Sexta-feira, Setembro 25, 2009

A Identidade Cultural na Pós-Modernidade - Stuart Hall

Comprei esse volume em uma feira de livros na Unicamp, durante o congresso de história econômica, para ter uma opção de entretenimento durante as conferências que não eram de meu interesse. Porém, meu interesse pela pós-modernidade não é recente. Comecei a ler sobre essa temática, que procura teorizar e relacionar a sociedade, a cultura e a intelectualidade contemporâneas, por indicação de um médico psiquiatra, em 2005. Primeiramente, conheci a obra de Michel Maffesoli, e em seguida estudei o livrinho de bolso do Jair Ferreira dos Santos ("O Que É Pós-Moderno?"). Nos últimos dois anos, porém, após longas discussões em mesa de bar com o "Vagabundo Iluminado" Diego Rodrigues, ando mais curioso sobre esse tema, e tenho procurado livros e artigos sobre isso.

No entanto, muito do que tenho lido sobre isso tem me agregado pouca conhecimento. Infelizmente, muitos sociólogos (que são os acadêmicos que mais estudam a pós-modernidade) têm o hábito de escrever de forma obscura, usando e abusando de figuras e formas metafóricas de linguagem, tornando seus textos pouco compreensíveis para quem não tem formação nessa área. Além disso, vários ramos das ciências humanas são impregnados por um relativismo radical, que tira toda e qualquer objetividade do conhecimento, o que torna a leitura de suas obras muito cansativa.

Felizmente, esse não é o caso do livro do Stuart Hall. O autor sabe escrever de maneira bastante clara suas idéias. Segundo o autor, a pós-modernidade, isto é, o período histórico da sociedade, da cultura e da intelectualidade após a Segunda Guerra Mundial, consiste em uma brusca mudança nas identidades sociais tais como elas eram definidas. Ou seja, o autor considera a pós-modernidade como um surto de "crise de identidade" generalizada para o indivíduo humano.

Explicando melhor, o autor diferencia três concepções da identidade individual, de acordo com o período histórico e o ramo do conhecimento implícito. Primeiro, o "sujeito Moderno", ou "sujeito do Iluminismo", visto como um indivíduo unificado e plenamente dotado do senso de razão, decisão, consciência e ação. A racionalidade é vista como o centro essencial da identidade de uma pessoa: todo indivíduo utiliza meios para atingir seus interesses individualmente estabelecidos. Essa concepção de indivíduo está diretamente relacionada à teoria da escolha racional da Ciência Econômica, e à teoria do Direito Natural.

Segundo, o "sujeito sociológico", definido pelas relações de cada indivíduo com o seu meio social, de acordo com a interação com outras pessoas. Isto é, a personalidade de cada sujeito é definida pela interação com a sociedade; cada indivíduo tem uma essência interior, mas esta é continuamente afetada e alterada pelas suas relações com o mundo exterior. Tal visão surgiu no final do século XIX, com o desenvolvimento das ciências sociais, particularmente a sociologia, sobretudo com as obras de autores como Èmile Durkheim.

Terceiro, o "sujeito pós-moderno", visto de acordo com a negação de que as pessoas tenham uma essência individual interior unificada. Isto é, o sujeito tem não uma única, mas sim uma grande variedade de identidades pessoais, e muitas delas podem ser contraditórias umas com as outras, ou mesmo mal resolvidas.

A transformação da concepção moderna-sociológica de sujeito para a concepção pós-moderna, segundo Stuart Hall, decorreu dos avanços nas ciências biológicas e sociais nos séculos XIX e XX que demonstraram a superficialidade da noção do indivíduo unificado definida anteriormente. Na verdade, a própria noção do indivíduo moderno decorreu da evolução intelectual do Ocidente a partir do Renascimento, em contraposição à visão religiosa anterior. Segundo Hall (pg. 26),

Muitos movimentos importantes no pensamento e na cultura ocidentais contribuíram para a emergência dessa nova concepção: a Reforma e o Protestantismo, que libertaram a consciência individual das instituições religiosas da Igreja e a expuseram diretamente aos olhos de Deus; o Humanismo Renascentistam que colocou o Homem (sic) no centro do universo; as revoluções científicas, que conferiram ao Homem a faculdade e as capacidades para inquirir, investigar e decifrar os mistérios da Natureza; e o Iluminismo, centrado na imagem do Homem racional, cientíico, libertado do dogma e da intolerância, e diante do qual se estendia a totalidade da história humana, para ser compreendida e dominada.


