segunda-feira, outubro 15, 2007

ANPEC - Um Ano Depois

AVISO: este post é nostálgico.

Hoje está fazendo praticamente um ano de quando eu realizei o exame Anpec, de qualificação nacional para pós-graduação em Economia. Ainda me lembro, como se fosse na semana passada, os fatos mais marcantes desses dois dias de provas que podem decidir uma vida inteira:

- As duas noites mal-dormidas, tremendo, suando frio e com o coração acelerado, pensando nas provas do dia seguinte e no resto da vida após as provas;

- Ir de carro até a Puc-RS, e encontrar os amigos no estacionamento, próximo ao prédio da Economia, dando a última revisada e decorando os últimos macetes.

- O próprio prédio da Economia e Administração da Puc-RS, uma verdadeira pérola de design e arquitetura. Até comentei com os colegas: "se não der certo nas provas, até que vai ser agradável estudar aqui".

- As duas salas lotadas de candidatos, sendo que muitos faltaram, e muitos outros eram totais desconhecidos, que marcavam todas as questões em cerca de meia hora de prova.

- A prova de macroeconomia estava bastante diferente das anteriores, e isso provocou pâncico em muita gente. E eu errei uma questão de ponto cheio por bobagem e marquei uma questão inteira errada na folha óptica. "Do Rio Grande do Sul, não saio mais" foi o que eu pensei quando saí da sala. O resto da turma estava muito confiante. "25% de cominho andado até o Rio de Janeiro" era o pensamento geral.

- A prova de estatística estava mais fácil do que no ano anterior. Meu conhecimento da matéria era relativamente baixo, mas as questões eram muito parecidas das provas anteriores.

- Almocei com o Éverton e o Risco em um restaurante que não me lembro onde fica, mas comi lombinho de porco com molho de abacaxi em calda (!).

- A prova de economia brasileira estava muito detalhista. Achei muito difícil, mesmo tendo trabalhado como pesquisador nessa área durante dois anos e meio. Pelo menos, na redação, me redimi, e escrevi quatro páginas mais uma linha sobre os planos de estabilização econômica da década de 80 e 90, com ênfase na visão de inflação inercial que se tinha na época e o "Efeito Tanzi às Avessas" do Fábio Giambiagi, que relacionava a indexação dos contratos co o déficit público, visto por esse autor como a verdadeira causa da inflação no país.

- Cheguei em casa exausto. Tomei um chazinho lendo a Zero Hora, fui pro banho e... estudei até as duas da madrugada.

- No dia seguinte, veio o maior choque. A prova de matemática mudou quase que completamente em relação aos anos anteriores, e fiquei desesperado. Nada de integrais ou limites simples, e pouquíssima álgebra linear. Achei que não passaria nem na Puc-RS.

- Fiz toda a prova de inglês (acho que a USP exigia). Fui rápido, para poder revisar micro no intervalo de almoço.

- Almocei sozinho em um restaurante a quilo perto do prédio do Direito. Encontrei alguns conhecidos do colégio pelo pátio do campus da Puc-RS. E como tinha mulher bonita naquele campus! É a única coisa que me dá saudade daqueles dois dias.

- Revisei microeconomia com o Thomas (USP), o Diego (PUC-RJ) e o Tarso (PUC-RJ). O nível deles estava bem acima do meu, mas não me desesperei. Naquele momento, o que eu mais queria era ficar na UFGRS, mesmo sem bolsa.

- Fiz a prova de microeconomia relativamente tranqüilo. A prova parecia fácil (mas tinha vários pega-ratões que tiraram nota de muita gente). Mas senti que tinha ido bem melhor do que nas outras.

- Saí da prova e acendi o "charuto da vitória" com o Augusto Polegar (Desenvolvimento-UFRGS), um Danemann. Enquanto os mais aplicados queriam revisar as provas, o que eu mais queria era encher a cara.

- Deixei o Éverton e o Risco em sua república, levei o carro para casa e fui para a Cidade Baixa afogar as mágoas. Primeiro, encontrei meus colegas anpecanos no bar do Antônio. Bebemos umas duas horas lá. Depois, fomos para o bar do Fabiano. Por fim, fomos comer X e continuar a cervejada no Pingüim. Conforme bebia, sentia a angústia cada vez mais forte, e os meus amigos perceberam isso. Cheguei em casa e tomei um copo bem cheio de Jack Daniel's para conseguir descansar. Meu pai só foi notar a mudança do nível da sua garrafa em julho desse ano, já que ele não bebe destilados.

- No dia seguinte, dormi bastante e fui para o IEPE me inscrever no programa de mestrado em Desenvolvimento Rural, bastante desiludido comigo mesmo. Para me redimir me dei um CD de presente, acho que do Chuck Berry, na Stoned Records (na Marechal Floriano). Na FCE, veio o Fabiano me contar do roubo do computador do DAECA, que virou um caso famoso por algum tempo.

- Tirei um mês de férias, procurando me recompor fisicamente e psicologicamente da Anpec, e me inscrevi em concursos públicos.

- No dia 18 de Novembro, veio a boa nova. Fui selecionado para a Puc-RS, para a UFRJ e para o Cedeplar-UFMG. Fui rindo sozinho cada vez mais alto a cada e-mail que lia desses centros. Fiquei um tanto histérico nessa hora, e mandei scraps de conteúdo bastante agressivo no Orkut de meus amigos (e inclusive para o professor Sabino, da faculdade). Todos me cumprimentaram. Depois, viajei para o Rio e confirmei o ingresso, com bolsa de estudos, no Cedeplar. Me mudei para Belo Horizonte no dia 13 de janeiro, tendo comigo nada mais do que uma mala de roupas, outra de livros, minha mochila, minha pasta do DAECA, e uma reserva num hotel barato no centro da cidade.

