Já faz mais de uma semana desde que me mudei para Brasília, e minhas primeiras impressões sobre a cidade são bastante distintas das que tive quando me mudei para Belo Horizonte, em 2007. Em primeiro lugar, ao contrário da capital mineira, particularmente de sua região central, que é uma metrópole de prédios altos, cinzentos e colados uns aos outros de modo que a vista do céu é prejudicada, Brasília é muito mais espaçosa, e de prédios baixos, a não ser os de órgãos do governo.
No Plano Piloto (Asas Sul e Norte), reside a classe média brasiliense (os mais abastados moram em condomínios e mansões atrás dos lagos e junto às embaixadas). Existem cerca de 16 quadras de extensão por 7 de largura em cada asa, e cada quadra é classificada de acordo com sua funcionalidade, tal como "Comércio Local", "Setor Residencial", "Setor Hospitalar", "Setor Hoteleiro", etc. Os endereços são dados pelo número da quadra que se localiza o imóvel, junto com o "bloco" que indica a posição do imóvel na quadra. No início, é estranho ler esses endereços, mas depois de se aprender a sua lógica, torna-se fácil de se orientar pela cidade. O quitinete que estou dividindo (Morato II) fica na quadra 502, que é um setor comercial.
As quadras, em geral, são muito grandes, com muito espaço entre os prédios (os "blocos"), de modo que existem calçadas entre eles para a circulação de pedestres. A circulação de carros é mais complexa: cada quadra tem um acesso próprio, com um estacionamento de rua (poucos prédios têm garagem subterrânea) em cada uma. Os prédios são bastante curiosos: originalmente eram todos bastante semelhantes, mas depois de tantas reformas ao longo dos 50 anos da capital federal, eles adquiriram design próprio, cada um. As reformas dos prédios funcionais, adaptando-os às demandas tecnológicas e arquitetônicas ao longo das décadas, seguem um processo peculiar: alguma construtora compra um prédio antigo, quebra-o quase por inteiro, deixando apenas seu "esqueleto", e constrói todo o resto de novo, deixando como se fosse um prédio novo. Na quadra atrás do quitinete, quase todos os prédios estão passando por esse tipo de reforma. Além disso, mesmo com toda a área verde presente na cidade, e que eu sentia tanta falta quando morava em BH, confesso que não acho os prédios de Brasília bonitos, a não ser os mais recentes, ou os melhor reformados. Ainda não me acostumei com a estética dos prédios funcionais originais, todos iguais e com aspecto de pequenos colégios. Mesmo os prédios públicos mais antigos (à excessão do Banco Central e do Banco do Brasil) parecem gigantescas caixas de fósforos empilhadas.
Por outro lado, a gastronomia da cidade, assim como sua vida cultural, é muito rica e agradável. O custo da alimentação em Brasília, ao contrário do que me falaram, não é absurdamente cara: um pouco mais que em Belo Horizonte, mas muito menos que em São Paulo, por exemplo, os preços estão mais ou menos no nível de Porto Alegre. Existem muitos restaurantes caros, mas também existem restaurantes funcionais nos ministérios que são subsidiados (10 reais o quilo, no almoço), além de restaurantes com pratos executivos de cerca de 10 reais, e botecos mais simples que servem pratos enormes de arroz, feijão, bife e salada por 7 reais. Ao contrário de BH, pastelarias, confeitarias e lanchonetes especializadas em salgados e pão-de-queijo são raras em Brasília, e estão concentradas na rodoviária. O lanche típico da população são redes de fast-food como Giraffa's, Subway, Bob's e McDonald's, que abundam pelas quadras comerciais. Isso, sim, pode elevar os gastos pessoais com alimentação. A vida cultural conta com muitas exposições de artes plásticas e teatros junto às sedes dos bancos, além de casas de cinema alternativo, tudo a preços acessíveis (ou de graça).
O sistema de ônibus da cidade me pareceu eficiente, com muitas linhas e freqüência satisfatória. Além disso, há uma discriminação de preços nas tarifas: os ônibus que circulam no plano piloto cobram 2 reais, e os que vão até as cidades satélites cobram 3 reais a passagem. A discriminação certamente reflete os custos com combustível, mas é pior para a população mais pobre, que costuma morar mais longe dos seus postos de trabalho. O que me impressionou foi a má qualidade dos ônibus da cidade, muitos deles são tão antigos que parecem que vão estragar a cada vez que o motorista pára em uma parada. Isso é surpreendente para uma cidade da renda per capita de Brasília...
Estou trabalhando em um órgão de pesquisa em economia aplicada na Secretaria de Assuntos Estratégicos ligado à ONU (IPC-UNDP), que fica na Esplanada dos Ministérios. Nos finais de semana, quando não estou procurando apartemento com meu colega de mestrado (e de quitinete), tenho visitado os pontos turísticos da capital federal: visitei o Congresso, que é muito interessante (apesar de que o plenário da Câmara é muito menor pessoalmente do que parece na televisão) e com muito conteúdo didático sobre a história e as instituições políticas brasileiras, as sedes do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal, e a região dos lagos. Ainda há muito o que conhecer por aqui!
domingo, novembro 01, 2009
Primeiras Impressões sobre Brasília
Marcadores:
In My Life,
Wherever I May Roam
sexta-feira, outubro 30, 2009
Os Ditados Populares na Era Digital
Mais um e-mail engraçado que recebi de meus colegas. Como atualizar os ditos populares com a evolução da informática e das telecomunicações?
1. A pressa é inimiga da conexão.
2. Amigos, amigos, senhas à parte.
3. Antes só, do que em chats aborrecidos.
4. A arquivo dado não se olha o formato.
5. Diga-me que chat frequentas e te direi quem és.
6. Para bom provedor uma senha basta.
7. Não adianta chorar sobre arquivo deletado.
8. Em briga de namorados virtuais não se mete o mouse.
9. Em terra off-line, quem tem um 486 é rei.
10. Hacker que ladra, não morde.
11. Mais vale um arquivo no HD do que dois baixando.
12. Mouse sujo se limpa em casa.
13. Melhor prevenir do que formatar.
14.O barato sai caro. E lento.
