sexta-feira, janeiro 15, 2010

O Que É Punk - Antonio Bivar

Para quem quer se iniciar nos estudos sobre a compreensão da pós-modernidade, os livrinhos de bolso coleção Primeiros Passos dão uma boa ajuda. O livrinho "O Que É Punk", de Antonio Bivar faz uma breve revisão histórica sobre a evolução da contra-cultura ocidental do final da Segunda Guerra até a década de oitenta, com a eclosão do movimento punk. Além disso, o livro conta como esse movimento chegou ao Brasil, e faz relatos mais descritivos sobre a história das principais bandas punk nacionais e internacionais.

Segundo o autor, o início da contra-cultura tem origem nos anos imediatos após a guerra, no final dos anos quarenta, pela difusão da intelectualidade existencialista franciesa, liderada por Sartre e Camus. Essa corrente filosófica, influenciada diretamente pelo clima de desesperança do pós-guerra, era eminentemente pessimista, via a vida humana como um grande absurdo, e o futuro da humanidade condenado pelo desenvolvimento da tecnologia militar, capaz de provocar destruição a taxas crescentes. O existencialismo influenciou a vanguarda dos músicos de jazz da época, conhecidos como beatniks.

Os beatniks eram rebeldes em relação aos valores da sociedade em que viviam, mas ao contrário dos filósofos existencialistas, não eram fatalistas em relação ao futuro da humanidade. Eles acreditavam em uma contrapartida à rígida disciplina da tríade "educação-trabalho-família" apresentada em um ideal de vida simples e aventureiro, inspirado no misticismo oriental, no naturalismo e no padrão de vida das classes menos favorecidas do ocidente. Esses músicos foram fundamentais para difundir as idéias da contra-cultura de Paris para o mundo, mas tinham um padrão estético e artístico ainda demasiadamente elitista, isto é, eles eram membros da classe alta, que, apsear de críticos de sua cultura, dirigiam essas críticas para outros integrantes de classe alta.

A cultura popular que estava emergindo desde a década de cinqüenta, e que adotou os ideias de vida estabelecidos pelos beatniks foi a música do rock'n'roll, originado pela fusão dos ritmos negros e da música popular country. Antonio Bivar argumenta que isso aconteceu devido a uma mudança das relaçoes políticas internacionais, com a Inglaterra e os Estados Unidos tomando da França a vanguarda da cultura ocidental. COntudo, de acordo com alguns historiadores econômicos que eu já li, o fator mais importante para explicar essa transição cultural nos anos sessenta é o "efeito renda" sobre as famílias provocado pela expansão econômica do pós-guerra, chamada de "era dourada do capitalismo". Graças a esse efeito, a partir dessa época os jovens passaram a dispor de renda para seu consumo pessoal, e não mais apenas para contribuir com a subsistência familiar, expandindo o mercado para o bens de consumo que atendem suas preferências. E ainda, a classe média se expandiu muito nesse período, tornando-se a classe predominante na América do Norte e na Europa Ocidental, e suas preferências de consumo acabaram se tornando os padrões das suas sociedades. Assim, da incorporação do idealismo beatnik pelo rock'n'roll nasceu o movimento hippie, que é considerado pelo autor como o primeiro movimento contra-cultural genuinamente popular.

O movimento hippie teve seu apogeu na década de 60, mas a partir da década de 70 perdeu força. Segundo Bivar, parte da crise dos hippies na década de 70 se deu por causa da reação da sociedade conservadora, sobretudo agravada pelos próprios excessos cometidos por alguns jovens hippies. Além disso, a música característica desse movimento, o rock, evoluiu de uma forma negativa - para o autor - no início dessa década. As riquezas acumuladas pelos principais músicos da década de 60 tivaram um grande impacto nos seus egos. Assim, aAs melodias simples do rock`n`roll foram dando lugar para experimentalismos complexos, pela eclosão do rock progressivo, e ao culto à forma e à estética, pelo surgimento do chamado glam rock. Desse modo, o rock perdeu seu lado popular e adotou um espírito parnasiano de "arte pela arte", o que desagradou muitos dos antigos fãs. Segundo Bivar (pg. 28),

Pode ter sido engraçado para o rockeiro, durante algum tempo - e na falta de outra novidade - acompanhar pela imprensa a escalada social daqueles que até há pouco eram pobres como eles e faziam parte da mesma irmandade - e que diziam batalhar pelos mesmos ideais. Mas agora... milionários e com comportamento de playboys, enquanto que estes (os rockeiros pobres, em sua maioria) continuavam morando em quartos infectos e sem perspectivas - e quanto deles na fila de desemprego! Era o fim da picada, mesmo. Abandonados, traídos e, pior de tudo, fora de moda. Sim, porque quando se está na moda, mesmo que essa moda seja a pobreza, e mesmo a pessoa sendo contra modismos, existe qualquer coisa nesse estar na crista da onda que é, no mínimo, divertido estar lá. Mas quando tudo isso acaba e os mais epsertos saem ganhando (e a moda seguinte é o "retorno à elegância"), pra quem fica de fora e recebe o bye-bye dos vencedores, é tristíssimo.


(CONTINUA)

Um comentário:

Preciousena disse...

Amazing.