segunda-feira, julho 06, 2009

Opinião dos Meus Alunos sobre o Impacto da Copa do Mundo na Economia Brasileira

Na minha última prova de Macroeconomia para Administração, curso de graduação que ministro aqui na UFMG, incluí uma questão extra, valendo um ponto para além dos dez pontos que a prova valia. Essa questão consistia em ler uma reportagem de uma página sobre o orçamento que o governo de Mato Grosso divulogou para as obras que serão realizadas em Cuiabá tendo em vista que a cidade foi escolhida para sediar a Copa do Mundo em 2014 (mais de um bilhão de reais), e comentar sobre o impacto disso para o crescimento da região.

Essa questão não tinha uma resposta exata definida, eu apenas queria ver a capacidade de análise, reflexão e de argumentação dos meus alunos utlizando as principais teorias macroeconômicas, conforme apresentado em sala de aula. Conforme o nível do texto, dei notas iguais a zero, 0.3, 0.5 e 1. Porém, eis que os textos que li foram bastante intrigantes.

Das 49 provas que corrigi, 9 alunos (18,37%) não responderam a questão, ou escreveram coisas sem nenhum conteúdo econômico, e ficaram com zero nesse ítem. Um aluno (2,04% da turma) criativamente afirmou que a Copa incentivaria a acumulação de capital humano pelos trabalhadores cuiabenses, para que melhor atendam aos consumidores turistas estrangeiros. Como seu texto foi muito bom, dei um ponto para o aluno. Dois alunos (4,08%) questionaram as obras, afirmando que seria melhor investir em projetos mais relacionados ao crescimento de longo prazo, como educação, saúde e pesquisas tecnológicas. 4 alunos (8,16%) se preocuparam com o risco de déficit público elevado, o que poderia, no médio prazo, elevar as taxas de juros no mercado financeiro, e restringir investimentos privados (pelo efeito crowding out, que eu expliquei para eles no início do mês de junho). 5 alunos (10,2%) viram na Copa do Mundo um risco para a aceleração inflacionária no país, conforme muito bem explicaram pelo modelo AS-AD de equilíbrio de médio prazo. 12 alunos (24,49%) afirmaram que o melhor da Copa vão ser os investimentos de infra-estrutura que o governo vai realizar nas cidades-sede, de modo que muitos gargalos devam ser eliminados.

Até aí tudo bem. Agora vem o grande choque: nada menos que 16 alunos, 32,65% do total da turma argumentaram que a Copa será favorável ao crescimento da economia brasileira porque incentivará os gastos dos governos no país, aquecendo a economia no curto prazo. Desses alunos, dei no máximo 0,3 para aqueles que, pelo menos explicaram a lógica IS-LM corretamente. E isso que todos eles tiveram contato com os modelos econômicos de médio prazo (AS-AD) e longo prazo (Solow, Capital Humano e Economia das Idéias). E, muitos desses 16 alunos responderam corretamente as questões da prova que tratavam especificamente desses temas.

Ou seja, o pensamento econômico estatista e míope continua predominando nas mentes brasileiras, inclusive em uma turma de uma das melhores universidades do país. Mesmo sabendo das limitações das políticas fiscal e monetária no médio prazo, e da capacidade dos trabalhadores e empresários de promover o crescimento, pelos investimentos em tecnologia e em capital humano, quase um terço da minha turma ainda vê o desenvolvimento apenas como uma questão de vontade política. Parece que muitas pessoas ainda estão vivendo o Regime Militar. É uma pena.

3 comentários:

alemdascurvas.com disse...

Já me aconteceu várias vezes de estar ensinando um assunto e perceber que os alunos preferiam continuar acreditando que o certo era o senso comum.

Faziam aquela expressão no rosto, tipo: isso aí é teoria. Na prática, é diferente!

E eu me perguntava, em silêncio: onde foi que eu errei? (risos)

Enoch

Diego Rodrigues disse...

Na graduação, os modelos de curto prazo, estilo IS-LM, são apresentados ao lado dos de longo, como o de Solow e de capital humano. A "transição" de um para outro é um mistério até hoje na minha cabeça.

Enfim, quero dizer que provavelmente responderia a mesma coisa que aqueles 16 alunos. E quando visse minha nota, exigiria explicações do professor, e, pelo que vi, não me conformaria com ela.

Ricardo Agostini Martini disse...

Enoch: É, ensinar os alunos a superar o senso comum é realmente difícil. Eu deveria estar preparando eles há mais tempo para esse "choque".

Diego: Responderias do mesmo jeito que eles e tirarias no máximo 0,3 na questão como eles! Essas coisas os alunos de graduação têm que aprender na marra, mesmo.

Abraços aos dois