Essa noção de indivíduo foi abalada, a partir do século XIX, tanto pelo desenvolvimento da biologia darwiniana, que encontrou fundamentos naturais para o explicar a racionalidade humana, como pela complexização das sociedades modernas, com o crescimento das atividades comerciais, industriais e a urbanização, o que permitiu o desenvolvimento de novas teorias capazes de explicar a ação e a interação dos indivíduos. Hall aponta cinco avanços da teoria social que contribuíram para a superação da noção do sujeito moderno:

1 - O historicismo marxismo-hegeliano. Nessa concepção, a identidade individual é determinada pelos condicionantes históricos do meio social em que o indivíduo age. Para Hegel, o principal condicionante histórico são as idéias vigentes e aceitas pelos membros da sociedade. Para Marx, o principal condicionante histórico são os meios materiais de produção, isto é, a estrutura econômica vigente.

2 - A psicanálise freudiana. Segundo essa teoria, a formação da identidade individual depende de fatores psíquicos que muitas vezes são inconscientes ao sujeito. Ou seja, a capacidade plena do indivíduo de tomar decisões e agir conscientemente em busca de seus interesses é posta em dúvida.

3 - A linguística estrutural, segundo a qual o pensamento individual é determinado pela cultura do meio social que o cerca, por meio da linguagem. Isto é, cada pessoa só pode se expressar se posicionando a respeito de su cultura, que define a sua língua e a sua capacidade de comunicação com as outras pessoas.

4 - A filosofia do poder disciplinar de Michel Foucault. Segundo esse autor, as instituições sociais têm o papel de vigiar e punir o comportamento individual em benefício não da coletividade, mas sim dos próprios detentores do poder, não apenas do poder político, mas também do poder econômico, ideológico e intelectual. Segundo Hall (pg. 42):

O objetivo do "poder disciplinar" consiste em manter "as vidas, as atividades, o trabalho as infelicidades e os prazeres do indivíduo", assim como sua saúde física e moral, suas práticas sexuais e sua vida familiar, sob estrito controle e disciplina, com base no poder dos regimes administrativos, do conhecimento éspecializado dos profissionais e do conhecimento fornecido pelas "disciplinas" das Ciências Sociais. Seu objetivo básico consiste em produzir "um ser humano que possa ser tratado como um corpo dócil".


5 - O surgimento de movimentos sociais das minorias, isto é, que se uniam de acordo com identidades para além daquelas de natureza individual ou de classe social. Hall cita como exemplos o movimentos feminista, estudantil, pacifista e contracultural de 1968. Esses movimentos politizaram a subjetividade e o processo de identificação social, além de escancarar a pluralidade de identidades. Como exemplo, o autor cita o caso de um juiz norte-americano negro e conservador acusado de assediar sexualmente uma estagiária branca, e como que a opinião pública regiu a isso. Os indivíduos tenderam a reagir com base em seus conjuntos de identidades pessoais (do tipo homem/mulher, negro/branco, liberal/conservador), isto é, os homens negros liberais tenderam a ser favoráveis ao juiz, mas não os conservadores, ao passo que os homens brancos, liberais ou conservadores, foram mais favoráveis à estagiária. As mulheres, em geral, foram favoráveis à estagiária, a não ser o caso das mulheres negras liberais, que foram favoráveis ao juiz, acreditando que a denúncia foi alguma espécie de intriga de cunho racista.