15.Quando a esmola é demais , o santo desconfia que tem vírus anexado.
16. Quando um não quer, dois não teclam.
17. Quem ama um 486, Pentium 5 lhe parece.
18. Quem clica seus males multiplica.
19. Quem com vírus infecta, com v'rus será infectado.
20. Quem envia o que quer, recebe o que não quer.
21. Quem não tem banda larga, caça com modem.
22. Quem nunca errou, que aperte a primeira tecla.
23. Quem semeia e-mails, colhe spams.
24. Quem tem dedo vai a Roma.com
25. Um é pouco, dois é bom, três é chat ou lista virtual.
26. Vão-se os arquivos, ficam os backups.
27. Diga-me que computadortens e direi quem és.
28. Há dois tipos de pessoas na informática. Os que perderam o HD e os que ainda vão perder...
29. Uma impressora disse para outra: Essa folha é sua ou é impressão minha?
30. Aluno de informática não cola, faz backup.
31. O problema de computador é o USB (Usuário Super Burro).
32. Na informática nada se perde nada se cria. Tudo se copia... E depois se cola.
1. A pressa é inimiga da conexão.
2. Amigos, amigos, senhas à parte.
3. Antes só, do que em chats aborrecidos.
4. A arquivo dado não se olha o formato.
5. Diga-me que chat frequentas e te direi quem és.
6. Para bom provedor uma senha basta.
7. Não adianta chorar sobre arquivo deletado.
8. Em briga de namorados virtuais não se mete o mouse.
9. Em terra off-line, quem tem um 486 é rei.
10. Hacker que ladra, não morde.
11. Mais vale um arquivo no HD do que dois baixando.
12. Mouse sujo se limpa em casa.
13. Melhor prevenir do que formatar.
14.O barato sai caro. E lento.
15.Quando a esmola é demais , o santo desconfia que tem vírus anexado.
16. Quando um não quer, dois não teclam.
17. Quem ama um 486, Pentium 5 lhe parece.
18. Quem clica seus males multiplica.
19. Quem com vírus infecta, com v'rus será infectado.
20. Quem envia o que quer, recebe o que não quer.
21. Quem não tem banda larga, caça com modem.
22. Quem nunca errou, que aperte a primeira tecla.
23. Quem semeia e-mails, colhe spams.
24. Quem tem dedo vai a Roma.com
25. Um é pouco, dois é bom, três é chat ou lista virtual.
26. Vão-se os arquivos, ficam os backups.
27. Diga-me que computadortens e direi quem és.
28. Há dois tipos de pessoas na informática. Os que perderam o HD e os que ainda vão perder...
29. Uma impressora disse para outra: Essa folha é sua ou é impressão minha?
30. Aluno de informática não cola, faz backup.
31. O problema de computador é o USB (Usuário Super Burro).
32. Na informática nada se perde nada se cria. Tudo se copia... E depois se cola.
Marcadores:
Fun Fun Fun
segunda-feira, outubro 26, 2009
Brasília News
Sábado de manhã, cheguei em Brasília. A viagem de avião foi tranqüila, apesar de eu ter que pagar mais de 100 reais de excesso de peso na bagagem despachada. E isso que eu ainda tenho quatro caixas cheias de papers e livros na minha ex-república belorizontina, que eu fiquei de pegar ainda nesse ano. De qualquer forma, minhas bagagens chegaram são, salvas e no horário na capital federal.
De cara, na saída do aeroporto, tomei o famoso golpe do "taxi pirata", que muita gente já tinha me alertado. Ao procurar um taxi, fui indicado para um carro (muito fino e bem cuidado, diga-se de passagem) sem nenhuma pintura que o caracterizasse como taxi. Após embarcar minha bagagem, já quase na metade do caminho, notei que o carro não tinha taxímetro, isto é, eu tinha pego um taxi não-oficial DENTRO do aeroporto de Brasília, e fiquei totalmente à mercê do preço de seu motorista. O cara me cobrou 70 reais (!), quase o preço de uma viagem de BH até o aeroporto de Confins. Pelo menos, me deixou na porta do flat em que eu tinha reserva (não me seqüestrou).
Estou hospedado num quitinete do flat Morato II, no início da Asa Norte. O prédio é muito simples, mas o quarto é muito bom, não tem nenhuma comparação com o hotel Normandy, que eu fiquei nos meus primeiros meses em Belo Horizonte. O quarto tem um dormitório com duas camas (estou dividindo com um colega de mestrado, que passou no concurso do IPEA), uma sala conjugada com um armário de cozinha que tem um frigobar e um fogão, além de um banheiro. Pretendemos ficar por aqui até encontrarmos um apartamento de preço factível para alugar.
No mesmo dia, visitamos o Brasília Shopping, que como a maior parte dos shoppings, é um não-lugar, ou seja, é igual em qualquer lugar. Lá, almoçamos comida mineira (concluímos que não há feijão tropeiro melhor do que o de BH), e pude comprar um mapa da cidade. Passamos o resto do dia olhando classificados e pesquisando pela internet sobre apartamentos para alugar. Ao entardecer, fomos assistir futebol em um boteco de nordestinos perto do nosso flat. Lá, a cerveja era barata, R$3,50 a garrafa, longe dos preços absurdos que muitos amigos meus me avisaram sobre a gastronomia brasiliense, antes de eu viajar.
No domingo, demos uma volta pela cidade. Brasília é uma cidade "estranha", planejada bem demais. Alguns serviços, como bancos e hotéis, formam clusters ocupando quadras inteiras. Nas asas, predominam serviços comerciais ao longo das principais avenidas, ao passo que dentro das super-quadras, abundam prédios residenciais de não mais do que cinco ou seis andares. Em termos de arranha-céus nos moldes belorizontinos ou paulistanos, só vi hotéis e prédios públicos. Cada asa parece, na verdade, uma cidade do interior, com muito espaço e áreas verdes entre as construções. Os prédios estão cercados por caminhos de terra batida, percorridos pelos pedestres, que podem fazer atalhos por dentro das imensas quadras.
