terça-feira, fevereiro 05, 2008

Discussão Interessante sobre a Metodologia da Economia - Parte 1

No blog Köenigsberg, feito por um mestrando em economia na UFRJ, e com graduação na PUC-RJ, encontrei uma discussão muito relevante a respeito da metodologia da economia, e as diferenciações funamentais entre ortodoxia e heterodoxia. Como chegou a freqüentar dois centros de grande prestígio na economia brasileira, mas de enfoque totalmente distinto (PUC-RJ é um dos principais centros de ortodoxia, a UFRJ é um dos principais centros de heterodoxia no país), o autor revela muito bom conhecimento sobre os aspectos centrais envolvidos em sua abordagem.
O fato é que tive nos meus seis anos de economia um contato íntimo com os extremos teóricos do pensamento econômico contemporâneo no Brasil: fui aluno de Dionísio Dias Carneiro e de Mário Luiz Possas. Mais ainda, tomei contato com duas visões bastante distintas sobre a história do pensamento econômico — e apesar de ter basicamente dormido durante os cursos que explicitaram a visão ideológica hard de cada escola sobre o assunto, pude inferí-las e reconstruí-las heuristicamente pelo pensamento vivo de seus economistas modernos.

O autor identifica como o centro da divisão da teoria econômica entre ortodoxia e heterodoxia o ano de 1820, com a famosa discussão entre David Ricardo e Thomas Malthus sobre a natureza dinâmica do sistema econômico. Ricardo, como é amplamente sabido, defendia que os fatores relacionados à oferta tinham predominância sobre a demanda nesse processo, já que, para que se expanda a oferta, é necessário que a economia empregue mais fatores de produção, os quais serão remunerados, e sua remuneração será empregada em algum gasto. Ou seja, sem oferta, não há emprego; sem emprego, não há remuneração; sem remuneração, não há demanda. Malthus, por sua vez, defendeu que os empresários realizam seus investimentos com base em expectativas ex ante da demanda futura por seus produtos. Contudo, as expectativas podem falhar, e, nesse caso, o volume de vendas, que determina a produção econômica, acaba sendo determinado pela demanda ex post, ou demanda efetiva.

Após essa dicussão, segundo o autor, a economia voltou-se para assuntos de natureza técnica e formal, em que cada escola e pensamento assumiu uma determinada opção sobre essa divergência. Por um lado, a economia neoclássica adotou como axioma pensamento de David Ricardo (a "Ley de Say"), e procurou deduzir conseqüências lógicas desse pensamento. Esse tornou-se o pensamento "ortodoxo" da ciência econômica. Os críticos de Ricardo, por sua vez, adotaram pensamentos semelhantes ao de Malthus (tal como Keynes), e, por não consistirem em um grupo homogêneo de pensamento econômico, tornaram-se denominados como "heterodoxos".
A ortodoxia está dizendo que a disponibilidade dos recursos produtivos implica em demanda, na medida em que as pessoas remuneradas por seu uso — salários e juros — vão sair e consumir, havendo assim tendência ao equilíbrio; como esses recursos são alocados entre os diferentes setores e fatores é um problema muito bem resolvido pela teoria de equilíbrio geral. A heterodoxia está dizendo que o empresário só vai contratar os fatores produtivos se esperar demanda, e só haverá demanda se os fatores produtivos forem contratados — o que implica numa tendência para círculos viciosos e virtuosos, dependendo dos espíritos animais keynesianos e da eficácia da política econômica em produzir o círculo virtuoso.

Assim, autores posteriores, como Walras, Marshall, Keynes, e depois, Hicks, Hansen, Samuelson, Friedman e Lucas se ocuparam de desenvolver as teorias pré-existentes, assumindo como válidos os axiomas adotados por elas. E é esse o ponto em que o autor coloca como o principal problema metodológico da economia contemporânea: o debate entre ortodoxia e heterodoxia esvasiou-se sem que uma solução, ou uma síntese, tenha sido alcançada para a discussão do seu padrão de comportamento dinâmico, que originou a discórdia. Por um lado, os economistas ortodoxos simplesmente ignoram a existência de "debate" a respeito dos axiomas, utilizando exegeradamente hipóteses teóricas de grande conteúdo ficcionista, em nome de um pragmatismo técnico (tal como o instrumentalismo teórico, de Friedman).
A canalhice ortodoxa consiste em fingir que muitos problemas já estão resolvidos; fala-se de um “consenso emergente” na macroeconomia, como se os problemas radicais da teoria ortodoxa vigente, problemas outrora reconhecidos por ortodoxos de uma geração mais honesta, não existissem.

Outro problema apresentado pela ortodoxia é o não-consenso interno (para não falar em confusão) no papel das hipóteses e axiomas assumidos, a partir dos quais as teorias econômicas são deduzidas: seriam eles verdades empíricas (como em Mill), ou meras conveniências técnicas para a realização de previsões (como em Friedman)?
O problema básico da ortodoxia é que ela traveste suas premissas fundamentais (semânticas) de método de comunicação objetiva (sintática). É assim que progressivamente proposições científicas que são falsificáveis e deveriam ter justificativas teóricas mais profundas — e freqüentemente têm, mas muitos ortodoxos ignoram os aspectos mais abstrusos do fundamento profundo da ortodoxia, a teoria neo-walrasiana — são elevadas a verdades triviais.
E, baseadas nessas premissas e de conclusões lógicas desenvolvidas a partir dessas premissas, a ortodoxia desenvolve teorias cada vez mais ficcionais e pouco-empíricas.
Em um movimento de espiral, a ortodoxia vai elevando resultados anteriormente construídos em um contexto teórico (e logo frágil) a categorias da razão pura,

Por fim, a ortodoxia, ao evitar o debate sobre os pontos historicamente não-resolvidos na ciência econômica, defende seu ponto de vista recorrendo ao desmerecimento dos heterodoxos como profissionais sérios, ou mesmo adotando argumentos de autoridade, valendo-se de opiniões de políticos e de acadêmicos famosos, com o seu ponto de vista, como verdades científicas.