Em relação à prova da Anpec, em primeiro lugar acho muito positiva a organização em nível nacional dos centros de pós-graduação em economia de disponibilizar as vagas para ingresso por meio de uma prova unificada, fechando espaços para quaisquer possíveis favorecimentos aleatórios e panelinhas, como acontece em outras áreas acadêmicas. Se não fosse por essa prova, eu certamente não teria saído de Porto Alegre.

Contudo, acho que a Anpec é muito mais difícil do que deveria ser. As provas têm ao todo quinze questões cada, e raramente as médias superam dois pontos. Isso favorece os centros de maior disputa em nível nacional, como a PUC-RJ e a FGV-RJ, mas, para os demais, cria um grande bolo de candidatos praticamente empatados em suas pontuações, o que torna a seleção muito complicada e até mesmo aleatória, já que um ítem de uma questão acertado em uma prova pode decidir uma bolsa de estudos, ou mesmo uma vaga. Além disso, eu sinceramente acho (e isso vale também para o Vestibular) que avaliar toda a competência de um candidato em dois dias de provas é muito problemático. Mesmo que isso possa reduzir a uniformidade dos critérios de admissão, a análise do currículo dos candidatos é um fator importante, já que cobre fatores de toda a sua vida profissional e acadêmica e não pode ser resumida em questões de provas.

Por fim, não concordo com a presença de questões do tipo pega-ratão nesse tipo de prova. Como na Anpec, um ítem errado elimina os pontos de um ítem respondido erronemanente, questões que induzem o candidato ao erro acabam prejudicando quem estudou mais e quer fazer o maior número de pontos possível para passar nos centros mais difíceis. Por isso, erros de atenção viesam a dificuldade da prova para esses candidatos, enquanto aqueles que estudaram menos tendem a ser mais avessos ao risco e preferir concentrar-se apenas nas questões que realmente dominam.

Por fim, desejo boa sorte a todos o que estão passando esse ano pelo que eu passei no ano passado. E que o esforço de cada um seja devidamente recompensado!

9 comentários:

Laureado disse...

Muito legal sua reminiscência.

Quanto ao método de avaliação; eu acho que a prova é a melhor maneira sim, a prova é a forma mais meritória, portanto, acho que convém. Mesmo pq se o critério fosse avaliação através de currículo eu estaria lascado...fiquei duas vezes em FEB2.

abraço,

Laureado

tandreis disse...

E ae tchê!!

Então o susto maior já passou? Bom saber que está se dando bem! Eu continuo aqui nas sociais e estou gostando, mas de vez em quando sinto saudade de estudar coisas mais econômicas stricto sensu... O pior é que a carga de leitura é tão grande que não consigo ler muitas das outras coisas que eu gostaria. Semana que vem (do dia 22 até o dia 28 de outubro, vou estar aí no teu estado. Vou pra Minas para um congresso da ANPOCS - Associação nacional de pós-graduação em ciências sociais. Só que é lá em Caxambú, conhece? É uma cidadezinha minúscula bem no sul. É mais perto de ir por São Paulo do que por BH. Por isso, nem vou passar em BH, cara. Mas vamos ver como são as meninas mineiras, uai.
Quanto à ANPEC, realmente tem vários problemas, mas dá mesmo mais transparência ao processo. Um problema sério que eu vejo é que existem programas com linhas de pesquisas muito peculiares e fazer uma prova geral, aplicável a todos os programas, pode não contemplar interesses teóricos de alguns em particular, ou de muitos programas. Isso meio que inviabiliza essa fórmula para os cursos de sociologia, antropologia, ciência política... Na economia também, mas talvez em menor grau. Cada programa é um feudo e fazer uma prova que congregue todos é complicado. Isso sem mencionar aquilo que tu já falou muito bem do desgaste físico e psicológico.
E quando eu vou ler algum artigo teu?
Abraço!
Thiago Andreis

Risco disse...

Grande Ricardo!!!

E tu achava que não ia passar fora do RS. Só tu achava isso. hehehehehehMas uma hora eu tambem cheguei a ficar preocupado em não passar com bolsa.

Tu viu os comentarios das provas desse ano? O pessoal ta apavorado.

Abraço

Amy Mizuno disse...

Bem me lembro dessa época, tu só falava em "não vou passar nem aqui na UFRGS". Nunca vou esquecer o dia que tu me deixou o recado aquele no orkut. Foi muito engraçado, PORRA.
HAUHAUHAUHAUHAUHAUAH

Ricardo Agostini Martini disse...

Thiago: se passar por BH, meu endereço está aqui no blog, e o celular é (31)9333-9358. Abraço.

Risco: me falaram q a prova de matemática dessa ano estava muito sem noção. Voltada para matemáticos, não para economistas.

Juliana: mais engraçado foi ouvir o mesmo comentário do Sabino, quando ele me encontrou na FCE, no dia seguinte!

Thomas H. Kang disse...

hehe, eita nostalgia. Eu não lembro de todos esses detalhes, cara.

Ah, uma pergunta: quem é teu professor de metodologia ou hpe mesmo?

abs

Ricardo Agostini Martini disse...

O professor de metodologia é o Hugo E. A. da Gama Cerqueira. Tem doutorado em filosofia.

Rafaella Lima disse...

Adorei o texto, mas ao mesmo tempo deu um frio na barriga e no final um paradoxo de esperança e medo. Espero que as coisas deem certo pros que realmente se esforçam. Abraços e sucesso.

Ricardo Agostini Martini disse...

Boa sorte!