No resto do livro, Stuart Hall explica como a pós-modernidade, influenciada pelas cinco correntes de pensamento social descritas anteriormente, abalou a noção de identidade cultural até então mais aceita, que é a identidade nacional, isto é, a cultura de uma sociedade como a cultura de um país. A pós-modernidade, assim como a globalização, desconstriu a noção de que há um senso de nacionalidade acima da individualidade e de localidade. Ou seja, as pessoas estão perdendo seu senso de nacionalismo e de patriotismo, que são vistos como discursos para direcionar o senso de coesão social. Contudo, Hall destaca que a decadência das nacionalidade não significa o fim da coesão social, já que é um discurso relativamente novo na história da humanidade, datando do surgimento dos estados modernos ocidentais, e sua construção não foi um fenômeno pacífico e voluntário, mas decorreu da conquista e imposição por parte dos governos imperiais, que passaram a promover alguns de seus vassalos mais fiéis e próximos à condição de "compatriotas" ao custo da imposição da cultura imperial. Porém, a questão da nacionalidade, apesar de recente, já se enraizou nas sociedades modernas, e têm impacto sobre a cultura vigente nos meios em que vivem os sujeitos, seja na forma da linguagem, seja na forma das instituições, ou ainda na forma da ideologia historicista presente nos meios educacionais.

Com isso, o autor explica a questão do obscurantismo e da perda de identidade intrínsecos à pós-modernidade. Com a globalização, a nacionalidade perde o seu sentido; as pessoas são membros ao mesmo tempo de pequenas comunidades locais e de uma grande aldeia global. Mas a nacionalidade canalizou o senso de cultura, em relação a qual se definem todas as identidades de cada indivíduo, de modo que as pessoas residentes nos países da civilização ocidental sentem que algum sentimento de coesão social tenha se enfraquecido nas últimas décadas. No resto do livro, Hall explica algumas controvérsias a respeito desse impacto da globalização sobre a desconstrução das identidades nacionais, com ênfase na relação da civilização ocidental com as demais culturas humanas.

O melhor do livro, em resumo, é que ele fornece uma boa noção para o público mais leigo sobre os últimos desenvolvimentos nas humanidades sem aquele tradicional "discurso crítico" de forte viés de ideologia política que impregna tantas das obras das ciências sociais.

Sábado, Setembro 19, 2009

Ótimo Site de Quadrinhos

Hoje descobri um site muito engraçado de quadrinhos e tiras. O nome é "Malvados". Como o próprio nome demonstra, é especializado em humor negro.

A melhor tira que li, até agora, é essa:

Terça-feira, Setembro 15, 2009

Congressos da ABPHE e da ENABER (2)

... continuação do post anterior.

Saí de Campinas na quarta-feira às 8 da manhã. Cheguei em São Paulo uma hora depois, e depois de mais uma hora no trânsito, desci na rodoviária do Tietê. Minha primeira impressão da maior cidade do Brasil não foi nem um pocuo favorável: a visão da marginal Tietê, assim como do próprio rio, é uma das coisas mais feias que já presenciei no Brasil. Além disso, o trânsito é mais caótico do que eu imaginava, mesmo sendo muito bem "recomendado" pelos meus amigos residentes em São Paulo.

Da rodoviária, peguei um táxi até o Hotel Filadélfia, localizado no bairro Pinheiros, relativamente próximo à Cidade Universitária da USP, local do congresso. 40 minutos (ouvindo o taxista se queixar da ex-mulher dele, ainda por cima) e 40 reais depois, cheguei no hotel, que é muito simples, mas confortável, e com diária em conta (80 reais quarto duplo, com café da manhã incluído). A região do hotel estava semi-destruída pelas obras da implementação da Linha Amarela do metrô; ruas livres e calçamento estavam escassos por lá. Tive tempo de tomar banho, me arrumar e dar uma última lida no artigo para apresentar, antes de pegar um ônibus para a USP. Por sorte, na mesma quadra do hotel passava um ônibus chamado "Butantã - USP", que tinha uma parada bem na frente da Faculdade de Economia e Administração, meu destino final.

No primeiro dia de encontro, não presenciei nenhuma apresentação além da minha sessão. Aproveitei para matar as saudades do pessoal do Cedeplar-UFMG que eu não via a algum tempo, como o Weslem Faria, que está cursando doutorado na USP.