Ainda não me adaptei à nomenclatura das ruas e quadras. Meu flat dica na quadra 502, em frente à avenida W3. Isso ainda me parece tão estranho... Mas já me avisaram que é fácil de se acostumar, depois de certo tempo.
De cara, na saída do aeroporto, tomei o famoso golpe do "taxi pirata", que muita gente já tinha me alertado. Ao procurar um taxi, fui indicado para um carro (muito fino e bem cuidado, diga-se de passagem) sem nenhuma pintura que o caracterizasse como taxi. Após embarcar minha bagagem, já quase na metade do caminho, notei que o carro não tinha taxímetro, isto é, eu tinha pego um taxi não-oficial DENTRO do aeroporto de Brasília, e fiquei totalmente à mercê do preço de seu motorista. O cara me cobrou 70 reais (!), quase o preço de uma viagem de BH até o aeroporto de Confins. Pelo menos, me deixou na porta do flat em que eu tinha reserva (não me seqüestrou).
Estou hospedado num quitinete do flat Morato II, no início da Asa Norte. O prédio é muito simples, mas o quarto é muito bom, não tem nenhuma comparação com o hotel Normandy, que eu fiquei nos meus primeiros meses em Belo Horizonte. O quarto tem um dormitório com duas camas (estou dividindo com um colega de mestrado, que passou no concurso do IPEA), uma sala conjugada com um armário de cozinha que tem um frigobar e um fogão, além de um banheiro. Pretendemos ficar por aqui até encontrarmos um apartamento de preço factível para alugar.
No mesmo dia, visitamos o Brasília Shopping, que como a maior parte dos shoppings, é um não-lugar, ou seja, é igual em qualquer lugar. Lá, almoçamos comida mineira (concluímos que não há feijão tropeiro melhor do que o de BH), e pude comprar um mapa da cidade. Passamos o resto do dia olhando classificados e pesquisando pela internet sobre apartamentos para alugar. Ao entardecer, fomos assistir futebol em um boteco de nordestinos perto do nosso flat. Lá, a cerveja era barata, R$3,50 a garrafa, longe dos preços absurdos que muitos amigos meus me avisaram sobre a gastronomia brasiliense, antes de eu viajar.
No domingo, demos uma volta pela cidade. Brasília é uma cidade "estranha", planejada bem demais. Alguns serviços, como bancos e hotéis, formam clusters ocupando quadras inteiras. Nas asas, predominam serviços comerciais ao longo das principais avenidas, ao passo que dentro das super-quadras, abundam prédios residenciais de não mais do que cinco ou seis andares. Em termos de arranha-céus nos moldes belorizontinos ou paulistanos, só vi hotéis e prédios públicos. Cada asa parece, na verdade, uma cidade do interior, com muito espaço e áreas verdes entre as construções. Os prédios estão cercados por caminhos de terra batida, percorridos pelos pedestres, que podem fazer atalhos por dentro das imensas quadras.
Ainda não me adaptei à nomenclatura das ruas e quadras. Meu flat dica na quadra 502, em frente à avenida W3. Isso ainda me parece tão estranho... Mas já me avisaram que é fácil de se acostumar, depois de certo tempo.
Marcadores:
In My Life,
Wherever I May Roam
sábado, outubro 24, 2009
Moving On... Adeus BH!
Hoje passei o dia encaixotando meus livros e arrumando minhas malas. Amanhã de manhã, embarco para Brasília, em busca de novas oportunidades.
Quando paro para pensar, me lembro que estou a quase três anos vivendo na capital mineira, e tudo parece que passou voando. Desde o fatídico dia em que deixei a casa dos meus pais em Porto Alegre para desembarcar no antigo Hotel Normandy, no centro, passando por todo o mestrado no Cedeplar-UFMG (e o clima de desespero no primeiro semestre), a mudança para a República Gaúcha na Cidade Nova, a mudança da sede da FACE-UFMG do Centro para o campus Pampulha, o momento em que conheci minha namorada Ana Carolina, as apresentações de trabalhos em congressos pelo país, a mudança para a República do Buraco, os shows do Iron Maiden e do Heaven and Hell, a defesa da dissertação, minha experiência como professor de macroeconomia, os meses em procura de emprego até hoje, parece que tudo ocorreu em um piscar de olhos. E tudo está registrado aqui no blog, nos posts a partir de 2007.
Por isso, hoje, meu último dia como residente oficial em Belo Horizonte, resolvi passar a tarde me despedindo solitariamente de tudo o que mais gostei da cidade. Saí de casa caminhando até a praça da Liberdade, que está quase toda em reformas de restauração dos prédios históricos. Desci pela avenida Cristóvão Colombo até a praça da Savassi, observando todos os bares e botecos que já freqüentei e, sobretudo, os que não tive oportunidade de freqüentar. Virei a esquerda na avenida Getúlio Vargas e segui até a Afonso Pena, e pude relembrar, no caminho, de todas as histórias que já presenciei na casa noturna A Obra e no bar da Dalva, este, sede da minha comemoração de aniversário no ano passado.

Pela Afonso Pena, segui sempre em frente e para cima, subindo as ladeiras próximas à avenida do Contorno e à praça da Bandeira. Tirei uma foto do prédio da Oi, cujo museu da história da telefonia, ainda que pequeno, foi uma das melhores atrações que assisti na cidade.

Daí segui para a Praça do Papa, que na minha opinião é o principal cartão postal da capital mineira. Como tivemos por aqui duas semanas de constantes chuvas, as montanhas da Serra do Curral, que limitam a cidade pelo sul, estavam totalmente verdes. De lá, assisti pela última vez (por algum tempo) o Belo Horizonte iluminado pelo Sol, enquanto tomava uma água de côco. De acordo com o Goodle Maps, foram 6,2 km de caminhada.



Ao pôr-do-sol, peguei um ônibus de volta para o Centro. Terminei de arrumar minhas coisas, e fui jantar sozinho do rodízio de massas do La Greppia, tradicional ponto de reflexões pós-modernas com o Diego (e outros convidados) no primeiro semestre desse ano. Após jantar, fiquei durante algum tempo sentado na mesa degustando uma excelente Serramalte e pensando na vida...
