quarta-feira, janeiro 03, 2007

A Parte do Diabo - Michel Maffesoli

Sociólogo da Sourbonne (França), Michel Maffesoli disserta sobre o comportamento humano pós-moderno (contemporâneo), focando nas questões da política e da sociabilidade entre as pessoas. Seu objetivo é encontrar explicações científicas, dentro do universo da sociologia e da filosofia, para alguns dos mais relevantes fatos a respeito do comportamento das pessoas no presente, principalmente, a apatia política, a falta de entusiasmo com a construção de novas correntes intelectuais, o culto ao corpo, a deserção das instituições vigentes. O autor denomina o perfil de comportamento das pessoas no início do século XXI como o de uma "criança eterna", buscando sempre o prazer momentâneo, e demonstrando uma indiferença (manifestando-se como uma revolta branca) pelas instituições, como a democracia representativa (mediante os altos níveis de abstenções nas eleições), o intelectualismo e o culto ao trabalho.

O autor associa essa subverção da sociedade pós-moderna às instituições como não uma crise, mas sim uma mudança da estrutura de valores morais vigentes. Segundo Maffesoli, a tradição moral judaico-cristã construiu, ao longo de toda a sua história, uma visão de mundo em que o Bem e o Mal são valores absolutos e universais, e que o objetivo de todo código moral é desviar a ação individual e coletiva em busca do Bem, e combater o Mal. Assim, todas as grandes correntes de pensamento ocidental (fruto da tradição judaico-cristã), como a filosofia cristã, o Iluminismo e o Marxismo foram sempre focadas em construir o Bem absoluto, isto é, construir uma "sociedade ideal" e um "comportamento individual ideal", e combater toda e qualquer imperfeição relacionada ao comportamento social-individual humana, associada com o Mal. Contudo, para o autor, o Mal, isto é, as imperfeições da humanidade são tão sólidas como o conceito de Bem (o ideal), o que faz com que ambos valores tenham características muito mais relativas do que absolutas (o "relativismo moral", nas palavras do autor). Além disso, muitas das tradições morais fora do universo judaico-cristã (como o paganismo clássico, o animismo africano e o espiritualismo asiático) se preocupam não em combater o Mal, mas sim aceitar que o mesmo faça parte do mundo. Isto é, as imperfeições humanas, em que o autor destaca a mortalidade, devem ser toleradas pelas pessoas para que possamos ter uma visão holística de nossas vidas. Essas imperfeições são, em suma, nosso vínculo com a natureza; na moral judaico-cristã, o Bem é associado ao homem civilizado, racional e criado à forma e semelhança de Deus, o Bem máximo, enquanto que o Mal é associado ao homem animal, selvagem, bárbaro, com paixões e libidos voláteis e momentâneas. Contudo, o autor destaca que o homem é ao mesmo tempo racional e animal, e portanto, tanto o Bem quanto o Mal estão presentes em seu comportamento, e isso é perfeitamente natural.

Contudo, o autor destaca que na sociedade pós-moderna, as pessoas estão ignorando de forma cada vez mais profunda as instituições criadas pela tradição judaico-cristã (fundamentada sobretudo pelo Cristianismo, o Iluminismo e o Marxismo), abstendo-se de participação política, ignorando a cidadania como obrigação, reprovando idealismos intelectuais e moralismos rígidos de qualquer maneira. Pelo contrário, a sociedade parece estar cada vez valorizando mais o momento presente, o prazer em excesso, o movimento de violência, a libido. Isto é, a sociedade ocidental está se voltando para o Mal, isto é, ao contrário do que até agora vinha fazendo. Todavia, o autor argumenta que essa atitude é perfeitamente natural e positiva para a sociabilidade humana ocidental, já que o Mal, isto é, o homem-animal-imperfeito é um conceito universal que nunca será superado.

O autor não destaca uma razão principal para o fato de que a sociedade está em movimento para aceitar o Mal, em vez de combatê-lo. Contudo, mais para o final do livro, o autor parece relacionar isso ao sucesso do movimento feminista. Segundo Maffesoli, as sociedades patriarcais tem um claro espírito belicista e produtivista, e nelas o princípio de "construir um mundo ideal, custe o que custar" tende a se espalhar mais facilmente do que as sociedades matriarcais, com maior espírito de tolerância e compaixão entre as pessoas. Com o processo de independência individual das mulheres ocidentais, os valores morais matriarcais vão tomando cada vez mais importância frente aos patriarcais.

Em termos de estilo litérário, o livro é bastante complexo, não em termos de vocabulário, mas por trabalhar com conceitos relativamente avançados de sociologia e filosofia, o que faz com que leigos nesses assuntos (como eu) não consigam acompanhar todas as passagens do texto. Além disso, é curioso que o autor cite, para dar fundamento as suas teorias, não outros sociólogos, mas poetas e artistas em geral, interpretando sua sensibilidade frente ao mundo e à sociedade.

Por outro lado, o autor parece tratar com excessivo otimismo os valores morais da nova sociedade pós-moderna. A libertação individual feminina, a flexibilidade dos cógigos morais, a tolerância e a compaixão entre as pessoas e a maior proximidade entre o homem e a natureza certamente são avanços à sociabilidade e ao auto-conhecimento da humanidade. Mas outros fatores, tais como a apatia política, o culto ao corpo em detrimento da intelectualidade e o comportamento de "criança eterna", materialista, imediatista e consumista, não estão claros se realmente fazem parte de uma nova relação social no mundo ocidental, ou são sintomas de um processo de mediocratização intelectual e cultural que a nossa sociedade vem passando pelas últimas décadas, e que não tem nada a ver com a tolerância moral e o feminismo.

2 comentários:

belebela disse...

É verdade!
tava pensando nisso ontem. Os ideais da nossa sociedade são mesmo o materialismo-consumismo, o culto ao corpo e ao sexo.
Eu acho que a tendência é cíclica, talvez as pessoas atinjam um ápice de futilidade tal que parem de agir assim para então caminhar em direção de uma espiritualidade maior.
O que acha?

Ricardo Agostini Martini disse...

Os ideais da nossa sociedade são claros para todos. A dúvida que o autor coloca é se essa "futilidade" que observamos veio mesmo para ficar, e se isso revela a verdadeira face da natureza humana, escondida após milênios de submissão à moral judaico-cristã.

Pessoalmente, não posso afirmar nada. Mas espero que essa tendência seja mesmo cíclica!