Minha sessão começou às 17 horas e prosseguiu até depois das 19 (os horários do congresso foram programados para que os participantes escapassem do trânsito no horário de pico). Fui o presidente da sessão, o que me deu o trabalho de administrar o tempo de cada apresentação e dos debates que se seguiram. Inicieu a sessão apresentando o trabalho "Efeitos de Programas de Assistência Social sobre a Freqüência Escolar: Uma Análise Baseada em Modelos Hierárquicos", que eu tinha feito junto com a Helena Castanheira (Demografia-CEDEPLAR-UFMG) para a disciplina de mesmo nome em 2007. A apresentação foi tranqüila, principalmente porque poucos dos presentes dominavam essa técnica econométrica. Me sugeriram para concluir o trabalho fazendo um pareamento entre o perfil das crianças que freqüentam e que não freqüentam à escola. Além disso, meu professor Édson Domingues me chamou a atenção para não confundir "demanda por educação", que relaciona o comportamento dos agentes especificamente frente aos preços do sistema de ensino, com os "investimentos em educação" propriamente feitos pelas famílias, que dependem de outras variáveis (como idade das crianças, sexo, raça, etc.).

Na minha sessão tiveram outros dois trabalhos interessantes:

* O Kleber Fernandes (UFS) testou duas hipóteses sobre a redução recente da pobreza no estado de Sergipe: a transição demográfica e o aumento das transferências federais às famílias. Era um trabalho simples, com hipóteses bastante conhecidas na economia da pobreza, mas a apresentação foi muito boa. Sugeri para ele que tentasse estimar se a redução da desigualdade intermunicipal dos rendimentos do trabalho também teve papel significante para a redução da pobreza, como já tinha lido em textos do Ricardo Paes de Barros.

* O Paulo Jacinto (PUCRS) pesquisou quais são as variáveis determinantes para que as pessoas pobres tenham planos para melhorar de vida. O autor construiu sua própria base de dados, por meio de entrevistas com membros da população carente de Porto Alegre. O resultado foi de acordo com o esperado: os pobres mais pobres tendem a perder as esperanças, e não adotar nenhum plano para subir na vida. Os menos pobres, por outro lado, procuram saídas para a sua situação.

No dia seguinte, assisti outras apresentações de interesse, a seguir:

* Minha namorada, Ana Carolina (CEDEPLAR-UFMG), apresentou as principais teorias do desenvolvimento regional no período pós-guerra, e como que elas condicionaram as políticas regionais no Brasil. A ênfase foi na teoria do desenvolvimento desequilibrado, de Hirschmann, que fundamentou o Plano de Metas do governo JK.

* A Eloise Botelho (UFJF), professora do curso de turismo, fez um trabalho relacionando a sociologia da pós-modernidade com o crescimento das atividades de turismo e seu impacto para as economias locais. Ela apresentou muito bem o trabalho, tinha uma retórica excelente, foi totalmente compreensiva mesmo para quem não era sociólogo ou turismólogo. Contudo, o resultado não me convenceu: segundo o trabalho, o turismo é uma atividade capital-intensiva, que beneficia apenas os investidores, e tem impactos mínimos sobre os trabalhadores locais. Achei essa conclusão generalista demais, já que existem inúmeras atividades e formas de gestão da economia do turismo.

* A Sibelle Diniz (CEDEPLAR-UFMG) apresentou um artigo extraído de sua dissertação, analisando as características e os determinantes do consumo de bens culturais nas regiões metropolitanas brasileiras. Os resultados foram muitas vezes surpreendentes (tipo Recife é a campeã nacional de consumo de artigos de decoração), e só podem ser explicados ao ler o artigo. O que mais me chamou a atenção foi que, nas cidades com maior infra-estrutura cultural, menor são os gastos das famílias nesses bens. Um verdadeiro efeito crowding-out cultural...

* O Leonardo Monastério (IPEA) comparou dois censos históricos brasileiros (1872 e 1920) para analisar a dinâmica espacial das atividades manufatureiras no país. Os movimentos de crescimento do oeste paulista e da Região Sul, assim como o empobrescimento do interior do Nordeste e do norte de Minas Gerais ficaram explícitos. O autor criticou a visão tradicional de que a dinâmica industrial brasileira só foi pautada ápós a Revolução de 1930.

* Minha namorada apresentou um outro artigo, investigando os determinantes da defasagem de série nas escolas nordestinas. Utilizou métodos bastantes avançados de econometria espacial. Muito bom o trabalho.