Devo retornar à Belo Horizonte em breve, e com uma certa freqüência, já que minha namorada continua na cidade por pelo menos mais um ano, já que cursa doutorado no Cedeplar-UFMG. Além disso, deixo na minha república quatro caixas de livros, artigos e CDs, para carregar depois. Mas, quando retornar, serei um mero visitante na cidade, não mais um morador com raízes firmadas.
Amanhã, meu novo lar será o flat Morato II, na Asa Norte de Brasília. Dividirei o apartamento com um ex-colega de mestrado que passou em concurso. Procuraremos um apartamento para montar uma nova república em breve.
Quando paro para pensar, me lembro que estou a quase três anos vivendo na capital mineira, e tudo parece que passou voando. Desde o fatídico dia em que deixei a casa dos meus pais em Porto Alegre para desembarcar no antigo Hotel Normandy, no centro, passando por todo o mestrado no Cedeplar-UFMG (e o clima de desespero no primeiro semestre), a mudança para a República Gaúcha na Cidade Nova, a mudança da sede da FACE-UFMG do Centro para o campus Pampulha, o momento em que conheci minha namorada Ana Carolina, as apresentações de trabalhos em congressos pelo país, a mudança para a República do Buraco, os shows do Iron Maiden e do Heaven and Hell, a defesa da dissertação, minha experiência como professor de macroeconomia, os meses em procura de emprego até hoje, parece que tudo ocorreu em um piscar de olhos. E tudo está registrado aqui no blog, nos posts a partir de 2007.
Por isso, hoje, meu último dia como residente oficial em Belo Horizonte, resolvi passar a tarde me despedindo solitariamente de tudo o que mais gostei da cidade. Saí de casa caminhando até a praça da Liberdade, que está quase toda em reformas de restauração dos prédios históricos. Desci pela avenida Cristóvão Colombo até a praça da Savassi, observando todos os bares e botecos que já freqüentei e, sobretudo, os que não tive oportunidade de freqüentar. Virei a esquerda na avenida Getúlio Vargas e segui até a Afonso Pena, e pude relembrar, no caminho, de todas as histórias que já presenciei na casa noturna A Obra e no bar da Dalva, este, sede da minha comemoração de aniversário no ano passado.
Pela Afonso Pena, segui sempre em frente e para cima, subindo as ladeiras próximas à avenida do Contorno e à praça da Bandeira. Tirei uma foto do prédio da Oi, cujo museu da história da telefonia, ainda que pequeno, foi uma das melhores atrações que assisti na cidade.
Daí segui para a Praça do Papa, que na minha opinião é o principal cartão postal da capital mineira. Como tivemos por aqui duas semanas de constantes chuvas, as montanhas da Serra do Curral, que limitam a cidade pelo sul, estavam totalmente verdes. De lá, assisti pela última vez (por algum tempo) o Belo Horizonte iluminado pelo Sol, enquanto tomava uma água de côco. De acordo com o Goodle Maps, foram 6,2 km de caminhada.
Ao pôr-do-sol, peguei um ônibus de volta para o Centro. Terminei de arrumar minhas coisas, e fui jantar sozinho do rodízio de massas do La Greppia, tradicional ponto de reflexões pós-modernas com o Diego (e outros convidados) no primeiro semestre desse ano. Após jantar, fiquei durante algum tempo sentado na mesa degustando uma excelente Serramalte e pensando na vida...
Devo retornar à Belo Horizonte em breve, e com uma certa freqüência, já que minha namorada continua na cidade por pelo menos mais um ano, já que cursa doutorado no Cedeplar-UFMG. Além disso, deixo na minha república quatro caixas de livros, artigos e CDs, para carregar depois. Mas, quando retornar, serei um mero visitante na cidade, não mais um morador com raízes firmadas.
Amanhã, meu novo lar será o flat Morato II, na Asa Norte de Brasília. Dividirei o apartamento com um ex-colega de mestrado que passou em concurso. Procuraremos um apartamento para montar uma nova república em breve.
Marcadores:
In My Life,
Wherever I May Roam
terça-feira, outubro 20, 2009
Minas Tour
Na semana passada, fiz com meus colegas do Cedeplar-UFMG uma tour por algumas cidades do interior de Minas Gerais: Ouro Preto, Viçosa e Mariana. Eu bem que queria ter visitado sobretudo Ouro Preto anteriormente, já que fazem quase três anos desde que me mudei para Belo Horizonte, mas sempre fiquei aguardando que meus colegas organizassem uma caravana turística.
O motivo de minha viagem naquele feriadão do dia 12 era o casamento de um de meus colegas (o Thiago Caliari) na cidade de Viçosa, no sábado dia 10 de outubro. Assim, na manhã desse dia, saí de carona com mais 3 colegas meus, além da minha namorada, pela Estrada Real, que atravessa Minas Gerais rumo ao Rio de Janeiro, e por onde ocorria o transporte de ouro e pedras preciosas desde o século XVII.
Primeiro passamos por Ouro Preto, a antiga capital mineira. Tiramos fotos do seu centro histórico. As construções são bastante bonitas, mas confesso que me decepcionei com a questão da preservação. Tudo parecia quase que em ruínas. Contudo, me contaram que durante aquele mesmo feriadão estava ocorrendo na cidade algum tipo de festa universitária, que estava trazendo sujeira e caos para o ambiente. Espero que, no futuro, eu tenha a oportunidade de conhecer Ouro Preto em uma época do ano menos agitada. Algumas das fotos que bati da cidade são essas:


No sábado à tarde, chegamos em Viçosa. Essa cidade, localizada no ponto médio entre Belo Horizonte e Vitória, no Espírito Santo, é uma cidade universitária, de tamanho relativamente grande, e com boa infra-estrutura residencial e comercial. O casamento ocorreu na mesma noite, e, na manhã de domingo, conhecemos a principal atração da cidade: a Universidade Federal de Viçosa. O campus é bastante extenso, com muitos prédios antigos, da década de 1910, quando foi fundada a universidade (durante o mandato do presidente do Brasil nascido em Viçosa Arthur Bernardes), de arquitetura neoclássica. A universidade é muito bem conservada e limpa, não se vê quase nenhum lixo no chão, quem visita se sente praticamente em uma universidade européia ou norte-americana, como se pode ver pelas fotos abaixo:



Após conhecer a universidade, compramos o famoso doce de leite local (mais escuro e menos doce que o "Mumu" de Porto Alegre, e comido puro pela população mineira, e não passado no pão) em um supermercado. Daí, seguimos para Mariana, próxima a Ouro Preto, no sentido de retorno à capital Belo Horizonte.