Contudo, os defeitos da heterodoxia parecem ainda mais graves ao autor. Sobretudo, pela sua não-agregação em estruturas teóricas consistentemente fundamentadas, e dependentes de criticismos à teoria ortodoxa.
O problema básico da heterodoxia é que todas as premissas e proposições são colocadas constantemente em discussão, até o ponto que o modelo heurístico de um economista heterodoxo pode ser parametrizado para obter qualquer coisa. E os economistas heterodoxos, estes canalhas, se prestam efetivamente a qualquer coisa.

Nesse sentido, a ortodoxia mostra-se cientificamente superior à heterodoxia por três fatores. Em primeiro lugar, pela questão normativa relacionada com o sistema de preços como um mecanismo natural de alocação de renda e de recursos na sociedade, uma vez que expressa as verdadeiras variáveis individuais e tecnológicas dos agentes econômicos. Em segundo lugar, pela excessiva utopização da heterodoxia, sobretudo no que diz respeito às políticas macroeconômicas, ao gasto público e ao desenvolvimento. Há praticamente esquecimento da limitação de recursos no mundo real, a qual é originalmente o foco da ciência econômica. Por fim, o maior apego dos heterodoxos à política para fins de resolução de discussões mais técnicas e teóricas, o que deixa o debate profundamente ideologizado. Por essas três razões, o autor declara-se seguidor da teoria ortodoxa.
Em outras palavras, por força da construção de sua teoria, ortodoxos estão mais preocupados com a justiça social — com toda a complexidade teórica que isso envolve –, são mais sóbrios e menos dados a cometer irresponsabilidades cujo preço terá que ser pago mais tarde e oferecem soluções concretas com base nesses dois condicionantes.

Contudo, em um trecho de conteúdo muito polêmico, o autor aponta uma suposta razão "humana" para a superioridade da ortodoxia sobre a heterodoxia. Segundo consta, a ortodoxia pode até estar em desvantagem no que diz respeito à Lei de Say e ao caráter dinâmico do sistema econômico, mas tem, a seu favor, uma grande vantagem epistemiológica. A ortodoxia baseia sua teoria, independentemente da veraciadade dos axiomas levantados, em um arranjo empiricamente correto, para o autor. Esse arranjo é o individualismo metodológico.
O princípio básico da teoria heterodoxa, chamado por Malthus de “princípio da demanda efetiva”, é inteiramente válido, até ligeiramente mais válido que o princípio básico ortodoxo que é a Lei de Say: no nível desagregado (ou seja, no plano walrasiano), as empresas decidem produzir com base na trajetória esperada da demanda pelo seu produto no futuro, e logo a economia é decidida ex ante facto. Mas não há nada que a sociedade possa decidir fazer a respeito, porque a sociedade não decide nada. A teoria ortodoxa vigente falha em perceber a natureza desagregada, inagregável e heterogênea da economia real, mas a teoria heterodoxa falha em perceber a natureza desagregada, inagregável e heterogêna dos interesses humanos.

Portanto, a heterodoxia peca em defender, com muita freqüência, princípios econômicos normativos no nível agregado, tais como o desenvolvimento, o crescimento e o emprego. O autor enxerga a sociedade como uma integral de indivíduos independentes e plenamente conscientes de sua personalidade. E tal erro muitas vezes chega a contagiar a ortodoxia.
Cada vez que um ortodoxo fala em políticas para o crescimento, ele está adotando o pior da heterodoxia, a incapacidade de perceber que a sociedade não é um corpo, uma vontade, mas um amontoado de corpos, vontades e desejos tentando conviver em desarmonia.

O post encerra com uma afirmação muito forte. Sendo o individualismo metodológico um procedimento epistemologicamente correto na economia, pois é uma verdade absoluta e empírica, deduções tomadas a partir disso também podem ser consideradas cientificamente corretas.
E nisso, eles, os heterodoxos, têm soluções mais coloridas — falsas, mas coloridas. A saída deste impasse envolve reverter uma dualidade para superar outra: nós precisamos estudar o que eles estão dizendo de mais correto e profundo, e ao mesmo tempo reafirmar o que nós temos de mais profundo e puro, que está na gênese walrasiana da teoria ortodoxa: a verdade.


Nos meus próximos posts, vou discutir melhor as questões aqui levantadas. Mas já deixo adiantado que, como estudante de metodologia da economia, minhas opiniões pessoais podem representar o exato oposto do que o autor aqui apresentado apontou.

3 comentários:

Amy Mizuno disse...

"UFRJ é um dos principais centros de heterodoxia no país"

Ainda bem que soube disso a tempo de não colocar nas minhas opções de centro para ANPEC
hehhhehhe
E a vida? Como vai?
bjs

Thomas H. Kang disse...

Belo post, Ricardo.
É uma discussão muito interessante, embora hoje em dia eu não ande lendo sobre metodologia e HPE.

Aguardo com curiosidade seus próximos posts.


abs

Enoch Filho disse...

Ricardo, só faltou mostrar o link, caso seu leitor queira ir direto ao texto citado. O endereço é esse aqui, com título meio exdrúxulo:

Malthus, ou: tudo o que eu precisava saber sobre economia eu aprendi vendo Senna x Mansell com o meu pai