Na assembléia de encerramento, foram premiados o trabalho de econometria espacial da minha namorada (que reagiu como se estivesse ganhando um Óscar!) e do Weslem, sobre a desconcentração industrial no Brasil, que ele apresentou na quarta-feira de manhã enquanto eu estava no ônibus. Meus parabéns aos dois!

Fora as atividades do congresso, aproveitei, junto com os demais cedeplarianos, para conhecer alguns pontos turísticos de São Paulo. Assistimos o jogo da seleção em um bar da Vila Madalena, de muito boa qualidade, mas bem caro. Além disso, conheci com minha namorada o aquário municipal de São Paulo e o Mercado Público (mas não tomei coragem para encarar um daqueles enormes sanduíches de mortadela). Circulei, a pé e de carro, pela região ao sul do centro, como as avenidas Rebuças e Faria Lima. Achei muito legal, os arranha-céus de design arquitetônico moderno combinam muito bem com o caráter cosmopolita da cidade, assim como o tamanho da economia local. Espero voltar lá algum dia para conhecer o resto da cidade.

Segunda-feira, Setembro 14, 2009

Congressos da ABPHE e da ENABER

Semana passada foi cheia de atividades. Participei dos Congressos da Associação Brasileira de Pesquisadores em História Econômica, em Campinas, e da Associação Brasileira de Estudos Regionais, em São Paulo.

Saí de Belo Horizonte no sábado 5/9, às 9 horas da noite, de ônibus. Cheguei em Campinas (com sua maravilhosa nova rodoviária, melhor que muitos dos aeroportos do país) no domingo às 5 e meia da manhã. Peguei um táxi até o hotel Sol Inn, no distrito de Barão Geraldo, a poucas quadras da Unicamp, sede do evento. Lá, tomei café da manhã e dormi até o meio-dia (não consigo dormir direito em ônibus e aviões), pouco antes de começar as atividades. A Unicamp forneceu transporte de ônibus nos três dias de encontro, de ida e volta do hotel, de modo que não fiquei refém das altas tarifas dos táxis de São Paulo.

No congresso de história econômica, revi antigos professores e colegas (como o Pedro Fonseca, o Sérgio Monteiro e a Maria Heloisa Lenz, da UFRGS), e fiz novos amigos, como o Fábio Pesavento (UFF), a Marcia Eckert (UNIFESP) e o Tiago Gil (UNB). Contudo, em termos acadêmicos, os trabalhos pouco me acrescentaram. Me sinto muito distante da pesquisa em história econômica, e também achei os trabalhos muito especializados (como, por exemplo, a formação do setor canavieiro em Piracicaba na década de 1920). Por isso, procurei me concentrar nas sessões de história do pensamento econômico, focando nos aspectos metodológicos, e nas sessões em que pelo menos algum trabalho procurava abordar questões de bem-estar social e de políticas sociais, temas que eu venho pesquisando desde o mestrado. Os trabalhos que assisti e mais me chamaram a atenção foram:

* O Thiago Mandarino (UFVJM) pesquisou dados sobre as causas da mortalidade dos escravos no interior paulista durante o período colonial. Utilizando dados da época (poucos, mas muito interessantes), concluiu que o principal fator eram problemas cardíacos decorrentes do excesso de esforço físico, para adultos, e verminoses, para crianças. Detalhe que o autor conseguiu dados inclusive da idade de cada escravo falecido, e tinha inclusive uma senhora de 150 anos! Se o dado for confiável, é caso de se consultar o Livro dos Récordes...

* O Carlos Eduardo Supriniak, meu colega cedeplariano, apresentou um panorama sobre os debates referentes à política comercial britânica durante as sessões do Parlamento nas primeiras décadas do século XVII. Consultando antigas atas e documentos, sua tese é que foi nesses debates que surgiu o bullionismo, fundamental marco teórico do mercantilismo.

* O Fernando Rugitsky (USP) apresentou um panorama completo sobre a história do pensamento sobre os ciclos econômicos durante o período entre-guerras, destacando um paralelo entre a visão keynesiana e a visão hayekiana. O nível de conhecimento do pesquisador me causou espanto, sobretudo quando ele, mais tarde, em um bar, me contou que é graduado e mestre em Direito, e só agora migrou para a Economia.