Mariana foi a primeira capital de Minas Gerais. A cidade tem um visual colonial, semelhante à Diamantina (no norte do estado), e um aspecto mais tranqüilo, com mentos turistas do que Ouro Preto naquele feriadão. Conhecemos alguns restaurantes típicos mineiros, a praça central da cidade (que pareceu ser o principal point noturno dos adolescentes locais) e quatro igrejas barrocas, de arquitetur imponente. Na segunda pela manhã, percorremos o caminho de Mariana para Ouro Preto de trem, acompanhando as atrações históricas nas duas estações, que estão quase que tranformadas em verdadeiros museus. Algumas das fotos que tirei em Mariana estão a seguir:


O motivo de minha viagem naquele feriadão do dia 12 era o casamento de um de meus colegas (o Thiago Caliari) na cidade de Viçosa, no sábado dia 10 de outubro. Assim, na manhã desse dia, saí de carona com mais 3 colegas meus, além da minha namorada, pela Estrada Real, que atravessa Minas Gerais rumo ao Rio de Janeiro, e por onde ocorria o transporte de ouro e pedras preciosas desde o século XVII.
Primeiro passamos por Ouro Preto, a antiga capital mineira. Tiramos fotos do seu centro histórico. As construções são bastante bonitas, mas confesso que me decepcionei com a questão da preservação. Tudo parecia quase que em ruínas. Contudo, me contaram que durante aquele mesmo feriadão estava ocorrendo na cidade algum tipo de festa universitária, que estava trazendo sujeira e caos para o ambiente. Espero que, no futuro, eu tenha a oportunidade de conhecer Ouro Preto em uma época do ano menos agitada. Algumas das fotos que bati da cidade são essas:
No sábado à tarde, chegamos em Viçosa. Essa cidade, localizada no ponto médio entre Belo Horizonte e Vitória, no Espírito Santo, é uma cidade universitária, de tamanho relativamente grande, e com boa infra-estrutura residencial e comercial. O casamento ocorreu na mesma noite, e, na manhã de domingo, conhecemos a principal atração da cidade: a Universidade Federal de Viçosa. O campus é bastante extenso, com muitos prédios antigos, da década de 1910, quando foi fundada a universidade (durante o mandato do presidente do Brasil nascido em Viçosa Arthur Bernardes), de arquitetura neoclássica. A universidade é muito bem conservada e limpa, não se vê quase nenhum lixo no chão, quem visita se sente praticamente em uma universidade européia ou norte-americana, como se pode ver pelas fotos abaixo:
Após conhecer a universidade, compramos o famoso doce de leite local (mais escuro e menos doce que o "Mumu" de Porto Alegre, e comido puro pela população mineira, e não passado no pão) em um supermercado. Daí, seguimos para Mariana, próxima a Ouro Preto, no sentido de retorno à capital Belo Horizonte.
Mariana foi a primeira capital de Minas Gerais. A cidade tem um visual colonial, semelhante à Diamantina (no norte do estado), e um aspecto mais tranqüilo, com mentos turistas do que Ouro Preto naquele feriadão. Conhecemos alguns restaurantes típicos mineiros, a praça central da cidade (que pareceu ser o principal point noturno dos adolescentes locais) e quatro igrejas barrocas, de arquitetur imponente. Na segunda pela manhã, percorremos o caminho de Mariana para Ouro Preto de trem, acompanhando as atrações históricas nas duas estações, que estão quase que tranformadas em verdadeiros museus. Algumas das fotos que tirei em Mariana estão a seguir:
Marcadores:
Wherever I May Roam
segunda-feira, outubro 19, 2009
Motivo de Minha Ausência
Como todos podem ter notado, o blog está meio parado nas últimas semanas. O motivo de minha ausência é uma obra que está sendo realizada no Shopping Cidade, ao lado do prédio onde moro, no Centro de Belo Horizonte. Estão construindo dois novos andares neste shopping, o que tirará a iluminação solar do meu quarto.
Está meio complicado agüentar barulho de furadeiras e pregação de lajes de segunda a sábado, e domingo pela manhã. Por isso, tento permanecer o menor tempo possível em casa durante a manhã e a tarde.
Está meio complicado agüentar barulho de furadeiras e pregação de lajes de segunda a sábado, e domingo pela manhã. Por isso, tento permanecer o menor tempo possível em casa durante a manhã e a tarde.
Marcadores:
In My Life
sexta-feira, outubro 16, 2009
Primeira "Publicação"
Hoje, meu artigo "Um Ensaio sobre os Aspectos Teóricos e Metodológicos da Economia da Pobreza" foi publicado como texto de discussão do CEDEPLAR-UFMG. Já submeti o mesmo trabalho na revista Nova Economia.
Espero que esse texto, que consiste no capítulo 2 da minha dissertação, seja de interesse dos iniciantes na área de Economia do Bem-Estar Social.
Espero que esse texto, que consiste no capítulo 2 da minha dissertação, seja de interesse dos iniciantes na área de Economia do Bem-Estar Social.
Marcadores:
Bem-Estar Social,
economia,
In My Life
terça-feira, outubro 06, 2009
Hitler Não Passou na ANPEC
Apareceu um vídeo muito legal no Youtube. Nele, Hitler discute com seus colaboradores sobre seu fracasso na prova de microeconomia do exame da ANPEC. O vídeo é relegendado do excelente filme "A Queda", e eu já vi paródias semelhantes se referindo à eliminação do Internacional da Copa Libertadores do ano passado, do Cruzeiro nesse ano e à corrupção do governo Yeda. Mas considero esse o mais engraçado.
