segunda-feira, outubro 27, 2008

Porto Alegre e a Pobreza Invisível

Meu mapa sobre a localização das favelas de Porto Alegre se espalhou pela Internet rapidamente. Li muitos comentários sobre por que não vemos, no nosso dia-a-dia, esses complexos de pobreza? Afinal, por que muitas pessoas, habitantes de Porto Alegre de longa data, continuam afirmando que a cidade "não tem favelas"?

Para responder essas perguntas, dei uma "enfeitada" no meu mapa (clique para ampliar):



Sublinhei em amarelo o Centro da cidade. Nele está localizada a Vila Chocolatão, uma pequena comunidade de carroceiros alojada em um terreno público não utilizado. Ao norte, está sublinhada em azul a chamada "Zona Norte", consistindo predominantemente de áreas comerciais e indistriais, assim como o aeroporto Salgado Filho. A pobreza nessa região está no seu noroeste, entre a Free-Way e a av. Voluntários da Pátria, o chamado "Núcleo Entrada da Cidade", e já abordado aqui no blog anteriormente.

Além disso, sublinhei em verde-limão os bairros residenciais mais tradicionais da cidade. Compreende duas áreas. A primeira, maior, está a leste do centro e ao sul da Zona Norte, sendo limitada pelos bairros do Jardim Lindóia, Passo da Areia, Jardim Europa, Chácara da Pedras, Jardim Botânico, a PUC, a av. Ipiranga e o Menino Deus. A outra, menor, conhecida como "Zona Sul", percorre o entorno do Lago Guaíba da Vila Assunção até o bairro Guarujá.

A maior parte das classes média e alta da cidade habitam essas áreas, e pouco conhecem sobre o que há entre elas. Por isso, as únicas vilas viséveis, para quem mora na Zona Leste são o beco Guaranha (uma comunidade quilombola na Cidade Baixa), a Vila Juliano (invasão no Jardim Botânico, meio escondida, difícil de ver), o quilombo da Família Silva, a vila Keddie (ambas no bairro Três Figueiras, um dos mais nobres da cidade), e a vila Cosme Galvão (no Passo da Areia). Na zona sul a pobreza é mais visível, ocupando o entorno dos bairros nobres e condomínios fechados.

O que essas vilas têm em comum, além da localização? Elas são pequenas, simples becos ou terrenos ocupados, sem proprietário definido. Os principais núcleos de pobreza da cidade estão em lugares onde poucas pessoas passam, mesmo de carro: a fronteira com Alvorada (vilas Santa Rosa e Safira), o morro Santana, a baixada entre a Protásio Alves e a Ipiranga, depois da Cristiano Fisher (vila Bom Jesus), o morro Santana (que, pelo mapa não tem NADA a dever para uma Rocinha-RJ ou para um Aglomerado da Serra-BH) e a região entre a av. Padre Cacique e a 3a Perimetral, próxima ao hipódromo e ao Estaleiro Só (vila Tronco, Cruzeiro e Foz Cavalhada).

A pobreza em Porto Alegre, como já se viu, está bem escondida. Mas deverá ser descoberta pela população e pela prefeitura aos poucos, conforme o mercado imobiliário for se expandindo para as periferias. Isso já está ocorrendo nos becos da Vila Jardim, no entorno do novo bairro Jardim Europa.

7 comentários:

Diego da Silva Rodrigues disse...

De qualquer forma, Porto Alegre ainda está num nível de favelização muito inferior ao encontrado no Rio de Janeiro e mesmo em Belo Horizonte. Isso nos dá a oportunidade de, com ações eficientes e rápidas, e exercendo pressão sobre as autoridades municipais e estaduais, impedir que nossa cidade se torne o que são a maioria das metrópoles brasileiras - com seus problemas de urbanização praticamente insolúveis.

Luís disse...

Cara, Ricardo. Tenho acompanhado o eu blog semanalmente. Também tenho gostado. Sou estudante da divina economia, essa que é tanto apaixonante quanto lamentável por ter vínculos tão estreitos com a politicagem. Mas, de ante-mão, gostaria de te solicitar uma análise da conjuntura atual, numa abordagem sobre as perspectivas para a inflação de 2008/ 09.

Forte Abraço e viva o Rock'n'roll!!!

Camaro disse...

Vale lembrar que Belo Horizonte tem pelo menos 3 vezes o número de favelas que Poa. Vale ressaltar que Curitiba também possui maior número de Favelas. Vale lembra de novo, que muitas dessas vilas sublinhadas pelo senhor, possuem infraestrutura de bairros de classe média baixa/pobres, e sequer são consideradas favelas. Se o senhor conhecesse o Morro da Cruz, veria que existe uma clara diferença de nível do que existe na Rocinha ou no tenebroso Complexo da Serra, na favelada capital das Minas Gerais. Nem todo o bairro pobre é favela, amigo. Inclusive a grande maioria desses locais possuem rede coletora de esgoto, ruas e calçamento..coisa inexistente em uma favela, meu caro. A entrada da cidade sim, são favelas. A Dique e a Nazareth, nem se fala. Mas esses 3 "complexos" como tu mesmo diz, estão sendo removidos...coisa que não costuma acontecer Brasil afora.

thiago disse...

Metrópole brasileira hoje sem favelas é somente Goiania, com mais de 2 milhões de pessoas, a cidade hoje não tem nenhuma área que se enquadra nos quisitos de favelização da central única de favelas.
Parabéns Goiânia.

Ricardo Agostini Martini disse...

A cidade de Goiânia tem 1.2 milhões de habitantes, 2 milhões tem a região metropolitana, de acordo com a Wikipedia.

As metrópoles do Centro-Oeste são mesmo melhor urbanizadas que as demais, já li isso pela internet. Mas, com o crescimento econômico acelerado atraindo migrantes pobres de outros estados, se as prefeituras não tomarem providências, essas cidades podem entrar em um processo de favelização.

Marcelo Hartuing disse...

Embora a maioria das muitas favelas de Curitiba esteja aglomerada em áreas periféricas, não se pode dizer que é uma cidade mais favelizada que Porto Alegre, uma vez que na capital gaúcha há 22% de favelados, enquanto na sua contraparte paranaense os números são próximos de 10%. A localização delas em Poa, pulverizadas por toda a cidade, faz com que a criminalidade tenha pontos de refúgio de fácil acesso, facilitando a ação dos bandidos e caunsando mais insegurança. É hipocrisia dizer que favelas não são focos irradiadores de criminalidade. De todos modos, Porto Alegre e Curitiba estão bem mais remediadas no assunto quando comparadas às outras metrópoles do Brasil. Já sobre Goiânia, pode até não ter favelas, mas há bairros e bairros num estado lamentável, onde o planejamento é inexistente e o crime corre solto. E melhor nem falar de Brasília para não chorar

Nando disse...

Olá Ricardo,

As informações que você coletou são realmente excelentes. Me baseei muito nelas ao desenhar as vilas e favelas no OpenStreetMap, em parte na esperança de tornar a pobreza menos "invisível". Usei imagens de satélite mais recentes e tanto dados do IBGE quanto os seus como inspiração, e preferi o seu critério (de acompanhar os telhados das casas). O mapa do IBGE identifica na verdade o que eles chamaram de "aglomerados subnormais", que nada mais são do que "setores censitários" (por isso a geometria diferente) cuja renda é baixa.