domingo, julho 19, 2009

Brás, Bexiga e Barra Funda (Antônio de Alcântara Machado)

Este livro não nasceu livro: nasceu jornal. Estes contos não nasceram contos: nasceram notícias.

Semana passada, quando estava em Belo Horizonte, assistindo a uma maratona da série São Paulo 9 Milímetros com meus colegas de república, começamos a conversar sobre os bairros de São Paulo (eu, que nunca estive na cidade, só ouvia). Nessa conversa, me deu muita vontade de reler o famoso livro de crônicas do Alcântara Machado, que eu já tinha estudado no segundo ano do Ensino Médio. Na segunda-feira passada, comprei o livro da edição "A Obra-Prima de Cada Autor" da Ed. Martin Claret no Beco dos Livros, aqui em Porto Alegre. Nessa edição, estão presente 24 contos, metade deles do livro Brás, Bexiga e Barra Funda, e a outra metade do livro Laranja da China, ambos do mesmo autor.

"Brás, Bexiga e Barra Funda" descreve, em 11 contos (mais um prefácio), o cotidiano dos imigrantes italianos na capital paulista durante a década de 1920. Nesses contos, de narrativa simples, mas subjetiva, o autor destaca os principais sentimentos dos imigrantes em seu processo de adaptação à vida no Brasil. Incluem-se, dentre esses sentimentos, os sonhos das crianças, as relações familiares, inclusive em contradição com as relações familiares praticadas pelos paulistanos nativos, a ambigüidade entre o nascer estrangeiro e o desenvolvimento do patriotismo na terra nova, os conflitos amorosos, podendo haver triângulos entre imigrantes e nativos, e o espírito empreendedor do povo que chega, pela implantação de seus negócios.

O principal conto desta obra, na minha visão, chama-se "A Sociedade". Essa história se refere exatamente ao desenvolvimento das relações sociais entre os imigrantes italianos e os nativos. Um italiano, vendedor de legumes, se apaixona por uma moça de família tradicional paulista, mas a mãe dela é contra o seu casamento, por puro preconceito xenófobo. Contudo, conforme a família do rapaz prospera no país, os seus pais resolvem formar uma "sociedade", investindo juntos em uma fábrica. Com a formação dessa sociedade, o amor entre o italiano e a brasileira torna-se aceito, e o rapaz, no final das contas, se lembra com risadas do tempo em que vendia legumes fiado (!) para sua atual sogra. Esse conto sintetiza exatamente a integração dos imigrantes europeus na sociedade brasileira: inicialmente eram estranhados pelos nativos, sofrendo até mesmo exclusão social direta. Todavia, com o seu sucesso econômico, pelo desenvolvimento de atividades comerciais e mesmo fabris (nesse caso, principalmente após os anos 1930), passaram a se misturar com as demais etnias tropicais, passando a ser reconhecidos pela agregação de capital humano como contribuição à cultura nacional.

"Laranja da China" inclui doze contos narrando breves fatos cotidianos de típicos cidadãos paulistanos estereotipados. Principalmente, destacam-se o funcionário público rebelde contra o governo e os costumes (O Revoltado Robespierre), o retirante interiorano que migra para a cidade grande sem ter nenhum recurso para se manter, ou mesmo algum destino para seguir (O Aventureiro Ulisses), e o incasável pai de família cuidando corujamente de sua prole na folia do carnaval (O Mártir Jesus). Em todos esses contos, o autor ironiza a cultura nacional de homenagear personalidades estrangeiras nos nomes dos filhos (como Robespierre, Washington, Cícero, Ulisses, etc.), e que permanece ainda hoje, quase um século depois, ainda que de maneira ainda mais grosseira.

O livro é escrito sobre influência do Modernismo, mais específicamente da Semana da Arte Moderna de 1922, da qual o autor não participou devido a sua precoce idade na época, mas que manteve forte contato pessoal com seus fundadores. A linguagem dos contos se aproxima muito da linguagem falada; cada conto tende a se referir a poucos fatos cotidianos, e como que os personagens reagem a esses fatos. Em alguns casos, como no conto "O Monstro sobre Rodas", o fato em si nem chega a ser relatado (mas implicitamente indica um atropelamento), toda a história circula em torno das reações das personagens à tragédia. Em alguns casos, principalmente nos contos de "Laranja da China" a própria compreensão da idéia central de cada história torna-se complexa. O autor também usa e abusa de metáforas, termos coloquiais e gírias da época, tornando a leitura um tanto cansativa, mas compreensiva (ao contrário de outras obras de seu tempo, como Macunaíma).

Por outro lado, pensando como cientista social, este livro pode ser pensado como um verdadeiro banco de dados sobre a vida privada dos paulistanos na década de 1920, tanto no que diz respeito ao seu comportamento individual e psicológico, como também as suas relações sociais e até mesmo seus hábitos de consumo. Isto é, é um chance para nós, habitantes do século XXI, podermos entneder como que viviam os habitantes urbanos do Brasil nos breves anos imediatamente anteriores à industrialização do país e ao processo de substituição de importações. Dessa população urbana, ainda incipiente, é que sairiam os grandes empresários, políticos, economistas e trabalhadores que guiariam o processo de desenvolvimento do Brasil nas décadas seguintes.

Por fim, a leitura desse livro me remete as minhas excelentes aulas de Economia Brasileira Contemporânea I, na graduação na UFRGS. Estudando a evolução da economia e da sociedade brasileira ao longo do século XX, não parece estranho que, apesar de São Paulo ter se tornado o motor da indústria nacional, e acumulado muito capital financeiro e produtivo desde a época da agro-exportação cafeicultura, a contribuição desse estado à cultura brasileira tenha sido muito pequena? Como exemplos de artistas paulistas podemos facilmente lembrar de Monteiro Lobato , Cândido Portinari e dos Modernistas de 22, mas, dentre eles pouquíssimos são de conteúdo acessível ao público leigo, como Alcântara Machado. Mais recentemente, São Paulo passou a ser representada pelas histórias em quadrinhos do Maurício de Souza (e, diga-se de passagem, uma São Paulo digna dos anos 1920, com crianças brincando livremente em ruas cobertas por grama e parquinhos abundantes), por bandas emo e, agora, pela série policial de TV. A tradicional festa de aniversário da cidade nem acho que mereça ser considerada como "cultura", já que o espetáculo das hordas humanas atacando e consumindo o qulométrico bolo consegue ser mais grotesco que uma corrida de touros na Espanha. Mas, fora isso, os principais expoentes da cultura brasileira parecem ser ligados ao Rio de Janeiro, ou ainda a pólos regionais como Minas Gerais e Bahia. Será que há alguma explicação sociológica ou política para isso?

Um comentário:

Duilio de Avila Bêrni disse...

o tchê!
que bela crônica literária escreveste. jurei que um dia iria ler mais de Alcântara Machado. também remanescente de meu "curso científico", há 40 anos, ficou a lembrança agradável do conto "Gaetaninho". a dica da Martin Claret é boa. breve tentarei campeá-lo.
.d.