Marcadores:
Fun Fun Fun
sexta-feira, setembro 25, 2009
A Identidade Cultural na Pós-Modernidade - Stuart Hall
Comprei esse volume em uma feira de livros na Unicamp, durante o congresso de história econômica, para ter uma opção de entretenimento durante as conferências que não eram de meu interesse. Porém, meu interesse pela pós-modernidade não é recente. Comecei a ler sobre essa temática, que procura teorizar e relacionar a sociedade, a cultura e a intelectualidade contemporâneas, por indicação de um médico psiquiatra, em 2005. Primeiramente, conheci a obra de Michel Maffesoli, e em seguida estudei o livrinho de bolso do Jair Ferreira dos Santos ("O Que É Pós-Moderno?"). Nos últimos dois anos, porém, após longas discussões em mesa de bar com o "Vagabundo Iluminado" Diego Rodrigues, ando mais curioso sobre esse tema, e tenho procurado livros e artigos sobre isso.
No entanto, muito do que tenho lido sobre isso tem me agregado pouca conhecimento. Infelizmente, muitos sociólogos (que são os acadêmicos que mais estudam a pós-modernidade) têm o hábito de escrever de forma obscura, usando e abusando de figuras e formas metafóricas de linguagem, tornando seus textos pouco compreensíveis para quem não tem formação nessa área. Além disso, vários ramos das ciências humanas são impregnados por um relativismo radical, que tira toda e qualquer objetividade do conhecimento, o que torna a leitura de suas obras muito cansativa.
Felizmente, esse não é o caso do livro do Stuart Hall. O autor sabe escrever de maneira bastante clara suas idéias. Segundo o autor, a pós-modernidade, isto é, o período histórico da sociedade, da cultura e da intelectualidade após a Segunda Guerra Mundial, consiste em uma brusca mudança nas identidades sociais tais como elas eram definidas. Ou seja, o autor considera a pós-modernidade como um surto de "crise de identidade" generalizada para o indivíduo humano.
Explicando melhor, o autor diferencia três concepções da identidade individual, de acordo com o período histórico e o ramo do conhecimento implícito. Primeiro, o "sujeito Moderno", ou "sujeito do Iluminismo", visto como um indivíduo unificado e plenamente dotado do senso de razão, decisão, consciência e ação. A racionalidade é vista como o centro essencial da identidade de uma pessoa: todo indivíduo utiliza meios para atingir seus interesses individualmente estabelecidos. Essa concepção de indivíduo está diretamente relacionada à teoria da escolha racional da Ciência Econômica, e à teoria do Direito Natural.
Segundo, o "sujeito sociológico", definido pelas relações de cada indivíduo com o seu meio social, de acordo com a interação com outras pessoas. Isto é, a personalidade de cada sujeito é definida pela interação com a sociedade; cada indivíduo tem uma essência interior, mas esta é continuamente afetada e alterada pelas suas relações com o mundo exterior. Tal visão surgiu no final do século XIX, com o desenvolvimento das ciências sociais, particularmente a sociologia, sobretudo com as obras de autores como Èmile Durkheim.
Terceiro, o "sujeito pós-moderno", visto de acordo com a negação de que as pessoas tenham uma essência individual interior unificada. Isto é, o sujeito tem não uma única, mas sim uma grande variedade de identidades pessoais, e muitas delas podem ser contraditórias umas com as outras, ou mesmo mal resolvidas.
A transformação da concepção moderna-sociológica de sujeito para a concepção pós-moderna, segundo Stuart Hall, decorreu dos avanços nas ciências biológicas e sociais nos séculos XIX e XX que demonstraram a superficialidade da noção do indivíduo unificado definida anteriormente. Na verdade, a própria noção do indivíduo moderno decorreu da evolução intelectual do Ocidente a partir do Renascimento, em contraposição à visão religiosa anterior. Segundo Hall (pg. 26),
Essa noção de indivíduo foi abalada, a partir do século XIX, tanto pelo desenvolvimento da biologia darwiniana, que encontrou fundamentos naturais para o explicar a racionalidade humana, como pela complexização das sociedades modernas, com o crescimento das atividades comerciais, industriais e a urbanização, o que permitiu o desenvolvimento de novas teorias capazes de explicar a ação e a interação dos indivíduos. Hall aponta cinco avanços da teoria social que contribuíram para a superação da noção do sujeito moderno:
1 - O historicismo marxismo-hegeliano. Nessa concepção, a identidade individual é determinada pelos condicionantes históricos do meio social em que o indivíduo age. Para Hegel, o principal condicionante histórico são as idéias vigentes e aceitas pelos membros da sociedade. Para Marx, o principal condicionante histórico são os meios materiais de produção, isto é, a estrutura econômica vigente.
2 - A psicanálise freudiana. Segundo essa teoria, a formação da identidade individual depende de fatores psíquicos que muitas vezes são inconscientes ao sujeito. Ou seja, a capacidade plena do indivíduo de tomar decisões e agir conscientemente em busca de seus interesses é posta em dúvida.
3 - A linguística estrutural, segundo a qual o pensamento individual é determinado pela cultura do meio social que o cerca, por meio da linguagem. Isto é, cada pessoa só pode se expressar se posicionando a respeito de su cultura, que define a sua língua e a sua capacidade de comunicação com as outras pessoas.
4 - A filosofia do poder disciplinar de Michel Foucault. Segundo esse autor, as instituições sociais têm o papel de vigiar e punir o comportamento individual em benefício não da coletividade, mas sim dos próprios detentores do poder, não apenas do poder político, mas também do poder econômico, ideológico e intelectual. Segundo Hall (pg. 42):
5 - O surgimento de movimentos sociais das minorias, isto é, que se uniam de acordo com identidades para além daquelas de natureza individual ou de classe social. Hall cita como exemplos o movimentos feminista, estudantil, pacifista e contracultural de 1968. Esses movimentos politizaram a subjetividade e o processo de identificação social, além de escancarar a pluralidade de identidades. Como exemplo, o autor cita o caso de um juiz norte-americano negro e conservador acusado de assediar sexualmente uma estagiária branca, e como que a opinião pública regiu a isso. Os indivíduos tenderam a reagir com base em seus conjuntos de identidades pessoais (do tipo homem/mulher, negro/branco, liberal/conservador), isto é, os homens negros liberais tenderam a ser favoráveis ao juiz, mas não os conservadores, ao passo que os homens brancos, liberais ou conservadores, foram mais favoráveis à estagiária. As mulheres, em geral, foram favoráveis à estagiária, a não ser o caso das mulheres negras liberais, que foram favoráveis ao juiz, acreditando que a denúncia foi alguma espécie de intriga de cunho racista.