* O Júlio Manuel Pires (USP-RP) pesquisou a evolução do gasto público com saúde no Brasil desenvolvimentista. Ele provou com dados que esse gasto tendeu a cair ao longo do período estudado (sobretudo nos anos da Segunda Guerra). Segundo o autor, essa queda refletiu a ideologia dos governos desenvolvimentistas, para quem a modernização da estrutura produtiva era o aspecto fundamental do desenvolvimento, e os indicadores sociais (saúde, educação, etc.) eram endógenos a esse processo. No final de sua apresentação, iniciei um debate com ele, afirmando que talvez isso refletisse não uma convicção ideológica, mas sim uma tentativa desses governos de buscar legitimidade no poder, em uma época de radicalização e instabilidade política, concentrando recursos em políticas de crescimento no curto prazo, em detrimento das de longo prazo, como é o caso da saúde. Na discussão, concordamos que ambos fatores foram importantes.

* Na minha sessão, denominada "Questões Metodológicas" dentro das sessões de história do pensamento econômico, apresentei mais uma vez meu trabalho sobre as idéias de Imre Lakatos na metodologia da economia neoclássica. Os demais trabalhos da sessão abordaram mais o papel da ideologia na construção de escolas do pensamento econômico, e esse foi o tom do debate. No final da sessão, o coordenador da mesa, o Fernando Nogueira da Costa (Unicamp) me pediu para analisar as modernas teorias de finanças, cujas hipóteses muitas vezes parecem ferir os axiomas da racionalidade, à luz do pensamento demarcacionista lakatosiano. No improviso, tentei argumentar que, se a racionalidade faz parte do "núcleo irredutível" da economia neoclássica, ou essas teorias de finanças estão fora desse programa de pesquisa, ou seus postulados (de ênfase na agressividade do investidor e na propensão aos riscos) são empurrados para flexibilizações no cinturão protetor do programa, principalmente no comportamento perante riscos e informação imperfeita.

* O Sérgio Monteiro, meu professor de Economia Brasileira Contemporânea II na UFRGS, demonstrou utilizando teoria dos jogos que o populismo da década de 1950 e início da de 1960 era uma situação de equilíbrio de estratégias dominantes para empresários e trabalhadores. Ou seja, fazia com que ambos cooperassem, e obtivessem juntos maior bem-estar.

O congresso financiou almoço, na segunda e na terça-feira, almoço em uma excelente churrascaria no distrito de Barão Geraldo. Além disso, teve uma feira do livro no saguão do Instituto de Economia da Unicamp, em que pude adquirir um bom livro (sem dogmatismos esquerdistas) sobre a pós-modernidade.

Na quarta-feira às 8 da manhã voltei para a rodoviária e tomei um ônibus para São Paulo, rumo ao congresso da ENABER. Conto mais detalhes em um próximo post.

Sexta-feira, Setembro 04, 2009

Pós-Mestrado News

Já se passaram mais de três meses desde que defendi minha dissertação de mestrado. Parece que foi ontem... Dedico esse post para contar notícias do que fiz e ainda ando fazendo em BH desde então.

Minhas aulas como professor substituto acabaram no início de julho. Como não consegui bolsa nesse semestre, não estou mais dando aulas na UFMG.

Desde o final de julho, quando voltei de férias com minha família em Porto Alegre, estou montando artigos com base em minha dissertação. Concluí o primeiro na terça-feira passada. Basicamente, consiste no capítulo teórico sobre a economia da pobreza, e já submeti na revista Nova Economia, da UFMG. Meu co-orientador me sugeriu encaminhar esse artigo para se tornar um texto interno de discussão no CEDEPLAR-UFMG. Vou fazer isso amanhã.

Estou aguardando ser chamado no IPEA, como bolsista pesquisador. Já encaminhei meu currículo e projeto para eles, e o professor orientador me falou que minhas chances são muito boas. Espero que tudo dê certo.

Hoje recebi uma triste notícia. O meu artigo de modelos hierárquicos, que vou apresentar na próxima quarta-feira no encontro da ABER em São Paulo, foi rejeitado pela revista PPE, do IPEA. Um dos pareceristas foi ríspido, e o outro, mais conciliador. Que pena. Dos meus artigos prontos, achava que este era o melhor.