indústria Interrompe Queda, segundo CNI

De acordo com os Indicadores Industriais da CNI, a indústria brasileira interrompeu em novembro a trajetória de queda verificada nos meses anteriores. Destaque para as altas, no acumulado do ano, tanto do faturamento real (5,2%) como da massa salarial real (5,1%), acima do crescimento do emprego no setor. Certamente, sinais de mudanças tecnológicas e do aperto no mercado de trabalho especializado no setor.

2a Prévia IGP-M Registra Variação de 0,22%

A segunda prévia do IGP-M (a "inflação do aluguel") em janeiro registrou alta de 0,22%. No mês anterior, a segunda prévia do índice fora de -0,07%. O principal determinante da aceleração do índice foi a queda da deflação do índice de preços ao produtor (-0,04% ante -0,38%), provocado, por sua vez pela queda da deflação das matérias-primas brutas (-0,45% ante -1,81%).

Para o consumidor, o índice de preços registrou variação de 0,81%, ante 0,59% registrados no mesmo período do mês anterior. A maior aceleração veio do grupo Educação, Leitura e Recreação (0,38% para 1,88%). Comportamento semelhante foi registrado pelo índice IPC-FIPE para a inflação de São Paulo.

Continuo de olho na variação de preços das matérias-primas brutas e em sua relação com a balança comercial brasileira.

Copom Reduz a taxa Selic para 10,50% ao Ano

Ontem, o Banco Central baixou a taxa Selic para 10,50% ao ano. Essa é a taxa mais baixa desde julho de 2010. A explicação divulgada pelo banco foi a mesma das decisões anteriores: o ambiente mundial recessivo e a desaceleração da inflação doméstica nos últimos 12 meses são compatíveis com uma taxa básica de juros menor no Brasil. O banco fala em uma convergência para a meta de inflação (4,5%) ainda nesse ano.


Contudo, não parece ser o que vai realmente acontecer. O último boletim Focus divulgado pelo próprio banco já aponta expectativas de inflação acima da meta tanto em 2012 como em 2013. Nesse ano, o mercado espera um IPCA de 5,3%. No ano que vem, a inflação esperada é de 5,0%. Como as expectativas dos agentes interferem nos contratos, e os contratos interferem na inflação, essas profecias do mercado podem se tornar auto-realizáveis. E as expectativas dos agentes tendem a ser menos otimistas quanto menos credibilidade tiver a autoridade monetária, o que, por sua vez, depende de seus erros passados. Portanto, o Banco Central deveria ter mais cuidado em manifestar sua previsão de convergência inflacionária para este ano, se optar por continuar reduzindo os juros.

Quarta-feira, Janeiro 18, 2012

Clipping Internacional - 18/01/2012

* A taxa de de desemprego do Reino Unido subiu para 8,4% da população economicamente ativa no trimestre encerrado em novembro. Essa é a maior taxa desde 1995. O número total de desempregados - 2,68 milhões - é o maior desde 1994.

* O Escritório Nacional de Estatísticas da China divulgou uma série de dados na madrugada de ontem. Os números são, como não poderiam deixar de ser, impressionantes. O crescimento anual dos investimentos em ativos fixos foi de 23,8%. A produção industrial fechou dezembro com crescimento anual de 12,8%. O crescimento do PIB fechou o ano em 8,9%, mesmo com a desaceleração.

Amanhã devo postar alguns gráficos ou tabelas sobre a economia chinesa.

Tentando prever se o crescimento chinês é sustentável a longo prazo, uma das informações contidas no relatório divulgado me pareceu fundamental. Em 2011, cerca de 15 milhões de chineses trocaram o campo pela cidade. A população rural total é de 656,56 milhões, e a urbana, de 690,79 milhões (pela primeira vez na história do país a população das cidades superou a do campo). Considerando que o combustível do crescimento chinês é a oferta de mão-de-obra barata para a indústria, até o país atingir uma população rural de 20% da população mantendo o ritmo atual da migração, teremos pelo menos mais 25 anos de crescimento. Ou seja, mesmo com a desaceleração prevista pelo próprio governo, o país continuará liderando o crescimento mundial nos próximos anos.

Terça-feira, Janeiro 17, 2012

Clipping Internacional - 17/01/2012

Esses são os eventos macroeconômicos mais importantes do dia:

* Na Zona do Euro, a inflação ao consumidor (IPC) fechou o ano em 2,7%. Em relação ao mês anterior, a alta dos preços foi de 0,3%. A inflação foi mais elevada nos países periféricos do que nas economias centrais da região.

* No Reino Unido, o IPC fechou o ano em 4,2%. Em relação ao mês anterior, verificou-se desaceleração (a inflação anual registrada em novembro foi de 4,8%), graças a queda dos preços dos combustíveis, que eram os principais fatores que provocaram a alta do índice ao longo do ano.



No ano, ambos os índices mantiveram tendências paralelas, e influenciados pelo mesmo grupo de bens - os combustíveis. Desde setembro verificou-se tendência de queda da inflação acumulada no ano; todavia, em ambas regiões o IPC fechou o ano acima da meta de 2,0% estabelecida pelos seus bancos centrais.

* No Japão, o índice de confiança do consumidor subiu para 38,9 em dezembro.

* A encomenda de máquinas à indústria teve alta de 14,7% em novembro na comparação com outubro. Contudo, antes de se fazer qualquer previsão sobre a recuperação da economia japonesa, é importante esperar o resultado da produção industrial. A encomenda de máquinas no país tem se mostrado muito volátil ao longo do ano.