No resto do livro, Stuart Hall explica como a pós-modernidade, influenciada pelas cinco correntes de pensamento social descritas anteriormente, abalou a noção de identidade cultural até então mais aceita, que é a identidade nacional, isto é, a cultura de uma sociedade como a cultura de um país. A pós-modernidade, assim como a globalização, desconstriu a noção de que há um senso de nacionalidade acima da individualidade e de localidade. Ou seja, as pessoas estão perdendo seu senso de nacionalismo e de patriotismo, que são vistos como discursos para direcionar o senso de coesão social. Contudo, Hall destaca que a decadência das nacionalidade não significa o fim da coesão social, já que é um discurso relativamente novo na história da humanidade, datando do surgimento dos estados modernos ocidentais, e sua construção não foi um fenômeno pacífico e voluntário, mas decorreu da conquista e imposição por parte dos governos imperiais, que passaram a promover alguns de seus vassalos mais fiéis e próximos à condição de "compatriotas" ao custo da imposição da cultura imperial. Porém, a questão da nacionalidade, apesar de recente, já se enraizou nas sociedades modernas, e têm impacto sobre a cultura vigente nos meios em que vivem os sujeitos, seja na forma da linguagem, seja na forma das instituições, ou ainda na forma da ideologia historicista presente nos meios educacionais.
Com isso, o autor explica a questão do obscurantismo e da perda de identidade intrínsecos à pós-modernidade. Com a globalização, a nacionalidade perde o seu sentido; as pessoas são membros ao mesmo tempo de pequenas comunidades locais e de uma grande aldeia global. Mas a nacionalidade canalizou o senso de cultura, em relação a qual se definem todas as identidades de cada indivíduo, de modo que as pessoas residentes nos países da civilização ocidental sentem que algum sentimento de coesão social tenha se enfraquecido nas últimas décadas. No resto do livro, Hall explica algumas controvérsias a respeito desse impacto da globalização sobre a desconstrução das identidades nacionais, com ênfase na relação da civilização ocidental com as demais culturas humanas.
O melhor do livro, em resumo, é que ele fornece uma boa noção para o público mais leigo sobre os últimos desenvolvimentos nas humanidades sem aquele tradicional "discurso crítico" de forte viés de ideologia política que impregna tantas das obras das ciências sociais.
No entanto, muito do que tenho lido sobre isso tem me agregado pouca conhecimento. Infelizmente, muitos sociólogos (que são os acadêmicos que mais estudam a pós-modernidade) têm o hábito de escrever de forma obscura, usando e abusando de figuras e formas metafóricas de linguagem, tornando seus textos pouco compreensíveis para quem não tem formação nessa área. Além disso, vários ramos das ciências humanas são impregnados por um relativismo radical, que tira toda e qualquer objetividade do conhecimento, o que torna a leitura de suas obras muito cansativa.
Felizmente, esse não é o caso do livro do Stuart Hall. O autor sabe escrever de maneira bastante clara suas idéias. Segundo o autor, a pós-modernidade, isto é, o período histórico da sociedade, da cultura e da intelectualidade após a Segunda Guerra Mundial, consiste em uma brusca mudança nas identidades sociais tais como elas eram definidas. Ou seja, o autor considera a pós-modernidade como um surto de "crise de identidade" generalizada para o indivíduo humano.
Explicando melhor, o autor diferencia três concepções da identidade individual, de acordo com o período histórico e o ramo do conhecimento implícito. Primeiro, o "sujeito Moderno", ou "sujeito do Iluminismo", visto como um indivíduo unificado e plenamente dotado do senso de razão, decisão, consciência e ação. A racionalidade é vista como o centro essencial da identidade de uma pessoa: todo indivíduo utiliza meios para atingir seus interesses individualmente estabelecidos. Essa concepção de indivíduo está diretamente relacionada à teoria da escolha racional da Ciência Econômica, e à teoria do Direito Natural.
Segundo, o "sujeito sociológico", definido pelas relações de cada indivíduo com o seu meio social, de acordo com a interação com outras pessoas. Isto é, a personalidade de cada sujeito é definida pela interação com a sociedade; cada indivíduo tem uma essência interior, mas esta é continuamente afetada e alterada pelas suas relações com o mundo exterior. Tal visão surgiu no final do século XIX, com o desenvolvimento das ciências sociais, particularmente a sociologia, sobretudo com as obras de autores como Èmile Durkheim.
Terceiro, o "sujeito pós-moderno", visto de acordo com a negação de que as pessoas tenham uma essência individual interior unificada. Isto é, o sujeito tem não uma única, mas sim uma grande variedade de identidades pessoais, e muitas delas podem ser contraditórias umas com as outras, ou mesmo mal resolvidas.
A transformação da concepção moderna-sociológica de sujeito para a concepção pós-moderna, segundo Stuart Hall, decorreu dos avanços nas ciências biológicas e sociais nos séculos XIX e XX que demonstraram a superficialidade da noção do indivíduo unificado definida anteriormente. Na verdade, a própria noção do indivíduo moderno decorreu da evolução intelectual do Ocidente a partir do Renascimento, em contraposição à visão religiosa anterior. Segundo Hall (pg. 26),
Muitos movimentos importantes no pensamento e na cultura ocidentais contribuíram para a emergência dessa nova concepção: a Reforma e o Protestantismo, que libertaram a consciência individual das instituições religiosas da Igreja e a expuseram diretamente aos olhos de Deus; o Humanismo Renascentistam que colocou o Homem (sic) no centro do universo; as revoluções científicas, que conferiram ao Homem a faculdade e as capacidades para inquirir, investigar e decifrar os mistérios da Natureza; e o Iluminismo, centrado na imagem do Homem racional, cientíico, libertado do dogma e da intolerância, e diante do qual se estendia a totalidade da história humana, para ser compreendida e dominada.
Essa noção de indivíduo foi abalada, a partir do século XIX, tanto pelo desenvolvimento da biologia darwiniana, que encontrou fundamentos naturais para o explicar a racionalidade humana, como pela complexização das sociedades modernas, com o crescimento das atividades comerciais, industriais e a urbanização, o que permitiu o desenvolvimento de novas teorias capazes de explicar a ação e a interação dos indivíduos. Hall aponta cinco avanços da teoria social que contribuíram para a superação da noção do sujeito moderno:
1 - O historicismo marxismo-hegeliano. Nessa concepção, a identidade individual é determinada pelos condicionantes históricos do meio social em que o indivíduo age. Para Hegel, o principal condicionante histórico são as idéias vigentes e aceitas pelos membros da sociedade. Para Marx, o principal condicionante histórico são os meios materiais de produção, isto é, a estrutura econômica vigente.
2 - A psicanálise freudiana. Segundo essa teoria, a formação da identidade individual depende de fatores psíquicos que muitas vezes são inconscientes ao sujeito. Ou seja, a capacidade plena do indivíduo de tomar decisões e agir conscientemente em busca de seus interesses é posta em dúvida.
3 - A linguística estrutural, segundo a qual o pensamento individual é determinado pela cultura do meio social que o cerca, por meio da linguagem. Isto é, cada pessoa só pode se expressar se posicionando a respeito de su cultura, que define a sua língua e a sua capacidade de comunicação com as outras pessoas.
4 - A filosofia do poder disciplinar de Michel Foucault. Segundo esse autor, as instituições sociais têm o papel de vigiar e punir o comportamento individual em benefício não da coletividade, mas sim dos próprios detentores do poder, não apenas do poder político, mas também do poder econômico, ideológico e intelectual. Segundo Hall (pg. 42):
O objetivo do "poder disciplinar" consiste em manter "as vidas, as atividades, o trabalho as infelicidades e os prazeres do indivíduo", assim como sua saúde física e moral, suas práticas sexuais e sua vida familiar, sob estrito controle e disciplina, com base no poder dos regimes administrativos, do conhecimento éspecializado dos profissionais e do conhecimento fornecido pelas "disciplinas" das Ciências Sociais. Seu objetivo básico consiste em produzir "um ser humano que possa ser tratado como um corpo dócil".
5 - O surgimento de movimentos sociais das minorias, isto é, que se uniam de acordo com identidades para além daquelas de natureza individual ou de classe social. Hall cita como exemplos o movimentos feminista, estudantil, pacifista e contracultural de 1968. Esses movimentos politizaram a subjetividade e o processo de identificação social, além de escancarar a pluralidade de identidades. Como exemplo, o autor cita o caso de um juiz norte-americano negro e conservador acusado de assediar sexualmente uma estagiária branca, e como que a opinião pública regiu a isso. Os indivíduos tenderam a reagir com base em seus conjuntos de identidades pessoais (do tipo homem/mulher, negro/branco, liberal/conservador), isto é, os homens negros liberais tenderam a ser favoráveis ao juiz, mas não os conservadores, ao passo que os homens brancos, liberais ou conservadores, foram mais favoráveis à estagiária. As mulheres, em geral, foram favoráveis à estagiária, a não ser o caso das mulheres negras liberais, que foram favoráveis ao juiz, acreditando que a denúncia foi alguma espécie de intriga de cunho racista.
No resto do livro, Stuart Hall explica como a pós-modernidade, influenciada pelas cinco correntes de pensamento social descritas anteriormente, abalou a noção de identidade cultural até então mais aceita, que é a identidade nacional, isto é, a cultura de uma sociedade como a cultura de um país. A pós-modernidade, assim como a globalização, desconstriu a noção de que há um senso de nacionalidade acima da individualidade e de localidade. Ou seja, as pessoas estão perdendo seu senso de nacionalismo e de patriotismo, que são vistos como discursos para direcionar o senso de coesão social. Contudo, Hall destaca que a decadência das nacionalidade não significa o fim da coesão social, já que é um discurso relativamente novo na história da humanidade, datando do surgimento dos estados modernos ocidentais, e sua construção não foi um fenômeno pacífico e voluntário, mas decorreu da conquista e imposição por parte dos governos imperiais, que passaram a promover alguns de seus vassalos mais fiéis e próximos à condição de "compatriotas" ao custo da imposição da cultura imperial. Porém, a questão da nacionalidade, apesar de recente, já se enraizou nas sociedades modernas, e têm impacto sobre a cultura vigente nos meios em que vivem os sujeitos, seja na forma da linguagem, seja na forma das instituições, ou ainda na forma da ideologia historicista presente nos meios educacionais.
Com isso, o autor explica a questão do obscurantismo e da perda de identidade intrínsecos à pós-modernidade. Com a globalização, a nacionalidade perde o seu sentido; as pessoas são membros ao mesmo tempo de pequenas comunidades locais e de uma grande aldeia global. Mas a nacionalidade canalizou o senso de cultura, em relação a qual se definem todas as identidades de cada indivíduo, de modo que as pessoas residentes nos países da civilização ocidental sentem que algum sentimento de coesão social tenha se enfraquecido nas últimas décadas. No resto do livro, Hall explica algumas controvérsias a respeito desse impacto da globalização sobre a desconstrução das identidades nacionais, com ênfase na relação da civilização ocidental com as demais culturas humanas.
O melhor do livro, em resumo, é que ele fornece uma boa noção para o público mais leigo sobre os últimos desenvolvimentos nas humanidades sem aquele tradicional "discurso crítico" de forte viés de ideologia política que impregna tantas das obras das ciências sociais.
sábado, setembro 19, 2009
Ótimo Site de Quadrinhos
Hoje descobri um site muito engraçado de quadrinhos e tiras. O nome é "Malvados". Como o próprio nome demonstra, é especializado em humor negro.
A melhor tira que li, até agora, é essa:
A melhor tira que li, até agora, é essa:
Marcadores:
Fun Fun Fun
Assinar:
Postagens (Atom)
